(desenho de José Dias Coelho)
CATARINA EUFÉMIA
O primeiro tema da reflexĂ£o grega Ă© a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grĂ¡vida porĂ©m nĂ£o recuaste
Porque a tua liĂ§Ă£o Ă© esta: fazer frente
Pois nĂ£o deste homem por ti
E nĂ£o ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquĂssimo mĂ©todo obĂquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calĂºnia
E nĂ£o serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguĂ©m nĂ£o recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e nĂ£o somente a fĂªmea
Eras a inocĂªncia frontal que nĂ£o recua
AntĂgona poisou a sua mĂ£o sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
RETRATO DE CATARINA EUFÉMIA
Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nĂ³s e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.
Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da lĂngua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.
Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.
Meu amor. Minha espiga. Meu herĂ³i
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.
(José Carlos Ary dos Santos)
CANTAR ALENTEJANO
Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
BaleizĂ£o a viu morrer
Ceifeiras na manhĂ£ fria
Flores na campa lhe vĂ£o pĂ´r
Ficou vermelha a campina
Do sangue que entĂ£o brotou
Acalma o furor campina
Que o teu pranto nĂ£o findou
Quem viu morrer Catarina
NĂ£o perdoa a quem matou
Aquela pomba tĂ£o branca
Todos a querem p’ra si
Ă“ Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti
Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ă“ Alentejo esquecido
Inda um dia hĂ¡s-de cantar
(José Afonso)












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