"Carne do umbigo", "Bendita palavra" e "Substantivo feminino" são a versao impressa e bem acabada do que rola aqui. Quer me ter na sua mão em forma de livro e disco? Me escreve aqui!
Ontem, no caderno Zona Sul do Globo, eu conto um pouco do que amo no meu bairro, falo dos projetos e convido pro lançamento do livro, 4a feira, dia 12 no Olho da Rua. Espero vocês!
Pra ler a matéria e ver outras fotos lindas clica aqui.
Há um tempo encontrei uma carta que meu pai me escreveu quando eu nasci, e vim aqui exibir esse amor tão profundo que eu tenho a sorte de viver em casa. As caixas e gavetas continuam me presenteando: em busca de uma chave mágica que abre o móvel da minha cabeceira, onde com sorte se encontram documentos de que eu preciso muito hoje, achei outra carta, agora da minha mãe. Não tem data mas pelo assunto é do começo dos anos 2000.
Eu era uma menina de uns 22 anos, recém formada, tinha tido um único namorado e estava com medo de estar "meio fria" pro mundo. Hoje tô na beirinha dos 36, prestes a lançar meu terceiro livro, descobrindo que eu sou minha própria editora, que tenho experiência e estrada pra isso, arriscando como nunca, inventando um espetáculo no qual andarei sobre os ares, com um estoque de talas e tiger balm pras quedas que já sei que virão. Fica claro que a mulher que eu sou foi forjada por essa que aí escreve: "energia, aventura, risco e alegria e assim o equilíbrio". Essa é ela. Essa sou eu.
O amor anda comigo de mão dada desde que eu nasci, as cartinhas me acompanham desde lá e pra sempre, e eu só posso agradecer.
Carne do umbigo, meu livro novo, sai em novembro pela Editora Oitoemeio. Convidei pra escrever a orelha o super escritor e agitador e meu grande espalhador e amigo Marcelino Freire, mas nunca imaginei o grau de beleza com que ele ia me presentear. O impulso irresistível foi gravar, porque a prosa dele pede voz e eu não sei agradecer melhor do que isso.
Marcelino querido, então estou eu chorando num taxi a caminho de casa, eu de vestido de gala que na verdade é camisola chique presente da mãe, saindo de um baile no Cassino da Urca que não via bailes há 68 anos, eu no taxi de arranjo de cabeça vermelho de carnaval e echarpe espanhola borrando o rímel com tamanha beleza e fundura e fodideza do seu texto. Querido, como te agradecer? O que te dizer? Isso não é uma orelha, isso é um coração que pulsa. Que emoção ler. Estou mais do que tudo feliz de ter te convidado pressa tarefa missão trabalhosa que eu bem sei e portanto nada de desculpas por demora ou que tais, estou feliz mais que tudo por saber que cê me sente assim, e saber com as suas melhores palavras, nessa sua prosa poética premiável premiada derramada pulso aberto coração adentro. Caramba. Como dormir agora, meu deus?! Melhor insônia eu desconheço. Obrigada e meu melhor sorriso, Maria
Eu não gosto de futebol, mas não tenho estrutura emocional pra tragédias ao vivo, especialmente narradas pelo Galvão Bueno. Então depois do quinto gol da Alemanha eu peguei o carro e vim pra casa gravar esse texto do Leonard Cohen que eu terminei de traduzir hoje mais cedo. As ruas cheias de água da chuva forte e rápida, a noite que caiu súbita sobre o Rio. O rádio do carro dizia "a tristeza é senhora", "voa canarinho, voa" e "como vai você, assim como eu?". Na Gávea fogos de artifício estouravam - aqui é reduto de flamenguistas, afinal. Eu vesti alcinhas pretas e nenhuma maquiagem, já que o Leonard já tinha dito: "Não há mais palco. Não há mais ribalta. Você tá no meio das pessoas. Então seja modesto. Diga as palavras, passe a informação, saia de cena. Seja você mesmo. Esteja no seu próprio quarto." Agora na tevê amarelinhos choram dentro e fora do campo, passa Chaves no SBT. Eu vou ali fazer uma sopa. Quem quiser mudar de assunto clica aí embaixo, eu e Mr Cohen em "Como dizer um poema" nessa terça-feira histórica.
1. Eu não gosto de futebol. Das melhores coisas de morar sozinha depois
de muitos anos namorando e casada é não ter som de jogo em casa há quase
quatro anos. Descobri então que essa é a minha primeira Copa do Mundo
solteira no século 21, e que a depender de mim podem correr pernas
holandesas, italianas e croatas sem que eu me comova ou mova ou músculo
pra ligar a tevê.
Pra ler as outras nove: http://www.ornitorrinco.net.br/2014/06/10-consideracoes-em-tempos-de-copa.html
Entre pamonhas, cafezinhos e canjas minhas em shows dos amigos, já faz uns bons anos que eu, Álvaro e Táta namoramos a ideia de um recital meu no Da Casa da Táta. O dia finalmente chegou, e pra celebrar a alegria estou preparando dois recitais em um, abrindo com minha versão de alguns dos meus poetas favoritos e fechando com meus poemas, os clássicos e os novíssimos.
Teremos ainda a participação especial e afetiva da querida Cristina Flores, acompanhada por Dimitri Rebello e Eduardo Sande.
E como aconchego pouco é bobagem, a casa oferece uma comidinha deliciosa no fim da noite.
Hoje ano passado acordamos com sinos e fogos de artifício. Pela janela do hotel dava pra ver a multidão, a carroça da qual os fogos saíam, e a banda vestida a caráter, os padres e tudo mais. Domingo de Páscoa em Florença é pra impressionar até os ateus - que dirá eu, que amo rituais. Num trem dias depois, enquanto dormia minha irmã e o mundo passava derretido pela janela, nasceu esse poema.
Talvez porque vendo o mundo a gente vê que se carrega pra onde vai, e que tudo é sempre provisório, principalmente quando as malas são invisíveis.
Só por hoje é o lema dos Alcóolicos Anônimos.
É o meu. Porque a vida é hoje e só por hoje, sempre.
Quinta, dia 17, eu e Thereza Rocque da Motta convidamos pra Ponte de Versos comemorando os dois anos da nossa parceria com o relançamento do meu primeiro livro.
O substantivo feminino nasceu independente em 2003, logo esgotou a tiragem de mil exemplares e ficou fora do ar por uns bons anos até a Thereza me fazer esse convite de reeditar pela Ibis Libris Editora.
Convidei amigos queridos pra lerem esses que são meus primeiros poemas, e vou fazer pela primeira vez no Rio um recital grande misturando os clássicos e os inéditos. Parece loucura pensar que já tem mais de quinze anos que digo poemas por aí, já fiz recitais assim em Porto Alegre, em Recife, em Portugal, mas não na minha cidade.
Dez anos sem Tonho no mundo. Nem um dia sem ele no peito. É carnaval, eu ando vestida de bananas e hoje o sol se fez carne em purpurina. O afeto, que é eterno, ilumina a segunda-feira e a vida inteira. Saudades, meu amigo.
Hoje é dia dela, uma outra mãe que a vida me deu, eu que já vim com uma tão maravilhosa de barriga. Foi lá nos meus dezessete que ela me apareceu com suas palavras, sua voz, sua presença forte e feminina, dizendo esse poema no Parque Lage num Dia Internacional da Mulher. Completamente extasiada, fui falar com ela, eu não sabia que se podia dizer poemas assim, que um poema podia ser aquilo. Eu não sabia ali naquele primeiro instante mas a minha vida ia mudar pra sempre com esse encontro.
Ela estava sem livros na hora mas foi lá em casa na semana seguinte me vender um livro, nós duas na portaria do prédio em Laranjeiras, o livro comprido de capa laranja misturando poemas e contos, a dedicatória dela inventando o futuro: "Maria, seja esse verso acumulado aqui um companheiro seu. Que você goste e me venda a outros. Me ligue. Beijos, Elisa Lucinda"
Eu liguei, em lágrimas, depois de ler um conto chamado "Re-Luzia", dizendo que quando tivesse uma filha ia dar esse nome, ela me agradeceu emocionada. Anos depois fui ver seu espetáculo solo na Casa da Gávea, e um dia na PUC uma amiga anunciou: estou fazendo uma oficina de poesia falada com a Elisa Lucinda. Pirei. Me matriculei na próxima turma, e subindo as escadas do prédio dela no Leblon no primeiro dia de aula ela me diz lá de cima, sorrindo: "Maria, que bom que você chegou!".
Eu cheguei e foi pra sempre. Ganhei ensinamentos de palavras, de tons, aprendi poemas e temperos, usufrui da sua doçura e gargalhada. Virei sua aluna, sua professora assistente, sua amiga, sua filha e mãe também.
Obrigada Elisete, por me dar um sonho e um rumo. Feliz idade nova, saúde sorte e muita alegria pra você que eu tanto amo.
A série Admirada chegando enfim à sua origem. De Elisa Lucinda: "Aviso da lua que menstrua".
Todas as cartas de amor são ridículas, ele escreveu. E taí a prova de que as cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas - mesmo quando escritas por um poeta como Fernando Pessoa. Desconcertada de beleza e sorrisos eu fico cada vez que leio.