Se o meu avô fosse vivo faria hoje 96 anos. O meu avô Zé...
Fez todo o sentido para mim quando a professora ensinou que avô se escrevia com acento circunflexo porque os avôs usavam chapéu! O meu usava! O meu avô andava sempre com o seu chapéu preto na cabeça, quase só o tirava para dormir.
Queria tentar explicar como ele era, pensei que ele merecia a homenagem, mas não sei se vou conseguir...
O meu avôzito era assim... Era calmo, era muito pacífico, era mesmo a paz em pessoa. A minha avó, pelo contrário era super activa, sempre a pensar e a fazer imensas coisas. E ele era a sua base, era talvez o seu chão, era o seu companheiro, enquanto que ela era tudo à volta dele.
Tinham 12 anos de diferença! Um dia alguém terá brincado com ele "ó Zé, andas a meter-te com a rapariga?", e ele negou, pois claro, ela era uma miuda. Afinal...
O meu avô adorava a sesta depois do almoço. E podia ir dormi-la aos sitios mais estranhos, onde estivesse mais fresco ou mais quente, conforme a época do ano. Tal como adorava o seu chapéu, um copito de vinho ao almoço e uma sopinha logo pela manhã.
Era simples, mas era querido por todos. E tinha um grande coração.
Em determinada altura eu fui operada, teria uns 14 anos. Ele não me foi visitar a Coimbra; a viagem ainda durava um pouco e ele não era muito dado a hospitais (a primeira vez que foi ao médico já teria mais de 70 anos). Mas quando eu cheguei a casa (à nossa casa) ele estava à minha espera à entrada... E quando me viu começou a chorar de felicidade! Nunca me esquecerei disso, do carinho que demonstrou ter por mim.
Era assim o meu avôzito. Era isto e muito mais. É muito mais para mim, tenho pena de não o conseguir transmitir.