quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Perto de mim, ali mais ao lado, está uma miúda estendida ao sol, na sua toalha. Banhou-se ainda agora, escorrem grossas gotas na sua pele dourada, queimada. É muito mais nova que eu, deve ter uns dez anos a menos, mas tem já corpo de mulher feita. 
Atrai-me, a pele tom de caramelo, o corpo seco e bem desenhado, a pose esbelta de quem sabe que atrai. 
Ao mesmo tempo, repugna-me. O tempo desperdiçado ao sol, indolentemente, em prol daquele tom de pele. Os brincos que a enfeitam, trazidos para o local errado. Está longe demais para que eu - míope - lhe veja a maquilhagem.

Mas o que me prende a atenção nela não é nada disto; não há na moça nada de errado, tanto quanto posso daqui averiguar. É antes que eu encontre sempre pretexto para não gostar das coisas.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Its still of you that I dream

Dans un sommeil que charmait ton image
Je rêvais le bonheur, ardent mirage,
Tes yeux étaient plus doux, ta voix pure et sonore,
Tu rayonnais comme un ciel éclairé par l'aurore;

 Tu m'appelais et je quittais la terre
Pour m'enfuir avec toi vers la lumière,
Les cieux pour nous entr'ouvraient leurs nues,
Splendeurs inconnues, lueurs divines entrevues,

Hélas! Hélas! triste réveil des songes
Je t'appelle, ô nuit, rends-moi tes mensonges,

Reviens, reviens radieuse,
Reviens ô nuit mystérieuse!

domingo, 9 de outubro de 2016

Não me pertenço a mim próprio

O meu nome foi-me dado pela minha mãe e pelo meu pai
Imposto sobre mim como coroa
Um rei, nem de mim próprio que não escolhi
Antes ser Paulo, ou Raimundo, ou outra coisa qualquer.
Sou dono e senhor de um nome
Comum a tanta outra gente, homens e até mulheres
Um nome, que se faz som na boca dos outros.
Um som gutural como outro qualquer, só que sobre mim.

Foi-me imposto um carácter, também.
Impôs-me Torga que fosse filho por metade dos meus pais
E por outra metade da terra.
Não sou de mim, sou de tudo menos de mim.

Pertenço ao meu trabalho, ao qual dou o meu sol.
O dia a ele pertence, sobra-me a noite, que me encontra
Tal e qual a solidão me deixa.
 A noite vem e passa, e logo o dia que não é meu.
A todos pertenço, sem que a ninguém me dê.

Pertenço aos meus pais, à terra que não chamo minha,
Ao meu patrão, aos meus compatriotas, à minha solidão
Essa sim, minha.
E um dia quando tiver filhos, se os houver,
Imporei sobre eles um nome sem que eles o escolham,
Tentarei adivinhar no choro se concordam, querendo por bem não
     [lhes impor à força o que me impuseram a mim

Não pertenço a mim, nem a ninguém que me queira realmente.
Querem-me apenas pedaços; a identidade, as vontades, o sol e a escuridão.
E eu atravesso o tempo,
Finito, sei-o,
Deixando que levem pedaços de mim, porque a mim não pertencem,
E aprendendo a largar outros, aos quais me não deixo apegar
Por saber que mais cedo ou mais tarde alguém os quererá e mos
     [tirará porque não são verdadeiramente meus.

 João de nome, rei de um nada que sou eu.

terça-feira, 15 de março de 2016

É quase trágico que quando me magôo, vá ouvir Sassetti. Escuto a música de quem sucumbiu à própria dor para sarar a minha. É quase poético. Faz dele quase um mártir. 
Mártir para que?
Dizem-me que sou optima pessoa, por uma série de razões que reconheço serem válidas. Porque tenho cabeça, porque sou sensível aos outros, porque compreendo e sei acarinhar quem precisa.
Oiço as palavras como se me sentasse em frente ao toucador, e quem me fala é o espelho. Eu oiço, e o meu reflexo traduz, deturpa. 
Sou optima pessoa, porque deus me deu intelecto para perceber o que vejo, para ver o que não quero. Porque sou sensível as dores dos outros, e já agora à de ser quem sou. Porque compreendo e me condôo (con-dôo, de condoer, de sentir dor com alguém). Porque sei acarinhar.
Uma merda, dou muito mimo, mas quem precisa de mimo sou eu. E por isso sou uma merda.

sábado, 29 de agosto de 2015

Era rapaz de pouco sair. Fazia-o pelas saudades dos amigos, e deixava-se arrastar para os sítios com eles, mas não se sentia compelido a isso. Bebia moderadamente nos cafés e nos bares, socialmente, o pouco que bebia em casa, era por ritual. 
Um dia cruzaram-se com um outro grupo, e os amigos apanharam conversa com eles. No meio desse grupo havia três raparigas, e ao longo da noite, elas foram ficando enquanto o resto do grupo se ia esvaindo, lentamente. Outros amigos, de uns e de outros, chegavam e partiam. Ele continuava ali; observava muito mais do que participava. Não o podia negar, sentia-se alienado naquelas situações. Não por sociopatia, apenas por desinteresse. Simplesmente, não lhes via propósito. 
A certa altura, dirigem-lhe a palavra, ele responde, uma das raparigas intromete-se, e acende-se uma certa picardia. Uma delas sugere que talvez ele fosse tímido com as raparigas. 
Nesse exacto instante desperta nele um sarcasmo incontrolável, o lado sardónico que a noite despertava nele, que os outros despertavam nele. 
“Acho que tens razão. Nunca fui tipo para engates, e sempre que alguma me dirige a palavra como tu fizeste, dispara-me o coração e suo das mãos em bica. As namoradas que tive (e foram muito poucas) acho que foi por pena que estiveram comigo, e tive quase que lhes implorar, que nem um miserável, que me dessem alguma atenção. Mas que é que eu estou a dizer? Eu sou um miserável. E realmente nenhuma ficou muito tempo. Acho que essa parte teve que ver com eu ser mau na cama. Comigo, lá é tudo muito pequenino, muito tímido, muito com medo de agitar as águas. A maioria — aliás — todas!, se levantaram e foram embora a meio, ofendidas com a minha mediocridade, a praguejar. Todas menos uma, mas essa acho que adormeceu, nem sei bem.” 
Ficaram todos de olhos postos nele, abismados. Falara mais, de rajada naquele momento, do que no resto da noite. A que lhe falara, riu-se, nervosa, e abriu a boca para falar. Mas ele cravou os olhos nos dela, fez por se aproximar, num gesto quase imperceptível, uns meros milímetros, e disse-lhe devagar, “se cá cais, não queres outra coisa”. 
Como se nada tivesse acontecido, todos sacudiram o torpor do constrangimento e continuaram a conversa apressadamente, esforçando-se por ultrapassar aquele momento. Todos menos ela, que continuava presa ao olhar dele, que a não deixara ainda fugir. 

Nessa noite, gemeu, gritou, revolteou-se e roeu a fronha da almofada como nunca antes na vida havia feito, nem nunca mais haveria de o fazer.
The admirable capacity to put a life on hold. A life that doesn’t belong. Never did. Not to oneself but to no one. A life like a waif. A waif. A stray dog, out of some car’s trunk, never to return, forever to chase every trunk, wishing for a car to slow down but never stop. A car to imagine its own, even if it can never get even close to it. A forever-closed trunk lid, to bark to, to stare at.

What a remarkable capacity, to pit a life on hold, waiting. Not to depart, just because. To sit in the station waiting for a train to wait for its one passenger, and not leave while it is no aboard. Not moving to another train station, not ever thinking it could be a bus instead. Or a boat. Or nothing at all.

What a marvellously rare capacity, to buy tickets and never aboard the ship, to watch it sail, and secretly feel the need to buy more tickets and keep watching ships set sail off the port.

Wonderful capacity, useless nonetheless. To ever wait, never depart, and still believe deep inside, one day, life will wait by that life’s side.

What a stupidly marvellous, at the verge of extinction, dying breed, already rotten — even while still alive — stupendous capacity.



Worth of a museum.



Written in paper, no idea when.
 Probably a long time ago, by the yellowish tone
the paper has, no

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O tamanho do mundo interior de uma pessoa mede-se pelo tempo que essa pessoa consegue estar sozinha.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Fumo, sozinho, ao relento, debaixo de um céu encoberto. Estou farto, cansado, não há estrelas para mim, hoje.
Arrasto o cigarro no chão, com ímpeto, com rigor, num risco recto, perfeito, exímio. Espalham-se as brasas na pedra. Um céu estrelado no chão, ígneo. Tão meu, tão para mim.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Era tão bom ter uma memória melhor. Eu sei que sei coisas, mas não me lembro delas. No outro dia, começámos a competir, eu e uma amiga, a ver quem conhecia mais bandas, e eu perdi. Não porque não conhecesse todas as que ela me mostrava, mas porque não me consegui lembrar de nenhuma para lhe lançar a ela. E eu sei que sei, mas não me lembro.
Sinto-me velho, gasto.
A minha auto-estima anda de rastos.