Bom, eu não sei fazer sinopse de filme. Então se você não viu o filme, procure uma na internet. Pode essa aqui do adoro cinema :) Ou então lê meu post sem saber mesmo, eu vou tentar ir explicando um pouco!
*Contem spoiler*
A verdade é que eu chorei muito durante todo o filme. Primeiro porque eu relacionei os macacos com pessoas que tivessem algum tipo de deficiência ou trastorno mental. E fiquei reparando como as pessoas que estão de fora (vizinhos, cuidadores) não se preocupam com o bem estar do outro. Por ser algo desconhecido, diferente do que elas acreditam ser o certo, o melhor, "o bom, o belo", à certa distância elas ignoram, falam o mal, de perto, têm medo. Elas têm medo porque sabem que, no fundo, se elas tivessem se permitido conhecer, entender, elas saberiam exatamente o que esperar, e não teriam medo. Aquele abrigo onde ficavam os macacos me remeteu aos hospícios, manicômios. Lugar afastado, isolado, onde se esconde da sociedade tudo aquilo que não queremos ver, aquilo que não nos é belo. Chorei toda vez que o filme centrava nos olhos dos macacos e eu os percebia como seres, conscientes ou não, que tinham vida, que tinham vontades, e que no fundo desejavam estar em um lugar melhor, ao lado de pessoas queridas. Esse é um assunto que me toca, muito. Também me veio na cabeça toda essa questão de testes em animais, mas não vou nem me atrever a falar, principalmente porque não foi isso que mais me marcou.
Eu adorei a lição de como fazer uma revolução, e só me provou que não importa se só você tem consciência de que esse sistema que te oprime está errado. Para mim, aliás, foi essa a mensagem que o filme me deixou. Há um sistema social e econômico que controla o mundo. O social determina a moral, os costumes, o comportamento. O econômico determina o investimento, e financia tudo o que for necessário para obter lucro. Traduzindo, a opressão social acontece quando o vizinho, já sem paciência com o velho com Alzheimer, agride ele quando o vê dentro de seu carro. Vocês vão pensar: mas o velho bateu o carro do vizinho! E eu respondo: todo tipo de violência supera qualquer ação errada. Não há exemplo maior de querer "mostrar quem manda", "dar uma lição" ou "controlar" alguém do que fazer isso, literalmente, com as próprias mãos, com a intenção de minimizar o outro ser humano. A opressão econômica a gente vê quando, por exemplo, o Jacobs quer demitir o médico (e isso acontece duas vezes) porque o médico "destrói" a sua chance de ganhar muito dinheiro. Vocês vão pensar: mas o mundo dos negócios é assim mesmo. E eu respondo: não deveria ser. A partir do momento em que o dinheiro se torna mais importante do que a vida e o bem estar de pessoas, de seres humanos, quer dizer que a sociedade deixou de viver em comunhão e passou a viver em competição.
Isso fica muito claro no filme. César, o macaco que viveu com o médico durante toda a sua vida, e teve tudo do bom e do melhor, só teve chance de perceber que havia alguma coisa errada quando ele olhou para outro ser (um cachorro, considerado um animal de estimação), e percebeu que ele não era igual àquilo que ele pensou ser a vida toda (ser humano), que ele estava mais para cachorro do que para homem. Depois que ele é preso no abrigo para macacos, César se identifica com os outros, e não quer mais voltar para casa. Ele percebe que o humano é mau, é corrupto e ele quer livrar seus companheiros de terem que continuar sendo subordinados a essa espécie.
César deu aos macacos a ferramenta que eles precisavam para reverter essa situação: deu inteligência (através de um medicamento que o médico, "pai" do César, estava trabalhando, medicamento esse que previa curar o Alzheimer). Com inteligência, controle e consciência dessa inteligência, os macacos deixam os humanos com medo. E como eu disse, o medo vem do desconhecimento, se você desconhece, você se defende da forma como sabe, e ataca como puder. Com medo você não pensa, não faz planos.
Certos do que queriam - se livrar das amarras opressoras de um sistema opressor - os macacos não queriam ferir os humanos. Ou seja, eles não queriam se tornar os novos opressores! Eles queriam ser livres. E para ser livre, não pode haver opressão, de nenhum lado. Para burlar o sistema, é preciso conhecê-lo, saber como funcionam suas máquinas, saber as senhas que destravam suas portas. E é preciso estar unido. Um macaco sozinho é fraco, mas juntos, são fortes. É preciso saber onde se quer chegar, é preciso ter consciência dos obstáculos que vai encontrar, é preciso planejar, re-planejar, pensar de novo e não ter medo de seguir em frente.
Quando temos um ideal de vida a ser alcançado, mas um ideal de vida daqueles em que você realmente se apoia, você não tem medo. Você só tem medo de que as coisas continuem como estão, medo de que você não consiga ter coragem de tentar, medo de que mais pessoas continuem sendo oprimidas, medo de que elas nunca percebam isso. Quem estava de fora, vendo os macacos se rebelarem, certamente pensou "que absurdo", "sempre cuidaram dele", "sem eles como vamos testar remédios?", "quem eles pensam que são?", "como podem achar que vão mudar alguma coisa, são ignorantes!". Isso eu traduzo como medo: medo de perder uma "classe inferior" pra oprimir, medo de ter que assumir o seu papel, medo de descobrir quem é que te oprime!
Mesmo depois de "terminada" a revolução, César não quis voltar para casa com o seu pai. Ele poderia continuar levando a vida boa que ele sempre teve. Mas ele não conseguiria fazer isso. Não conseguiria porque a partir do momento em que percebemos o que tem de errado, nós não queremos compactuar com isso, não queremos fazer parte, de forma alguma, mesmo que isso nos traga consequencias ruins. A consciência da realidade, das consequências, da opressão que existe dentro do sistema, não permitiu que César abandonasse seus companheiros, e deixasse de viver com eles uma nova vida, uma vida seria deles. Voltar para casa não seria igual, porque agora ele via o mundo de outra forma, ele era um ser diferente!
As vezes não conseguimos mudar o mundo, e nem sei se os macacos tinham essa pretensão. Eles, enquanto uma classe de seres, que sofreram durante muitos anos as consequências de um sistema sanguessuga (e suicida), finalmente conseguiram desatar os injustos nós que os impedia de ser livres. Infelizmente, esse não é o final feliz da história. Sim, no filme é, mas na vida real, como vocês bem devem ter relacionado, sair do sistema não garante o final feliz. Garante a liberdade, a autonomia, a autogestão, mas enquanto o sistema puder ele vai atrapalhar, vai bloquear, vai impedir que vocês prosperem, vai fazer propaganda enganosa, vai fechar as fronteiras. Por isso é preciso mudar o sistema, e não apenas se afastar dele.
Não podemos desistir!
Trabalhadores do mundo, uni-vos! ;D