SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

28 março, 2026

ARÍETE (Cacau Loureiro)


Amanheci entre a multidão…
Mortos-vivos no campo de batalha,
olhos abertos, almas em silêncio,
e eu, um corpo entre muitos,
mas com o espírito em vigília.

Sol ameno nesse iniciar de outono,
onde folhas mortas respiram
renovação e alimento,
frutos que haverão de nutrir-me para
as empreitadas dessa nova jornada.

Contentamento…
é o que corre em minhas veias
quando o Velo de Ouro
marca meu equinócio interior,
impulsionando mudanças, coragem
para prorromper em primavera,
em ciclos de liderança do EU
para recomeços que rasgam
os tempos de estagnação.

Sigo, então, essa estrela nítida,
em binários que me equilibram,
para manter-me de pé diante das
guerras às quais o destino me chama.

Movimentos ruidosos,
chuvas no invisível,
anunciam mudanças…

E não há medo, não há dúvidas:
quando levanto minha espada,
Marte guia sua lâmina cortante
para abrir caminhos
de transformações imediatas.

Visto-me da armadura brilhante
para as travessias sangrentas,
minha avidez me impele à batalha,
pois é no confronto com o fogo
que meu destino se cumpre.

27 março, 2026

BARRAGENS (Cacau Loureiro)

Eu saio às ruas, e parece que nada mudou...

O burburinho das calçadas agita meu peito,

por ora descansado dos desequilíbrios das

convivências... Andar sozinha me aproxima

de alguém que não conheço, mas que

sobremaneira me entende.


Sigo na paz, mas também na espera daquilo

que tenho cultivado no mais profundo do meu ser:

que as virações nos tragam as claridades que

vivificam espíritos já cansados de suas buscas

insanas, de seus vícios funestos.


Nestes tempos medievais, em que o ódio e as

dissensões se fazem trevas modernas, que sejam

apenas tempestades passageiras no espírito humano.


E que possamos alçar esse voo humanoide,

ainda presos às nossas engrenagens ocultas...

no sentido de sermos artífices da nossa própria

progressão — seja para gnósticos, seja para ateus.


Dogmatismo não salva ninguém. O que podemos

é nos despojar, neste mundo, das vaidades e do

orgulho, pois colocamos diante do outro aquilo

que nem mesmo conseguimos oferecer.


Somos presunçosos grãos de areia — e só nos

moveremos se for em conjunto, para merecermos

as emanações da Mãe Terra e os eflúvios dos Céus.


Quando fitarmos nossas mãos e virmos ali as

sementes esmagadas pelo nosso olhar obtuso

ante as dores alheias; quando abrirmos nossos

corações para soltar aquilo que, a cada dia,

nos mata um pouco mais...


as incompreensões.


E então, talvez — só então —

deixemos de sobreviver sobre nossas

próprias ruínas

e aprendamos, enfim,

a reciclar nossos próprios rejeitos.

26 março, 2026

PLENITUDE ( Cacau Loureiro)

 

Eu busco, sim,

as trilhas da felicidade…


e isto

são relatividades da vida.


Há um ciclo novo,

mais consciente,

vindo em minha direção—


porque sinto,

com coragem,

sem me perder de mim.


A capacidade de transformação

exige esforço

e entrega…


pois me acolho

quando crio

e quando me despeço.


Nada fica para depois.


O fim do túnel

reluz

como preciosa joia—


então me visto

para o baile:


sem carruagem de abóbora,

sem o bater das zero horas,

sem os sapatos de cristal.


Eu me reconheço

todos os dias.


Meu espelho

é minha consciência,


com a qual converso

toda as noites,


quando me proponho

a viradas honestas.


Os arcanjos

me falam de superações,


nas madrugadas

de profundas meditações…


ante as espadas,

ponho o coração;


ante as injustiças,

tenho a clareza do tempo—


esse que voa

com os ventos

das novidades.


Quem cruza o meu caminho

não me define.


Estou inteira.

E não endureci.


Que quem venha

desperte o que já é meu—


porque estou viva,

de corpo e de alma.


E toda verdade

do que realmente sou


se levante

como flâmula


que tremulará

pela eternidade.

DOS EXTRAORDINÁRIOS (Cacau Loureiro)

Há um floral em teus olhos que ardem,

sorriso teu que aqueceu meu coração.


Os toques raros tornam-se essenciais

neste mundo cruel,

porque encontrar almas afins

é também se propor à missão.


Então sigo por esse céu estrelado,

fazendo essa viagem encantada,

permeada desse insólito humano.


De ponta à cabeça giro na estratosfera,

e assim te enxergo

dentro afora

e fora adentro.


Dá-me tuas mãos —

há um infinito a conhecermos.


Nas vias abertas dos afetos, criaremos

universos e evoluções,

pois, pelo encanto, somos também

criadores,

germinadores do que é belo

e do que é bom.


Deixa-me fitar teus lumes novamente

para jamais esquecer

onde tu moras,

por onde passaste…

onde permanecerás em mim.


Porque inusitados são os encontros

nesta terra de ninguém,

e há um cicio pela noite

em meus ouvidos a dizer…


o extraordinário é promessa.

23 março, 2026

SANGUE E AZEITE (Cacau Loureiro)

Ouço música pela noite inteira...


Há sons que elevam a alma

e trazem de volta o que de nós ficou

pelos pretéritos caminhos —

pedaços que insistimos em

alimentar as feras.


Pulsos enxutos, olhos secos:

não há mais choro

pelas ruelas escuras

que os falidos engendraram.


A maior dádiva é saber

que não permaneceremos caídos.

Fios invisíveis nos suspendem

pelos ombros

e, na vertical, enxergamos

os becos torpes

por onde nos levaram.


Mas toda estrada tem seus atalhos.

Vista firme — para não ceder

à ilusão de ótica

que tenta nos perder da saída.


Nada é para sempre,

muito menos a dor das traições,

lâminas a cortar

as dobras dos joelhos.


Espíritos persistentes

carregam em si a certeza

das colheitas — ante os passantes

renitentes, arquitetos do caos.


Terra azul, céu laranja —

este é o sumo da vida:

copo cheio dos alísios da sorte,

farta bandeja… pão e vinho,

todo o azeite do futuro

a retemperar o entusiasmo

para o banquete

dos que ainda sabem viver

entre o uivo e o sangue,

na dança com lobos.

22 março, 2026

MERIDIANO (Cacau Loueiro)

Fim de tarde... o sol desceu em camadas

alaranjadas... misturou-se às ondas brancas,

exuberantes — seio farto nos deleites da vida.

 

Aspirei os bons ares dos livres passos,

espaço onde eu mesma caibo inteira.

 

Marolas lavando os pés das pressas

desnecessárias — Cronos é o mestre

no ritmo humano das aspirações errantes.

 

Beijo o sal em minhas mãos,

purifico a aura... ensinamentos esquecidos

nos tempos que nos correm ante os olhos,

deixando marcas no corpo.

 

O horizonte faz a escrita das estrelas,

relampeja histórias entre nuvens escurecidas...

 

Enquanto a melancolia marca a areia,

o mar apaga as pegadas das dilações passadas

 

A brisa marítima esvoaça pensamentos

que transpassam a linha do infinito aparente

e se deixam descansar nas águas.

 

Singro a vida no embalo desse entardecer luminoso,

respingos frios na face, cabelos em desalinho

selvagem ante o poder da natureza misturam-se

nas rotas dos sonhos, coração em longitudes...

anoiteceu...

                                                         

19 março, 2026

PERFUME ARÁBICA (Cacau Loureiro)


Há um perfume no ar...
Nessa madrugada eu vi seus olhos na
janela, e o teu sorriso iluminou o quarto
no escuro amargo das lembranças...

Ouvi tua gargalhada ante minhas atitudes
infantis, o jogo de dados foi lançado na  
mesa do tempo e o meu peito arfou.

Percebo que no filtro das minhas
vivências, tu nunca me enxergaste,
embora este sentir fosse constante em
dias radiantes de palavras aromatizadas.

Despi-me das roupas velhas para aquele
primeiro encontro, o espresso denso e o
vento audacioso a nos tocar o rosto,
o sorriso tímido que brotou dos seus
lábios tensos, e não havia motivos.

Toquei em seu braço, caminho para
o beijo em suas mãos pequeninas, mas
com a pele de complexas vivências.

Meu respeito ali se fez presente porque
entendi que os caminhos do amor não
lhe foram propensos.

Repito, despi-me do velho para te encontrar
de novo... mãos depuradas das dores de quem
sempre viveu de coração aberto, pois, coragem
sempre foi minha linguagem e verdade meu
idioma predileto.

Hoje, pela manhã mascaro as ilusões...

Sobre a mesa o café quente à espera do gole
profundo, intensidade que eu escolhi viver.
É o trago forte que me acorda para a vida...
o morno não mais me mobiliza a alma para
as beberagens do corpo.

18 março, 2026

CARTOGRAFIA (Cacau Loureiro)


À beira do cais,

uma dama na noite,

à espera de um milagre...


As luzes da cidade

penetram seus olhos

como chuva que deságua na alma

em canções de espera.


O eco dos passos

acorda a aurora,

para que a esperança desperte

e sobreviva

ao sol escaldante dos exílios...


que não sacia a sede

da tua companhia copiosa,

feroz correnteza

que redesenhou destinos.


E então eu sou mar...


retemperando

os mergulhos profundos

de quem não compreende

as distâncias,


onde os portos

apagaram seus faróis

para sermos

náufragos de nós mesmos.


Sigo cega

nas noites abissais,

oceanos sombrios

feitos de tempestades e medo...


Águas altas, revoltas,

prontas a invadir o convés

dos sonhos,


engendrados como bússolas

de caminhos incertos,


de cartas à deriva

de uma cartografia extraviada.


Mas ancoro

na paisagem perplexa

dos silêncios,


e os rumores da noite

não me trazem sentido,

soam-me desconexos,


como vagas encobrindo a quilha,

golpeando o casco,

desestabilizando o lastro:


empuxos

que me afogam

em solidão.