LÍRICOS OLHARES
Poesia, Palavra, Pensamento, Maktub
SOBRE ESTE ESPAÇO
REFLEXÃO
28 março, 2026
ARÍETE (Cacau Loureiro)
27 março, 2026
BARRAGENS (Cacau Loureiro)
Eu saio às ruas, e parece que nada mudou...
O burburinho das calçadas agita meu peito,
por ora descansado dos desequilíbrios das
convivências... Andar sozinha me aproxima
de alguém que não conheço, mas que
sobremaneira me entende.
Sigo na paz, mas também na espera daquilo
que tenho cultivado no mais profundo do meu ser:
que as virações nos tragam as claridades que
vivificam espíritos já cansados de suas buscas
insanas, de seus vícios funestos.
Nestes tempos medievais, em que o ódio e as
dissensões se fazem trevas modernas, que sejam
apenas tempestades passageiras no espírito humano.
E que possamos alçar esse voo humanoide,
ainda presos às nossas engrenagens ocultas...
no sentido de sermos artífices da nossa própria
progressão — seja para gnósticos, seja para ateus.
Dogmatismo não salva ninguém. O que podemos
é nos despojar, neste mundo, das vaidades e do
orgulho, pois colocamos diante do outro aquilo
que nem mesmo conseguimos oferecer.
Somos presunçosos grãos de areia — e só nos
moveremos se for em conjunto, para merecermos
as emanações da Mãe Terra e os eflúvios dos Céus.
Quando fitarmos nossas mãos e virmos ali as
sementes esmagadas pelo nosso olhar obtuso
ante as dores alheias; quando abrirmos nossos
corações para soltar aquilo que, a cada dia,
nos mata um pouco mais...
as incompreensões.
E então, talvez — só então —
deixemos de sobreviver sobre nossas
próprias ruínas
e aprendamos, enfim,
a reciclar nossos próprios rejeitos.
26 março, 2026
PLENITUDE ( Cacau Loureiro)
Eu busco, sim,
as trilhas da felicidade…
e isto
são relatividades da vida.
Há um ciclo novo,
mais consciente,
vindo em minha direção—
porque sinto,
com coragem,
sem me perder de mim.
A capacidade de transformação
exige esforço
e entrega…
pois me acolho
quando crio
e quando me despeço.
Nada fica para depois.
O fim do túnel
reluz
como preciosa joia—
então me visto
para o baile:
sem carruagem de abóbora,
sem o bater das zero horas,
sem os sapatos de cristal.
Eu me reconheço
todos os dias.
Meu espelho
é minha consciência,
com a qual converso
toda as noites,
quando me proponho
a viradas honestas.
Os arcanjos
me falam de superações,
nas madrugadas
de profundas meditações…
ante as espadas,
ponho o coração;
ante as injustiças,
tenho a clareza do tempo—
esse que voa
com os ventos
das novidades.
Quem cruza o meu caminho
não me define.
Estou inteira.
E não endureci.
Que quem venha
desperte o que já é meu—
porque estou viva,
de corpo e de alma.
E toda verdade
do que realmente sou
se levante
como flâmula
que tremulará
pela eternidade.
DOS EXTRAORDINÁRIOS (Cacau Loureiro)
Há um floral em teus olhos que ardem,
sorriso teu que aqueceu meu coração.
Os toques raros tornam-se essenciais
neste mundo cruel,
porque encontrar almas afins
é também se propor à missão.
Então sigo por esse céu estrelado,
fazendo essa viagem encantada,
permeada desse insólito humano.
De ponta à cabeça giro na estratosfera,
e assim te enxergo
dentro afora
e fora adentro.
Dá-me tuas mãos —
há um infinito a conhecermos.
Nas vias abertas dos afetos, criaremos
universos e evoluções,
pois, pelo encanto, somos também
criadores,
germinadores do que é belo
e do que é bom.
Deixa-me fitar teus lumes novamente
para jamais esquecer
onde tu moras,
por onde passaste…
onde permanecerás em mim.
Porque inusitados são os encontros
nesta terra de ninguém,
e há um cicio pela noite
em meus ouvidos a dizer…
o extraordinário é promessa.
23 março, 2026
SANGUE E AZEITE (Cacau Loureiro)
Ouço música pela noite inteira...
Há sons que elevam a alma
e trazem de volta o que de nós ficou
pelos pretéritos caminhos —
pedaços que insistimos em
alimentar as feras.
Pulsos enxutos, olhos secos:
não há mais choro
pelas ruelas escuras
que os falidos engendraram.
A maior dádiva é saber
que não permaneceremos caídos.
Fios invisíveis nos suspendem
pelos ombros
e, na vertical, enxergamos
os becos torpes
por onde nos levaram.
Mas toda estrada tem seus atalhos.
Vista firme — para não ceder
à ilusão de ótica
que tenta nos perder da saída.
Nada é para sempre,
muito menos a dor das traições,
lâminas a cortar
as dobras dos joelhos.
Espíritos persistentes
carregam em si a certeza
das colheitas — ante os passantes
renitentes, arquitetos do caos.
Terra azul, céu laranja —
este é o sumo da vida:
copo cheio dos alísios da sorte,
farta bandeja… pão e vinho,
todo o azeite do futuro
a retemperar o entusiasmo
para o banquete
dos que ainda sabem viver
entre o uivo e o sangue,
na dança com lobos.
22 março, 2026
MERIDIANO (Cacau Loueiro)
Fim de tarde... o sol desceu em camadas
alaranjadas... misturou-se às ondas brancas,
exuberantes — seio farto nos deleites da vida.
Aspirei os bons ares dos livres passos,
espaço onde eu mesma caibo inteira.
Marolas lavando os pés das pressas
desnecessárias — Cronos é o mestre
no ritmo humano das aspirações errantes.
Beijo o sal em minhas mãos,
purifico a aura... ensinamentos esquecidos
nos tempos que nos correm ante os olhos,
deixando marcas no corpo.
O horizonte faz a escrita das estrelas,
relampeja histórias entre nuvens escurecidas...
Enquanto a melancolia marca a areia,
o mar apaga as pegadas das dilações passadas
A brisa marítima esvoaça pensamentos
que transpassam a linha do infinito aparente
e se deixam descansar nas águas.
Singro a vida no embalo desse entardecer luminoso,
respingos frios na face, cabelos em desalinho
selvagem ante o poder da natureza misturam-se
nas rotas dos sonhos, coração em longitudes...
anoiteceu...
19 março, 2026
PERFUME ARÁBICA (Cacau Loureiro)
18 março, 2026
CARTOGRAFIA (Cacau Loureiro)
À beira do cais,
uma dama na noite,
à espera de um milagre...
As luzes da cidade
penetram seus olhos
como chuva que deságua na alma
em canções de espera.
O eco dos passos
acorda a aurora,
para que a esperança desperte
e sobreviva
ao sol escaldante dos exílios...
que não sacia a sede
da tua companhia copiosa,
feroz correnteza
que redesenhou destinos.
E então eu sou mar...
retemperando
os mergulhos profundos
de quem não compreende
as distâncias,
onde os portos
apagaram seus faróis
para sermos
náufragos de nós mesmos.
Sigo cega
nas noites abissais,
oceanos sombrios
feitos de tempestades e medo...
Águas altas, revoltas,
prontas a invadir o convés
dos sonhos,
engendrados como bússolas
de caminhos incertos,
de cartas à deriva
de uma cartografia extraviada.
Mas ancoro
na paisagem perplexa
dos silêncios,
e os rumores da noite
não me trazem sentido,
soam-me desconexos,
como vagas encobrindo a quilha,
golpeando o casco,
desestabilizando o lastro:
empuxos
que me afogam
em solidão.


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