Thursday, May 19, 2016

TrĂªs poemas para Catarina


(desenho de José Dias Coelho)

CATARINA EUFÉMIA

O primeiro tema da reflexĂ£o grega Ă© a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grĂ¡vida porĂ©m nĂ£o recuaste
Porque a tua liĂ§Ă£o Ă© esta: fazer frente

Pois nĂ£o deste homem por ti
E nĂ£o ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calĂºnia
E nĂ£o serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguĂ©m nĂ£o recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e nĂ£o somente a fĂªmea
Eras a inocĂªncia frontal que nĂ£o recua
AntĂ­gona poisou a sua mĂ£o sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua

(Sophia de Mello Breyner Andresen)


RETRATO DE CATARINA EUFÉMIA

Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nĂ³s e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.

Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da lĂ­ngua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.

Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.

Meu amor. Minha espiga. Meu herĂ³i
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.

(José Carlos Ary dos Santos)


CANTAR ALENTEJANO

Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
BaleizĂ£o a viu morrer

Ceifeiras na manhĂ£ fria
Flores na campa lhe vĂ£o pĂ´r
Ficou vermelha a campina
Do sangue que entĂ£o brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto nĂ£o findou
Quem viu morrer Catarina
NĂ£o perdoa a quem matou

Aquela pomba tĂ£o branca
Todos a querem p’ra si
Ă“ Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ă“ Alentejo esquecido
Inda um dia hĂ¡s-de cantar

(José Afonso)

Thursday, May 05, 2016

Sonhei contigo...


Sonhei
contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes, tu a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicĂ§Ă£o a
esta palavra. É verdade o sonho
poderĂ¡ ter feito com que, nesta
rarefaĂ§Ă£o de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituĂ­sse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lĂ¡bios com o rebordo desta chĂ¡vena
de cafĂ© jĂ¡ frio. EntĂ£o, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, Ă¡gua, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba Ă  transparĂªncia
da fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidĂ£o nĂ£o seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aĂ­, e estar contigo
mesmo que sĂ³ o silĂªncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.


Nuno JĂºdice