Mais de um mês desde a última vez que eu vim aqui. Não consigo mesmo ser estável. Droga.
Não é exatamente como se os outros sentissem a minha falta, mas ocorre que eu sinto falta da pessoa que eu sou depois que entro aqui, digo uma ou duas baboseiras e saio leve, para mim e para o mundo. Mas nem para dizer coisas sem sentido eu tive tempo durante Agosto, que foi um mês que passou por mim como um susto. É, definitivamente não haveria definição melhor. Agosto foi o meu soco no estômago, o meu sonho com face de realidade. Preciso dizer, Agosto por mim valeu por um ano inteiro, me trouxe (e, porque não?, me tirou) mais coisas que os últimos cinco verões. Agosto surgiu com tanta importância que para mim se tornou Agosto, o substantivo próprio. Agosto veio e passou e só deixou em mim esse não entendimento das coisas.
Em Agosto eu me formei, com direito a capelo, beca, uma semana de festas e baile de formatura. É, eu sei, já está todo mundo cansado dessa ladainha do "como será daqui para frente?". Eu estou cansada, vale dizer. Também sei que todo mundo já passou por isso, só que não adianta as pessoas ficarem me repetindo que tudo vai ficar bem, porque por mais que isso seja gentil, em verdade não diminui em nada o meu desespero. O fato é que eu me formei e, insira aqui um palavrão muito intenso, E AGORA? Me entendam, por favor, porque eu preciso escrever sobre isso, preciso estar ciente disso, preciso falar sobre esse assunto praticamente o tempo todo até que finalmente eu vou entender o sentido real de tudo e sobre como as coisas serão daqui pra frente - porque, surpreendentemente, eu tenho um plano.
Sim, eu tenho um plano bonito e a longo prazo e, se tudo der certo, vocês não somarão a minha pessoa à estatística de desemprego. Não, o meu "e agora?" não se refere ao que eu vou fazer da vida, mas sim como e quando eu vou fazer algo a respeito. Porque por enquanto, e não me orgulho do que vou dizer, eu não tive coragem sequer de ir à faculdade requerer um certificado de conclusão de curso, muito menos de ir à OAB fazer a minha inscrição. Não porque eu não sei o que fazer da vida - isso já está escrito desde o primeiro dia no curso de Direito, afinal. O problema é que eu não sei como.
Se eu tivesse me formado em medicina, diria que estou morrendo de medo de começar a trabalhar em um hospital e acabar matando cada paciente que passar pelas minhas mãos. Perder um prazo ou elaborar uma tese ruim pode não ser tão drástico, mas ainda assim é aterrorizante. Estar em uma audiência, fazer defesa oral, impetrar um recurso... Tudo isso me tira o sono. Até parece que eu não estudei 5 anos para tudo isso, que nunca fui ao Fórum, que não passei na OAB. A sensação que eu tenho é que não aprendi nada na faculdade. Mesmo que lá no fundo eu saiba que vou me sair bem e que é absolutamente normal, no início, duvidar de mim mesma... Ainda assim essa neofobia adquirida não me deixa dar um passo sequer à frente. O novo é assustador e congelante. Eu poderia facilmente pular essa parte inicial e ir direto àquela em que sou alguém experiente no que eu faço, porque, por enquanto, ser novata nessa coisa de ser gente grande não tem me atraído nem um pouco.
Agosto foi tão definitivo que se foi há cinco dias, mas aparentemente ainda está aqui, pairando pelo ar, me empurrando para o meu próximo grande passo. A verdade é que não escrevi nada durante Agosto porque estava muito ocupada tentando viver o turbilhão de coisas que estavam reservadas a mim nos seus 31 dias. Não sei se estou pronta para setembro, que deverá ser simples, porém mais breve que qualquer outro mês que eu já vivi. Setembro é o janeiro do momento, é o recomeço de tudo, o "era um vez" da minha nova história - história essa que, Deus me proteja, não faço ideia de como começar a escrever.
Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro - e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente. - Caio F. Abreu.