sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO - POETA DA "URBS"

Activismo, Pulsão e Ebriedade

António Pedro Ribeiro (Porto, Maio de 1968) restaurou o antigo hábito dos “rapsodos” e dos “menesteres”, levando a poesia de lugar em lugar. Em suas andanças revelou-se o poeta da catarse que tem o mérito de trazer à superfície o traço do gozo perdido que só pode ser reencontrado no excesso, no gozo suplementar que se faz suporte da fantasia, receptáculo da causa do desejo. A sua escrita - performance - surge-nos imbuída de um pendor activista. Também aqui uma poesia - enquanto veículo terapêutico-existencial - (mega)político – que oscila entre o catártico e o des-construtor. Poderíamos mesmo falar de uma poética metropolitana: da “urbs”. Trata-se, pois, de uma obra “engajada” - das intro(pro)jecções - ancorada na existência livre de limites ou a paixão de uma liberdade impossível - que denuncia o “vazio” do mundo.

Dicção coloquial quotidiana

A dicção coloquial quotidiana é bastante óbvia no caso de António Pedro Ribeiro. Nos antípodas do bucolismo e da tradição lírica-discursiva - da escrita “sublime” ou "transcendental" - assiste-se em "Café Paraíso" (Editorial Bairro dos Livros, Culture Print, Porto, 2011) - o seu último livro - de forma directa, imediata, - ao próprio eclodir de um corpo-próprio seminal (onde se exorciza a configuração amorosa e suas projecções fantasmáticas). Uma vez mais esta poemática - cênica - tende ao transbordamento pulsional - na confirmação (ou refutação) emocional das possibilidades excessivas. Mas em que a denúncia da dominação do império conjunto - formado pelo poder técnico e a razão económica pura - é um ponto de partida metodológico.

Infinito da negação

Donde acaba o crítico e começa o panfletário, o extraviado ou simplesmente o instintual? O planfletarismo é em António Pedro Ribeiro inspiração: acesso ao optimismo revolucionário (frente à democracia “estabelecida”, “instalada” ou “mercantilista”). Pode dizer-se, contudo, que a sua poesia - cívico-ética - remete-nos ao “infinito da negação”. Assente num discurso do desejo (de eros) que caracteriza a poesia de Allen Ginsberg ou de William Blake - torna-se demanda de “novatio” - um re-assumir do "desencanto" do mundo. Na primazia da dialéctica da revolta e da desobediência civil - do “différend” - acentua a dominante da “teoria crítica” (Reich-Marcuse), do "visionarismo" de Agostinho da Silva e, sobretudo, da “gaia ciência” de Nietzsche. Na sua poesia - desde o início - o protagonista são as três estruturas do “impossível”: política, amor e arte. “Riso soberano”: eis aqui a novidade de categoria muito significativa. É importante ressaltar ainda o privilégio da escrita automática - que nos autoriza a falar da pulsão pura - e enquanto veículo de uma “auto-biografia” ou trama “psico-biográfico”:

escrevemos sobre nós próprios
estamos sempre
a escrever sobre nós próprios
nada há a fazer
desenvolvemos este estilo
é claro que também
nos referimos aos outros
à televisão omnipresente
às riquezas
ao cacau
mas estamos sempre
a falar de nós próprios
num monólogo sem fim
é isto a vida
é isto a escrita
e é isto que sobra
de um dia de tédio (p. 77-78)

Id dionisíaco

Nesta obra perpassa – como dissemos antes - a vida escrita - os impasses do escrever. O que entendo aqui por exortação à libertação do "id" dioníaco. Não é difícil notar o seu apego à insânia - pathos da loucura - ou o privilégio do êxtasse e da ebriedade. Porque “Cerveja-matéria prima do poema” (p.34). Seria possível falar da afinidade entre o tipo de poética de António Pedro Ribeiro com a geração “beat”: a psicadelia e a contracultura. De facto, desde o início das suas “démarches”, António Pedro Ribeiro procurou ampliar e fortalecer o activismo político enfatizando a dimensão da ebriedade - contra a razão e a administração da vida – unindo-se a Rimbaud e Nietzsche. Mas é Raoul Vaneigem de “Arte de Viver para a Geração Nova” e o mercado pariense de ideias que oferece ao poeta um modelo: o da lição situacionista (de uma existência liberta do gregarismo e da massificação). Para António Pedro Ribeiro a ebriedade tem também a sua forma e a sua figura:


Bebo cervejas no inferno
Mas quero o paraíso
de volta (p.30)

Excesso e transgressão

Em “Café Paraíso” re-equaciona-se a experiência do sensível - a partir justamente dum apego visionário - que revela e permite ser - ou, se quisermos, dum corpo linguagem (de articulação lógica-prosaica). Deste modo um corpo dionísiaco enquanto corpo pulsional - nos seus sintomas e somatizações – transferência e traço significante, excesso e transgressão. Nesta sua escrita concentra-se e exacerba-se, de maneira exemplar, uma poética catártica, em que, por sinal, a corporeidade, o estofo do ser, como diria Merleau Ponty, está prenhe de significado. Aqui o eterno existe no efémero, mas o contingente anseia e clama pelo absoluto:

procuro a eternidade
do instante
não me adaptei à vida burguesa
às conversas do senso comum
à vulgaridade do intelecto (p84)


Trata-se de uma poesia (composta de palavras-chave no sentido estrito) que enaltece a auto-reflexão: é daí que tempos de partir. Em que há também um estranho exercício crítico em torno da sociedade autoritária “unidimensional”. Por fim, o questionamento dum mundo dominado por critérios de eficiência e sucesso e, por conseguinte, assente na “auto-escravização” do humano.

Iconoclastia e irreverência

O conjunto dos poemas de António Pedro Ribeiro exibem, em seu contexto de significação original, um forte pendor ideológico - enquanto propensão crítica do capitalismo avançado e, por conseguinte, da desmontagem das falsas boas intenções burguesas. Ademais depreciativa e fustigadora do poder e dos seus símbolos - neoburocracias, comissários e aparelhos repressores ideológicos - vícios públicos, virtudes privadas. Insistimos: trata-se de uma escrita psico-emocional - como fragmentos de uma auto-biografia. Poderíamos dizer que neste poemário - nos passos do “politically incorrect” - perpassa a questão da hybris, desmedida do ser, da verdade da poesia como embriaguez e transgressão. Outro exemplo notável de uma poética da iconoclastia e da irreverência ou “pour cause” da “reverie” política ( tipo marxista pós-moderno - na exigência da auto-gestão emancipalista).

Café-Bar Olimpo Porto, 21 de Dezembro de 2011

Alexandre Teixeira Mendes

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

"SCINTILLA ANIMAE"

“Saltus Sublimis”

Teremos de admitir a hipótese de incluir Alma (Psichê) e Amor (Eros) numa única “mot (palavra) valise”. O mito de Psichê narrado no livro O “Asno de Ouro” de Apuleio (125-170 d.c.) - refere-se justamente a uma bela mortal por quem Eros, o deus do amor, se apaixonou. Chegamos, aqui, à questão de Eros em Psichê e Psichê em Eros - o Jogo e a Criação - o “Saltus Sublimis”. Daí decorre a Escrita do “Caos-Cosmo” - ainda uma vez “Psi”-"Emersa" no “Dictamen Obscuro”. A assinatura do Mundo - Eros - o seu “Semi-Dizer” - “apex mentis” ou - no dizer de Mestre Eckart – “scintilla animae”.

Pulsão sexual

Pode-se, portanto, dizer, que Eros - força da vida - tornou-se uma parte de Psichê. Mas onde vemos, por conseguinte, que o aparelho psíquico integrou, pois, Eros - que - no entender de S. Freud - "mantém unido tudo o que existe no mundo”. É, pois, de considerar - na formulação “standart” da psicologia analítica - a função sexual e o seu expoente - a libido – como base do que conhecemos de Eros. Falamos, conforme se pressume, do traço de união somatopsíquico e, portanto, histórico, em que a dinâmica sexual seria inseparável da temporalidade. Tome-se como exemplo – como nos diz André Green – o vórtice Eros - que “desempenha então a função paradoxal de ser, ao mesmo tempo, uma abstração e aquilo que permite que se represente a pulsão sexual encarnada nas figuras em que, simultaneamente, se revela e se dissimula” (Les Chaînes d`Eros – Actualité du sexuel). Constatamos, pois, que a concepção exposta da libido que está sempre activa deriva de Freud. Mais importante ainda foi a concepção bioenergética da mente. Podemos permitir-nos, neste contexto, falar – segunda a expressão aristotélica - da dynamis, “energia potencial” (de deina, “penetrar em”) e da energeia, “energia em acto” (de ergon, “trabalho”). Trata-se também aqui de assinalar, explícita e implícitamente, o núcleo indivisível da psicanálise: Eros e as pulsões de destruição (Thanathos).

Alta tecnologia, "dominium"

Convém, no entanto, ter presente o papel decisivo aqui desempenhado pelo teoria da unidade físico-psico-espiritual do homem - segundo a concepção aristotélica-tomista - que ganhou na ciência psicoterapêutica moderna novo significado. Assim, pois, no quadro da con(di)vergência de pontos de vista quanto à natureza da alma (psichê) e do amor (eros), a noção já expressa da lógica humana demoníaca tem um carácter costumeiro, tradicional. Comecemos do princípio: lembramos que o diabo é, pois, - segundo C. G. Jung - uma variante do arquétipo da sombra, isto é, do aspecto perigoso do reverso não reconhecido da alma humana (Acerca da Psicologia do Insconciente, Lisboa, 1967, p. 116). Vale a pena, porém, reter que a revolução industrial destruiu progressivamente a ideia de universo sagrado. Ainda aqui a religião tornou-se assunto entre o homem e Deus (de maneira a pôr em evidência o aspecto ético-legal). Mas é igualmente justo assinalar que a ciência tomou o cosmos para si - e neste caso metamorfoseou-se em advento da alta tecnologia ("marca" - segundo Heidegger - do destino ocidental) enquanto ponto culminante da dominação (precisamente a "catástrofe"). Essa racionalidade que se exprime na liquidação de homem e da terra pela grande indústria e potência militar, caracteriza, pois, toda a sociedade moderna baseada na mobilização (traduziu-se, por exemplo, numa sucessão - como assinalou Henri Laborit - de servomecanismos hierarquizados). Exprime-se, como já tivemos ocasião de ver, na expansão (planetização) industrial - surgimento de megalópoles - e na defesa da permanente inovação - a diferenciação - enquanto herança e dogma da modernidade. Partiu-se - notar-se-á - do pressuposto que toda a comunicação deveria ser explícita e pública - na própria sujeição da palavra enquanto persuassão pública - em lugar de ser expressão privada - relação com o “dominium” - a política.

Gnosis

Podemos fixar a nossa atenção, por um momento, no processo descrito como exploração da alma (psichê) que se tornou - explicitamente - no contexto do ensinamento gnóstico - uma demanda espiritual-religiosa. Analisa-se ou concebe-se o nomear adâmico - remetendo ao saber esotérico - o corpo e a voz associada à terra - as palavras não-escritas. Considerando, portanto, a prossecução do "auto-conhecimento" (enquanto chave -directa ou indirecta - da compreensão das verdades universais - da palavra perdida - e que permanece representada pela "intuição"). Mas (seja qual for o nosso caminho) a via solitária e interior da "gnosis" envolve - aparentemente - o reconhecimento das "forças alucinatórias" do conjunto da fé que implica o "divino" - a demonologia das origens , "satã".

Religião da natureza e da salvação

Trata-se, portanto, de analisar aqui o que há de típico no significado da adoração ou o ateísmo da revolta (num tempo em que a religião - à sua maneira - se metamorfoseou progressivamente em "ética"). A todo o instante perguntamo-nos se é equívoco referir o duplo paralelismo entre a religião e o erotismo, inclusive - como tenta mostrar Walter Schubart - o da continuidade entre o eros procriador e o êxtasse criador, e da dialéctica do eros redentor e da religião da salvação . Podemos analisar aqui o que há de tensional - círculo vicioso - na religião da natureza (centrada no parto e na maternidade através da devoção- criação) com a religião da salvação (incorporando a criatura separada do seio materno e, no caso, remetendo-nos à nostalgia da origem).

Lirismo cortês e catarismo

Constamos, pois, que a Provença foi o ponto de partida de um movimento erótico que inspirou a poesia dos trovadores e a espiritualidade franciscana. Nesta vaga erótica, o culto de Maria desempenhou um papel muito importante - porquanto - como indicou Walter Schubart - a ideia matriarcal cede passagem a um culto romanesco da mulher que não se enraíza mais na experiência do êxtasse criador. Antes de explorarmos, porém, as implicações do "trobar clus" - com a poética hispano-arábe ou hispano-judaica, devemos examinar ainda que rapidamente, alguns dos argumentos que foram usados, ou poderiam ser, para justificar a tese cátara. Graças, em grande parte, à obra hermenêutica (desocultadora) de Eugéne Aroux, Sâr Péladan, Sampaio Bruno, Teixeira Rego ou Otto Rahn, essa teorias começaram a ser compreendidas, pela primeira vez, durante a II Guerra Mundial. Seus proponentes não hesitaram em fazer notar que o lirismo cortês foi inspirado pela atmosfera religiosa do catarismo. Dennis de Rougemont em “L`Amour et L` Occident” (1939) referiu-se ao profundo vínculo entre cátaros e trovadores (onde se faz ressaltar a lógica conjunta do erotismo provençal - se se considera o amor galante - as forças e os valores femininos). Subjacente à nova poética trovadoresca - nascida na França do Midi - pátria cátara - assente na celebração da cortesia e no culto do amor (contra o casamento) - os Fiéis de Amor - surge-nos - com efeito - uma nova categorização da mulher inseparável do grande modelo ocidental da linguagem do "amor-paixão". Assim, passou-se progressivamente desse impulso fundamental em torno de "a puela"- a jovem solteira (adolescente) - para "domina" (senhora). O provençalismo que nos é apresentado poderia ser definido como a primeira corrente literária galego-portuguesa - que utilizou - seguindo as pegadas da língua d' oc - todos os recursos técnicos disponíveis. Parece, com efeito, que a cultura trovadoresca - a "gaya sciência" - na consagração de uma escola do livre pensar nas cortes provençais - segundo Luís Espírito Santo - está indissoluvelmente ligada à crença na força libertadora do erotismo. Na (con) celebração da paixão extra-conjugal - adulterina - onde se colocava o assento - não sem consequências - na incompatibilidade entre o amor e o matrimónio - vislumbra-se a doutrina cátara (apoiada principalmente na referência dual ao mundo invisível - divino - e visível - diabólico). Parte-se portanto do Amor (Roma às avessas), anti-Roma. Algum significado pode também ser atribuído à ligação de D. Diniz - rei e poeta frequentemente obsidiado por imagens eróticas - aos templários: o culto do "Evangelho Eterno" e do Espírito Santo.

Psicodélia

A experiência psicodélica - habitualmente caracterizada pela percepção de aspectos da mente anteriormente desconhecidos, inusitados ou pela exuberância criativa livre de obstáculos - exerceu papel saliente no quadro das tradições arcaicas. Parece haver indícios veementes de que a êxtasse e a ebriedade tinham suas formas e suas figuras. É aqui que entra em jogo a via amorosa ou erótica, a via dos mistérios, a via profética e a via poética (já em grande parte focalizados por Platão). A verdade enquanto visão ou escuta, por si só, bastaria para aludir ao “voo da alma”. Provavelmente o exemplo mais claro - tradicionalmente minimizado - se encontra nos Mistérios de Elêusis (que se baseavam em ritos religiosos dedicados à Deméter e sua filha Perséfone). Imperadores, artistas, filósofos, poetas - conquanto todo o tipo de gente - passaram pelo seu "telesterion" (grande salão construído para rituais de iniciação). Para a compreensão da natureza real dessas cerimónias torna-se necessário considerar certas doutrinas, que sob a forma de mito, o teatro sagrado e a poesia, integravam um viático específico de modificação da consciência (na prioridade dada às substâncias visionárias). Poder-se-ia aludir à renovação da vida, a integração da vida e da morte no próprio projecto divino, a abertura ao espírito e a finitude.

"Ubíquo vento", ruach

O papel primordial, na mística judaica, da vida sensível - a criação (poiesis) comum à divindade e ao homem - o fulcro simultâneo do humano com o mais-do-que-humano - revela-se claramente ainda maior, se se considera a importância da hipóstase feminil de Deus (schekkiná). Poderemos distinguir de modo preliminar, no modelo cabalístico, a criação, revelação e providência, ou - como propõe Moshe Idel - os vasos que medeiam a presença do divino nos domínios do extradivino. No "Zohar - O Livro do Esplendor" - chama-se a atenção - com toda a evidência - para o facto de a união entre os humanos e Deus ser melhor efectuada por meio da "respiração". Aceita-se, pois, que "o sopro de Deus" impregna toda a natureza. Pode-se mesmo dizer que é o "ubíquo vento" ou o "espírito" - "ruach" - que dá vida ao mundo sensível. De notar que a cabala - como anota Maurice Ruben Hayoun - pretende ser simultâneamente uma física (poética) e uma metafísica: esta visão do universo concebe seres vivos como membros do cosmos.

Yin/Yan - Animus/Anima

A doutrina clássica chinesa parte do reconhecimento - e isto é notável - tendo em conta as chamadas neuro-ciências actualmente em voga - de que somos máquinas eléctricas e vivemos num vasto campo eléctrico e electromagnético. Podemos hoje acrescentar a nossa estrutura genética, nomeadamente a neural, que determina o essencial do que somos. A questão que propomos considerar aponta todavia para um ponto essencial - donde parte a acupunctura chinesa - é a de que há, pois, necessariamente correspondência exacta entre os ritmos biológicos e os ritmos cósmicos - principalmente, os do sol e os da lua. A própria ordem do mundo - tao - assenta - nesta casuística - no equilíbrio entre o elemento frio, sombrio e feminino - o yin - corrente ascendente - e o elemento quente, solar e masculino - o yang - corrente descendente. Chegando aqui, pode-se, na verdade, afirmar que animus e anima - como assinalou C.G. Jung - correspondem ao arquétipo masculino e feminino (sendo que S. Freud invocará, por sua vez, o "pólo paterno" e o "pólo materno", onde se associam os complexos de Édipo e de Electra). De facto é hoje lugar comum falar-se do "hemisfério esquerdo" do cérebro (pensamento conceptual, verbal, sequencial, temporal, digital, algorítmico, lógico, racional, metódico, sistemático) e do "hemisfério direito" (pensamento estético, não verbal, simultâneo, espacial, analógico, heurístico, sintético, intuitivo, emotivo, improvisado, variável). Poderemos distinguir - em última análise - as dicotonomias razão-emoção, analítico-sintético, ciência-arte, mente-coração, vontade-sensibilidade, sol-lua, logos-pneuma.

"Augoeides"

É a Herman von Helmholtz – médico e físico alemão - que remonta a tese de que as únicas forças agindo nos organismos eram de natureza física-química, e que o homem não era de facto mais do que uma máquina. Para nos convencermos como semelhante concepcção é falsa, basta atentar para a chamada teoria electrodinâmica da vida avançada por Harold Saxton Burr e F.S.C. Northrop em 1935. Importa, porém, estabelecer, a este respeito, a sua correspondência exacta - similaridade - com os antigos textos relativos ao corpo vital ou etéreo e à aura humana. Somos conduzidos, assim, à noção de corpo bioplásmico ou corpo vital descrito pelos Vedas da Índia antiga, e o corpo sideral que figura nos escritos de Paracelso. Outro critério pode servir-nos para caracterizar a aura de luz - “augoeides” - conforme a expressão de Porfírio - assim, por exemplo, o “daimon” para os gregos e o “atman” para os hindus - ou ainda, nas suas variações e gradações, a teoria vitalista moderna. Os próprios conceitos da nova física - nomeadamente a mecânica quântica - revelam-nos então novos dados que parecem ter correlação directa com os ensinamentos dos místicos quanto à natureza da vida e do universo.

Animal Humano

Em “The Murder of Christ” (1953) Wilhelm Reich referiu-se aos múltiplos impactes da “peste emocional” - na época actual - que é formada e mantida sobre o medo das sensações orgânicas. Parte do problema torna-se, assim, o da estrutura mecanizada e couraçada do homem em íntima ligação com a tragédia do “animal humano”. O corpo é comprimido - incapaz, desde o início, de superar os bloqueios da energia vital - primeira e universal - divina - a energia orgone. É , todavia, a estrutura do aparelho psíquico blindado, que origina a inabilidade para governar a sua vida. Deste modo se torna fulcral desenvolver, uma vez mais, a autodeterminação humana (partindo da complementaridade entre a vida bioenergética e a vida social). Referimo-nos já à necessidade de uma verdadeira "metanoia" ou conversão. Pois, como já ressaltamos, o mal é uma criação do homem. Neste assunto trata-se especialmente de desvendar (ex (im) plícita mente) o mal-estar do "individuum". É precisamente a observação, sob diversos pontos de vista, da irrupção da insanidade em massa - do medo (de si próprio) na idade da propaganda - que conduz à escravidão. E, contudo, ainda se nos revela algo mais: uma psicologia de massa do fascismo que (re)produz os zé-ninguém - os paroxismos do ódio incompreensível - a violência e o terror - e principalmente o ódio ao Vivo.

Absolutização do signo

Poder-se-ia aceitar primeiro e em maior grau a noção revelatória da poesia. Pela sua natureza é ao mesmo tempo absolutização do signo e o esplendor do significado. Bastará falar dela aqui enquanto totalização da predicação. Será útil que nos detenhamos num ponto: a vida escrita (para invocar os impasses da letra e, por assim dizer, as projecções do insconsciente). Ou de outro modo: a poesia como particular reflexão da linguagem sobre si mesma (enquanto contra-discurso, an- arquía, sacralidade, opacidade ?).

Epifania da visibilidade

Sublinhe-se que quando falámos da tessitura simbólica do mundo nos referimos, em princípio, à sua pluralidade fenoménica. Torna-se necessário ligar o pensamento nocional (ou "noético") - a ratio - da sua nascente viva que é o pensamento real (ou pneumático) - o "intellectus". Dir-se-á, por conseguinte, que toda a manifestação - todo o sistema na sua complexidade - comporta - sabemo-lo - um triplo aspecto: macrofísico, biológico e quântico (microfísico e psíquico). Levanta-se então o problema da univocidade lógica que não se põe ao poeta: já o dissemos. Vamos, por um momento, admitir que a sua voz torna-se oblíqua, isto é, assumpção "ex-cêntrica". "O seu modo - retomando a tese de Geofrey Hartman - é o infinito. Cada estrofe sugere uma etapa que nunca se atinge - a da epifania da visibilidade".

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

SYMMETRIA DO IMERSO - VIGIAS DO ABISMO -

- O OLHO SUBLUNAR -

sob o rebordo - do telescópio - o ecrã indefinido - amálgama de luz - estrita - symmetria - do imerso - céu renhido da astronomia - o olho sublunar - reflexo nas lentes - entre estrelas - a inarticulada voz - do opaco - vigias do abismo -

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

MORTE QUE PUDESSE - ESQUECER -

como a lâmpada - do exasperado - morte que pudesse - esquecer - para obviar a dor - irremediável do incerto - a memória do fulgor ? -

sábado, 26 de novembro de 2011

O PALCO - A FALA - SIGNO - ESPÓLIO DA CEGUEIRA -

- VÓRTICE - DO DESNECESSÁRIO -

através da obscura minúcia - o palco - que resplandece - impetuoso - brilho dos projectores -vórtice - do desnecessário -

boca de cena - vicissitude do actor que irrompe - in - voluntário - na iminência do crime - fundura e vazio - da arte -

- LUCIDEZ - DOS PLANOS SUCESSIVOS -

atrás dos holofotes - o estertor da luz - os andaimes - lucidez - dos planos sucessivos - a inabarcável língua - do anónimo -

- PROFUSSÃO DO INVULNERÁVEL

sobre o bosque - olvidado - a fala - signo - espólio - da cegueira - incongruência - do inerme - destruição - voz - anúncio -

êxtasse do corpo - profussão do invulnerável - o incógnito animal - fugaz - que ilumina - o verbo incessante -

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O CORPO INALTERÁVEL - FULGURATIO -

- OS SARGAÇOS E OS BRÔNQUIOS -

ante o rigor dos mapas - obtusos - o corpo inalterável - fulguratio - surto do mercúrio e da febre -


solene e clandestina - penumbra - do excesso - inflexível lâmina - tácita maturação da luz -



ilhas da insânia - sargaços e brônquios - mar de cinza e lava astral - pedra do in - cógnito -

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

FEÉRICA BIOGRAFIA - BENZODIAPEZINA -

o que se esvai - dúplice - no tumulto - signo do inabitável - feérica biografia - benzodiazepina - como outrora - inapropriada mente - do incólume -


para lá do cerrado álbum - do esquivo - o inevidente - psycho - pharmakon - tácito - monólogo - vórtice - dos sais de lítio -


como discorrer sobre o intermitente - alarde tóxico - umbral - caixa-craniana - nômade - que ignoro - imperativo - circunspecto ? -


nesses mapas do anônimo - intus legere - a nuca - aluvião - bêsta-fera - do inominado - o indómito - barbitúrico - do austero -


vícios brancos - crânio - ao revés - imagens do volátil - distensio animi - serotonina - desconcerto - vôo inverossímil -

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

OS CORVOS - INADVERTIDA VOZ - DO VATICINIUM -

por sobre as nuvens do exasperado - os mapas da mente - irremediável - os fósseis de lava - sal do inominado -


ver-me junto dos recifes - sob a espuma do inábil - algas - caranguejos - lâmina de esperar-te - meu horóscopo alucinado -


as fotos dos icebergs - perspicácia do branco - mar revolto - corvos - inadvertida voz - do vaticinium -


o sótão - dos arrumos - baús - estantes - pó - inatingível - luz - imperativa - que se dissipa - na pedra humedecida -

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O APAZIGUAR DA CEGUEIRA -

- DA LUZ - IMPONDERÁVEL -

sobre os mapas - do indescritível - o inapercebido gesto - da pintura - o apaziguar da cegueira - inapreensível - receptáculo - da luz - imponderável -


entre a bôca - as nuvens - garças - vôo indelével - a limpidez - do azul - do céu - o mar e o cais de pedra - caixilhos e telas - pela areia iluminada -


nessa cegueira dos astrolábios - as baleias em delírio - a voragem do incerto - ilha - luz primeira - sortilégio - das barbatanas - devolutas - a pedra do imerso -

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

CÉU E SARGAÇO - MAPAS-MUNDÍ -

HOLOFOTE SUBMERGIDO -

Sobre o holofote submergido - os livros - de max jacob - a inadvertida voz - do extemporâneo - o que soçobra - na palavra do audível - quando escrevo - céu e sargaço - mapas-mundí - nuvens -

PEDRA DO EXÍMUO

Pelas estantes - os manuscritos - que retive - nesse haikai - incomparável - a voz de dafne - o inaudito - luz húmida - dos canaviais - a pedra - do exímuo -

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

OS PASSOS - NO MAR - DO ESCASSO -

A LAVA E A ILHA FUGAZ -

Entre a constância dos mapas - a lava e a ilha fugaz - as nuvens do interminável -

A torre - repercutida voz - saliva - inominada - os passos - no mar - do escasso -

ALVÉOLOS

Sob a imagem - invertebrada - os alvéolos - o granito loquaz - signo indecifrado -

terça-feira, 25 de outubro de 2011

FARSA - A SÚPLICA - DO INTRADUZÍVEL -

fiel ao sonânbulo escarcéu da turba na calçada - inegualada - assistes impassível à farsa - dos mass media - crueldade ou indiferença - corriqueiros cenáculos - de títeres e de bufos - maîtres - de má memória -

quero apressar o epílogo - expiar - a crueza e o nada - da mente - esquiva - assinalar - a pródiga blasfêmia - caminhar às cegas - e esquecer - o que se desmorona - a evasão e o erro - a torpe - palavra gasta -

relegados ao ghetto - cedemos à tentação da palavra ineficaz - ubíqua - o olvido - a implacável fraude repetida - sonegando - a política rasteira - falta de decência - urdidura - dos truques - bancários - o puro nullius - que nunca cessa ? -

por detrás dos cortejos do desalento - da mentira - os acordos tácitos grassam - o cinismo e a mesquinhez - como fugir à vassalagem - a dissimulação do poder - a conivência dos séculos com a farsa ? -

resta-nos a carência - o desatino - num turbilhão - alucinado - a bandeira rubra - inexorável - doutras certezas - o zelo - acrata - a súplica - do intraduzível ?

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

exemplum exorbitante

O novo livro de de Xosé Mª Vila Ribadomar “Fotogramática” (Incomunidade, Galiza, 2011) reveste par excellence um indiscutível pendor “intensivo”. Uma entonteante densidade, pelas figuras de estilo, ou tropos, mas sobretudo pela pregnância de uma lógica panorâmica - inusitada - anómala - (in)definível. O impacto desta poesia parece estar na sua marca híbrida, mescla peculiar de transgressão - como um regime compulsivo - de rigorismo - mestria - irremediável. Na sua re-configuração - intentio - deriva apocalíptica - agudeza y arte del ingenio - maneirismo - podemos inferir, pelo menos, a presença de uma escrita densa que (re)captura, grosso modo, a língua - em sua vizinhança imediata com o paradoxo e o absurdo - que, como diz J-C Milner, é o impossível.

Semi-dizer

Xosé Mª Vila Ribadomar retoma, de forma esparsa, a arte e a literatura universal (em chave cripto-gráfica). Na interpelação da língua-discurso - um universo complexo ao mesmo tempo cêntrico, acêntrico e policêntrico - a sua escrita manifesta uma obscuridade aparente. Vale dizer: um “semi-dizer”. No recurso a uma espécie de tessitura interminável de referências entrelaçadas - cultura e environment - constituiu-se como exemplum de uma escrita exorbitante que é, assim, excursus. Vamos insistir em dois aspectos: 1) a de uma arte das combinações verbais e 2) da (a)gramaticidade que - segundo M. Riffatere - não se refere a uma falta gramatical (tal como sugeria uma interpretação desde a gramática generativa), mas a que o texto forma a sua própria gramática em sentido amplo.

explícita melancolia

Teremos, portanto, de nos limitar a considerar, no poema - des-velamento/re-velação - , as redes de equivalências, onde entram em relação elementos fónicos, gramaticais e semânticos? Sabendo ao mesmo tempo que a organização poemática é elaborada longe do modelo da linguagem comum? Podemos verificar que na demarcação da prosódia pré-estabelecida - da academia com o seu bureau e o seu management literários - aqui se mesclam, em bloco, um implacável registro textual (que se delineia num claro-escuro sintomático) e, por sinal, (um)a explícita melancolia.

sobrecodificação, gnosia

Convém fazer referência - em sentido lato e algo impróprio - a um conjunto de textos (como uma valência eclética, codificação múltipla ou até sobre-codificação) que nos remetem a uma épica da catástrofe - gnosia - um tipo de discurso assente na exasperação, pressentimento e catástrofe - e, portanto, uma escrita especular. Parece-nos difícil, senão impossível, definir esta poética que avança por caminhos pouco trilhados: poesia insana à primeira vista - das sintomatologias neurótico-depressivas - compressiva ou dissociadora - fílmico-pictórica - veículo da cura, pharmakhon.

Visionário, foto (ceno)gráfico

Como compreender esta poética negativa - onde se revela o sentido fora do sentido - que pode ser definida como desviante - assente numa incessante experimentação - (des)possessão? O que salta à vista é, acima de tudo, o seu lirismo - o fluxo de um idioma sumptuoso - selectivo - (in)abarcável - que nos aproxima da escuta poética da natureza. É justamente uma escrita ancorada numa paleta fisiológica - orgânica - um imaginário em discurso - visionário - dos fotogramas - (ceno)gráfico - no vínculo a uma “textura” perceptiva de pendor sexual-cósmico, irredutível: “abo côa miña língua umbilical un regueiro de pólvora húmida ata tua vulva ómega” (p. 7).


(tran)sensorial e epidémica

Por agora, limitemo-nos ao mais básico: a de uma escrita obscurecida por inegáveis sombras, mas também, iluminada por luzes do alogon , que é impossível ocultar atrás do alter, do alienus, do allos, do outro absoluto e do insensato. Ela se produz como clausura da representação - ante a evidência de que tudo que nela se encena pertence igualmente à contingente ordem do fantasma. Poderia dizer-se que esta poesia - da acedia - auto-atravessia do corpo - surge dominada por uma espécie de (des)encantamento. Será que podemos aqui discernir uma tentativa de apreensão das opacidades inextrincáveis? Na re-invenção do carpe diem? A retoma do intertexto cultural?

Niilismo, hybris trágica

Então em que consiste essa poética articulada à reivindicação do niilismo, a hybris trágica? A sua chave continua sendo a sugestão, a ambiguidade, a polissemia ou a obscuridade do verbo. Bastar-nos-á aqui referir um tipo de escrita erudita - (tran)sensorial e epidémica - da intensidade patogénica e do descontinuum - um palimpsesto algo delirante e de auto-implicação. Mas onde se visualiza um erotismo transferencial e incontido - que engloba, por definição, o corpo libidinal, psíquico e de regressão, a cartografia do vazio, o desejo inominável?

pathos maneirista

Inútil insistir: a leitura deste livro nos mostra que a sua poesia dá voz (e a voz) ao incomunicável. Podemos entender a dificuldade desta escrita no contexto de uma poética por onde perpassa (em si mesma) uma tensão expressiva e simbólica. No caso em foco, um pathos maneirista - do desamparo - apocalíptico - uma poética hermética, onde prevalece um dispositivo pulsional, no afloramento da voz e da escuta. Este poemário, da qual parte toda a nossa reflexão, remete-nos, pois, - ainda quando falámos esquematicamente de uma obra assente num vocabulário de eleição – não-canônico - imprevisível e decisivo - para toda uma gama de tópicos: uma filosofia-mundo. Assim, temos a distinguir, portanto, a ênfase numa economia do desejo e, em consequência, os impasses do gozo e as feridas do simbólico.

Fracasso, malogro

Esta poesia, na sua opacidade alquimica, maniera, parece configurar o sentimento agónico do fracasso - do malogro. Mas será que se pode dizer, seriamente, que - neste pano de fundo de conformidade com a nossa inabilidade de descrever o mundo - a poesia aparece-nos como diminuída e limitada? Ou, ao contrário, será que se tem de reconhecer que através da poesia apreendemos um mundo, um habitat específico com uma voz, por si só, identificável, na sua máxima operância emancipadora? Trans(e)gressora? Situados num limiar depressivo, em um mundo de bloqueios e de discriminações, de impotência política e de apatia social, de vazio administrativo e de usura planificada - o incontornável vínculo às disposições ou devaneios, que abarcam as alegorias da radical ilegibilidade - , todo o problema está em saber do que falamos nós quando nos referimos à forma meditativa do poema - onde, no entanto, se forjam as imagens do malogro pós-industrial - as grandes recusas? Podemos bem dizer que o destino dos homens – do poeta - tornou-se político. Até porque o poder polariza-se - como assinalou Ivan Ilich - a insatisfação generaliza-se (A Convivencialidade, Lisboa, 1976, p. 90).

21 de Outubro de 2011

Alexandre Teixeira Mendes

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A SERPE - NUVENS CERRADAS -

- CÓDICES - NO FUNDO DAS ÁGUAS -

sob a luz inigualável - a argúcia da pedra - no ar - simetria do imponderável -

a serpe - entre as colunas sobrepostas - nuvens cerradas - mapas do anónimo -

baús - telas emolduradas - demónios e peixes - códices - no fundo das águas -

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

SAL RESSEQUIDO - DO IMPONDERÁVEL -

SACIEDADE DA LUZ – MAPAS -

por esse sal ressequido - as aves - sobre a nuvem –

do imponderável - a desmesura dos sinais - na noite -

peixes - saciedade da luz - mapas - material do olvido -


VOZ DO PREMENTE – SOL-PÔR

ilha - enseada - donde regresso - mar - inusitado -

voz do premente - recôndita cegueira - sol-pôr -

brisa do solícito - pedra que resvala - no explícito

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

TRÂMITE DA PEDRA - BALEIA SUBMERGIDA -

TÉNUE ROSÁCEA – ALIMÁRIA -

Sob o esparso - a pertinência das imagens do ilícito - trâmite da pedra -

Pórtico do conciso - velame - ténue rosácea - alimária - cifra desvelada -


INAUDÍVEL CAIS – SARGAÇO – INAPROPRIADO -

Luz - dúbia - tufão - serpe - ninfa - espuma do espesso - baleia submergida -

Inaudível cais - prenhe de sargaço - marulho - inapropriado - ímpeto do sal -

GÁRGULAS - MAR FICTÍCIO - RIBEIRA DO MAR

RETÁBULO - BÁTEGA - LÂMINA DE SAL

Entre as gárgulas - do eloquente - as aves - torres - naves - do íngreme -

Névoa e espuma - moliço - talha dourada - mar fictício - ribeira do mar -

Bátega - lâmina de sal - retábulo-altar - pedra e céu - do irresoluto - areal -

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

MAPAS - ACERBO DA MEMÓRIA - INTRANSPONÍVEL -

interceptar os mapas - da vicissitude - ver-me reflectido - no que desaba - a voz - altiva - da infância - ímpeto do que soçobra - na luxúria - a talha dourada -

em brest - por detraz - da voz - de querelle - os daguerreotipos - a gaze - os vaga-lumes - a chuva espessa - na noite - o quarto de dormir - o carroucel - viagem - que se dilui - na música - do funesto -

profusão da escrita - para esquecer - as fotos - do mar suspenso - os vidros foscos - exalando sangue - a pedra - do incólume -

lages - sal - gema - brilho da campânula - trapézio - que se insinua - no ar - desenhos - de balaustres - sonolência das cisternas - águas - nos silvados - balas - do insano - à queima-roupa -

sobre a relva - as âmpolas - os sacos de dinamite - salamandras - papiros que mantenho - gárgulas - algas - nuvens do insaciado - as vértebras de baleia - acerbo da memória - intransponível ? -

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ANIMAL INDUBITÁVEL - MERCÚRIO - PLÂNCTON INACESSÍVEL -

pelo écran - o microscópio - imagem - desfocada - mente - insolúvel -

palavra - excurso - som - minúcia da voz - interruptor - soalho - luz -

o eclodir dos mapas - que se repercute na retina - recôndita sageza-

animal indubitável - enxofre - sal - mercúrio - plâncton inacessível -

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ISTMO - MINUCIOSO OFÍCIO -

TORPOR - DO HOMONCULUS - PERGAMINHOS - VEREDAS -

nesse intento - da escuridade - o caixilho - o desenho - tela - desvario -

scientia - do fecundo - vórtice - sobriedade do clarão - dom - exórdio -



indefectível - fausto - profussa sapientia - do vácuo - títeres - rosácea -

inacessível - torpor - do homonculus - transe alado - esgar - da cegueira -


frémito da pintura - que subsiste - irreparável - istmo - minucioso ofício -

da noite - intangível - cor - do intacto - a inadvertida - pedra - do incólume -


entre as éclogas - da loucura - os lábios e os mapas - do submerso -

canto - altas torres - sinais - baús - estuque - fragas - ímpeto da luz -


achamentos - vitrines - brumas - papoulas - entre lâmpadas - de lava -

o livro - engano ou fingimento - precipício - desconcerto - mor espanto -


domicílio de circe - similitude do branco - desvario - apaziguado veneno -

ilha - cais - nau - furtiva medusa - sôbolos rios - cor baça - do abrupto -


retina - filme - onde diviso - a intempérie - do deserto - o corpo - inscrito -

casa vazia - traço do funesto - alto mar que resvala - na voz - alucinada -


sobre o campo raso - os bois - tropos do ínfimo - cabras - vermes - deserções -

imagens - do inerte - zapping - pergaminhos - veredas - mapas - escarlates -


a memória - do extemporâneo - in - condicionalidade - do mar - quantum -

monólogo inverossímel - centauros - crustáceos - moluscos - do indecifrável -