12 setembro 2007

OS POETAS


Nunca os vistes,
Sentados nos cafés que há na cidade,
Um livro aberto sobre a mesa e tristes,
Incógnitos, sem oiro e sem idade?


Com magros dedos, coroando a fronte,
Sugerem o nostálgico sentido
De quem rasgasse um pouco de horizonte
Proibido...


Fingem de reis da Terra e do Oceano
(E filhos são legítimos do vício!)
Tudo o que neles nos pareça humano
É fogo de artifício.


Por vezes fecham-lhes as portas
- Ódio que a nada se resume -
Voltam depois, a horas mortas,
Sem um queixume.


E mostram sempre novos laivos
De poesia em seu olhar...


Adolescentes! Afastai-vos
Quando algum deles vos fitar!



Pedro Homem de Mello

02 setembro 2007

GINSBERG MORREU



Caos desordem tumulto
geometrizados pela polícia
vigiando as plaquetas sanguíneas do hábito
assim a vida se consente
para uma técnica de precário existir
não para o mergulho no vulcão

sabe-se aliás que o vulcão
não rumina aquela chama definitiva
da lenda de Empédocles
vulcão anestesiado em realidade virtual
é o que nos pode oferecer
este tempo de camélias nado-murchas

clamámos em tempos recentes
por "mais luz" pensando auferi-la
sem que dela o gerador não fosse
o dom conseguido em assumida melancolia
ousámos alegria sem espaço próprio
e lográmos dela o simulacro fantasmático

vulcão estropiado
destroços de terra gretada de vazio
mas vazio sem a paixão do seu eco desdobrado
o "horror económico" alguém escreve
apenas a mãe-pelicano arrancando ao peito próprio
o alimento derradeiro para os filhos

já não podemos soltar o "uivo"
lobos criados em cativeiro
e postos à deriva na floresta
de turistas incêndios e outras devastações
lobos perdidos sem referências
nem códigos de antiga altivez solitária

no fim de contas esse "uivo"
nunca passou de ténue miar
de gatos familiares
hoje ronronam uns velhos e lustrosos nos sofás
outros conformados estão com o rato como presa trivial
o maior número enganou-se no beco e não voltou....

Levi Condinho

Nota: Talvez dos poucos poetas portugueses na senda da tradição beatnik (beat generation). A sua escrita está cheia de alusões ao jazz e à música clássica. Nasceu em Alcobaça em 1941 e foi para Lisboa em 1972. Foi jornalista, cronista, empregado bancário (hoje na na reforma) e tradutor. Este poema foi-me indicado pelo poeta, por contraponto a um outro seu mais antigo que aprecio e que oportunamente publicarei aqui.

27 agosto 2007

POEMA DOS BRAÇOS INÚTEIS



agora só tenho braços
para cruzar perante o irremediável
ou segurar esta ânsia de chão
que me comprime a nuca

souberam guardar tesouros imperecíveis
velar o sorriso por dentro do teu sono
e a nebulosa que te faz sonhar
julgaram preservar dos cardos
a seda do teu suave existir
empreenderam mil lances de aventura
detiveram o emurchecer das tardes
ansiaram a enseada do teu peito

foram escrínios de algum sibarita
lianas trepadeiras e gavinhas
apetecidos tentáculos

deles voaram aves peregrinas
como dos bolsos dos ilusionistas
fizeram brotar fontes em lugares
secretos do teu corpo ou da tua alma
ambos donos do mesmo lago
ambos perdidos na mesma água
esbracejámos na aflição do prazer
para mais depressa soçobrarmos

de que servem agora
os braços e estas mãos e estes dedos
e quem foi dono deles e sonhou
de ti ser dono ao menos uma tarde
uma efémera tarde como quando
julguei possuir o mar e a eternidade
só por ter nos meus braços os teus braços?

O mar que me cuspiu nos olhos míopes
não quer ser possuído mas possuir-me
e a eternidade lenta e paciente
já me exige o meu corpo mutilado
dos braços
dos abraços
e de ti...
.
.
Anthero Monteiro
.
Nota: Há já muito tempo que se justificavaa inclusão, neste blogue, de um poema deste poeta e caro amigo. Um abraço!

17 agosto 2007

RECORDAÇÃO


Eu bem sei
Que rodo em muitas esferas
E não sei
Por onde me levas, poesia.
Quando vou,
E não encontro ninguém,
Tenho medo do que sei:
Um filho de sua mãe
E seu pai,
Ou algum longínquo avó,
A quem um poeta sai.
Será também o Deus da infância
E a árvore sagrada
De frutos proibidos,
Na fragrância
Com que rasguei meus vestidos
E não retirei os ninhos...


Enchi de rosas a terra
E levo nas mãos espinhos...!


Afonso Duarte

26 julho 2007

QUEM ANDA NOS MEUS OLHOS...


Quem anda nos meus olhos
A querer salvar o mundo
Com espadas de lágrimas?

És tu D. Quixote, e vou matar-te...!

Quem anda na minha sombra
A arrastar a armadura negra
Do Cavaleiro da Resignação?

És tu D. Quixote, e vou matar-te...!

Quem anda na minha alma
A querer estrangular gigantes
Com mãos de adormecer lírios ?

És tu D. Quixote, e vou matar-te...!

Quem anda na minha ira
A enterrar punhais de solidão
Nos monstros dos Desvios Nevoentos?

És tu D. Quixote, e vou matar-te...!

Quem anda no meu sonho
A ressuscitar filhos mortos nos regaços,
Para morrerem outra vez de fome?

És tu D. Quixote, e vou matar-te...!

Quem anda na minha voz,
A iludir-me de clangores de peleja
Na cidade dos inimigos trocados?

És tu D. Quixote, e vou matar-te...!

Sim, matar-te
Para nunca mais sentir na cara
O frio de lâmina das tuas lágrimas

E ficar diante da vida,
Terrível e seco
De mãos nuas - à espera de outras mãos de algum dia,
Suadas da camaradagem do mundo novo...!


José Gomes Ferreira

24 julho 2007

ANJO NEGRO


Meu anjo negro...
Fica comigo, que eu ficarei contigo...
Cobre-me com as tuas asas,
Até que eu adormeça no teu colo aconchegante,
E faz-me repousar do meu esforço inglório
De buscar o longe e o distante.
Mata no teu seio o meu desejo errante,
Que não quero ter sede nunca mais...!

Desnuda-te, para mim...
Reduz a nada os teus mistérios,
Até que te possa conhecer, enfim,
(e a todas as curvas do teu corpo)
Sem adereços nem falsificações.

Ah, meu anjo negro...
Adoro quando sorris,
Mesmo se o olhar é maroto e malicioso.
Adoro contemplar, à socapa,
O teu braço bem talhado
E as curvas do teu ombro sedoso...

Conheço-te pelo cheiro, sabias?
E observo, um a um,
Os esgares dos teus lábios macios e molhados,
Capazes de me matar a sede de uma só vez.
E por debaixo da roupa, julgo distinguir as formas
Dos teus seios bem delineados,
Com suas extremidades arredondadas...

Ah meu anjo, meu anjo negro!
Não sei quem és, nem de onde vens.
Só conheço os gestos do teu olhar
Que se prolongam em momentos vagarosos,
Só sei do teu peito vigoroso e ondeado,
Dos teus ombros e braços sedosos...!
Tudo o resto, desconheço...

Ah, meu anjo negro e acridoce !
Não me abandones... dá-me, pelo menos, o teu desprezo.
Nunca me prives da tua presença,
Deixa-me dormir na tua noite,
Para que não acorde nunca mais,
Afogar-me de uma só vez na tua mente,
Nas suas paisagens áridas, irreais !

Vem meu anjo, meu anjo negro!
Penetra-me, penetra-me mesmo se por capricho,
Deixa-me ficar ao menos o teu gosto,
Que eu me encarregarei de o tornar mais ácido
...................E, quem sabe, envenenar-me...!


Luis Beirão

19 julho 2007

ELOGIO DO AMOR


Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro.
.
Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito.

Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.

A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.

Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "Tá", "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra.
.
O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.

Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra.
.
A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

O amor é uma coisa, a vida é outra.
.
A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
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A vida é uma coisa, o amor é outra.

A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também...!


Miguel Esteves Cardoso
.
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Nota: Agradeço a alguém muito especial a possibilidade de conhecer este belíssimo texto. Muito sinceramente, e sem entrar em mais pormenores. Obrigado!

12 julho 2007

NOTAS, ACONTECIMENTOS & EVENTOS XIII

Quarta, dia 18 de Julho, pelas 21:30, Clube Literário do Porto - Porto

Sessão mensal das Quartas MalDitas, dedicada desta vez ao poeta Cesário Verde, com narrativa, diálogo e debate sobre a vida e obra deste poeta e leitura de poemas pelos malDitos membros da tertúlia.

10 julho 2007

CARTA AOS MORTOS


Amigos, nada mudou em essência.
Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há recordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.
Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.

E cada geração , insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história...!



Affonso Romano de Sant'Anna

04 julho 2007

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO


Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.
.
Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.
.
Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.
.
Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...
.
Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.
.
Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.
.
Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.
.
Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro
.
Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
. . . . .e a esperança reproduz-se.
.
.
Egito Gonçalves

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