quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
OBJECTO
Observo os objectos como corpos reais no tempo.
Contam-nos a nossa historia em cima do aparador.
E gasto uma hora apertando o pulso nessa corrente.
Basta-me ciciar o que oiço atrás do espelho.
No oval do rosto sinto a boca amuada a desfazer-se,
gasta de trazer-me à vida todas as manhãs.
Ouves-me do outro lado ainda que vivo?
Acontece-me ainda procurar-te entre os búzios.
Pacé. 31.06.08
Lídia Martinez
terça-feira, 23 de novembro de 2010
e volto e re.volto ao
fragmento.momento.instante.fragmento. ao lugar quase anacrónico entre a
rigidez e a plácida harmonia da paixão da palavra. apaixonadamente
íntegra nua e impredadora. marco de enigmas e instâncias de sucessivos
véus que aforicamente desconstruo. para melhor te ser o sal e a teia. pura e paradoxal cintilação deste ir mais além no lugar dos anjos e dos
animais. reino oscilante entre o
aludido e o dito indirecto secreto . assim como a presença-ausência. e
volto. para ser fortuita e
progressivamente asa. fragmento e mistério. a nossa casa. tecido de
todos os afectos. tijolos de
Creta.
___________________
no Piano.
onde escrever é apenas o fragmento.
Isabel Mendes Ferreira
A Crise - José Antunes Ribeiro
Para o Dr.Medina Carreira
Cartas de um filho a um pai e de um pai a um filho sobre a CRISE que aí está!
Querido pai,
Como já deves ter notado a CRISE está por aí há já muito tempo e vai continuar ainda nos próximos anos. Os economistas (e o Dr. Medina Carreira) não sabem quando vai terminar.
Graças a ti e à mãe pude estudar Economia numa boa Universidade e jamais esquecerei tudo o que fizeram por mim. Sou hoje um bom aluno graças aos vossos sacrifícios de todos os dias.
Escrevo-te hoje para te dizer que a Crise aí está e que deves falar com a mãe para que se possam defender melhor nos dias ou anos que se aproximam. Acho que se estivesse no vosso lugar pensaria muito bem os investimentos na vossa loja, não é altura para grandes aventuras, o melhor é esperar para ver. Este é um bom momento para repensar tudo! O Dr. Medina Carreira até concorda comigo e eu aliás sempre segui o conselho dele: "Meninos, juizinho e quietinhos!".
Mas hoje estou muito preocupado convosco. Pensem bem no que lhes digo! Fale com a mãe e preparem-se para reduzir a vossa actividade!
Beijo do vosso,
Felisberto
Querido filho,
Cá recebemos a tua cartinha que muito agradecemos. Ainda bem que te mandámos estudar Economia!
Já falei com a tua mãe e pedi-lhe para reduzir pelo menos 50% no nº. de refeições, nas sandes, copos de tinto, cafés, cálices de aguardente e tudo o mais...
Graças a ti, querido filho, pudemos concluir que a CRISE está aí! Também às vezes vejo e revejo o Dr.Medina Carreira e sei que há amigos meus mais novos que quando as crianças se portam mal dizem sempre olha que se não te portares bem vem aí o Dr.Medina Carreira e diz: "Meninos, juizinho e quietinhos"! E parece que dá um grande resultado!
Podes, pois, ficar descansado. Cá por casa vamos seguir à risca o teu conselho porque se te mandámos estudar Economia com tantos sacrifícios é para agora podermos benificiar da tua preciosa ajuda.
Um grande beijo do pai e da tua mãe,
Teodósio Fortunato
Querido pai,
Ainda bem que ouviram os meus conselhos e os do Dr.Medina Carreira, homem sábio e avisado, que temos a felicidade de ouvir e cuja receita vai resolver todos os problemas na Educação: "Meninos, juizinho e quietinhos". Agora só fico à espera das receitas para o resto da Crise. Porque elas não faltam em todos os sectores, em todas as coisas e em tudo quanto é país neste Planeta! Agora já só podemos mudar de Planeta!...
Mas a minha cartinha de hoje é ainda para sublinhar uma vez mais a CRISE que aí está! Ela continua cada vez pior e veio para ficar. Acho que a Toyota também está em crise!
Fale com a mãe e diga-me algo que me deixe mais descansado.
Um beijo deste filho agradecido pelos sacrifícios que fizeram para que eu possa tirar o meu curso de Economia,
Felisberto
Querido filho,
Estive ainda agora a conversar com a tua mãe e quero que fiques descansado connosco. Continuámos a cortar na oferta aqui no nosso estabelecimento e tens mesmo razão: vendemos cada vez menos e quero agradecer-te a ti (e ao Dr.Medina Carreira) porque agora sabemos que a CRISE está mesmo aí! Ainda bem que te mandámos estudar e ainda bem que temos televisão. Eu e a tua mãe damos graças a Deus por te termos enviado para a cidade para o curso de Economia. O nosso orgulho é enorme. Só para nos dizeres que a Crise está aí já valeu a pena teres estudado!
Não te preocupes connosco. Estás no bom caminho. Qualquer dia a TV precisa de ti para substituir o Dr. Medina Carreira e talvez consigas fugir da Crise.
Um beijo dos pais que te adoram,
Teodósio Fortunato
Querido pai,
Aproxima-se o Natal e o Fim do Ano e eu bem gostaria de vos trazer boas notícias.
Infelizmente não se vislumbram melhorias. Estou cada vez mais preocupado convosco!
Vou aí passar o Natal e o Ano Novo e teremos oportunidade de conversar a sério sobre tudo isto.
Beijos para o pai e para a mãe,
Felisberto
Querido filho,
Tinhas toda a razão. Tu e o Dr.Medina Carreira fizeram bem em ter estudado tanto para nos alertarem para os problemas económicos!
Quanto a nós vamos a Fátima agradecer a Nossa Senhora por nos ter dado um filho que acertou em cheio na crise. Ela aí está em todo o seu esplendor: JÁ NÃO VENDEMOS NADA! Ainda bem que te mandámos estudar. Ainda bem que temos olhos para ver o Dr.Medina Carreira. Tu és o nosso orgulho! Esperamos-te no Natal já com o estabelecimento fechado. Crise maior não pode haver!
Beijos deste pai e da tua mãe,
Teodósio Fortunato
(J.A.R.)
DAQUI
Cartas de um filho a um pai e de um pai a um filho sobre a CRISE que aí está!
Querido pai,
Como já deves ter notado a CRISE está por aí há já muito tempo e vai continuar ainda nos próximos anos. Os economistas (e o Dr. Medina Carreira) não sabem quando vai terminar.
Graças a ti e à mãe pude estudar Economia numa boa Universidade e jamais esquecerei tudo o que fizeram por mim. Sou hoje um bom aluno graças aos vossos sacrifícios de todos os dias.
Escrevo-te hoje para te dizer que a Crise aí está e que deves falar com a mãe para que se possam defender melhor nos dias ou anos que se aproximam. Acho que se estivesse no vosso lugar pensaria muito bem os investimentos na vossa loja, não é altura para grandes aventuras, o melhor é esperar para ver. Este é um bom momento para repensar tudo! O Dr. Medina Carreira até concorda comigo e eu aliás sempre segui o conselho dele: "Meninos, juizinho e quietinhos!".
Mas hoje estou muito preocupado convosco. Pensem bem no que lhes digo! Fale com a mãe e preparem-se para reduzir a vossa actividade!
Beijo do vosso,
Felisberto
Querido filho,
Cá recebemos a tua cartinha que muito agradecemos. Ainda bem que te mandámos estudar Economia!
Já falei com a tua mãe e pedi-lhe para reduzir pelo menos 50% no nº. de refeições, nas sandes, copos de tinto, cafés, cálices de aguardente e tudo o mais...
Graças a ti, querido filho, pudemos concluir que a CRISE está aí! Também às vezes vejo e revejo o Dr.Medina Carreira e sei que há amigos meus mais novos que quando as crianças se portam mal dizem sempre olha que se não te portares bem vem aí o Dr.Medina Carreira e diz: "Meninos, juizinho e quietinhos"! E parece que dá um grande resultado!
Podes, pois, ficar descansado. Cá por casa vamos seguir à risca o teu conselho porque se te mandámos estudar Economia com tantos sacrifícios é para agora podermos benificiar da tua preciosa ajuda.
Um grande beijo do pai e da tua mãe,
Teodósio Fortunato
Querido pai,
Ainda bem que ouviram os meus conselhos e os do Dr.Medina Carreira, homem sábio e avisado, que temos a felicidade de ouvir e cuja receita vai resolver todos os problemas na Educação: "Meninos, juizinho e quietinhos". Agora só fico à espera das receitas para o resto da Crise. Porque elas não faltam em todos os sectores, em todas as coisas e em tudo quanto é país neste Planeta! Agora já só podemos mudar de Planeta!...
Mas a minha cartinha de hoje é ainda para sublinhar uma vez mais a CRISE que aí está! Ela continua cada vez pior e veio para ficar. Acho que a Toyota também está em crise!
Fale com a mãe e diga-me algo que me deixe mais descansado.
Um beijo deste filho agradecido pelos sacrifícios que fizeram para que eu possa tirar o meu curso de Economia,
Felisberto
Querido filho,
Estive ainda agora a conversar com a tua mãe e quero que fiques descansado connosco. Continuámos a cortar na oferta aqui no nosso estabelecimento e tens mesmo razão: vendemos cada vez menos e quero agradecer-te a ti (e ao Dr.Medina Carreira) porque agora sabemos que a CRISE está mesmo aí! Ainda bem que te mandámos estudar e ainda bem que temos televisão. Eu e a tua mãe damos graças a Deus por te termos enviado para a cidade para o curso de Economia. O nosso orgulho é enorme. Só para nos dizeres que a Crise está aí já valeu a pena teres estudado!
Não te preocupes connosco. Estás no bom caminho. Qualquer dia a TV precisa de ti para substituir o Dr. Medina Carreira e talvez consigas fugir da Crise.
Um beijo dos pais que te adoram,
Teodósio Fortunato
Querido pai,
Aproxima-se o Natal e o Fim do Ano e eu bem gostaria de vos trazer boas notícias.
Infelizmente não se vislumbram melhorias. Estou cada vez mais preocupado convosco!
Vou aí passar o Natal e o Ano Novo e teremos oportunidade de conversar a sério sobre tudo isto.
Beijos para o pai e para a mãe,
Felisberto
Querido filho,
Tinhas toda a razão. Tu e o Dr.Medina Carreira fizeram bem em ter estudado tanto para nos alertarem para os problemas económicos!
Quanto a nós vamos a Fátima agradecer a Nossa Senhora por nos ter dado um filho que acertou em cheio na crise. Ela aí está em todo o seu esplendor: JÁ NÃO VENDEMOS NADA! Ainda bem que te mandámos estudar. Ainda bem que temos olhos para ver o Dr.Medina Carreira. Tu és o nosso orgulho! Esperamos-te no Natal já com o estabelecimento fechado. Crise maior não pode haver!
Beijos deste pai e da tua mãe,
Teodósio Fortunato
(J.A.R.)
DAQUI
AMOR COMBATE - Joaquim Pessoa
Meu amor que eu não sei. Amor que eu canto. Amor que eu digo.
Teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:O nosso amor é sangue. É seiva. E sol. E Primavera.
Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.
O nosso amor é uma arma. E uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.O nosso amor é um pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.Deixa-me soltar estas palavras amarradas
para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.
Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.Joaquim Pessoa, Amor Combate
Meu amor que eu não sei. Amor que eu canto. Amor que eu digo.
Teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.
Teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.
Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:
Quero cantar-te. Como quem diz:
O nosso amor é sangue. É seiva. E sol. E Primavera.
Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.
O nosso amor é uma arma. E uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.
Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.
O nosso amor é uma arma. E uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.
O nosso amor é um pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.
Deixa-me soltar estas palavras amarradas
para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.
Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.
para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.
Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.
Joaquim Pessoa, Amor Combate
in por outras palavras
Eu já fui alegre. Já cantei o povo.
E forjei as armas na forja do tempo.
Mas cantar de amigo é cantar de novo
e eu trago as palavras caladas cá dentro.
Joaquim Pessoa in AMOR COMBATE,
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
sábado, 16 de outubro de 2010
sábado, 2 de outubro de 2010
vai. voa. reaparece vestal e depois adversária da noite e profética do barro. voa visionária e bíblica sobre as páginas d0 indomínio e rente à fala dos que murmuram templária. vai e volta depois. nómada. pura. desencoberta e diáfana. ser ilha é preciso.
IMF in PIANO
IMF in PIANO
Pedra Filosofal
Pedra Filosofal
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
In Movimento Perpétuo, 1956
In Movimento Perpétuo, 1956
Vida
Vida
Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja —
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja —
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta — até essa vida...
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta — até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.
(...)
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.
(...)
Álvaro de Campos - Lisbon Revisited
Adeus
Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou se preferes, a minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;
escurecendo os teus cabelos,
ou se preferes, a minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;
Como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.
Como se a noite viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde o teu corpo principia.
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde o teu corpo principia.
Como se houvesse nuvens sobre nuvens,
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.
Eugénio de Andrade
Até sempre!
Até sempre!
Há palavras que nos beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill
Saudade
Saudades! Sim… talvez… e porque não?…
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!
Esquecer! Para quê?… Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!
Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!
E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!
Florbela Espanca
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