Faz cinco anos comecei a descrever aqui minhas impressões da vida em Brasília. Atraí, com um ou outro elogio e incontáveis reclamações, a simpatia de uns poucos, o ódio de meia dúzia e o desinteresse de um batalhão. Testemunhei cinco governadores (em breve talvez seis), protestos de todo tipo, silêncios ensurdecedores.
A distância, disse adeus a meus pais, e, de perto, quase me despedi de mim mesmo.
Andei a pé, de ônibus, de bicicleta. E de carro, com outros 1.399.999 autômatos, a reclamar do trânsito.
Reclamar, aliás e de tudo, foi a inspiração inicial, mas aos poucos virou uma quixotesca missão. Sim, existe político honesto, cabeça de bacalhau e apaixonado por Brasília. E, como dizia Lao-Tsé, se não pode vencê-los, junte-se a eles.
Não, não vendi minha alma, nem comprei um imóvel – o que, dizem por aí, daria no mesmo.
É só que passei a ver as coisas com outros olhos.
Olhos menores, ainda perdidos e muito mais sábios.
Parece coisa de alerta recebido por e-mail: “Você e seus amigos ou familiares estão num bar ou restaurante, batendo papo e se divertindo…” A diferença é que, em vez de aparecer um sujeito avisando sobre um carro mal estacionado, a jogada começa bem antes, armada por insuspeitos agentes do… Detran-DF. À paisana, eles se misturam aos presentes, vigiando sem chamar atenção. Sim, os olheiros podem estar em qualquer lugar: na mesa ao lado, no balcão, na porta do banheiro. Sua missão: delatar bebuns com planos de dirigir para que outros agentes possam fazer o flagrante nas proximidades.
Mais uma realização do Governo do Distrito Federal, a Torre de TV Digital, nova
Os dados são do Ipea: o Distrito Federal registra ao mesmo tempo a maior renda per capita (R$ 50.438 por ano) e a maior
O que o brasiliense faz toda semana? Reclama da chuva? Reclama da seca? Comenta os preços dos imóveis? Compra um carro novo? Sim, claro, mas disso todo mundo já sabe. A novidade,
O próximo domingo, 11 de março, é o dia mais esperado do ano e talvez de toda a incipiente década em Brasília. Não se fala, desde há muito, de outra coisa. Na capital, o Concurso do Senado, assim com caixa alta mesmo, é considerado melhor que pai-de-santo, telepastor e santo milagreiro: não só traz dinheiro, como cura doença, tira encosto e prende a pessoa amada. Há quem não saia, não durma, não coma e não
Você abre a porta para a senhora, segura por tempo suficiente para que ela entre (lentamente) e, à sua passagem, tudo que se ouve é o silêncio. Cri cri cri. Pessoas mais e mais ensimesmadas, famílias que nutrem como valor fundamental o distanciamento calculado, a ética do meu pirão primeiro. A música repetia, já se vão mais de 15 anos, que Brasília é uma ilha, mas a ilha mesmo é o indivíduo. Depender pouco – ou nada – dos outros. Cuidar de si e de mais ninguém. A convivência como mal necessário a ser controlado. A solidariedade como exercício de fim de semana. O altruísmo como inclinação inescrutável. A fé. Virtude de quem não diz
Crise econômica internacional? Sucessão americana? Reflexos da primavera árabe? Pinheirinho? Copa do Mundo? Carnaval? Nada disso. O que aflige o brasiliense de verdade neste início de ano são os seqüestros-relâmpago. Na terça-feira, segundo a imprensa local, até um policial militar foi vítima do crime – e em pleno Setor Comercial Sul! Ninguém sabe mais o que fazer. Dar novo aumento às polícias mais bem pagas do Brasil? Pedir mais recursos ao governo federal? Fechar as fronteiras com o
Aniversário é dia de soprar a velinha e fazer um pedido. Um amor. Um carro. Uma casa. Um emprego. Uma viagem. Uma
A fila de carros na BR-040 em qualquer fim de semana ensolarado anuncia a chegada ao Parque Nacional de Brasília. Mais conhecido como Água Mineral, o parque é a legítima praia da capital, e não só por permitir a rara união de sol e água. É ao redor e dentro das duas piscinas (Pedreira e Areal ou simplesmente “velha” e “nova”) que se encontra gente de verdade: moças passando todo tipo de óleo no corpo, crianças saltando na água, marmanjos tentando atrair os macacos-prego, namorados, famílias imensas, jovens senhoras. A cerca de 10 km do centro de Brasília, não podia estar mais distante da assepsia e prosperidade do resto da cidade, um quase literal oásis no deserto.
O próprio Governo do Distrito Federal anuncia: o orçamento local para 2012, de R$ 28,5 bilhões, é o maior da história. E, assim, comemora a garantia de “mais recursos para a saúde, a educação, a segurança pública e o transporte para melhorar a vida da população”. Sem desmerecer a sinceridade, quase eufórica, do comunicado, só pode ser falta de assessoria. Ou uma estratégia revolucionária. Governante dizer que o dinheiro vai dar para mais? E aquela história de que os recursos são limitados? E o papo de que não é por falta de vontade que não se faz isso ou aquilo (subentendendo-se que é por falta de dinheiro)? A população da capital, e do Entorno, vai ter de esperar o ano passar para ver o que esse megaorçamento esconde. Esconde, claro, é força de expressão.
O fim de semana começou com mais um capotamento no Eixo Monumental: um motorista tentou desviar de um carro parado no sinal vermelho e acabou de cabeça para baixo. A cena, visualmente impactante, não é exatamente rara na via mais conhecida da capital. Nos últimos anos, entre outros tantos prováveis casos incógnitos, alguns acidentes do gênero até ficaram famosos. Um adolescente pegou o carro do tio sem autorização e acabou botando um incauto parado no sinal para dar uma volta. Uma jovem – que estaria trocando um CD – decolou ao, involuntariamente, usar a traseira de outro veículo como rampa. Outra mulher perdeu a direção e quase invadiu a Câmara dos Deputados com o carro. Rolando.
E ainda dizem que não há ninguém em Brasília neste início de 2012. Pois, além de mim, há pelo menos outras
Um sábado no
É oficial: a