Nos últimos dias, fui apresentada à obra de Angélica Liddell: que fascínio! A sua ideia de que o criminoso e o artista são os únicos que conseguem dar um destino à raiva me caiu à perfeição. E como é importante ouvir uma mulher da minha geração falando sobre isso, ódio e fúria, sem vergonha de admitir a própria agressividade, a ira como uma resposta legítima – e inclusive a mais adequada – à mediocridade do mundo! No seu curso “O problema da beleza”, soube que ela corajosamente aborda o “pacto com o canibal”, trazendo o caso de Issei Sagawa como uma metáfora extrema da liberdade. Isso me interessa pelas reflexões que venho fazendo sobre transformações do corpo para compor uma personagem – mas investigar sobre os limites da autonomia acerca do próprio organismo ou da própria dor é instigante, antes de tudo, filosoficamente. É neste ponto, junto com artístico, que Liddell exerce a sua coragem. E ela nos lembra que o artístico nunca foi o obediente ou o consensual.
O território da arte se estabeleceu como o das experiências mais ousadas e livres que a humanidade pôde inventar. Entretanto, a medíocre régua contemporânea (como a de outras épocas também: essa opressão não é nada original, nada criativa, embora a vigilância panóptica tenha se intensificado com o avanço tecnológico) instala uma voz superegoica estabelecida pronta a impor proibições. Mas quem supervisiona o próprio pensamento e não se arrisca sequer a manipular certas ideias – que lhe parecem censuráveis, repulsivas, violentas ou “erradas” – não está feito para a arte. A arte pressupõe a beira do abismo, o descontrole: esse é um pressuposto, ou seja, começa-se por aí, pela perspectiva de que tudo pode (pode ser pensado, cogitado, sonhado, até mesmo dito) – embora a concretização dessas possibilidades, sua materialização, sua feitura de fato possa ser inviável, esbarrando na lei, nos costumes, na falta de recursos etc.
Abdicar do pressuposto por prever a sua irrealização futura é cair num pensamento utilitário perverso, creio: como se só “valesse a pena” se movimentar em direção a um resultado, um pódio, e o movimento em si, o processo, se justificasse apenas com a culminância de uma obra (para ser exibida, publicizada, vendida). Liddell, como a maioria dos artistas, principalmente os do teatro, sabe que o processo artístico é muito mais importante que o produto: ele é a viagem, a descoberta, o prazer. É por ele que se faz arte, não pelo produto. O produto é uma consequência (que às vezes inclusive se quer mesmo adiar) destinada ao público, não ao artista, e por isso lhe causa aborrecimentos, incômodos burocráticos e coisas do tipo, que não têm nada a ver com o prazer criador.
Há um momento na entrevista (concedida a René Solis e disponível aqui) em que Liddell fala que gostaria de tornar a sua obra cada vez mais críptica, mais incompreensível – e isso mostra não somente como é a arte que lhe interessa, e não um produto artístico vendável ou “apropriado” a um ou outro público. Mostra, acima de tudo, a coragem do egoísmo: porque se propagou a crença de que a arte, sendo expressividade, seria necessariamente uma forma de comunicação – e, na verdade, não.
Nem sempre o artista leva em conta um destinatário ou quer um destinatário para o que está expressando. O processo artístico é tão enfeitiçado que pode ser autossuficiente, pode ter a sua máxima potência no enigma e na solidão, sem querer ser dividido, “partilhado” com alguém… aliás, a pretensão de partilha, de troca comunicativa associada a uma obra de arte é dificilmente ajustável. Não há troca, porque não há equivalências. Quando estamos diante de uma obra genial, podemos (se tivermos sorte, sensibilidade e algum preparo), experimentar dentro de nós certa faísca dessa genialidade – mas isso não é uma troca: não há nada mútuo. Como diz Liddell, só há a constatação da nossa própria insignificância, junto com o embevecimento grato por conhecer aquilo, por receber aquele presente esmagador, de que nunca saberemos desfrutar completamente. Constatar a existência de um gênio é como descobrir um milagre, um absurdo (Liddell menciona o jovem pianista Trifonov como exemplo): assim, no fundo, não há comunicação, porque não há troca equivalente, a partilha é impossível, e o que o público recebe são milagres, centelhas incompreensíveis que, na maioria, ficam desperdiçadas, como pérolas aos porcos.
Diante de tudo isso, como um artista não seria egoísta? Como escolheria depender de um público, da aceitação ou aplauso que viria vestido de retorno, quando na verdade o fim da obra está em seu início e em seu meio, a finalidade da criação se justifica internamente, pelo desejo e pelas descobertas? O resultado, por sua própria condição material, é limitado e, numa certa medida, infértil. O resultado só poderia ser mais gratificante que o processo se neste não houvesse imprevistos, ou seja, liberdade. Se a confecção de uma obra seguisse uma cartilha prévia (geralmente uma encomenda em conformidade com as expectativas da moda, para que a fórmula obtenha sucesso), realizar a sua construção seria tão mecânico que o elemento de novidade ficaria estranhamente deslocado para o depois. A recepção, por envolver pessoas diversas, traria uma mínima surpresa à obra – mas vamos admitir que esse caso não seria de arte, e a obra virou um produto qualquer, simplesmente variando na opinião dos que o consomem.
O conceito de Liddell, de “escrever como se já estivesse morta”, propõe o contrário de uma cartilha. E não se trata de um recurso machadiano: a morte não é uma estratégia literária para atingir um viés crítico. Essa hipótese abre licença não para um método realista, mas para todo tipo de experiência caótica que o artista jamais se autorizou a ter – justamente por querer seguir um “método”. Mas fingir a morte significa alcançar a liberdade absoluta em arte: “elimina o medo do julgamento, a preservação do eu e o compromisso com o futuro”, explorando unicamente a “aflição das palavras”. Este é um ato de terrorismo poético, diz Liddell, contra a intolerância e a mediocridade.
E – acrescento – não somente essa ação poderia levar alguém a acessar o pressuposto da liberdade absoluta em arte, como também se perceberia que não há outro lugar onde a liberdade absoluta se concentra, a não ser na arte.
Tércia Montenegro

Angélica Liddell em cena com Liebestod, em 2021.









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