EscorpiĂŁo de seda. Pulsando silencioso ali entre as frinchas. Ou eras o outro no quase escuro do quarto. Ăšmido. De seda. Tua macia rouquidĂŁo. Igualzinha Ă macia rouquidĂŁo de uma sonhada mulher, sĂł que nĂŁo eras uma mulher, eras o meu eu pensado em muitos homens e mulheres, um ilĂłgico de carne e seda, um conflito esculpido em harmonia, luz dorida sobre as ancas estreitas, o dorso deslizante e rijo, a nuca sumarenta, omoplatas lisas como a superfĂcie esquecida de um grande lago nas alturas, docilidade e submissĂŁo de uma fĂŞmea enfim subjugada, e aos poucos um macho novamente, altivo e austero, enfiando o sexo na minha boca.
[H.Hist]
27.8.14
14.8.14
Carta de um virginiano,
Onde está sua simetria bela flor?
Eu não vejo as medidas, nem a rima, nem a métrica. Os traços seus, tortuosos, deixam-me confuso, estarrecido. Fora da linha, seu corpo é feito de riachos.
Dessas flores que florescem sem medo, cujas pĂ©talas voam por ai com o vento, meio demasiado. Daquelas vozes que nĂŁo seguem padrĂŁo e arranham apaixonadamente aos ouvidos. Um paraĂso perdido.
Com alegria na medida certa, para uma mulher de medidas loucas.
M.
Onde está sua simetria bela flor?
Eu não vejo as medidas, nem a rima, nem a métrica. Os traços seus, tortuosos, deixam-me confuso, estarrecido. Fora da linha, seu corpo é feito de riachos.
Dessas flores que florescem sem medo, cujas pĂ©talas voam por ai com o vento, meio demasiado. Daquelas vozes que nĂŁo seguem padrĂŁo e arranham apaixonadamente aos ouvidos. Um paraĂso perdido.
Com alegria na medida certa, para uma mulher de medidas loucas.
M.
29.7.14
23.7.14
27.6.14
1.6.14
Do chĂŁo
Ainda sinto as coisas do chão. Nunca experimentei algo assim. A proximidade e aquela liberdade tão imensa.O olhar de perto. Os nossos corpos maiores e o meu respirar indistinto, uma luta débil para com as regras internas e um silêncio que me percorria. Aquele pedaço de chão me lembrou o MAR. Um divino nada e a minha sede de céu. Sou feita dessa espessura delicada e tantos cuidados. Eu estava ali, eu, e todos os meus contrastes.
Não há dia que me faça esquecer esse, porque para sempre permanecerei dilatada por esse infinito que sou.
30.4.14
Fluxo-Floema
"Eu sei que Ă© difĂcil no começo mas com o tempo vocĂŞ vai assimilar tudo isso, Ă© preciso que vocĂŞ viva primeiro, que os anos passem, QUE OS ANOS PASSEM LENTAMENTE Ă© preciso que se forme um certo limo sobre o corpo, Ă© preciso sangrar as mĂŁos, o ventre, o sexo, os pĂ©s, o plexo, a mente, e depois vem esse limo sobre a carne, delicado a princĂpio, apenas, uma matĂ©ria transparente, depois mais espessa... e quando chegar nesse ponto fique quieta, nĂŁo se exponha demasiado porque qualquer golpe, um esbarrĂŁo atĂ©, pode fazer sangrar essa matĂ©ria. Depois, aos poucos, formar-se-á (olha a mesĂłclise) um invĂłlucro quase duro, e aĂ vocĂŞ está pronta, aĂ já se esqueceram completamente de vocĂŞ, aĂ já nĂŁo te golpearĂŁo mais".
(Hilda Hilst)
22.4.14
"Nós, mulheres despojadas, sem ontem nem amanhã, tão livres que nos despimos quando queremos. Ou rasgamos os vestidos (o que dá ainda um certo prazer). Ou mordemos. Ou cantamos, alto e reto, quando tudo parece tragado, perdido. [...] Nós, mulheres soltas, que rimos doidas por trás das grades - em excesso de liberdade"
trecho de O HospĂcio É Deus (1965), de Maura Lopes Cançado.
trecho de O HospĂcio É Deus (1965), de Maura Lopes Cançado.
20.3.14
17.3.14
Brandy
Não estou a lhe pedir amor ou glória. É brandy e, repare, brandy de terceira categoria. Não é amor mesmo de terceira categoria. Nem a glória de terceira categoria, coisa suficiente para nos sentirmos muito perto de Deus.
Herberto Helder
Herberto Helder
14.3.14
28.2.14
O Aprendiz
Sou pobre realmente.
Tenho apenas algumas folhas de papel na alma
E uma vontade — digamos, mansa —
De hipnotizar borboletas.
Oue coisa sei da vida?
Pouca coisa sei da vida.
O bastante para nĂŁo correr.
Affonso Manta
20.2.14
Vertigens
E peço ao vento. Traz do espaço a luz inocente das urzes,
um silêncio, uma palavra; traz da montanha um pássaro de resina,
uma lua vermelha
16.2.14
Hilda Hilst
NĂŁo te machuque a minha ausĂŞncia, meu Deus,
Quando eu nĂŁo mais estiver na Terra
Onde agora canto amor e heresia
Outros hĂŁo de ferir e amar
Teu coração e corpo. Tuas bifrontes
Valias, mandarim e ovelha, soberba e timidez
NĂŁo temas.
Meus pares e outros homens
Te farĂŁo viver destas duas voragens:
Matança e amanhecer, sangue e poesia.
Chora por mim. Pela poeira que fui
Serei, e sou agora. Pelo esquecimento
Que virá de ti e dos amigos.
Pelas palavras que te deram vida
E hoje me dĂŁo morte. Punhal, cegueira
Sorri, meu Deus, por mim. De cedro
De mil abelhas tu és. Cavalo-d'água
Rondando o ego. Sorri. Te amei sonâmbula
EsdrĂşxula, mas te amei inteira.
Quando eu nĂŁo mais estiver na Terra
Onde agora canto amor e heresia
Outros hĂŁo de ferir e amar
Teu coração e corpo. Tuas bifrontes
Valias, mandarim e ovelha, soberba e timidez
NĂŁo temas.
Meus pares e outros homens
Te farĂŁo viver destas duas voragens:
Matança e amanhecer, sangue e poesia.
Chora por mim. Pela poeira que fui
Serei, e sou agora. Pelo esquecimento
Que virá de ti e dos amigos.
Pelas palavras que te deram vida
E hoje me dĂŁo morte. Punhal, cegueira
Sorri, meu Deus, por mim. De cedro
De mil abelhas tu és. Cavalo-d'água
Rondando o ego. Sorri. Te amei sonâmbula
EsdrĂşxula, mas te amei inteira.
15.2.14
Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razĂŁo das coisas,
faz de conta que nĂŁo sei as coisas que nĂŁo queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romĂŁs no chĂŁo e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
Ă© suficiente neste passeio. Quando nĂŁo escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
Ă© maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. MantĂŞm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vĂcio. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair Ă rua, comprar o jornal.
Helder Moura Pereira
[De Novo as Sombras e as Calmas]
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razĂŁo das coisas,
faz de conta que nĂŁo sei as coisas que nĂŁo queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romĂŁs no chĂŁo e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
Ă© suficiente neste passeio. Quando nĂŁo escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
Ă© maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. MantĂŞm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vĂcio. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair Ă rua, comprar o jornal.
Helder Moura Pereira
[De Novo as Sombras e as Calmas]
8.2.14
Descobriu-se no Outono
(beijo com um beijo frio
uma pedra de Lua nova)
a concubina de Paris
bebia chá-mate
(aquilo que sou e sou p’ra alguns
nĂŁo Ă© o que sou e sou para outros)
entre o fumo de cigarrilhas
e acamava uma cave
(as Lágrimas querem romper-te como um fio de
vento às árvores)
com um som baixo de acordeĂŁo triste
recolho os cĂrculos que vi no chĂŁo e descanso-os
nos meus braços.
Jorge vaz nande
(beijo com um beijo frio
uma pedra de Lua nova)
a concubina de Paris
bebia chá-mate
(aquilo que sou e sou p’ra alguns
nĂŁo Ă© o que sou e sou para outros)
entre o fumo de cigarrilhas
e acamava uma cave
(as Lágrimas querem romper-te como um fio de
vento às árvores)
com um som baixo de acordeĂŁo triste
recolho os cĂrculos que vi no chĂŁo e descanso-os
nos meus braços.
Jorge vaz nande
6.2.14
Testamento LĂrico
Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
Ă€ noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possĂvel de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
![]() |
| Hilda, em 1933, aos 3 anos de idade |
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De nĂŁo saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.
E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo,
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dĂłcil.
Querer deixar um testamento lĂrico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruĂdo inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.
Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz nĂŁo seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.
- Hilda Hilst
30.1.14
M.
te escrevo enquanto habito esse solitário cômodo. Há uma luz que escuta os meus pensamentos . Já sabes do meu desejo e eles dançam para ti enquanto tuas pálpebras se fecham. Dei para sonhar contigo todas as noites. De súbito, mostra-me as anotações dos nossos encontros sempre no mesmo dia e horário. Escuto as minhas vozes. A tua ternura se intensifica. Apostas ou desiste. Emboscados estamos. Nós sabemos o que vai acontecer.
esperando...
te escrevo enquanto habito esse solitário cômodo. Há uma luz que escuta os meus pensamentos . Já sabes do meu desejo e eles dançam para ti enquanto tuas pálpebras se fecham. Dei para sonhar contigo todas as noites. De súbito, mostra-me as anotações dos nossos encontros sempre no mesmo dia e horário. Escuto as minhas vozes. A tua ternura se intensifica. Apostas ou desiste. Emboscados estamos. Nós sabemos o que vai acontecer.
esperando...
A CANÇÂO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK
Sigamos entĂŁo, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, nĂŁo perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita. [...]
T. S. Eliot - trad. Ivan Junqueira
Sigamos entĂŁo, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, nĂŁo perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita. [...]
T. S. Eliot - trad. Ivan Junqueira
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