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Ela vivia à mercê de dois irmãos interesseiros que passavam o dia todo trabalhando e quando chegavam no apartamento queriam que ela arrumasse comida, comprasse o jornal e consertasse o bolso de uma calça. Ele, em compensação, era um homem independente desde seus treze anos, tinha tudo com seu nome nas entrelinhas e estava sempre em torno de mil mulheres, que o queriam e o amavam, porém um vazio existia no seu peito e seu coração a qualquer momento explodiria diante dessa vida de momentos e novidades de plástico. Quarta-feira ele a viu na rua e sentiu um vento bom. Ela era diferente e irradiava uma força que sua gola rôle à altura do pescoço não disfarçava. Precisava dela e sua audácia o levou a convidá-la para um café. Ela lhe mediu dos pés à cabeça, agradeceu e entrou no elevador. Na quinta-feira, ele perguntou ao porteiro sobre ela e porteiro sagaz lhe deu o mapa, especialmente o número do apartamento dela.
Na mesma noite, ele tocou a campainha dela e ela de avental ficou ao pé da porta olhando aquele homem tão bonito e tão oferecido. Ele refez o convite e ela, misteriosamente, aceitou o convite, apenas um café e dois monentos de conversa. Foram até a galeria que ficava embaixo do prédio, numa cafeteria decorada com móveis dos anos 60. Um café, dois cafés, ele um terceiro café e ela uma porção de cookies de caramelo. Quando pediram a conta eram grandes amigos e promessas de se verem de novo. Ao chegar no apartamento, seu irmão que trabalhava no aeroporto, perguntou quem era o cara que estava com ela. Ela, timidamente, lhe respondeu como sendo um novo amigo. Seu irmão que avaliava sua resposta, apenas lhe afirmou que não queria vê-la se envolvendo com qualquer um, pois devorariam sua ingenuidade e de sobremesa sua integridade.
Na primavera, ele e ela eram os melhores amigos do mundo, mesmo que olhos alheios, especialmente dos irmãos dela que não aceitavam. Ele sabia que ela odiava filmes de terror. Ela sabia que ele levava moças no cinema com segundas intenções. Segredos eram confidenciados. Auxílios eram concedidos, principalmente quando ele pedia o celular dela para marcar um encontro com uma outra mulher. Defeitos e qualidades eram traçados e respeitados. Até que um dia, aos lençóis de um motel, ele enlaçado aos braços de uma mulher que conheceu na choperia e que agora dormia profundamente, percebeu que sua amiga era a mulher de sua vida e que aquelas companhias não eram mais um reflexo de felicidade e do amor que sabia que precisava.
Na manhã seguinte, ligou para ela e sem rodeios, declarou todo o seu amor e que queria casar com ela. Ela, do outro lado da linha, aceitou de coração aberto. O casamento aconteceu num dia de chuva de dezembro e passaram a lua-de-mel dentro de um cruzeiro. Agora estavam juntos e seus planos e sonhos [inclusive os mais bobinhos] eram tecidos e formavam um longo véu. Mas ela acabou percebendo os vícios dele e o quanto ele era mimado. Ele começou a perceber que ela gastava mais que podia e era extremamente perfeccionista, além de ser um tanto exigente. Se arrependiam de serem tão precipitados em casar, mas a amizade daqueles dois era tão verdadeira que não podiam se ver separados.
Em janeiro, enquanto ela fazia um vestido para a vizinha, sentiu um enjôo forte e seu corpo todo transpirava. Tocou seu ventre e sabia que seu laço com ele seria mais poderoso. Fevereiro, eles estavam no hospital. Ele fumava um cigarro, nervosamente na sala de espera, enquanto ela se desdobrava com as contrações de um bebê bem grande que queria vir ao mundo dela. Um choro fprte rompia o ar e uma corrente resistente enlaçou os dois. Passou a Páscoa e eles viviam com seu bebê numa casa aconchegante. Ela se sentia de todo realizada, pois seu bebê era engraçadinho e fofinho. Ele se sentia orgulhoso e se esforçava no novo emprego. Eles eram uma família perfeita! Dois anos se passaram e ela descobriu que não amava ele, mas se sentia presenteada pelo filho que ele lhe deu e uma vida tranqüila. Ele, enquanto almoçava no restaurante da empresa, percebeu o mesmo, mas tinha uma dívida com ela, pois ela o tinha salvado de uma vida falsa.
Numa madrugada, o bebê chorava por causa de uma crise de bronquite e ela ficou desesperada, pois ele tinha ido buscar um remédio e não voltava. Vestiu um roupão e saiu com o bebê nos braços. E perto da floreira do vizinho, estava ele sentado e totalmente bebâdo. Ela sentiu o maior ódio do mundo e o chamou. Ele percebendo que ela o chamava, disse algo desconexo, entrou na casa deles, subiu as escadas e se lançou sobre a cama. Ela apenas secou uma lágrima e sozinha, foi à Farmácia 24 horas e comprou o medicamento do bebê. Agora ela sabia que não poderia contar com ele nunca, mas teria que ser forte, pois ela tinha um bebê.
O tempo se passou e o peso da idade os acompanhava. Ela tinha se tornando a melhor mãe do mundo e tinha se tornando uma conhecida cozinheira e costureira. Estava sempre atarefada e todos a queriam bem. Ele tinha um bom cargo na empresa e era conhecido como um gerente exemplar, pois seu setor sempre promovia as melhores e maiores vendas da empresa. Seus subordinados gostavam dele, a ponto de convidá-lo para ser padrinho de seus filhos que nasciam. Ele sempre estava otimista e bem-humorado. Entretanto, quando os dois estavam juntos, comendo o jantar, sequer se olhavam. À dois, ela era exigente e cobrava demais dele posturas e contas. Ele bebia sempre, era grosseiro e impaciente com ela. O bebé, agora um garotinho, via tudo aquilo e entendia que seus pais eram diferentes, mas especiais.
No verão, eles foram nas bodas de ouro dos pais dela. Ele se animou e bebia com seus cunhados. Ela fingiu que não o observava, mas estava atenta, diante de uma conversa animada com suas irmãs e amigas. No auge da festa, o garotinho reclamava de sono e ela decidiu ir embora. Procurou por ele. Ele estava escostado numa árvore totalmente desacordado, pois sua animação o levou ao exagero. Por fim, ela pediu ao seu irmão que a levasse embora para a casa deles. Colocou o garotinho para dormir. Foi para a cozinha e se serviu de uma xícara de café. Percebeu, então, que sua vida era uma porção de areia e não era mais a mulher feliz que ansiava tanto ser. Queria embora dali e reconstruir sua vida, com seu filho e sem ele. Ele não significava mais nada e apenas lhe trazia tristezas e raiva. Na manhã seguinte, ele acordou num quarto abafado e percebeu que não estava em casa. Se sentou na cama e ajeitou os cabelos que lhe caiam no rosto. Uma dor de cabeça constante surgira. Sabia que tinha bebido nas bodas de seus sogros. Naquele instante observou-se e viu que estava estragando sua vida, inclusive da sua família.
Levantou-se da cama e saiu sem se despedir de ninguém. Quando chegou na sua casa, se deparou com ela e todas suas malas prontas. Ela estava indo embora e diante dele disse todo o rancor que por ele sentia e falta de significado que ele passava a ter. Ele ajoelhou-se aos pés dela e pediu perdão por tudo que fizera desde então, mas que não viveria sem ela e o filho deles. Ela lhe tocou os ombros, mas não o perdoou. Ele se jogou aos pés dela e chorava dolorosamente. Ela incisiva, se afastou dele de mãos dadas com o garotinho, saiu pelo portão da casa deles e entrou no táxi que a aguardava. Ele ficou no chão, sem reação alguma, apenas lágrimas. Duas semanas depois, a campainha toca e ele abre a porta, crente que ela tinha lhe perdoado e voltaria para ele. Era um oficial de Justiça que o citava para comparecer em uma audiência no Fórum. Ela queria se separar dele. Contratou um amigo como advogado. No dia marcado na intimação, a encontrou na sala de espera, trajada de laranja, rosto frio e uma advogada. Ele a cumprimentou e ela apenas assentiu com a cabeça. O oficial os chamou para entrarem na sala de audiência. Quando o juiz concedeu a ela a palavra, ela o destruiu alegando seu vício, sua falta de atenção e demais erros que ela anotava por anos de convivência. Agora apenas queria uma pensão, a divisão do que possuiam e que ele pudesse visitar o garotinho nas festas de fim de ano e fins de semanas alternados. Ele não sabia o que fazer e apenas concordou com tudo. No seu interior, ela se sentia péssima, pois antes de tudo ele era seu melhor amigo, mas não era o homem que a faria feliz e que ao lado dele viveria insegura. No coração dele, percebeu que durante esse tempo todo ela apenas tinha sido uma luz, que os anos apagavam devagar. Ele se sentia péssimo também, pois ela era sua melhor amiga, mas ela não era mais a mulher que se unira a ele e juntos faziam planos e se apoiavam.
Ao sairem do Fórum, ele apenas lhe deu um forte abraço e foi de encontro de seu garotinho, afagou seus cabelos carinhosamente e beijou-lhe a fronte. Entrou no carro de seu advogado e o carro lentamente sumia na avenida. Ela apenas sentia uma lágrima rolar de seu rosto. Não tinha palavras e ações agora, queria agora era refazer sua felicidade com a liberdade que provocou. O garotinho ao seu lado, sem entender nada, encostou sua cabecinha nos seus ombros de sua mãe, mas não conseguia entender os sentimentos dela. O garotinho só estranhava que não tinha um coração para amar e ter sentimentos. Dez anos mais tarde, o garotinho tinha se transformado num homem. Este homem decidiu abandonar tudo o que tinha, colocar algumas coisas numa mochila e com sua moto percorrer estradas desconhecidas, que um dia o levariam a encontrar o Amor e tantos outros sentimentos que ele sabia que existiam, mas que ele nunca soube sentir pulsar dentro de seu peito.
escrito por: Rafael Couto