Faz séculos que eu não posto nesse blog. Hoje em dia com twitter, facebook e etcs esse espacinho ficou abandonado logo de início. Mas como ele foi criado para reflexões, assim, mais compridas, acho que é um bom local para colocar a minha posição sobre o assunto.
Bom, em primeiro lugar acho importante dizer que eu não acho que o tema do aborto deveria ter o papel que vem tendo na disputa presidencial, até porque cabe aos deputados legislar no Brasil e não ao presidente. Depois quero dizer que eu concordo com a posição inicial da Dilma (posição essa que ela passou a negar), de que a questão do aborto é hoje uma questão de saúde pública.
Aborto não é uma questão criminal no Brasil. Fiz uma pesquisa uma vez para a faculdade e nos últimos vinte anos não teve nenhuma mulher presa ou cumprindo qualquer tipo de pena sob acusação de aborto. E não há crime sem pena, já diz as leis básicas do direito.
As pessoas pensam em aborto de uma maneira medieval com agulhas de tricot e tals, mas o fato é que pelo menos em São Paulo, a maioria das mulheres abortam tomando remédios comprados de forma clandestina. Quando algo da errado as ricas procuram os hospitais chiques e as pobres são atendidas pelo SUS. Essa é a principal diferença, os riscos que as mais pobres correm são os mesmos que correm qualquer pessoa doente que precisa de uma atendimento de emergência público. E é por isso que eu concordo com a Dilma. A aborto não é uma questão de polícia é uma questão de saúde.
Se não é crime, por outro lado, o aborto na nossa cultura é considerado moralmente errado. Quem faz, pelo motivo que seja, carrega uma culpa por um bom tempo. Não é a mesma coisa do que tomar anticoncepcional (também condenado pela igreja) e evitar filhos. Interromper uma gestação é algo pesadíssimo para mulher.
Crime ou não, moralmente errado ou não, o fato é que ninguém jamais na história da humanidade conseguiu ou conseguirá obrigar uma mulher a carregar uma gestação contra a sua vontade. Por esse motivo que estima-se, a partir do número de complicações já que não temos dados oficiais, que sejam realizados cerca de 1 milhão de abortos por ano no Brasil. É bastante coisa.
Os candidatos tem o direito de se posicionar sobre assunto como quiserem. É legítimo inclusive mudarem de opinião, seja pelo motivo (eleitoreiro ou não) que for. Por outro lado é nojento, asqueroso e baixo usar a vida pessoal dos candidatos no “vale tudo” da campanha.
É um absurdo que uma conversa (partindo do princípio que ela existiu, já que não há provas), feita em clima de intimidade entre Mônica Serra e suas alunas seja usada de forma eleitoreira. E não me venha essa pessoa que fez a acusação dizer que só tinha a intenção de acabar com a hipocrisia e não em influenciar a decisão eleitoral que essa é a maior conversa para boi dormir. Hipocrisia é essa, isso sim. Queria sim, prejudicar o Serra, queria sim, ter os seus 15 minutos de fama. E se houvesse justiça nesse país estaria hoje apresentando as provas para escapar de uma condenação por injúria e difamação. Mesmo que seja verdade.
Mesmo que seja verdade é muito baixo quebrar a confiança que foi depositada por uma mulher ao comentar com pessoas que ela só poderia considerar amigas, algo tão delicado, tão íntimo, tão dolorido quanto um aborto.
Mesmo que seja verdade não vejo porque seria hipocrisia. Não por que a pessoa fumou um baseado na juventude que ela tenha que ser a favor da descriminilização das drogas. Não é porque a pessoa já dirigiu bêbado que ela como candidata tenha que apoiar esse tipo de ação.
Eu, por outro lado, sinto além de nojo da aluna que resolveu compartilhar a intimidade da professora publicamente uma grande tristeza pela militância do PT que fica divulgando e retransmitindo essa acusação criminosa. Tristeza porque o Lula, quando estava subindo nas pesquisas e com chances de ganhar do Collor teve a sua intimidade revelada pela sua ex namorada, ironicamente também sobre uma acusação de aborto. Aprenderam lá trás a lição de que fazer acusações pessoais sem provas e sem possibilidade de contra prova de defesa é uma maneira eficiente de ganhar uma eleição.
Que horror.
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