MANIFESTA PARCIALIDADE
O
Manuel, da Grande Loja, resolveu comentar desta forma o meu post acerca dos símbolos do totalitarismo:
“
manifesta infelicidade
No Quinto dos Impérios João Vacas escreve ...
O DN de hoje transcreve uma afirmação de Silvana Koch-Merin, deputada alemã ao Parlamento Europeu: «toda a Europa sofreu no passado em consequência dos crimes dos nazis. Por isso, seria lógico que os símbolos nazis fossem banidos de toda a Europa». E pronto.
Recorrendo ao mesmo critério, e admitindo que essa coisa do banimento de símbolos é factível (e não é contraproducente), lembro-me de mais qualquer coisa a juntar à lista de proscrições.
ao que justa dois selos como ilustração - uma com uma suástica e outro com uma foice e um martelo.
É uma declaração manifestamente infeliz e insensata. Goste-se ou não, o facto é que antes, e depois, da Revolução Russa, pesem os Estalines, e os Pol Pots deste mundo, sempre existiu uma componente ideológica mais ou menos abstracta, pacífica e "respeitável" do comunismo/marxismo/socialismo. Ora tal não se pode dizer, nem de perto nem de longe, do nazismo que, como doutrina, nunca foi dissociável da sua praxis. Só por isso o defendido pelo João Vacas é uma monumental disparate, um disparate que equivale não a demonizar o comunismo na pessoa da foice e do martelo mas sim a relativizar o nazismo. Esperava-se mais juízo.”
usa para este efeito um tom paternalista que nem enobrece o seu comentário, nem facilita a minha resposta. Talvez julgue que sei quem é. O que, manifestamente, não é o caso. Ou talvez creia que basta o ar de reprimenda para que me penitencie ou desdiga. Enganou-se duplamente.
No afã com que enunciou a tal "componente ideológica mais ou menos abstracta, pacífica e "respeitável" do comunismo/marxismo/socialismo", o Manuel esqueceu-se de ler o que escrevi.
Relembro: "Recorrendo ao mesmo critério, e admitindo que essa coisa do banimento de símbolos é factível (e não é contraproducente), lembro-me de mais qualquer coisa a juntar à lista de proscrições.".
Ora, o critério usado pela deputada alemã foi o de que «toda a Europa sofreu no passado em consequência dos crimes dos nazis.». Escapa-me - e é, decerto, defeito meu - em que medida o sofrimento invocado tem que ver com elaborações teóricas alegadamente benfazejas.
O Manuel omite a múltipla e milenar utilização da suástica, não esquecendo, curiosamente, o inegável vilipêndio que sobre ela hoje recai devido à sua identificação com uma das forças mais monstruosas que assolaram o século passado. No entanto, apesar de a foice e o martelo decorrerem directamente da revolução russa e de terem sido sempre utilizados no contexto igualmente monstruoso do sovietismo, optou por eximir o símbolo - relativamente recente, quando comparado com o anterior - do opróbrio que recai sobre o “socialismo real". Ainda que este sempre o tenha usado e seja para sempre com ele identificado. Prova bastante disso mesmo é a circunstância de os partidos pós-comunistas e eurocomunistas se terem visto livres dele, tal era o embaraço.
Entendamo-nos. Falava-se de crimes concretos e de símbolos com eles conotados. Não de teorias, tonalidades ou interpretações. Ainda que seja defensável a tese da natureza intrinsecamente perversa do marxismo. Já para não falar da constatação do fascínio leninista (teórico e prático) pela violência.
"Infelicidade e insensatez" é dizer que se leu o que não está escrito. Ainda assim, aconselharia o Manuel a apresentar as suas teses e avaliações convenientemente nuancées a homens como o polaco Wladyslaw Bartoszewski, que sofreu a prisão nazi em Auschwitz e a mesma sorte sob o jugo comunista. Ele lhe dirá, bem melhor que eu, o que pensa sobre as relativizações e a asséptica separação entre teoria e prática que preconiza.
Devolvendo-lhe a adjectivação, o desconhecimento da sua identidade impede-me de acalentar qualquer tipo de expectativas quanto ao seu juízo.
JV