Terminado o primeiro capítulo do Ensaio. Um mês para escrever quinze páginas… Mas Pilar, leitora emérita, diz que não me saí mal da empresa.
Poema do dia
https://www.assirio.pt/produtos/ficha/poesia/20862808
2025-08-30
[Ama como a estrada começa]
Ama como a estrada começa
Mário Cesariny (1923-2006)
Poesia)
A senhora das águas televisivas
30 de agosto de 2001
Chamemos “PAP”, para simplificar, e porque é mais ternurento, ao “panorama audiovisual português”.
Eduardo Cintra Torres já traçou há semanas um quadro eloquente. Limito-me a sublinhar. No atual estado de coisas, são evidentes os sinais da crise da SIC (projeto dimensionado para um domínio sem partilha, económica, reestruturações internas, vaga de demissões, sucessão de conflitos). Mas o principal problema é que a SIC se verá forçada a alinhar a sua programação em função do paradigma estabelecido pela TVI — tal como anteriormente a RTP se vira forçada a alinhar a sua programação em função do paradigma da SIC. Nestas coisas, tudo está em saber quem é o dono do imaginário dominante. Neste momento, no horário nobre (e é esse que tem garantido o afluxo de publicidade, em tempo de vacas magras, que se desloca para a TVI), a TVI domina com concursos e séries portuguesas. Nesta esfalfante corrida, a RTP está perto do carro-vassoura. Mas uma coisa é certa: exceto na RTP2, vamos ter concursos, ficção portuguesa e futebol como prato forte a todas as refeições. A concorrência afunila.
Mas, entretanto, o clima económico não parece risonho. O que a TVI deve pretender é aguentar o barco até estar em condições de vender, provavelmente a algum dinâmico navegador estrangeiro. A RTP tem vivido em permanente atraso no pagamento aos seus produtores externos. Mas, pela primeira vez, a SIC também começa a sentir dificuldades de tesouraria. A agravar-se esta situação, é o conjunto da produção audiovisual que começa a estar em risco. Até porque se sabe que do lado da RTP há, só para este ano, vultuosos cortes orçamentais. Daqui resulta uma perda de qualidade na produção dos programas, que só poderá afastar os espetadores, e fazer descer os indicadores declinantes de publicidade. “Não temos culpa se as pessoas não vêem a RTP”, afirmou há dias Jaime Fernandes. Quanto à programação, apesar dos esforços para concorrer com a SIC e TVI (regulam todos pela mesma lógica, infelizmente), a RTP já anda, no Canal 1, pelos 18 ou mesmo 17 por cento, o que a aproxima perigosamente dos índices, em ligeiro crescimento, do segundo canal. Corre-se o risco de vermos um dia destes a RTP1 ficar próxima dos resultados (em sim mesmos muito positivos) da RTP2. Valha-lhes a Senhora das Águas!
Nestas circunstâncias, a estratégia da RTP parece ser dupla: manter as condições para que ninguém aceite ser diretor-geral da empresa; e (para prolongarmos a metáfora náutica), tendo consciência de que está afundar-se num barco esburacado, ir alargando o tamanho do barco. Só que, quanto mais o barco cresce (e há mil projetos para que ele cresça em todas as direções), mais crescem os buracos.
29 de agosto [de 1993]
Pergunto-me se sonho. Desde há talvez um ano que uma senhora que vive na Suíça e diz ser editora duma revista científica andava a querer visitar-me em Lisboa, a pretexto do interesse que lhe merecia o meu trabalho. A ela e a um seu companheiro, físico de profissão. Por duas ou três vezes chegou a estar aprazado o encontro, mas sempre, por uma razão ou outra, acabou por ficar sem efeito. Apareceram hoje, enfim, aqui, em Lanzarote. Convidámo-los para almoçar, e logo de entrada ficámos a saber que não comiam carne de porco nem nada em que houvesse, misturados como fosse, carne e leite. Eram judeus. Verdadeiramente não sabíamos ao que vinham, que é que os tinha levado a fazer uma viagem destas, mas após o exórdio de uma discussão, que eu pretendi levar em tom de humor, sobre as presumíveis culpas dos suínos, as reais e as simbólicas, percebi que o tema central — oh, céus! — ia ser Deus. Durante mais de três horas, primeiro à mesa (levando o prato principal um pouco de carne de porco, foi preciso preparar-lhes à pressa uma massa al penso), depois durante o café, sob o olhar consternado de Pilar, tive de dar com eles a volta ao universo e ao seu criador, terminando, vingativamente, por fazê-los estatelar no mundo e nas suas misérias, sem esquecer os palestinos. Dizem que os judeus amam a discussão pela discussão, e hoje sei que é assim: estas duas pessoas fizeram esta viagem e esta despesa (milhares de quilómetros, hotel, carro alugado), só para saberem (ele mais do que ela) o que eu penso de alguns assuntos, como se tal valesse a pena, e dispenso-me de jurar que não vale… Não saberia resumir o debate. Se o caos pode tornar-se mais caótico ainda, este o foi e nisso se tornou. Ele falou um inglês nada claro, eu o português que sei, ela traduziu graças ao pouco que pôde aprender em Coimbra, há anos, num curso para estrangeiros. Se algum de nós chegou a perceber alguma coisa do pensamento de algum dos outros, então Deus fez um milagre. Quando se foram embora, estava exausto. Pilar, fresca como uma rosa, e, no fundo, saudavelmente divertida com tudo quanto se passara, disse-me: «Por que não te vais deitar?» Fui direito à cama e dormi duas horas. Terei sonhado?
Literacias
29 de agosto de 2001
O Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho tem neste momento um projeto de investigação em colaboração também com as universidades do Algarve, Coimbra e Évora. O projeto é realizado no âmbito das Ciências da Educação, e os treze membros da equipa são coordenados por Maria de Lourdes Dionísio e António Branco. Todas estas informações me chegaram às mãos através da página que o “Diário de Notícias” dedicou há dias a esta iniciativa.
Entramos na questão das “literacias”. No plural, repare-se. Porque isto de literacias é como Howard Gardner mostrou em relação às inteligências: há de diversos tipos, e cada um “escolhe” as que lhe quadram melhor. Escolhe, isto é, é escolhido. Por isso se pode falar em literacias discursivas, literacias auditivas, literacias matemáticas ou literacias visuais. Até aqui tudo bem.
No interior dessa literacia específica que é a da leitura de textos verbais, há ainda a distinguir entre diversas práticas de leitura: uma coisa é perceber a “literatura” do remédio, outra coisa é perceber a “literatura” da lírica camoniana; uma coisa é enviar um “e-mail”, outra coisa é escrever um ensaio sobre “Os Lusíadas”. Seguindo um movimento que hoje encontra numerosos ecos, desde os “Cultural Studies” à sociologia pós-moderna, e que antropólogos e pedagogos adotam gulosamente, Lourdes Dionísio explica-nos que é preciso pôr em causa que existam práticas mais legítimas umas do que outras, e que é inaceitável que se pretenda valorizar em exclusivo “a leitura descomprometida, de férias, do não fazer nada, inútil” (fórmulas pelas quais se deduz que se trata da leitura “literária”).
Surgem aqui dois problemas de extrema atualidade. Primeiro, será que todos os tipos de literacia se equivalem nos seus efeitos cognitivos? Será que ler, ver cinema, ouvir música, cozinhar, distinguir perfumes, têm o mesmo tipo de consequências? Não devemos considerar diferenças nas literacias em que predomina o analógico (mais/menos) e aquelas em que predomina o digital (sim/não)? Não deveremos atribuir aos sistemas predominantemente digitais (em que é possível a linguagem sobre a linguagem e o exercício explícito da negação) um papel específico no desenvolvimento da reflexão e do espírito crítico?
Segundo, será que as formas de leitura em que “não vemos” a linguagem (como sucede com a leitura do boletim meteorológico), por muito práticas que sejam, têm os mesmo efeitos cognitivos do que aquelas em que “vemos” a linguagem (como sucede na literatura, e em particular na poesia)?
Devemos distinguir entre as diversas literacias e as diversas práticas de leitura. Mas será conveniente achar que, “democraticamente”, são todas equivalentes? Não se estará a correr o risco de vir afirmar, como se faz neste texto do “DN”, que Hitler foi um monstro embora lesse muito e o avô do Saramago era um sábio embora não soubesse ler e escrever?…
28 de agosto [de 1993]
Na parte da casa a que chamamos galeria temos uma planta grande que nasceram agora duas novas folhas. Não sei como se chama (e terei de averiguá-lo), se dá flor (suspeito que pertence à classe das criptogâmicas). O seu carácter ornamental vem-lhe precisamente das folhas, que são enormes, espalmadas, profundamente recortadas e com orifícios redondos, em geral elipsoides, no pouco que lhes resta de tecido contínuo. Nunca tinha pensado em como nasceriam, mas, se alguém mo tivesse perguntado antes, responderia que da raiz, primeiro lisas e inteiras, e, com a idade, tomando o aspeto que finalmente apresentam. Ora, não é assim. Nascem, claro está, da raiz, mas não separadamente das outras folhas. Cada folha nova desenvolve-se ao abrigo da cavidade que percorre, como um berço, todo o caule duma folha adulta, e, após um processo lento e contínuo de desenrolamento, que me fez lembrar a eclosão e a saída da borboleta de dentro do invólucro da crisálida aparece aos nossos olhos inteiramente formada, apenas um tanto mais pequena que a sua «ama-de-leite» e distinguindo-se do verde-escuro dela por um verde tenríssimo, quase translúcido. Evidentemente, qualquer jardineiro conhece estas banalidades, qualquer botânico as explicaria melhor, mas eu acabei de o saber — e portanto escrevo a minha carta de achamento.
Letras e letras
28 de agosto de 2001
Maria João Caetano faz excelentes entrevistas, como se prova com a que realizou há dias com Augusto Santos Silva nas páginas do “Diário de Notícias”. O que ela diz a dada altura, no virar da esquina de uma pergunta, é certamente apenas um sinal dos tempos, mas como tal deve ser posto em relevo. Afirma Maria João Caetano, com um desconcertante à-vontade: “Num momento em que a atividade intelectual está tão mal vista, dizer ‘eu sou um intelectual’ é um ato de coragem, não é?”
A gente pasma. Porque isto significa dizer: “Num momento em que está em moda ser estúpido, não se envergonha por se esforçar por ser informado e reflexivo?” Ou mesmo: “Num momento em que é bem visto ser analfabeto, não o incomoda apresentar-se como alguém que lê?” A questão está toda nisto de ser “bem visto” ou “mal visto”: num universo de “gangsters”, é mal visto trabalhar para a polícia; num universo de indigência mental, é mal visto ser “intelectual” (estatuto que, aliás, Santos Silva define com total rigor sociológico e sem nenhuma aura ou suplemento profético, nem muito menos marca ideológica). Embora seja necessário ter em conta a multiplicidade de aceções (e os pares que daí derivam) da palavra ”intelectual”.
Mas todas estas coisas só fazem verdadeiramente sentido se as cruzarmos com a entrevista que o PÚBLICO fez há dias ao presidente da Associação de Professores de Português, Paulo Feytor Pinto: ele declara, com toda a tranquilidade de um espírito realista, que, ao cabo de 12 anos de ensino, o que se espera como competências dos alunos é que eles saibam “ouvir, falar, ler e escrever”. Falta aqui o “ver”, absolutamente fundamental, mas a tendência para a especialização leva a estas coisas…
Ele explica que, “no contexto da nossa sociedade” (mas como é que chegámos a isto?), tem de ser assim: aquilo que outrora eram as competências a adquirir no básico é agora algo que pertence ao 12º ano. Como se observa num desses magníficos “cartoons” de Luís Afonso, “qualquer dia já sabemos tudo antes de entrar na universidade”. Eu sei que as escolas se “democratizaram”, mas como é que tanta pedagogia deu neste desastre?
Haverá uma explicação: é mal visto saber ler, escrever, falar e ouvir, e as pessoas procuram por todos os meios retardar a chegada a tão vergonhoso estatuto. Ou talvez seja o inverso: talvez a dificuldade que alguns têm em saber falar e ouvir, ler e escrever, e ver, sobretudo ver, os leve, numa atitude de defesa, aliás compreensiva, a considerar que é vexatório outros serem capazes de fazer aquilo que eles ainda não conseguiram. Como se sabe, a raiva contra o “intelectual” vem sobretudo daqueles que gostariam de o ser mas não são — e é, em termos cândidos e explícitos, uma pura manifestação de ressentimento. As paixões reativas…
27 de agosto [de 1993]
O último número de um jornal de católicos progressistas, palavra esta que, nos tempos que correm, é mais ou menos sinónima de marginais, chamado Fraternizar, publica a carta de um pároco que pede sigilo sobre o seu nome e assina, simplesmente, Sacerdote em Portugal. O motivo é, e parece ser que não acabará tão cedo, o Evangelho. Este padre assistiu à entrevista que dei à Margarida Marante, achou que o entrevistado mostrara «clareza de ideias e delicadeza no modo de falar», que «denotava cultura e compreensão do mistério de Deus e do homem» — e foi ler o livro. E, tendo lido, escreveu a carta. Depois de produzir alguns comentários pertinentes (apesar de serem elogiosos…), diz que «Saramago não é herege, somente ousou dar voz aos sem voz, aos temerosos da inquisição moderna, aos medrosos dos “castigos” de Deus». E diz mais: «Ele [o autor] supõe — e nisto é riquíssimo — a visão dos não crentes sobre a Igreja, vista por dentro, mas desde fora. Ele é valioso porque traduz o pensamento dos que estão fora sobre o que é a Igreja. É a voz das pessoas que se sentem “feridas” pelo comportamento de muitos membros da Igreja e também a condenação do comportamento da mesma, no sentido de sacrificar as pessoas às estruturas.» A carta termina: «É a visão do mundo diante dos mistérios da Fé… Quem sabe se um SOS (da própria dimensão subconsciente do autor que se nega a viver sem Deus, mas que não o consegue encontrar…) para a Igreja despertar à novidade e originalidade do pensamento que não ofende, mas pretende um pouco mais de respeitosa liberdade??!!”
Palavras, para quê? É um sacerdote em Portugal…
25 de Agosto [de 1993]
Outro leitor me escreve, e este merece o título. Conta-me que viveu na China cinco anos e que, desde há um ano, estuda numa universidade norte-americana para doutorar-se em Química. Declara-se grande admirador de Proust e pergunta-me se, tal como fez o autor do Temps Perdu, deve utilizar a sua vida, rica de experiências, palavras suas, para escrever, pois ser escritor é o seu sonho. Digo-lhe que tenho sérias dúvidas de que À la Recherche du Temps Perdu seja um livro autobiográfico, e, se o tivesse querido ser, concluiríamos que o autor não tinha ido além da intenção… O facto de Proust escrever sobre o meio familiar e social em que viveu, o facto de introduzir no livro o que parecem ser episódios da sua vida, mais ou menos transpostos, mas sobretudo reelaborados pela memória, não retira um átomo à evidência do carácter ficcional e ficionante da narrativa. Proust, sendo o escritor que era, nunca se satisfaria com o que se encontra mais à mão, isso que levou o Alexandre O’Neill a recomendar-nos que não contássemos «a vidinha»… Proust não escreveu uma autobiografia, só foi à procura do tempo perdido, não com o fito de deixar lembrança de uma vida, mas para deixar constância de um tempo retido por uma memória.
Proust não está interessado nos factos, mas na memória deles.
Este mesmo leitor confessa-me que, por causa de uma grave depressão, chegou a tentar o suicídio, mas que hoje ama profundamente a vida. Respondi-lhe que não sei se a vida merece que a amem profundamente, que acredito mais que é o amor por nós próprios que nos faz amá-la, principalmente se uma outra vida (alguém a quem amemos e que nos ame) nos for ajudando a encontrar para a existência um sentido suficiente.
Tirem-me deste filme!
24 de agosto de 2001
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | ||||||
| 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 |
| 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 |
| 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 |
| 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 |
| 30 | 31 | |||||
- Agosto 2025
- Abril 2016
- Março 2016
- Fevereiro 2016
- Janeiro 2016
- Janeiro 2015
- Dezembro 2014
- Maio 2014
- Maio 2013
- Abril 2013
- Março 2013
- Julho 2012
- Fevereiro 2012
- Janeiro 2012
- Novembro 2011
- Outubro 2011
- Setembro 2011
- Junho 2011
- Maio 2011
- Abril 2011
- Janeiro 2008
- Dezembro 2007
- Novembro 2007
- Outubro 2007
- Setembro 2007
- Agosto 2007
- Julho 2007
- Junho 2007
- Maio 2007
- Abril 2007
- Março 2007
- Fevereiro 2007
- Janeiro 2007
- Dezembro 2006
- Novembro 2006
- Outubro 2006
- Setembro 2006
- Agosto 2006
- Junho 2006
- Maio 2006
- 1 Jornais Nacionais
- 2 Jornais Internacionais
- 3 Alguns blogs
- Cartoon
- Cinema
- Citações
- Correntes d'Escrita
- Documentário
- Eça de Queirós – Contos
- EDUARDO PRADO COELHO
- Entrevista
- Fotografia
- Guitarra clássica
- História
- Historiador
- Humor
- José Saramago – O CADERNO
- Jurisprudência do T. R. de Guimarães
- Livros
- Manuel António Pina
- Música
- Notícia
- O que outros dizem
- Opinião
- Papa Francisco
- Pintura
- Poesia
- Releituras
- Sem categorização
- Varia
Eis aqui a tradução em castelhano: Si puedes mantener la cabeza, cuando todo a tu alrededor pierde la suya Si…
Tenho dúvidas sobre a bondade desta fundamentação, nomeadamente quando refere que “o despacho recorrido não interfere com quaisquer direitos da…
Hi, this is a comment. To delete a comment, just log in, and view the posts' comments, there you will…
- 30 de agosto [de 1993]
- Poema do dia
- A senhora das águas televisivas
- 29 de agosto [de 1993]
- Literacias
Não sei quais são as razões pessoais que levam à desistência de Torres Couto a candidatar-se à Câmara de Valongo. Certamente que existem — porque os políticos têm, como toda a gente, “razões pessoais” que afetam as decisões de cada um. Não pretendo ter aquela esperteza sôfrega de considerar que todas as “razões pessoais” escondem outra coisa.
Mas penso que não será por acaso que, segundo o “Expresso”, Torres Couto terá escrito a Narciso Miranda a dizer que verifica “uma forte desmotivação política face ao atual estado de coisas no PS e no Governo, contrária à necessária motivação para qualquer combate político”.
Qualquer de nós vê isso à sua volta. Encontra-se um dirigente político do Partido Socialista e ele diz-nos que “temos de reconhecer que chegámos ao fim de um ciclo, já ninguém quer aceitar lugares, não conseguimos convencer as pessoas, está tudo à espera a ver o que isto vai dar”. E, em relação a uma pessoa altamente competente que teve a coragem de aceitar um posto delicado de evidentes responsabilidades políticas, uma amiga minha, muito próxima da pessoa em causa, escrevia-me um “e-mail” a dizer: “Não sei que lhe deu para querer associar-se a um Governo em vias de extinção.”
Já quando falamos com membros do Governo, a discrição faz parte das regras do jogo, mas sente-se uma espécie de subtexto insidioso que insiste em dizer: “Tirem-me o mais depressa possível deste filme!” Daí a convicção de que o PS vai necessariamente entrar num ciclo de oposição e de que Durão Barroso acabará por ganhar — mais pico, menos pico. Do lado do PSD, sente-se a impaciência do “povo de direita”, e ouve-se a batida ofegante das patas dos cavalos prontos para a largada. Não têm projeto político, mas uma imensa pressa de chegar ao poder e dar livre e desinibida expressão aos interesses pessoais e económicos que representam. Não estão demasiado saudosos do figurino moralizante de Cavaco e no fundo até acham que Durão Barroso tem o coração muito mais à esquerda do que as massas tilintantes do partido.
Face a isto, o clima de desmotivação política (o PSD vai chegar ao poder, Santana Lopes já ganhou) atinge limites incalculáveis. Para quem durante meses e meses anunciou, com o preço que se adivinha, que isto podia acabar assim, o tom desresponsabilizante com que lavam as mãos e assobiam para o lado pode dar ganas assassinas. Inevitável? Creio que não.
Embora um amigo meu diga que já só eu me preocupo com estas coisas, continuo a perguntar: meu caro Guterres, meu caro Jorge Coelho, meu caro Carvalhas, meu caro Louçã, que se pode fazer hoje pela esquerda portuguesa? Quem toma uma iniciativa? Quem dá um passo claro e inovador? Quem rompe com este jogo estagnado de expectativas entorpecidas?









Este é um tema que já escrevi há vários anos, em abril de 2016. Agora já estamos em agosto de…