
Eu contava os segundos pra te encontrar na praça. Te encontrar e me tranquilizar no teu abraço; e o cheiro de cigarro na tua pele até me dava algum conforto. De pensar que você sempre foi tão importante, como se o teu sorriso pudesse ser eterno no meu ombro. Ah, você e as eternidades.. e eu me perdia, sempre.
Hoje passei por lá, sabe, e o cheiro da tua ausência me perturbou mais do que eu previa. Fomos tantos em nós mesmos, e os nossos olhares se comunicavam sem qualquer dificuldade. E eu descobri que sentia saudade. Sentia saudade do Rodrigo de sobrancelhas grossas e cigarro sempre na mão. Do cara que me olhava com um carinho doce, como se tudo aquilo fosse eterno.
Não, não era pra ser um desses blues que eu ando cantarolando por aí, cheios de todos os amores que tive, e daqueles que criei. Era pra te deixar mais perto, e rir dessa minha mania de não rimar nada com nada. Talvez porque as coisas fiquem melhor do jeito que são, com suas imperfeições e passados tristes. Porque quando você sorri no meu ombro, enquanto conserta a nota que errei de propósito, tudo congela, e fica aquele momento frio e eterno, como uma fotografia.
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E hoje nos encontramos, como fazemos todos os dias, na esquina da tua rua. Bom, não tenho razões para acreditar nisso, mas, sempre que te olho, tenho a esperança de que você tenha percebido que me ama. Sim, porque somos capazes de passar horas falando sobre as coisas que gostamos, sem sermos chatos. Porque, bom.. porque eu te quero muito bem, então não há mal em você me querer, não acha?
Hoje, primeiro de abril, e me encosto no teu ombro. Eu te amo... Ah, como eu gostaria que fosse uma mentira..
Bom, eu não queria fazer com que isso parecesse triste. Mas foi o único jeito que eu encontrei pra dizer que eu sinto falta... e preciso ir embora. Sim, ir embora. Porque fomos tantas nesses três anos em que eu tive poucas e raras notícias suas, que as visitas eram cada vez mais inesperadas, e, por fim, o que mais me dói até hoje: o sorriso tinha mudado. Não era mais de alegria, era - e é - uma indiferença de fechar os olhos e correr pra rua. É, minha garotinha, o mundo girou pra nós duas, e cá estamos nós, cada dia mais distantes e diferentes, mas... tão próximas! Mas eu sempre aprendi que proximidade é diferente de presença. E, apesar de não fazer QUALQUER sentido o que eu acabei de dizer, é verdade demais pra eu te dizer isso olhando nos olhos e segurando a sua mão. Como você me disse, na carta que me mandou quando foi embora, eu te digo agora: foi a forma menos dolorida que eu encontrei de me despedir de você. E, mesmo que eu te veja todos os dias, e me pergunte, a cada vez que te olho, o que aconteceu de errado, nós precisamos ir. Aceitar que a vida muda, que novas pessoas aparecem, e as antigas somem. Mas, apesar de tudo...
Eu te amo. E eu nunca, nunca vou esquecer de toda a alegria que a gente viveu.
Dar as costas e fingir que nada estava acontecendo foi a melhor saída, eu juro. Não pensar, tentar esquecer, fugir pra qualquer lugar do mundo em que eu não sentisse teu cheiro, nem aquela vontade de segurar tua cintura. Fui pra casa e chorei até dormir. Mas isso não faz diferença agora, faz? Você sempre me deu um sorriso amarelo, em retribuição a essa minha devoção inútil. Você sorria e virava as costas, e eu nunca, nunca percebi que... você não dava a mínima.
É difícil caminhar em linha reta quando todas as pessoas correm depressa pra bem longe, passando por mim. Subi no ônibus e fui pra casa pensando se a vida era mesmo aquela loucura. Lúcia me falou outro dia que era "melhor abstrair e seguir viagem, nega!". Eu só sorri e dei tchau, porque ela também estava correndo. O fim do ano sempre traz essa confusão toda, e eu acabo vagando pelo corredor vazio. Então percebo que eu passei a minha vida inteira fazendo isso: me esquivando de todo mundo. "O maldito do tempo inteiro".
É incrível (e assustador) o jeito como olho para o passado. Posso tocar as pessoas, captar cada fio de mágoa, tocar cada rosto, sentir toda a tristeza e depois bater os pés e continuar a andar pela casa, me ocupando das minhas tarefas. O que me machuca é sentir certo cheiro depois de tanto tempo. É reconhecer uma voz, um toque, uma expressão. Toda a minha barreira de proteção cai e eu fico parada, esperando tudo passar...
E sabe o pior? Me dá uma imensa vontade de vomitar.