Grande parte do que se escreve só faz bem a uma pessoa: a quem o escreve. Se assim é, hoje vou tomar esse remédio para tentar debelar uma maleita que me atormenta desde os 7 anos: a enxaqueca. Uns dizem que é uma doença mais frequente nas mulheres, e outros dizem que é uma doença de pessoas inteligentes. Eu acho que tive muito azar, pois, não sendo nem uma coisa nem outra, calhou-me essa maleita. Já procurei todos os remédios (incluindo a acupunctura), mas nenhum me valeu. Apesar dos tormentos que me causa, a ponto de um simples abrir de olhos ser feito com muito sacrifício, tem uma coisa boa: o dia em que passa, que, com raras excepções, é o dia seguinte àquele em que começa. Num dia, aquele em que acordo com a enxaqueca, estou no inferno, mas, no dia em que passa (que geralmente é o dia seguinte àquele em que chegou) estou no céu. Fico com uma energia que me permite fazer tudo o que deixei de fazer (no dia da enxaqueca).
A primeira vez que me recordo de ter enxaqueca foi no dia 15 de Agosto de 1968. Os meus manos, juntamente com os nossos vizinhos, estavam acampados no Covão de Ferro, e, nesse dia, eu e a minha mãe fomos fazer-lhes uma visita. Apanhámos boleia no tractor da "Quinta da Várzea". Como o tractorista ia distribuindo víveres pelo pessoal que estava nas várias centrais hidroeléctricas, a viagem demorou cerca de 2 horas (a pé teríamos demorado pouco mais de uma hora). Assistimos à missa na Santa e, depois do almoço, fomos caminhando até à Torre, sempre pela estrada. No regresso, porque todos já estavam cansados da longa caminhada, perguntámos ao Hércules, que por ali apascentava as cabras, qual o caminho mais perto para o Covão de Ferro. Ele apontou numa direcção com o braço, mandou-nos ir sempre a direito, e lá seguimos esse caminho. Descemos a encosta que vai dar à barragem do Padre Alfredo e, depois, descemos para o Covão de Ferro. Não imaginam como o caminho é íngreme. A enxaqueca instalara-se. Desci o caminho todo às “carrapichas” do Luís (que, na altura, teria uns 18 anos de idade), sempre de olhos fechados. Depois de ter regurgitado ainda Covão, regressámos de boleia num “jeep” da “Penteadora”. Sempre de olhos fechados, cheguei a US. Foi ainda de olhos fechados e mergulhado no colo da minha mãe, que estava sentada na soleira da porta do meu Tio Zé, que ouvi o meu pai contar que tinha dado de almoço a duas francesas (uma delas a nora do Tio Zé) sem perceber uma palavra de francês e elas de português. Mas, passadas umas duas horas, estava no céu, e, nesse dia, ainda consegui ir jogar a bola para a rua com os meus vizinhos (o Fernando e o Carlos).
A segunda vez que tive uma enxaqueca tão violenta como essa, foi na festa do final do 2º ano do Ciclo. Fomos para os Penedos Altos, na Covilhã, onde havia uma demonstração dos ginastas mais aptos. O Fernando, meu vizinho e também meu colega de hospedaria, não obstante os seus 53kg de peso (que enchiam de orgulho a nossa senhoria, que todas as semanas nos pesava na balança do armazém de batatas que ficava em frente à casa onde morávamos, para, com base nesse indicador, dar conta aos nossos pais da nossa saúde) foi um dos seleccionados. Durante essa tarde, a enxaqueca atacou-me de tal forma que não conseguia manter os olhos abertos. Foi o Fernando quem, numa mostra de valentia e de camaradagem, me levou até casa agarrado à cintura dele, e sempre de olhos fechados. Para cúmulo da desgraça, tínhamo-nos esquecido de dizer à senhoria que chegávamos mais tarde. Ora, quando nos viu chegar, a primeira coisa que ela fez foi pegar no “Fernandinho” (era assim que ela o tratava) e, depois de o virar de costas e de meter a cabeça dele por baixo do braço dela, deu-lhe umas valentes chineladas. Quando chegou a vez de dar a mesma dose ao “Zezinho (era assim que ela me tratava), a senhoria, ao ver que eu estava mais morto do que vivo, deixou-me em paz e optou por chamar a minha irmã, para lhe apresentar as devidas queixas por mais este mau comportamento.
E, agora, porque as chamas do inferno já me estão a queimar a cabeça a ponto de não conseguir ter os olhos abertos, e vejo que a escrita não ajuda nada, vou reservar as últimas forças para enviar um sms a avisar do meu estado a quem se irá ocupar de me tratar e gerir nas próximas horas. Até breve, espero - 13,10 horas do dia 01/12/2011.
Olá, cá estou eu! São 10 horas do dia 02/12/2011, e, como esperava, fui ao inferno (e lá bem fundo) e estou a subir para o céu. A visita ao inferno foi quase tão violenta como a que lhe fiz no pretérito dia 10/11/2011. Sob o lema “sem medicamentos, aguentar, aguentar”, passei por mais uma terrível enxaqueca. Nem chá conseguia manter no estômago. Mas hoje é o dia seguinte. A “pica” é tanta que quase sou levado a “investir” na bolsa. Aproveito para tratar das questões mais complicadas, e que, como que por magia, se tornam muito simples. Nem me lembro de que, daqui a umas semanas (e, se assim for, nada mau), voltarei a ter uma nova crise. Mas porque é que o gajo não vai ao médico, perguntarão os que, felizmente, não foram abonados com esta moléstia. Pois já fui, e a muitos. E tenho receio de ir a mais. É que o último tratamento médico que cumpri fez com que as crises passassem de uma para duas por mês, e, em jeito de consolo, o médico disse-me que, em média, os britânicos tinham três crises de enxaqueca por semana. Aqui fica, o registo fotográfico do meu primeiro dia de enxaqueca (15/08/1968).