31 de jan. de 2011

um poema de Marina Tsvetáieva



No céu azul os olhos fitos
Como exclamas:— Será tempestade!

Para o flâneur a erguer a sobrancelha
Como exclamas:— Será Amor!

Entre a indiferença cinza dos musgos
Assim exclamo: — Será verso!

1936, Marina Tsvetáieva
Tradução de Veronica Filíppovna

30 de jan. de 2011

. . .

na trilha do despertencimento
segue a sina dos seus

em busca dos céus

do sol

de si

. . .

o vento sopra
não há mais borboletas
só voam folhas

. . .

morta de sede
flor pequena se curva
e toca o rio

. . .

manhã de sol
brincam outros meninos
no rio que era meu

29 de jan. de 2011

Bashô (1)

Quietude —
O canto das cigarras
Penetra nas rochas.

impetus



céus
e coisas criadas seguem
em movimento
na revolução das esferas
— o asno titubeia
o bem e o mal ainda:-
montes de feno
dourados sob o mesmo sol
— oh! Buridan
que do ímpeto, a teoria
nos ensina: -
o século não te foi justo
ainda à espera
de quem melhor te traduza

música

música

música

quando

vou te ouvir outra vez

tocar

28 de jan. de 2011

. . .

cumprido
o ritual atávico
dos amanheceres
pássaro e dia seguem
pra não voltar

27 de jan. de 2011

atlântico mar

cantares atlânticos
palavras
areias que arranham
palavras
navios e cascos
palavras
vento vela sol
sargaços
palavras
palavras
palavras
abismo e plenitude
sal

23 de jan. de 2011

"a complexidade do simples"

Caros, a professora e doutora pela UFRJ, Eliane F.C.Lima, publicou e fez uma análise de alguns dos meus poemas e de minha poesia como um todo, no seu blog: Literatutra em Vida, "um espaço dedicado à produção literária sob todas as suas formas de apresentação: poemas, ficção, análise de textos e do mundo". Porque "literatura é uma das maneiras em que a vida se manifesta, visto que pessoa/arte é um binômio inseparável".

Um belo espaço que conheci recentemente e recomendo a todos. Eliane também escreve poesia e contos, publicados em dois blogs, cujos links se encontram no Literatura em Vida.

Um aspecto importante no trabalho de Eliane é a divulgação da poesia "de autoria de mulheres". "É urgente modificar o cânone, feito por e para homens". Muito bom.

Obrigada Eliane, abraços!

22 de jan. de 2011

outra vez o vento

vejo escamas
sobre as águas agora
seres abissais que se rebelam
ou vento
a me dizer - respira

20 de jan. de 2011

risco

1-

o grande risco do poema
é que ele é feito de giz
e não apaga dor

2-

o risco do poema
é feito de giz --
e não apaga dor



A poeta Sylvia Beirute publicou este poema em seu Blog: Uma casa em Beirute. A poesia de Sylvia é das melhores que tenho tido o prazer de ler na blogosfera e seu blog, um espaço de qualidade inquestionável, que convido todos a conhecer.

18 de jan. de 2011

Exercício 2

há sol
quase secos
telhados e ruas
olhos e almas chovem
ainda

(por quanto tempo?)

. . .

ando pela cidade desfigurada
já não sei mais quem somos

(eu e a cidade)

16 de jan. de 2011

. . .

quero a palavra pouca e rasa
mas quero

palavra

. . .

e se eu dissesse apenas
do que sei
e sinto

calava

expiação

I.

serpentes de barro
rios
de silêncio
rouca
a voz das águas
silencia

II.

ouve-se da vida
um uivo
lobos se esquivam
abutres sobrevoam
enquanto
cordeiros expiam

. . .

um céu de estrelas
sobre a terra encharcada
depois das chuvas

reflexo de lua
no que restou da rua

15 de jan. de 2011

. . .

das consolações do espírito
tão poucos provaram

e a fonte sempre tão próxima

águas barrentas

raso e manso
o rio da infância
agora transborda
enverga
as amoreiras
destrói o asfalto
que não havia
arranca pela raiz
as velhas
mangueiras
decepa
os lírios brancos
talvez
para sempre
é findo
o tempo da doçura
e da inocência
[... águas barrentas
fúria

14 de jan. de 2011

. . .

um coleirinha
no fio molhado dos meus olhos
canta sol

13 de jan. de 2011

chama

I

decifra-me palavra
que eu já não te decifro

as minhas as outras
as não proferidas

as que sangram feridas
que desconheço

II

as que tecem teias
de aranha

que uivam que cantam
que arranham

em arrastados erres
e engolidos esses

III

palavra
que sotaque te traduz

vozes da minha terra
ruído canção

lugar

em que a palavra era

IV

templo

som de uma estrela
crepitar de fogueira

onde te queimo ainda
palavra

chama por mim

12 de jan. de 2011

do milagre das ruas

passou anos
trancado em seu mosteiro
à espera do milagre
[ que não veio
que o milagre está nas ruas
tudo que é dentro
é solitário e pouco
[ que a vida é lá fora

11 de jan. de 2011

outro dia

a tarde dourada no campo de centeio
não diz das chuvas que virão
diz do sol
embora quase noite
diz do pão
embora as mãos vazias
diz de nós
na janela de outro dia
que já passou

10 de jan. de 2011

dois poemas - de Hilton Valeriano

PROMESSAS

Aquelas promessas não serão cumpridas.
Mas farão parte de tua coleção de esperas.
Aquelas promessas nunca se realizarão.
Mas constituirão o alento necessário
para que possas continuar a viver.

Serás para sempre um resto aniquilado
de esperanças

que se ergue em amor restituído.


CHUVA

ouvir a chuva
silenciar palavras
recolher sobras
diárias
da convulsão
humana

sentir a chuva
aproximar pessoas
acolher o tempo
desigual
endêmico

lavar as mãos
de quem só soube tê-las

fechadas


Hilton Valeriano - Poesia Diversa

preguiça

desejo de vida
o que me dá
quando acordo de madrugada
antes do sol nascer
pena
ter me tornado uma preguiçosa
e acordar sempre
quando já vai bem alto
o sol

coleção sumi-ê (I)


by casey shannon

8 de jan. de 2011

só chuva - só

noite de verão
chuva chuva – só chuva
e escuridão
nenhum sinal de vida
ouço apenas
o barulho das águas - só

alma

a alma do mundo grita
no mormaço dos dias rasos
na escuridão
das noites infinitas
no abandono
das dores terminais
no corpo
do homem que habita
desolada
depois de gerações ainda
aprisionada
que da eternidade
a que almeja sabe
tão pouco quase
nada

7 de jan. de 2011

Portal Cronópios - Literatura Contemporânea Brasileira

Amigos, quero convidá-los à leitura de alguns dos meus poemas da série Casa 11, Telefone 9, publicados hoje no Portal Cronópios. Sempre uma bela aventura mergulhar em águas cronopianas. E para quem como eu, admira a poesia chinesa, um pouco de Yu Xuanji - surpreendente. Abraços!

6 de jan. de 2011

ávidas mãos

A definição de belo é fácil:
é aquilo que desespera
Paul Ambroise Valery
ávidas mãos as da beleza
nem sempre puras:-
quando vazias desesperam

5 de jan. de 2011

química

pedaços de silêncio
dispersas
palavras
mistura marginal
in_solução
imiscíveis
precipitam:-
substâncias puras

4 de jan. de 2011

. . .

porque me perco
no labirinto estreito
dos silêncios
e só me acho
na trilha empoeirada
das palavras
antigas
(se é do silêncio
que preciso)

3 de jan. de 2011

dois poemas de Carmen Silvia Presotto*

Pisares

Existe um sono a que chamo silêncio

velho mapa
de onde voam meus pés
vento

em que me espelho momentos

existe um tempo em que desperto memórias
terras

em que calço meus rastros
fendas
onde soluço meus ossos.


Livre...

Redesenho o cotidiano
pontos
-----e tramas

- corda absurda -
me ouço em outros poemas
feito sussurro ao vento.


*Nascida em Sarandi, reside atualmente em Porto Alegre. Poeta, escritora, coordena o Projeto Cultural e Editora Vidráguas, autora de Dobras do Tempo, EncaiXes e Postigos, recém lançado pela Vidráguas, lindíssimo - como diz Schüler: "versos que saltam precisos, misteriosos, provocativos". Mais de Carmen, aqui, no seu blog: Vidráguas.

revistas eletrônicas (I)


1 de jan. de 2011

questão de tempo

quando chove
um desejo de não
chover
nos inunda
e quando faz sol
brilha
desejo de chuva
porque viver
parece mesmo
ser
uma questão
de tempo

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