28 de dez. de 2012

o homem carrega nas costas o fardo de uma era
das tribos, tambores
escotilhas dos vapores
dos barcos, as velas
das velas as bolhas nas mãos
ladainhas das procissões
de tudo que vive ou que sonha carrega pedaços
fiapos de sol nos dentes - de leite
na boca sem dentes, o amargo do café – ralo e frio
o homem se curva na beira do rio
para se ver inteiro, mas não se reconhece
espécie de mostro - remendos mal costurados
nos olhos dos peixes reflexos dos seus
abismos - mergulha

20 de dez. de 2012

me abriga o silêncio
e a palavra me obriga
: ofícios



19 de dez. de 2012

E quanto mais conheço os poetas, menos poeta me sinto.
Emilys, Teresas, Orides
que me redimam
em seus claustros, estranhezas e noites
mais
que escuras.
Contraditoriamente, lumes a me indicar
pegadas
por onde tento seguir
embora a venda
nos olhos. Embora a mata
fechada. Embora as chuvas. Intermináveis — e frias.



5 de dez. de 2012

o homem sonhava casas que se erguiam por si
e ninguém ao relento

(algumas giravam na rota do sol)

sonhava - águas azuis e campos
magnéticos

também sonhava simular o tempo
submetendo a matéria à exaustão calculada

viveu na rua – foi sombra
águas mornas em velhas garrafas sobre

enferrujados imãs

então
submetido pelo tempo – exausto – sucumbiu

matéria que era - num risco
mal calculado




26 de nov. de 2012

mundo que se fez deserto
onde nenhuma flor
ousaria nascer

nasceu : vermelha
desfiando lógica, códigos
e expectativas

e o deserto vibra
porque nela mora : a flor



17 de nov. de 2012

nênias, vindas das bandas
do oriente
envoltas
em espessas cortinas
de fumaça
ecoam pelo planeta
impossível
fechar-se em conchas
canto plangente
que atravessa tímpanos
e dilacera coração
(se não ouves - lamento)



10 de nov. de 2012

Conspiração

Vou construir um ninho, dentro do meu quarto.
Quando vierem os pássaros do silêncio
pedirei que cantem e que se alojem
entre os gravetos.

Somos frutos da mesma dor.

Tememos o esquecimento. Na minha blusa falta
um botão. Tecido em que tear a trama que nos
faz sangrar? Sobre a cadeira jazem feridas
cordas de um violino.

Tripas.

Convulsas entranhas. Vou abrir as janelas.
Por que? Não ouço mais os pássaros do silêncio
asas de cambraia. Feito as cortinas.
As paredes estão mortas.

Caiadas.

Um Paganini solitário descansa, distante
pendurado num prego enferrujado. Alto relevo.
Há uma conspiração lá fora. Fecho as janelas
e ouço. O piar de corujas.




5 de nov. de 2012

do que diria

como seria o último poema?
talvez falasse da fé na vida que segue
de um imenso cansaço
que já não se suporta
talvez dissesse do mistério da dor
e do estar / e ser / sozinho
há uma névoa densa que tudo encobre
e os olhos pesam
mil girassóis explodem lá fora
e o rio canta
uma canção antiga e sonolenta
(incerta tristeza nos olhos do meu cão)
e o som da máquina que tritura os dias
vai se calando lentamente

1 de nov. de 2012

PROJETO INSTANTE ESTANTE NA 58ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE



Na intervenção urbana INSTANTE ESTANTE, na Tenda de Pasárgada, distribuição de livros grátis aos visitantes da feira: Uma estante foi montada, com livros de Alice Ruiz, Sandra Santos, E.M. de Melo e Castro, Alexandre Brito, Leonardo Lobos Lago, Ricardo Portugal, Ricardo Silvestrin, Laís Chafe, Lau Siqueira, Cesar Pereira, Antonio Arroyo Silva, Wilmar Silva, Mario Pirata, Juliana Meira, Gilberto Wallace, Fred Maia e Nydia Bonetti.

*Projeto Instante Estante de Incentivo à leitura:
curadoria e produção: Sandra Santos

Coleção INSTANTE ESTANTE - Castelinho Edições
editores em Língua Portuguesa: Sandra Santos e Alexandre Brito

editor em Língua Castelhana: Leo Lobos

A Coleção Instante Estante é um projeto de incentivo à leitura da Castelinho Edições. O INSTANTE ESTANTE distribui livros novos, editados especialmente para o projeto. Os Livros chegam ao leitor gratuitamente, seja através da "Intervenção Urbana nas Capitais", seja pela distribuição em pontos de leitura e bibliotecas comunitárias.

As intervenções Urbanas do Instante Estante já distribuiram livros em Porto Alegre: 120 livros durante a 56ª Feira do Livro, em 2010; em Brasília: 120 livros no Verão Literatura Brasília, em 2011; em João Pessoa: 80 livros no Agosto das Letras, em 2011; em Belo Horizonte: 120 livros na Intervenção Urbana da Praça Sete, em 2011; em Porto Alegre: 120 livros no estande da Câmara Municipal, 57ª Feira do Livro, 2011; no Forum Social Mundial 2012: 120 livros no Acampamento da Juventude, 2012.São editados de 300 a 450 livros por título.

A Coleção lançará 18 Títulos na 58ª Feira do Livro de Porto Alegre, em 2012. Estarão na praça de autógrafos os poetas Alexandre Brito, Alice Ruiz, César Pereira, Fred Maia, Gilberto Wallace Battilana, Juliana Meira, Laís Chaffe, Lau Siqueira, Mario Pirata, Nydia Bonetti, Ricardo Portugal, Ricardo Silvestrin, Sandra Santos e Wilmar Silva (Brasil). Antonio Arroyo Silva ( Ilhas Canárias), E. M. de Melo e Castro (Portugal) e Leo Lobos (Chile).

* Via Sandra Santos


30 de out. de 2012

afinal
somos todos pedras
sonhando asas

27 de out. de 2012

22 de out. de 2012

a dor molda o poeta feito um oleiro
e o barro se contorce
entre silêncios, palavras e espantos
vaso de terra
que ao sopro mínimo de vento
canta:- nervos expostos
flor da pele

20 de out. de 2012

ah... que falta me fazes pai
com teus olhos de cinzas
verdes um dia (eu vi?)
lembro-me de deles assim
fumaça na ventania
mãos calejadas
com ponteiras de aço
herança do fogo
do fole, da forja
lascas de pedra que voavam
poeira branca
que corroeu teus dias
translúcidas membranas
e o ar tão farto - te faltou
no fim
[lembra das flores
de dente-de-leão no vento?
da roda d’água que cantava
eternidades?
dos sapos
na imensa cratera
com seus olhos de terra
e presságios de nunca mais?

19 de out. de 2012

fica evidente
que as esperas são frutos
das árvores das quimeras
[se amadurecem
são puro mel
quase sempre são flores
que o primeiro vento forte
carrega
ah... toda beleza vale
a labuta da terra
a mão ferida das enxadas
o cansaço do fim
dos dias

22 de set. de 2012

arrancar pedras com as mãos
ofício
que aprendeu com os seus
ainda menina
[brutas]
algumas são roladas
do velho raso  rio
depois  catalogar
retinas e epidermes são
caixas-papirus
onde as inscreve
com a habitual imprecisão
de quem cultiva arestas
e pontas 
ranhuras no quintal - e espera
surgir a bruta flor 

10 de set. de 2012

silêncios e espantos
quando se faz tempo
de não voar

tempo de não flor
não verso : é tempo

6 de set. de 2012

os dias iguais são ensaios
de eternidades

todos os dias são um só
dia

as dores: memórias
esquecidas

as alegrias

o canto tardio
do pássaro cego

os lírios

tudo
como num grande e fugaz

delírio

4 de set. de 2012

Galeria Rui Cavaleiro Azevedo - Série Nydia Bonetti 1

A Galeria Rui Cavaleiro Azevedo segue agora com nova série, baseada em alguns dos meus poemas - uma honra e uma alegria. Gratíssima, Rui.



pai, o que sentia
ao percorrer caminhos
que hoje são meus

insondáveis
todos os caminhos

31 de ago. de 2012

petrificada fera que se rebela
e se faz carne
olhos azuis e garras
e a pele
tigrada
o predador noturno
o grande
gato
Machúrias e Mongólias
Sibérias e Sumatras - Nepais
se curvam
e te veneram
enquanto
Balis e Javas te sepultam
te velam e pranteiam
o fim de uma raça

24 de ago. de 2012

dentro de mim
um arsenal de silêncios
armazenados
em silos
perfilados num campo
de girassóis
que palavra resiste
ao canto azul do pássaro
quando pousa
ao vento sul
que sopra
incansável e morno
quê?



22 de ago. de 2012

outra vez o pássaro a me rondar
poesia
sempre tão próximo
no fio
em frente aos meus olhos
a me contar dos voos
e dos gravetos
dos vermes
e das gavinhas
dos frutos. de flores
das águas. do lago. do rio
do poço
da poça barrenta. que por aqui
não há mar



21 de ago. de 2012

noite
onde a lua se esconde
nova?

descompasso no céu
e em mim

Revista Arraia PajéurBR - Poemantologia e Contologia

Editor: Carlos Emílio C. Lima
Organização das antologias: Carlos Emílio C. Lima, Cláudio Portella e PipolCronópios.
Projeto gráfico: Augusto Oliveira e Carlos Emílio C. Lima.


1. Lista completa dos poetas de todo o país incluídos na Poemantologia Portal Cronópios/Arraia PajéurBR:

BRUNO MOREIRA, EUNICE BOREAL, TOMAZ AMORIM IZABEL, ANDERSON PETRONI, MARCOS VINICIUS ALMEIDA, RENATA DE ANDRADE, ÂNGELA CASTELO BRANCO, NATHALIA RECH, OTAVIO RANZANI, ERYCK MAGALHÃES, VANESSA CAMPOS ROCHA, MÁRCIO ARAUJO, JOÃO NICODEMOS, NYDIA BONETTI, CLARICE LINDEN, WENDER MONTENEGRO, RAPHAEL BARROS ALVES, EMANUEL RÉGIS, ATHOS GUIOU, TALLES MACHADO HORTA, LUCAS DOS PASSOS, MARCELI ANDRESA BECKER, MARCELO DONATTI, FLÁVIA IRIARTE, CAROLINA CAETANO, WILSON TORRES NANINI, CHICO PASCOAL, GABRIELA MARCONDES, ISAÍAS FARIA, DARLAN M.CUNHA, GERSON CHAGAS, GRUPO POENOCINE: ARIANE ALVES DOS SANTOS, JONAS PEREIRA SANTOS, LUIS FELIPE DE LUCENA JUNIOR, MICHELL FERREIRA, PAULO SPOSATI ORTIZ E SIMONE SPILLBORGHS; MURYEL DE ZOPPA, ANA F., LÉO MACKELLENE, IVALDO RIBEIRO FILHO, DEMETRIOS GALVÃO, YLO BARROSO, MARCELO BITTENCOURT, RODRIGO VARGAS, REINALDO PIMENTA, CHICO SOMBRA, LUIZ VALADARES, KILITO TRINDADE, RENATA FLÁVIA, TITO DE ANDRÉA, CARLOS ALBERTO, TIAGO ALVES, ALUÍSIO MARTINS, AUGUSTO DE GUIMARAENS CAVALCANTI.



2. Lista completa dos poetas de todo o país incluídos na Contologia Portal Cronópios/Arraia PajéurBR:

TERE TAVARES, MAURO PAZ, VALTER FERRAZ,VERA HELENA ROSSI, RAFAEL SPERLING, ELEONORA DUCERISIER, PEDRO COSTA REIS, JOSÉ ANTÔNIO CAVALCANTI, MÁRCIA BARBIERI, LEANDRO MAYFAIR, LETÍCIA PALMEIRA, WILAME PRADO, FILIPE JARDIM,WALDEMIR MARQUES, EMÍLIA BARBÉS, UDO ...BAINGO, AFONSO JUNIOR FERREIRA DE LIMA, ALEX SENS FUZIY, DOUGLAS EVANGELISTA, ALEKSANDRO COSTA, DANIEL LOPES, LARISSA MARQUES, AMANDA VOX, CAMILA FORTUNATO, LUAN MAITAN, IVAN GUARDIA, WALTER SOLON, IGOR FARIAS, DANIEL MATOS, TAMARA COSTA, MIRTES LEAL, ÁLVARO DIAS CUBA, RONIE VON ROSA MARTINS, AIRTON UCHOA NETO, NINA RIZZI, JULIANA FRANK, ANDRÉIA DONADON LEAL, SUELI MAIA, MILENA MARTINS, PAULO MOHYLOVSKI, HUGO CREMA, EDUARDO SABINO, TIAGO BASÍLIO DONOSO, POTYGUARA ALENCAR, ANTÔNIO ALVES JUNIOR, GUILHERME COBELO, EDUARDO SIGRIST, MARCIO G. PERFETTO, JANA LAUXEN, BRUNA G. GALVÃO, SHEYLA SMANIOTO MACEDO, ADRIANO DO VALE, PEDRO COSTA, DANIEL FERREIRA, LUCINEIDE SOUTO, JONATAN DOLL, EDUARDO ESCARPINELI, GLAUCO LEANDRO, EDSON COELHO.

OBS: Matéria reproduzida do Portal Cronópios.

"Na revista Arraia PajéurBR, além das antologias, há uma entrevista e uma crônica inédita de Rubem Braga, o grande cronista da história de nossa literatura, uma entrevista também inédita com a escritora Hilda Hilst, uma antologia com 12 poetas contemporâneos do estado do Espírito Santo, uma reavalização da verdadeira natureza canônica do cordel, por Aderaldo Luciano, ficções inéditas de Jackson Sampaio, Rodrigo Garcia Lopes, Edvar Costa, Barros Pinho, Bráulio Tavares. Poemas inéditos de Antonio José Soares Brandão, Horácio Costa, Leo Mackellene, Alberto Pucheu, entre outros poetas. Um texto ocultista do célebre compositor e criador de instrumentos Walter Smetak, uma entrevista com o pintor peruano Juan Zapotec, e um caderno de pinturas desse artista plástico que ilustrou as capas da revista".

17 de ago. de 2012

sagrado e profano lugar
longe do Éden
perto de Hades
longo caminho até
o centro da terra
o fogo
o dentro de nós
o limbo
o pleno céu
azul
improvável não
impossível
mistério quântico — fé
razão
o que nos move afinal?
o quê?



16 de ago. de 2012

Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos)


Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos)
Coleção Poesia Viva
 Organização: Marceli Andresa Becker
Autores:
Daniel Faria, Diogo Cardoso, Gabriel Resende Santos, Jonatas

Onofre, Luciana Marinho, Marceli Andresa Becker, Nuno Rau,
Nydia Bonetti, Paula Freitas, Raul Macedo, Roberta Tostes Daniel,
Vasco Cavalcante e Viktor Schuldtt
Coordenação Editorial:
Claudio Daniel (Curador de Literatura do CCSP)
 Conselho Editorial:
Heloísa Buarque de Hollanda, Leda Tenório da Mota, Maria Esther Maciel,
Antônio Vicente Seraphim Pietroforte e Luiz Costa Lima
Projeto Gráfico CCSP: Adriane Bertini
Impressão Gráfica do CCSP

15 de ago. de 2012

percebe
que do teu lado há gente
morrendo
de dor. de solidão. de fome
pensa nas mães
sem seus meninos
perdidos
para nunca
mais
relembra o revés do parto
que o poeta cantou
pode chorar
então

14 de ago. de 2012

num jardim platônico, flores melancólicas
ninguém
a não ser o pássaro – livre como a flor
desfeita em pétalas
voa
e segue
o caminho do rio
sem medo
sem ninho que se retorne - sem
asas – sim, a flor
tão mais feliz do que ave qualquer do que
nós

9 de ago. de 2012

plana
por sobre cirros cabelos em cachos
brancos
delicadas franjas
flocos
de algodão
depois mergulha
na grande montanha de neve
em cúmulos
faz tempo
bom
e quando
vierem os nimbos – espera
as chuvas
virão
então aguarda
as nuvens do crepúsculo – estratos
horizontais
quase um véu
aprende a linguagem do alto
que tudo canta

8 de ago. de 2012

Meu encontro com o sagrado aconteceu bem cedo.
Menina ainda me dei conta
da força suprema que rege o universo
muito além
das fórmulas precisas
das incontáveis teorias que nos fascinam
e cegam
muito além
das teses filosóficas sempre tão vazias
que apontam para o nada — o absurdo de existir.
Há em tudo sentido
eu creio
no Deus desconhecido que se revela e se faz
homem
creio no Cristo, na sua hóstia consagrada
e me curvo
à bandeira do Divino quando passa
em procissão.
Creio
nos mistérios que não
se revelam — a não ser pelos olhos nublados
da minha fé.
Creio na Terra e seus rebentos
como eu — criaturas
e claramente posso ouvir um canto que não cessa
um mantra
águas do rio, vento
ecos e pássaros, bichos — música e vozes tantas
num eterno e atávico louvor ao Criador.

23 de jul. de 2012

céus
ávidos olhos
voam

21 de jul. de 2012

o poema retrata
do poeta

a face

tudo mais
são máscaras

falácias

18 de jul. de 2012

revérberos

vozes vindas da alma

invenções e memórias
fugas e delírios

revérberos
de outras vozes bem

mais antigas

repercute o poema
quando

bate

na pedra dos olhos
alguns

17 de jul. de 2012

Versais

laquear a madeira velha das gelosias
onde a moça se põe
ao entardecer

(ouço folhas de flandres
no tecer das horas
metálicas)

versar sobre o pôr do sol de uma vida

Versais

a escrita é mesmo desigual e o ser
é único

e a palavra

reata o ser à sua alma
ainda que

não sinta

um sustenido. um breviário. um verso

o capitão-do-mato me procura
a minha alma escura
na noite

se confunde

e só se encontra
no seu próprio quilombo

sem Zumbis

ouço tambores, cantos de guerra
uma dança

ao redor do fogo

um negreiro navio atravessa meu peito
e retorna

África

tenho saudades dos lugares
que não verei

um olho ciclope ainda me olha
o único

talvez

há uma pequena chance de amanhecer

16 de jul. de 2012

planto sicômoros

sempre-verdes folhas
em forma

de coração

beira de estrada
sombra

e cachos

de frutos bem
doces

15 de jul. de 2012

álamos, pópulos, choupos
importa serem belos
e amarelos

verticais estigmas
contra o azul absurdo

13 de jul. de 2012

na minha alma há
sim
um piano
(qualquer toque será
música)
re percutida sina
soar
à mata de onde veio

4 de jul. de 2012

um anjo sem asas
olhos que vertem pedras

de sal

estático
seu canto em pedaços

no chão

indecifráveis signos
um poema

talvez

30 de jun. de 2012

Poderíamos sair às ruas. Faz sol — imenso.
Poderíamos entrar no rio.
(Fosse tempo ainda de águas claras
e mansas).
Poderíamos cantar canções — antigas
de um tempo longe
quando
nossos mortos estavam todos bem
(vivos).
Poderia o tempo não ter passado — passou.

que estrelas e risos castos
que veia profunda
lembra? da sinfonia
das ventarolas azuis?
a garça, o lírio, amoras
lembra? da beira do rio?
era maio
manhã bem cedo. havia
laranjas na mesa. não era
ainda tempo de maçãs

28 de jun. de 2012

marcas de solidão grafadas no corpo-caverna
cinquenta e quatro ciclos
riscados — à lasca de pedra
sobre paredes frias
(dia após dia)
junto a símbolos outros — vermelhos
indecifráveis
criatura rupestre, que se escondeu do sol
mas vive a contar estrelas
e luas — pingos de água vindos da superfície
numa canção antiga telúrica-hipnótica
até que um dia - tudo - seja pedra

23 de jun. de 2012

o negro dessa veste — áspera
o véu que esconde a face
desconhecida — morte e vida são
mulheres
travestidas de transparências
e opacidades
verdades nuas
que nos afrontam
ladys godivas em seus cavalos
de fogo — galopam
rumo ao desconhecido
sob brumas espessas — ventania

19 de jun. de 2012

um rasgo de silêncio no som tecido à estopa
da cidade
e o sol. não mais apenas uma pedra
atirada
contra paredes mofadas
que parecem
chorar
Granadas
de Espanhas são - gelosias
uma canção em braile - em áspero ruído
é tarde
Andaluzias - só
nessa hora os gatos são - quase todos - pardos
parcos pedaços de rua
farta fatia de lua
e o zinco
do telhado estala. antes. da mudez fractal

16 de jun. de 2012

o foco. o abajur antigo
o limbo
o espaço entre
luz
e sombra
o lírio
na capa de um precário
caderno
onde
palavras
ao acaso riscadas
prenúncio
do que talvez. poema

15 de jun. de 2012

o escriba se lança como num precipício
homem de fibra. papirus. papel
são tantas tintas que as mãos vivem sujas
e os olhos ardem terebintinas
penas e mata-borrões
escrevedor antigo. vincos na pele. face
grafada em letras. facas e gumes
horizontais
sorvo da tua boca-palavra. palato. fala
que me alimenta. embora arranhe
línguas-gargantas
no meu silêncio te aguardo carta de amor
cartografia do verso-veia. via
coração

Galeria Rui Cavaleiro Azevedo - (2)


mulher tropical 7
o dia é só um esboço ainda do que talvez não seja
telas em branco, tantas
outras são cores abstratas
puro concreto á vezes se impõe
viver é mesmo arte. que seja:- pintura ou palavra
um barco à vela. vento
ao acaso

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