sábado, 31 de dezembro de 2011

Until the end starts

Esse cheiro de ano novo sempre enche dezembro com uma vontade imensa de deixar os fantasmas e as lágrimas em um passado que não nos pertencerá mais. Mas é com o meu orgulho enfiado goela abaixo que eu admito que, no fim do último dia do ano, o balanço que eu posso fazer sobre os últimos 365 dias não poderia ser mais realista. Chega a ser irônico com uma perspectiva de vida que foi construída ao longo de uma vida inteira muda assim, depois de alguns episódios desastrosos e outros nem tanto. Antes, na minha ingenuidade juvenil, tinha plena consciência que um ano a mais só era válido se ele existisse para que eu fosse feliz para sempre, enquanto esse sempre durasse. Fui ridiculamente romântica, uma burguesa de coração atado à paixão, ao afeto, ao carinho. Esperei muito, por tempos, aquilo que eu sempre fiz questão de clamar como o justo e o merecido. Nada do esperado veio, mas é estranho como às vezes o esperado pode ser desinteressante se comparado ao inesperado. Não tive nada do que eu pedi: tive muito mais. Não enchi meus dias de misantropia, de manhãs deitada na rede, de livros fabulosos, de amores perfeitos, de amizades eternas. Vendo por esse lado, a felicidade é tão comum e banal. Todos sempre desejamos as mesmas coisas. E mesmo tento tudo isso em doses satisfatórias, a inquietude sempre me avisou: você não quer nada além do normal. O fantástico meche demais com a cabeça das pessoas. Tanto que começamos a duvidar daquilo que é real. Boa demais para ser verdade, essa realidade de vidro que trinca no primeiro suspiro. Foi com muita contrariedade, para ser sincera, que eu pareço ter entendido que a verdadeira alegria não precisa estar fantasiada de “inacreditável” para existir. Sempre proclamei que não precisava de nada maravilhoso para ser feliz, mas isso sempre foi a maior das minhas mentiras; sempre estamos à espera que algo lindo aconteça, algo que nos faça rever nosso conceito de mundo, que nos faça brindar usando champagne, que nos resgate a vontade de sorrir sem precisar de algum motivo que justifique a nossa loucura incontrolável. Essa exigência do melhor sempre me consumiu, ao invés de me fazer seguir em frente por acreditar. Acima de tudo, é decepcionante esperar coisas que só existem com fruto de uma imaginação nada confiável, que muda de idéias com o passar das horas e que desfila pelos mais perigosos e incertos sentimentos. Por diversas vezes, eu deixei claro que o meu desejo para um novo ano que se inicia é que tudo se transformasse para melhor; hoje, a única coisa que precisa mudar sou eu e essa inclinação a querer o perfeito enquanto este nunca me agradou. Tudo o que eu peço, depois de muito desperdiçar as minhas vontades com coisas que eu nunca quis, é que tudo o que vier seja o mais normal possível. Que os meus amores sejam sinceros e palpáveis e que eu possa reconhecê-los em pessoas sem poderes espetaculares. Que as minhas amizades sempre cultivem o sentimento do real e que nunca tragam consigo a fantasia que evapora ao fim da história. Que as manhãs de cada dia brindem a força, a fé e a esperança, mas que jamais cultivem o sentimento do falso, do que nunca existirá. Que eu jamais, em tempo algum, venha a estimar o desnecessário, o vago, o impreciso, o inoportuno. E que meu coração se acalme e descanse naquilo que habita dentro de mim, que não é tudo de bom que existe, mas que é suficientemente maravilhoso.

Nessa troca de datas de anos, eu não levo comigo nada que trouxe até hoje por falta de coragem de deixar para trás. Fica aqui a minha prece por um coração renovado, livre de todas as mágoas que anos a fio ocupam lugares desnecessários; deixo para trás o medo de acreditar nos sonhos que tenho receio em admitir; reciclo a minha mente para as pessoas que já havia condenado, para tudo em que já havia perdido a fé, para a paciência que sempre me faltou. Nunca fui de ter crença em recomeços, mas a vida me pediu e me mostrou como é imprescindível mudar essencialmente nós mesmos, quando estamos fadigados da nossa própria presença. Por fim, que o novo ano me traga a compreensão sobre tudo aquilo que sempre precisei e que nunca me faltou, mas que por vezes eu desperdicei.

Feliz vida, mente e coração novos a todos.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Todo o amor de sempre

And all the roads we have to walk are winding
And all the lights that lead us there are blinding
There are many things that I would like to say to you
But I don't know how

Because maybe
You're gonna be the one that saves me
And after all
You're my wonderwall


Eu te liguei na noite passada para dizer “meu Amor, amanhã eu escreverei uma carta endereçada a você”. Surpresa nenhuma dizer que faria algo que já faço todos os anos, desde que te conheci. Mesmo com as marcas da distância, com os presentes adiantados e a falta do teu olhinho brilhando enquanto te digo tudo isso, eu não posso deixar a oportunidade passar. Como se eu precisasse de requisito algum para me declarar a você, não é mesmo? Sempre planejo as palavras certas por dias, mas no fim da contas sempre me recolho na insignificância do meu vocabulário que nunca me basta. Como explicar a você e ao mundo como é grande a minha gratidão e a minha sorte por ter sido, entre milhões de garotas mais bonitas e mais engraçadas, a escolhida? Como dizer, sem parecer clichê ou piegas, que o dia 24 de dezembro de 1991 foi o mais bonito e o mais significante para mim, antes mesmo de eu ter nascido? E, mais que tudo: como posso, com simples palavras, explicar a explosão de sentimentos bons que ocorrem em mim sempre que me vem à mente o teu rosto? Nada disso cabe em carta alguma. Não teria como explicar o poder da nossa história a ninguém, porque não é todo mundo que tem quem dê colo toda vez que parece que nada vai dar certo, que o faça rir até quando a sua vontade é de rasgar o peito com o choro mais sofrido, que lhe encha de orgulho cada vez que consegue superar até a si mesmo. Você me ensinou as lições mais importantes da minha vida e, sem pedir nada em troca, se doou o máximo que pode pelo simples fato de achar que eu mereço. Em 20 anos você foi e é muito mais do que muita gente luta a vida inteira para ser. E entre toda a frieza que às vezes atinge o meu coração, você foi o único que conseguiu fazer com que eu sentisse algo – amor, ódio, saudade, admiração, desejo... Felicidade. E mesmo que hoje você não fosse tudo isso que é para mim, ainda assim eu te desejaria as coisas mais fabulosas que a vida possa te oferecer, porque eu jamais conseguiria pensar em alguém que merecesse mais. Obrigada por ser o meu melhor amigo, meu namorado, meu amante, meu futuro marido, meu herói, meu bandido, minha luz no fim do túnel, meu protetor, o protagonista dessa minha história que às vezes não passa de um drama grego ultrapassado, mas que você transforma num romance francês de tirar o fôlego.
Feliz aniversário, meu Amor. Que Deus multiplique na sua vida todas as coisas maravilhosas que vêem acontecendo, que nunca lhe falte forças e paciência e que a sua fé permaneça intacta, assim como o amor que habita em ti e que propaga no coração de todos que você se aproxima.
Eu te amo e não poderia ser diferente.

Beijos e abraços,
Para sempre tua.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Breve perspectiva sobre o que virá

Fim de ano é uma das poucas coisas que ainda conseguem mexer comigo como se uma nova contagem de meses fosse mudar alguma coisa, mesmo que eu saiba que a diferença de um só dia não muda nada: os problemas continuam presentes como se não tivessem causas passadas, as pessoas continuam nos decepcionando e música sem graça de todos os anos toca naquelas lojas abarrotadas de gente comprando os presentes de última hora. Mas mesmo assim, aqui dentro de mim existe uma parte que nunca deixa de ser ingênua e que cria mil expectativas de como as coisas (sempre) podem ser melhores. Todo ano é sempre a mesma ilusão: penso que será diferente se eu quiser que seja e que a vida está renascendo, me entregando de bandeja uma nova chance de limpar o passado e construir um presente do qual eu me orgulhe mais. Nunca é: sempre aconteceu essa mesma dança de erros sendo valsada em um looping infinito de lamentações, mil palavras de desagrado que ficam me envenenando meses a fio e me privando de tudo que de bom venha a acontecer. Tristeza cega a qualquer um, até mesmo aos mais seguros ou independentes. Ninguém aprendeu a viver passo a passo com tanta dor e onze meses depois eu me pego perguntando o que fiz do tempo que passou e por que motivo não fiquei satisfeita. O motivo está escrito a sangue na parede: porque eu não quis. Porque. Eu. Não. Quis. Porquenãoquis, assim falado depressa, para ver se fica menos ridículo de se ouvir. Porque, pasmem, não fiquei satisfeita, não fiquei feliz ou alegre o tempo todo, não sorri todos os dias porque eu simplesmente não quis. Motivos eu tive de sobra. Incentivo nunca me faltou. Vontade eu até tenho, sinceramente. Coragem... O motivo sempre me foi a coragem. Ou a falta dela. Repetidas vezes eu já justifiquei minha melancolia como um ato de coragem que é preciso para se ser triste, mas o que sempre me sobrou, de verdade, foi um medo danado de ser feliz. Medo de conquistar coisas boas, de me unir a pessoas maravilhosas, de ser gentil com quem merece e de por uma pedra no que nada me acrescenta. Me falta mesmo é coragem para assumir que eu tenho tudo o que eu preciso e não sei aproveitar. Me falta mesmo é revigorar essa chance linda que eu tenho e que ponho fora todos os dias, quando escolho me afundar em reclamações sem fundamento. E hoje, por algum motivo, eu tive um súbito de auto-compaixão e decidi: não mais. Nem que eu tenha que relembrar quão covarde eu sou, todos os dias. Nem que eu sofra muito para não sofrer mais. Nem que a vida me bata muito para eu nunca esquecer o que é uma dor de verdade. Porque por mais que falte a coragem, a gente cansa de ser essa coisa pesada e desnecessária, esse ser humano descartável, isso que não respeita nem a si mesmo.
Cansei de desperdiçar os meus sonhos, não quero mais viver a decepção de não cumprir as minhas próprias promessas. O ano ainda não acabou, mas já sei o que espero daquele que não tarda muito e virá: novo, tudo novo. Todas as coisas e, se possível, as pessoas. Até eu mesma.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Por tudo ache graça


Há muito tempo eu venho falado de dor como se fosse a única coisa que me habitasse. Já fui muitas vezes proibida por pessoas que sequer me conheciam a não deixar a felicidade escapar. Sou taxada por aí de louca – um mister entre a benção e o desperdício. Na mente dos outros, tudo culmina em desagrado. Acho muita ousadia de quem sabe apenas o que acontece na superfície e, ainda assim, despeja frases cruéis como “você não merecia a sorte que tem”. 
Para quem assiste de fora é muito mais cômodo, sempre foi. Você o ama, Ele faz tudo por você; não o trate assim, Ele não merece; como alguém pode ser tão bobo por você?; não o faça sentir outro rasgo no estômago; deixe-o em paz. Tudo ecoa em forma de discurso infinito na minha cabeça, como forma de me manter firme e alerta a tudo e todos que parecem compreender o que se passa aqui dentro mais que a mim mesma – mais que nós mesmos, aposto. É quase aceitável: nós e nossa humana necessidade de colocarmos a culpa em quem está ao nosso redor como uma desculpa por não saber enfrentar os mesmos problemas que achamos tão simples. 
Mesmo com algo tão duro, acredito que, se ao menos por um segundo, você deixa de ser tão obcecado por um domingo de praia e sol, você consegue perceber a beleza em uma tarde chuvosa. Sempre fui exigente quanto ao sentido das coisas, mas não com aquilo que me levava à compreensão. Nada melhor que parar, de uma vez por todas, de mensurar o bem e o mal que existe em tudo; sou mais independente que isso, sou feita de muito mais que demonstrações românticas ensaiadas com base no último filme hollywoodiano
Quero ver a graça na briga sem motivo no estacionamento do shopping; quero chorar ao telefone pedindo para o homem da minha vida não me abandonar, porque sem ele nada tem graça; quero receber o pedido de desculpas que eu mereço e gritar que estou me doendo até fundo da alma. Nós sabemos nos recuperar desses loopings e ainda com um sorriso no rosto que deixa bem claro o quanto ficamos melhor, depois de tudo. Isso, para mim, também é ser feliz para sempre, porque se eu nunca encontrar uma alegria ofuscada pelo meu choro desmedido, todo o resto estará perdido no instante que o encanto se quebrar. 
Se você aprende a ser triste, todo o resto é mais fácil, mas se você está acostumando só com novo e o belo, se prepare para o choque quando a pintura começar a descascar. Eu não sofro sem motivo, eu não estou triste o tempo inteiro e muito menos tenho sempre algo pelo quê lamentar; na verdade, estou exatamente o oposto disso e é nesse contrário que eu encontro motivos para me afundar na dor e ressurgir logo em seguida. “O poeta precisa de sofrimento tanto quanto da sua máquina de escrever”, e eu apostaria todas as minhas fichas em Bukowski sem achar que isso seja a desculpa de um covarde. 
Tenho essa cara de quem está sempre com algum problema, mas no fundo só estou pensando em como posso fazer para as coisas serem (ainda) melhores. Só não confio nas pessoas, não confio em mim: uma vez que eu me entregue a essa história feliz, vou esquecer o caminho da volta; não quero correr o risco de não lembrar que da mesma forma que eu tenho uma capacidade enorme de sorrir, o choro também vez fácil. Não quero esquecer como é ser triste de vez em quando para não correr o risco de ser triste sempre. Quero chorar sem motivo antes que eu arrume razões de fato para dar companhia à lágrima solitária que deixo escapar. E enquanto minhas palavras me traem e expressam a maior dor que sou capaz de sentir, fora e dentro de mim vai sendo construída uma base mais forte, mais realista, melhor para Ele, melhor para mim.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A minha verdade sobre você

Tem muita coisa que ainda precisa ser superada por aqui, inclusive, essa minha vontade de falar de você o tempo todo, como se houvesse amor, carinho ou pelo menos saudade. Não há. O que restou foi só essa vontade de que tudo fique no passado. Essa vergonha mútua por nunca termos dito o que precisava ser dito. E essa chance de recomeçar algo mais bonito e mais sincero bem longe daqui, com outros corpos e outras almas que não sejam tão individualmente desprezíveis como as nossas, quando juntas. Você é o pior de mim, coração, sempre foi. Com você, eu me entreguei a noites sem rumo e sem preocupação, pelas partes mais sombrias da cidade. Você me fez esquecer família, os amigos, os outros amores que tive; me tapou os olhos para os sentimentos das outras pessoas e fez com minha visão fosse focada num único objeto: você, você, você. Eu fui afogada no teu veneno e você jorrou sobre mim as mais fingidas e dramaticamente sentimentais ameaças, como se o que me prendesse a você fosse essa sua falsidade de quem nunca sentiu nada por ninguém; como se eu não soubesse que o que você fazia comigo era um jogo bobo de idas e vindas, esperando o momento que eu ia me render de vez. E depois, o que aconteceria? Você ia por a minha paixão-ou-o-que-quer-que-fosse ladeira abaixo e não dizer nenhum adeus? 
Lembra como eu sempre te chamei? “Coração”, sempre lhe faltou um no lugar dessa pedra fria que tem no peito. E aqui eu te julgo e condeno cada instante que você me iludiu com suas promessas de libertinagem porque, acredite, eu também já me julguei demais. Talvez por isso eu nunca tenha conseguido te esquecer: porque eu também não consigo esquecer quem eu fui, com você. Não houve chance para auto-perdão aqui. Todos os dias, aquela figura me atormenta. Acordo pela manhã com o raio de sol no meu rosto e penso: que bom que hoje há luz. Peço todo dia que aquela escuridão não retorne e que eu continue assim, capaz de sentir alguma coisa, nem que seja pena pela vida que um dia nós levamos juntos.
Fernando Pessoa um dia disse que cartas de amor são ridículas e antes que o poeta encarne em ti, quero dizer que o ridículo das minhas palavras não é fruto de qualquer sentimento bom. Talvez seja uma mera condenação que eu me destinei, isso de ficar remoendo o passado como forma de jamais esquecer o desprezo que eu devo sentir por ele. Nada tira da minha cabeça que muita coisa ali foi inútil, e não me venha com esse discurso de “tudo o que você foi ajudou a construir quem você é”. Eu dispenso. Eu teria sido muito mais grata de tivesse chegado ao mesmo ponto por um caminho diferente. Por isso, não me permito esquecer você para não esquecer quem eu jamais devo retornar a ser. E por mais masoquista ou sádico que isso pareça, espero que você, aí do outro lado de onde quer que esteja, faça o mesmo em relação a mim: lembre da garota da all star usado e camisa de filme que sentava ao seu lado na mesa do bar e repita com fé – “não quero sentir aquilo outra vez, nunca mais”.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

E se eu quiser ''extraordinário''?


Eu andei muito querendo ser diferente. Entregar à vida o lado mais calmo e quieto que sei que posso encontrar em mim. Deixar de lado essas inquietudes cotidianas que só têm fundamento dentro da minha cabeça e partir para escolhas mais simples e que não precisassem tanto de dramas e choros. Quis muito ser leve, essa é a verdade. Passei a vida inteira lutando contra o melhor e o pior de mim, numa batalha longa e árdua de muitos sacrifícios e escolhas difíceis. Boa parte dessa história foi um filme de guerra onde eu vi muito sangue inocente jorrar até que sua fonte secasse. Vi muitos beijos não correspondidos e tantas esperas às quais eu poderia estar submetida até hoje, se assim fosse o caso, se assim eu tivesse escolhido. Poderia muito bem estar presa até hoje a essa ilusão que plantei em mim de que a vida é simples, basta querer. Tinha chegado ao ponto onde o único remédio que anestesiava a minha dor era a pura enganação e nisso eu me joguei de cabeça, sem saber como faria para retornar à realidade que deixei para trás. Hoje, eu temo não ser mais tão inocente a esse ponto. Desconstruí todas essas esperanças em mim, nas coisas e na vida; aprendi que as derrotas estão sempre prontas para serem jogadas na minha cara. É muito duro passar a vida inteira tentando mudar e nunca conseguir – saber exatamente quem você deveria ser e, ainda assim, ser apenas uma versão inútil e insignificante desse outro alguém. Quando se está perdido e sem rumo, é muito mais simples: qualquer lugar serve. Triste mesmo é saber para onde ir e ainda assim nunca ser capaz de chegar lá. Não ser bom o suficiente. Não ser forte para resistir. Não saber mais como continuar.


Não quis indicar nada com essas palavras, a não ser uma completa falta de compreensão com aquilo que nos cerca e insiste em nos sufocar. Se alguém quiser me dar um abraço ou um aperto de mão e conversar sobre essas obscuridades repentinas que nos cegam de horror, pode vir que a casa está arrumada e o café está na mesa. Mas não tenho sido morada tranquila nem para mim mesma, deixo todos avisados antes de cruzarem a porta. Ainda assim, não sou presa tão fácil. Sou essa montanha-russa espiritual: a falta de tempo entre um suspiro e outro, para em seguida dar uma volta mais uma vez.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Seis coisas que eu vou fazer, mas ainda não fiz

Acho que esse foi o meme mais difícil que eu já fiz, porque eu quero fazer tanta, mas tanta coisa que só me falta mesmo é uma vida que acumule tantos desejos, porque vontade eu tenho de sobra. Vi pelos blogs afora respostas de coisas que eu já fiz, como doar sangue, dar um tapa na cara de alguém, aprender a bordar, ter todas as músicas da minha vida, conhecer o paraíso, ter um grande amor; vi coisas que eu não gostaria de fazer, como uma tatuagem, e coisa que eu morro de vontade de fazer, mas sequer pude citar aqui, como aprender a cozinhar, morar um tempo fora, fazer um mochilão, aprender a dançar, me dedicar à fotografia, ter algo meu publicado, morar sozinha, zerar meu skoob, aprender a tocar algum instrumento. No meio de tantos desejos que não cabem dentro de mim, selecionei os seis principais que tenho certeza que vão se realizar em algum momento do futuro, seja ele próximo ou não.

1. Casar e ter filhos


Eu não estaria sendo sincera se esse item não fizesse parte da minha lista, porque eu sou anos 50 até a alma e sonho mesmo é com vestido branco, buquê de flores e crianças correndo pelo jardim. O mais difícil eu já tenho, que é o noivo. De resto, eu dedico boa parte das minhas horas livres aos sites especializados em casamentos; fico calculando custos, escolhendo modelos de vestido, imaginando o buffet, fazendo a lista de nomes dos meus filhos. É brega, é clichê, é piegas. Mas faz parte do meu conceito de felicidade.

2. Montar minha biblioteca particular


Tenho muitos livros. Muitos. E eles estão o tempo todo desorganizados porque me falta espaço, prateleiras e armários para abrigar a todos do jeito que eu queria. É por isso que quando eu tiver a minha casa, antes mesmo de mobiliar o meu próprio quarto, eu terei que organizar um ambiente só para os meus livros, porque eles são especiais e merecem. E a minha rinite alérgica, que não suporta mais tanto papel no mesmo local em que eu durmo, ficará grata e dará uma trégua – assim espero.

3. Assistir a um super show


As grandes bandas da minha vida chegaram ao fim antes que eu tivesse tido a chance de ir a um show delas. Vocês sabem o tamanho do trauma que isso representa à vida de uma pessoa? Superado isso, ainda me restam algumas boas opções, como Coldplay e Maroon 5. Ou quem sabe mesmo o Rock in Rio 2013, para o qual eu já tenho bons planos. Mas tem que ser um show que me faça sentir lá no fundo algo como “esse momento está gravado a ferro quente na história da minha vida”.

4. Voar de asa-delta


Quem me conhece, sabe que eu morro de medo de altura, de cintos de segurança me amarrando e de vento forte. Mas nada vai me impedir de realizar esse desejo, nem mesmo as ameaças da minha mãe em me deserdar caso eu faça uma “loucura dessas”. Eu quase fiz isso quando fui ao Rio de Janeiro. Teria feito, se minhas condições financeiras não tivessem me impedido. Às vezes é muito difícil realizar seus sonhos quando você é sustentada pela mesada que seus pais te dão, sabe? Mas eu não desisto e um dia eu vou voar alto.

5. Me tornar uma alma francesa


Como diria a Anna, de Anna e o beijo francês, “isto é tudo o que sei sobre a França: Madeline, Amélie e Moulin Rouge. A Torre Eiffel e o Arco do Triunfo também, embora eu não saiba qual a verdadeira função de nenhum dos dois. Napoleão, Maria Antonieta e vários reis chamados Louis. Também não estou certa do que eles fizeram, mas acho que tem alguma coisa a ver com a Revolução Francesa, que tem algo a ver com o Dia da Bastilha. O museu de arte chama-se Louvre, tem o formato de uma pirâmide, e a Mona Lisa vive lá junto com a estátua da mulher sem braços”. Eu sei que é uma visão extremamente limitada, mas já é o suficiente para me fazer ser apaixonada pela França. Por isso, qualquer hora dessas, eu crio vergonha na cara, começo o meu curso de francês, compro minhas passagens e vou tomar café à beira do Sena, enquanto descubro o que há de belo sobre o lugar que me encanta os sonhos desde que eu me entendo por gente. Isso tudo, claro, com o meu Amor do meu lado. E não prometo voltar de lá.

6. Perder a preguiça de dirigir


Porque eu não tenho medo. Já dirigi várias vezes, inclusive, mesmo tendo terminado agora as aulas teóricas na auto-escola. O que me sobra mesmo é preguiça – preguiça de gente mal-educada no trânsito, de engarrafamentos, de instrutor que não sabe ensinar nada. Tenho preguiça de passar por essa fase de aprendizagem de algo que eu já sei fazer, mas que ainda não sou autorizada. Já estou na auto-escola há 3 meses e estou adiando eternamente minha prova teórica no DETRAN porque simplesmente não quero chegar à fase prática... Por preguiça. Além do fato principal: vou tirar a carteira, mas vou andar de ônibus até eu mesma conseguir comprar meu carro. Isso não serve como fator animador e, enquanto isso, eu vou me virando nessa vida de transporte público/carona do namorado. Mas acreditem, tenho muita vontade de pegar um carro e sair dirigindo loucamente por aí, só eu e alguma música. Só me falta mesmo a coragem.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Fix you


And high up above or down below
When you're too in love to let it go
But if you never try, you'll never know
Just what you're worth

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try, to fix you.

[Fix you - Coldplay]

Há muito tempo eu não falo de amor, porque ele próprio tem dito tudo por mim. Vez ou outra na vida, eu esperei que alguém me provasse alguma coisa. Que algo de maravilhoso acontecesse. Que a vida finalmente fosse justa comigo. Passei muito tempo reconstruindo a mim mesma, somando os pedaços que foram destruídos e separados por cada tempestade que por aqui passou – um trabalho muito duro para quem tem somente gotas de força de vontade. Fiz tanto o tipo de quem não se importa com ligações no fim da noite ou no dia seguinte, mas enganar a mim mesma já não fazia muito efeito. Fui curada pelo teu sorriso. A cada vez que tentei vulgarizar a mim mesma, em uma tentativa humilhante de me fazer sentir algo que não fosse amor, só recebei teus braços em volta do meu corpo, em uma atitude clara de proteção de mim mesma. Sempre digo: você me salvou do perigo que eu me representava. Eu poderia ser autodestrutiva até que secassem as lágrimas e, ainda assim, continuaria dançando o rock à meia-noite, as luzes apagadas e a garrafa de wisky no canto da sala. Essa valsa solitária não me fazia sentido, mas preenchia a vontade do que quer que a gente passe a vida inteira procurando. Para quem esperava de mim um sorriso, um abraço ou qualquer coisa que demonstrasse que aqui dentro ainda havia algum afeto, eu sempre tinha alguma proposta indecente a oferecer, que no fundo nada mais era além de um “está disposto a ser minha válvula de escape?”. Tudo o que eu tive, antes de você, foram noites que não merecem um fiapo de memória. E escondidinho, depois que o efeito das pessoas e das coisas passavam, eu me reunia com a única parte sóbria de mim e pedia a Deus, por favor, por favor, me tira dessa escuridão e me põe salva nos braços de alguém. Você, porém, é mais que o meu milagre pessoal. Quando aparece na minha casa, às quatro da tarde, é como a minha oportunidade de ser feliz para sempre. Dizem por aí que ninguém deve acreditar no amor incondicional, que a vida é efêmera e os sentimentos mais ainda e que as pessoas são mais instáveis que o tempo. Mas que tipo de pessoa eu seria se não me prendesse forte à esperança mais bonita que eu tenho? Se for só mais um sonho bobo, pois que tenha o gosto mais puro de realidade. Sempre que vejo alguém que é solidão por não conseguir ser amor, tenho vontade de dizer: pede, numa prece escondidinha, que alguém venha te salvar, porque tem tanta dor no ato de se conformar em ser sozinho. Eu mesma ainda peço por favor por essas pessoas em dias como o de hoje, em que eu sinto que mais gente merece essa felicidade que habita em mim. Eu, que já passei por todos esses caminhos, vejo que misantropia só tem graça se for saída de uma noite só; colecionar roupas, amores e histórias não têm valor algum se no final tudo é um fiasco de comédia sem graça, de violão desafinado e cantor de voz rouca. Parece música de velório, essa que embala uma vida cuja única motivação é seguir em frente e só. Confesso que eu não me arriscaria a ser tanto se não fosse por alguém que visse graça no meu desastre pessoal. Sou muito frágil e pequenina quando não tenho você sempre ao meu lado me lembrando que toda a força que preciso sempre pode ser encontrada na poesia e nas verdades do amor. É por hoje eu ser sorriso e não tragédia que eu agradeço e obrigada, obrigada, obrigada a você por ter vindo me salvar de mim. Por ter me mostrado que é possível o que quer que seja. Por ter me provado que o “nós” é melhor que todas essas drogas e melodias e desperdícios. Obrigado por ter sido melhor para mim de um jeito que eu nunca fui.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Não somos porque não deveríamos ser

Por muito tempo eu esperei o correio chegar com alguma carta sua. Por muito tempo dentro de mim não foi um bom lugar para se viver. Por muito tempo eu me perguntei quando finalmente eu conseguiria ser mais amor a mim que amor a você, embora soubesse que qualquer das duas coisas sempre seria mera ilusão. Sou um caso eterno de amor não correspondido. Não retribuo nem o amor que tenho a mim mesma, mas tento ser o mais sincera possível quando penso: hoje eu vou ser feliz, vou jogar na lata de lixo as mágoas e durezas da vida e recomeçar um novo dia. Já escrevi tanta poesia-desabafos-versos-baratos por algo que eu sabia que não valia uma única linha de sentimentos jogados fora; fui e voltei muitas vezes nesse impasse de seguir em frente ou continuar mantendo o olhar preso ao passado, em uma eterna busca por um adeus que nunca existiu. Me repeti tantas vezes em um drama extremamente descartável, que me enojava, me impedia de encarar minha face sem vergonha e sem juízo no espelho, me prendia em um movimento cíclico de volúpias desnecessárias e choros falsos. Percebe como tudo isso me destruía? Era a força que rompia a cada dia uma nova parte da minha alma, me maltratando por dentro – e ainda assim eu continuava, por amor, por fé, por consideração, por dívida com aquilo que nunca foi, por alguém que nunca existiu, por tudo que eu queria ter sentido. Continuei, porque sou destrutiva até o último segundo, sou insistente até a burrice, sou capenga e ridícula sem receio algum. Até que bastou. Até que tanta indiferença e algumas palavras duras e dispensáveis atingiram o meu ínfimo a ponto de me fazer pensar: o que eu acho que estou fazendo comigo? O que querem agora, depois de me ter rasgado ao meio e ter tirado de mim toda a carga de coisas boas que um dia eu pensei em oferecer? Isso é tão inadmissível que ferve o sangue. Não é isso que vai honrar todas as palavras que eu já desperdicei ou o tempo que eu passei me lamentando por quem não sentia a minha falta. Não é isso que vai trazer alguém que nunca tive de volta para mim. Nunca deixei claro, mas não espero nenhum tipo de recompensa por todo o sofrimento que tive que encarar, muito menos um pedido de desculpas ou o adeus que desisti de esperar. Não vou brindar ao fracasso, se é isso que esperam. Sou muito orgulhosa de ter enfrentado tudo, mesmo sem ajuda alguma, e sem me esconder ou fingir que está-tudo-bem-vamos-continuar-a-viver. Eu não precisei me afogar em cerveja barata, não mudei minha rotina, não procurei conforto em outros corpos e outras bocas e, acima de tudo, sempre fui fiel a mim mesma, embora isso não tenha sido por causa de você. Enfim, entendi que as coisas simplesmente não deram certo e a culpa não é minha, porque fiquei mais fria, ou sua, porque ficou mais distante... Nós não quisemos que as coisas dessem certo, foi isso que aconteceu e ponto final de uma vez por todas, então não venha perturbar a minha paz dificilmente conquistada com convites à meia-noite de sábado carregados de malícia e ironia. Eu finalmente me vi livre dessas amarras e, pronta para continuar, tracei um caminho digno ao meu estado de espírito e todas as essas coisas bonitas que nós passamos a vida inteira procurando. Então, me perdoe a descrença que qualquer um desses seus sentimentos repentinos sejam sinceros, mas dessa vez eu prefiro não por meu coração à prova. Prefiro não amar alguém para ser abandonada no dia seguinte. Vou, sim, aproveitar esse dia de sol maravilhoso que se apresenta a mim cada dia – a vida agora é minha amiga e a ela eu dou as mãos. E fecho as portas ao passado e a tudo que a ele pertence, sem arrependimentos e sem o desejo que voltar atrás.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Fechada para balanço

Como se houvesse sentido nisso, se fosse o caso de sobrepesar o que ocorre dentro de mim, eu responderia a quem perguntasse com uma simples frase: não há vagas. Me sinto como o Grande Hotel da cidade do interior. São muitas pessoas dentro de mim e tantas que já não consigo mais situá-las nas minhas palavras e nos gestos sem nexo: perdi a minha última tentativa medíocre de me esvaziar um pouco. Por isso, a cada um que me pergunte, respondo com urgência: não há vagas. Não me peça um pouco mais de amor, que já estou com estoque baixo; não me venha com uma mala cheia de mágoas e choro, que não há mais um espaço livre no saquão; não me peça para entrar e tomar um chá, como visita, porque mesmo para esses que vem e vão como se não fossem deixar marcas, eu estou completamente lotada. Não há mais espaço em mim para essas histórias mal resolvidas, então estou pondo fim a (quase) todas; vou economizar lugares se ficar sem essas lembranças doloridas, que hoje ocupam aquele espaço que poderia ter um quadro novo ou então um sofá bem bonito. Qualquer coisa mais útil e que me faça maior bem que esse cheiro eterno de coisa estragada, de mofo, de móveis cheios de poeira. Qualquer coisa, porque eu preciso economizar espaços. Eu precisos de coisas novas e frescas e elas vêm chegando com uma velocidade tão grande que eu temo não ter como acomodar todas. Desculpa, felicidade, mas a última vaga que eu tinha está ocupada pelo Joaquim, aquele que não soube me amar. Ou então: sua vaga estava reservada, querida, mas aquela biscate que um dia se fez de amiga ainda não fez o check out. Não gosto de correr riscos, nunca gostei. Sou muito apegada à sensação de acordar pela manhã e saber a quem amar, para o quê viver, quais os motivos para sorrir ou chorar. Sou muito intimamente ligada às certezas da vida para por meu coração sempre em jogo. Por isso, é hora da faxina dentro de mim. É hora de por fora todos os hóspedes que não pagam suas diárias. É hora de queimar aquelas contas de mais de cinco anos, de doar as roupas velhas, de jogar no lixo as comidas vencidas. É hora de por pintura nova na casa, mudar os móveis, contratar novos funcionários e quem sabe até mudar o nome do lugar. É hora de deixar para trás todas essas histórias que deixaram esse lugar caindo aos pedaços de tal velho e gasto. O que merece sua estada, fica; o que muito atrapalha e nada acrescenta, está com malas prontas e na fila da saída. Mas até por fim nessa loucura típica de mim, para segurança de todos e por precaução a mim mesma, estou bem assim: agradeço a todos pelo interesse e se quiserem, a porta logo estará aberta. Mas, por enquanto, não há vagas.

"Mas chega, se não houve troca, chega, porque amar sozinho é solitário demais, 
abandono demais, e você está nessa vida para evoluir, mas não para sofrer".

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Paradise is like hell


Menos de vinte anos, alguns metros cúbicos de lágrimas e cá estou eu, tentando fazer a coisa certa ao menos uma vez. O meu entendimento em relação ao resto do mundo tem sido cotidianamente reconstruído e eu não sei se as mesmas palavras de ontem não passam, hoje, de um sentido superficial do que ainda está por vir. “Ainda está por vir” é o termo mais certeiro que eu tenho me atrevido a utilizar, a propósito. Acho que abandonei – finalmente – essa minha tentativa vã de parecer determinada em alguma coisa: sou uma contradição em mim mesma, um movimento cíclico daquilo que ainda não aconteceu, mas que se espera e espera e espera, não me perguntem até quando. Há muito tempo eu desisti de entender o que qualquer uma dessas coisas significa – se não haveria um sentido oculto por trás de tudo e se as respostas certas não estariam escritas em letras grafais em neon, bem à minha frente. Dizem que nós somos cegos em relação ao que de melhor está por vir, mas eu garanto, com toda a minha honestidade de quem nunca aceitou bem a decepção de esperar o que não tem que ser esperado: nada de excepcional está por vir. Talvez, no máximo, surja a chance de umas belas voltas por Copacabana, com aquele vento maravilhoso que talvez só faça igual aqui por minha terra; talvez uns goles de café, minha única e amiga bebida, que me façam revigorar e reconstruir todas as forças que não encontro mais em mim mesma; e, por fim, algumas dessas palavras cruéis que não têm um significado em si mesmas, mas que no fim acabam por formar um sentido único: não tenham pena de mim, não me mandem cartas nem recados de despedidas. Eu estou – muito – satisfeita até mesmo com os tombos que tenho levado, o que dirá das alegrias que vez ou outra batem à minha porta, pedindo passagem. São momentos raros esses que eu saio do meu corpo cansado e me permito flutuar nas luzes que invadem a noite – é uma ótima sensação, vocês deveriam experimentar. E depois eu retorno, para a mesma vida, o mesmo jogo, o mesmo resultado. E, não sei bem como dizer, isso tem satisfeito a minha fome de viver. Porque não dá para brincar com a verdade. A realidade não é um leque de opções. Existe essa força acima de tudo que lhe deu as cartas e, bom, tudo o que eu sei é: faça o melhor jogo que puder.


"São tudo histórias, menino. A história que está sendo contada, cada um a transforma em outra, na história que quiser. Escolha, entre todas elas, aquela que seu coração mais gostar, e persiga-a até o fim do mundo. Mesmo que ninguém compreenda, como se fosse um combate. Um bom combate, o melhor de todos, o único que vale a pena. O resto é engano, meu filho, é perdição."

domingo, 2 de outubro de 2011

Esbravejo essa necessidade de entender


Eu ainda tinha muito a fazer, mas o modo com que me atirei ao sofá anunciava que eu estava me entregando por hoje. Ainda era dia, mas a taça de vinho nas minhas mãos já indicava a preparação para outro momento, algo mais estrelado e misterioso. Porque eu gosto de me esconder no sombrio. Gosto de ficar por trás da luz, sem revelar nada, só esperando as coisas serem mostradas. Talvez por isso me incomode tanto quando eu não consigo enxergar nada além de mim – quando somos só eu e não eu e o resto do mundo, entende? É quase uma necessidade boa de sempre ter companhias, mesmo que elas não lhe notem. Fucei algumas fotografias velhas, assisti 500 days of Summer, pus The Smiths para tocar, tudo a espera de algo que me indicasse o caminho. Mas ninguém nunca vai lhe indicar o caminho, essa é que a verdade. Você sempre fica sentada ao sofá, esperando que a noite chegue e você possa finalmente fazer tudo aquilo que não tem coragem quando a luz brilha no seu rosto. É à noite que nos esquecemos de nós mesmos e nos permitimos ser quem nos quisermos. Aí eu ponho a cara na rua e grito como sou hipócrita, como o mundo é hipócrita e como somos uns tolos por aceitarmos ser assim. Ninguém me olha e mesmo se olhassem, não ouviriam, porque estão todos preocupados demais com os seus demônios internos e seu vinho e sua boa música. Como eu disse: hipocrisia. Esse é meu ciclo de vida, mas eu acho que estou preparada para algo mais... Grandioso. Algo que me choque, me pegue de surpresa. É, acho que essa é a palavra: novidade. Tudo que eu tenho é muito bonito e foi conquistado na maior dureza, sob tapas e choros, de verdade; mas nada é bom o suficiente ao ponto de você nunca mais sentir vontade de despertar com aquele cheio de novo inebriando sua cabeça, invadindo todo o apartamento, o seu coração, sua vida. Acho que sou viciada numa boa novidade, nem que seja em um livro recém descoberto ou então em uma banda que, sinceramente eu não sei como passei a vida inteira sem ouvi-la. Coisas bobas, mas que me tiram dessa rotina enlouquecedora. E quando eu acabo de gritar à varanda todos os meus desafetos, olho para o lado e vejo me vizinho me encarando da varanda dele. “E qual o sentido disso?”, ele pergunta, enquanto me oferece um cigarro. Eu aceito (e essa nossa necessidade de estarmos sempre anestesiados da vida, como se explica?) e retribuo lhe oferecendo a minha taça de vinho. “Eu não tenho feito muito sentido ultimamente”, respondo. A minha certeza é que o vinho quente lhe rasgou a garganta assim como a fumaça do cigarro me tirou o ar. Que bom que ainda somos capazes de sentir alguma coisa, embora ele faça uma careta e não pareça tão feliz. Me devolve a taça (eu não devolvo o cigarro) e entra no seu apartamento, na sua vida de faz de conta, me deixando sozinha outra vez. Hipocrisia, eu sussurro, é disso que estou morrendo. Volto à minha sala e me atiro novamente ao sofá. Eu tenho medo de fechar os olhos, tenho medo que tudo se acabe ao meu redor e eu não possa sequer ver a última cara de desespero daqueles que passaram a vida se enganando ao achar que tudo isso era para sempre. Nada é para sempre, seus grandes otários. Nem eu, nem você, nem toda essa bobagem que você chamam de vida ou qualquer outra coisa que acreditem. Sinto vontade de sorrir ao pensar em toda aquela fortaleza desmoronando e fecho os olhos, me entregando em pensamentos. Quem sabe até eu não consigo sonhar.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

E aí vocês entraram na minha vida

Sempre acreditei muito em sorte. Em destino. Em coincidências. Sempre apostei nas coisas certas nas horas certas. No bom senso do universo. Na justiça divina. Sempre fui muito ação-reação. Em razão tomada pelo coração. Acredito em histórias construídas ao longo da vida, mas também acredito em amor após cinco minutos. Acredito em amizades após uma simples troca de olhares, em simpatia instantânea, em bondade sem interesse. Enfim: sempre acreditei no belo e no justo. Só não acreditei que pudesse acontecer comigo. E aí vocês entraram na minha vida.
Não se explica como alguém entra na sua vida. Muito menos como “alguéns” a invadem sem pedir permissão. Só acontece. Assim, num dia qualquer, sem nenhum brilho especial, nem sol nem chuva lá fora. Pode até ser num dia gelado, que é pra gente ir sentindo a calor entrando no coração aos poucos. E de repente tudo fica mais simples porque você pode desabafar a qualquer instante e ouvir os melhores conselhos do mundo. Tudo fica mais leve porque sempre pode surgir alguma história que vai lhe derreter em lágrimas – de alegria, claro. Tudo fica mais normal, mesmo aquelas suas manias mais estranhas e incompreensíveis, porque do outro lado da rede existe sempre alguém para dizer “te entendo”.
E como a gente se entende. Não foram precisos anos de Máfia e muito menos qualquer encontro pessoalmente: madrugadas de conversas e milhares de comentários depois, a gente aprende a sentir um abraço mesmo de longe. Aprende a entender que o significado de companheirismo está mais ligado à dedicação e intensidade do que à quantidade de anos que você o exercita. Aprende que o tamanho do lugar que as pessoas ocupam na sua vida não tem nada a ver com há quanto tempo elas o tem, mas sim o que fazem com esse espaço. Porque conquistar pouco a pouco é mais fácil; difícil mesmo é chegar de supetão na vida de alguém e abalar as estruturas, inverter prioridades, privar noites de sono.
Seja lá o que achem sobre amizades a distância, eu sei o que eu acho sobre vocês. Chame de sorte, destino, coincidência, coisa certa, bom senso, justiça, razão, coração, história... Nada como uma lista inteira de palavras clichês para explicar o sentimento mais clichê do mundo, mas que nem por isso deixa de ser indispensável.
E aí vocês entraram na minha vida e eu entendi que o AMOR por essa Máfia era impossível de não acontecer.


E por falta de imagem melhor (desconsiderar os meninos aleatórios), até que essa representa bem o que eu espero da gente, um dia qualquer: parque, comida, violão e fofocas, claro.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Ode à monografia

Eu leio Caio Fernando Abreu há algum tempo – 5 anos, para sermos mais exatos. O curioso da história é que eu descobri o autor extremamente por acaso e mais por acaso ainda comecei a pesquisar sobre a sua obra. No fim das contas o meu amor virou trabalho, porque, sim, minha monografia é sobre uma obra de Caio Fernando Abreu.
Eu poderia passar o resto do dia dizendo como escrever um trabalho tão extenso é atribulado – na verdade, eu não poderia, porque tenho que escrever um projeto para ser entregue na semana que vem para a minha orientadora. Mas eu não vou perder o meu tempo crucificando a tal da monografia, até porque todo mundo já faz isso sem a minha ajuda – e também porque estou tentando fazer uma ode, ora bolas. E, sendo sincera, essa é a tarefa “árdua” mais gostosa que eu já tive em toda a minha e eu posso afirmar com toda a certeza que eu nunca fui tão feliz com o meu curso como eu sou hoje.
Tenho uma amiga que diz que meus olhos brilham quando eu falo de Caio Fernando e que parece que eu sou a melhor amiga dele há anos – é como se nós tivéssemos trocamos cartas e farpas e sido vizinhos de porta a vida toda. Porque é assim: escrever uma monografia é fazer os seus olhos brilharem; é conhecer aquele assunto mais do que você conhece a si mesmo; é respirar teorias e textos exaustivos de forma repetitiva, mas sempre querendo mais; é nunca estar satisfeito com uma linha escrita que parece fora do lugar, porque aquilo que você está fazendo é tão belo que merece o esforço máximo para estar o mais perto possível da perfeição.
Eu não consigo pensar em outra coisa: é quase como se eu tivesse 15 anos e começasse a namorar o cara que eu sempre quis, mas que nunca me deu bola. É quase como se eu tivesse descobrindo pela primeira vez o final de Harry Potter. Cinco em cada dez assuntos que eu tenho são referentes à monografia. Estou a dois passos de abandonar o resto da minha vida e viver de ler e escrever sobre o assunto. Logo eu, que sempre tive tanto medo de nunca encontrar algo que me fizesse sentir tanto prazer... Lembro que quando estava no início do curso, uma professora minha fez aquele discurso inicial sobre escolhas e se entregar a uma área de pesquisa. Eu fiquei apavorada com aquilo, quase pensando em já desistir; então, no fim da aula, fui até ela e perguntei: “como eu posso saber que encontrei algo que eu posso me entregar de verdade, sem abusar a pesquisa na semana seguinte?”. E ela olhou para minha cara de caloura desespera e simplesmente disse: “você vai saber”.

É. Agora eu sei.

ps.: o título provisório da minha monografia é “Um escritor irremediável: uma leitura melancolia em Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu”. É a única monografia da região norte/nordeste já escrita sobre ele e, quer saber? Em tempos de modinhas de quem não sabe valorizar uma boa escrita quando a vê, eu tenho um orgulho imenso disso.

domingo, 18 de setembro de 2011

Eu, pula um parágrafo, você

O teu cheiro e a tua risada já não me incomodam. O pensamento em qualquer romance é cada dia mais raro e tudo que em mim foi destruído pela sua presença, vai aos poucos voltando a ficar inteiro. O espaço entre dor e a lucidez é cada vez menor. Só preciso continuar assim: um pouco mais de fé em mim mesma, ao invés de me manter presa a uma promessa de algo bonito que, convenhamos, nem você nem eu acreditamos mais. Esse é o trágico fim do que nunca mereceu uma vírgula sequer. Só restou a saudade do que não existiu, a falta de um abraço e um último sorriso, torto como a nossa história.


Forever is a long long time when you lost your way,
trying to follow your ideals (are sorry),
but your so-called life, it is such a waste...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Metaforizando lágrimas e sorrisos

Estou vivendo uma versão de mim mesma, no mínimo, muito desagradável. Essa mania que a gente tem de nos repetir sempre em nossas piores versões sempre ferra com tudo, mesmo. Sempre tem aquele pedacinho insignificante de maldade, dor e muita saudade pra lembrar que a felicidade não é tão fácil assim. Sempre tem aquele fantasma que te assombra e não te deixa concluir a tua noite de sonhos; sempre se tem o que temer, no que desacreditar, por quem sofrer. Foi nesse ritmo meio descompassado que eu guardei fundo o meu atrevimento de querer controlar minha própria vida e fui ao poucos murchando o meu peito que, não sei porque, andava estupidamente inflado. Esse meu orgulho besta de qualquer coisa nunca me levou a lugar nenhum, e agora mais do que nunca eu sinto vontade de me esconder no escuro do meu quarto e chorar como se não houvesse dias nem noites. Não sinto vontade de ouvir a voz de ninguém, porque outras pessoas atrapalham essa minha necessidade de ser triste; eu me empenho em sofrer com todos os milímetros do meu corpo e me dou ao direito de ser assim porque cada um sabe quando não pode mais suportar. Então eu fico nesse êxtase que todos analisam como sem causa alguma e descubro que quanto mais eu me entrego à dor, mais motivos eu tenho para abraçá-la. Não entendo como tanta gente consegue sorrir e viver normalmente enquanto carrega, sem incômodo nenhum, um buraco tão grande no peito; eu não sou assim e nem faço questão. Então, se eu tiver que morrer um pouco para continuar vivendo, é isso que farei. O que não dá é para brincar com as situações como se tudo fosse um grande motivo de graça; tristeza não é poesia, dor não é ilusão. E às vezes acho que vou ficar lançada nisso para sempre. Nunca falei sobre isso com ninguém e nem acho que as pessoas realmente se importam. A uns poucos, que bem mais por educação que por carinho me estendem um “você está bem?” tímido e sem interesse, eu me limito a responder com um breve “vou levando”. E vou mesmo, não sei para onde e não sei por quanto tempo. Às vezes eu acho que me perdi no caminho; dizem que a tristeza cega as pessoas e não é que talvez seja assim? Quem sabe eu não esteja dando apenas voltas em um mesmo caminho e talvez por isso insista em tropeçar nas mesmas pedras: não porque os problemas são os mesmos, mas porque eu ainda sou a de muito tempo atrás. Não adianta fingir que as coisas são diversas, porque dentro de mim a verdade grita: ainda sou a mesma menina de 15 anos que me marcou o resto da vida. E isso não tem nada a ver com azar, pessimismo, esperança, coragem; é como se eu quisesse fazer a única coisa em que sou assumidamente boa. É como se eu tivesse cansada de perder aos poucos e tivesse resolvido arriscar tudo uma última vez. É como se eu tivesse caminhado quilômetros em busca do precipício e agora que eu o encontrei, não sei se pulo ou se volto atrás. É como se depois da chance de ser feliz, eu descobrisse que é preciso muita coragem para ser triste, também.

Sempre soube que minha vida é cercada de metáforas, então por isso segue o meu maior conselho: ouça o que eu digo, mas não entenda o que eu escrevo.


"Agora não dá mesmo para ser feliz, é impossível. Mas quem disse que a gente precisa ser sempre feliz? Isso é bobagem. Como Vinícius cantou: 'é melhor viver que ser feliz'. Porque, para viver de verdade, a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar certo e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundos dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, mas que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, dói demais. Mas passa. Está vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que estou falando a verdade. Eu não minto. Vai passar".

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Viagem maravilhosa


Ninguém é feliz de graça, por sorte. Ninguém acertou o caminho sem antes tentar. Venho convencendo a cada dia um pouco mais de mim mesma da veracidade de todas as minhas teorias sobre a vida, o amor, os astros e a sorte – coisas banais que não fazem muita diferença para a maioria das pessoas, mas que vêm me guiando em um caminho que eu sei que vai dar pé. Todo dia eu reflito sobre as chances e possibilidades que eu ofereço a mim mesma e penso, trepenso, analiso e concluo: não há como errar. O caminho está traçado, a vitória é companheira e eu que não ouse olhar para trás. Eu que nem pense em novamente me olhar no espelho e duvidar da imagem refletida. Já fui e já voltei tantas vezes nesse caminho que dizem ser dos vitoriosos que já reconheço a todos – inclusive a mim mesma quando começo a ficar assim, com esperança. Mas eu imagino essa viagem tão bonita; não consigo parar de pensar como vai ser bom quando eu puder finalmente embarcar nesse trem, de como as poltronas são confortáveis, na forma com que a paisagem foi divinamente desenhada em suas minúcias, o céu azul do jeito que eu gosto e lá na frente, o mar, ah o mar! Suponho que seja assim, ou estou enganada? Porque, penso eu, que quando se é feliz, a gente consegue imaginar o mundo do jeito que quiser. Quando se é feliz se pode até ser triste que nada afeta o colorido do mundo – e eu tenho essa mania de gente besta, de ter tudo para rir até passar mal, mas querer sempre remoer um sofrimento que não existe. Esse meu velho vício de saudade e mágoas que sempre contagia tudo – mas que não vai mais me privar de nada, é o que eu venho repetindo. Outro dia mesmo, parei e disse: hoje vou ficar contente. E fiquei. Engraço como às vezes a gente consegue exatamente o que quer; e outras vezes a gente tem que adaptar as nossas querências àquilo que é possível, que é bom, que é leve. E por fim chega o dia em que tudo que nós precisamos fazer é ficar quietos no vagão do trem, enquanto ele faz sua viagem e nós só observamos a paisagem – e é aí que eu quero chegar. Se um dia eu conseguir, volto pra dizer como é bom.

domingo, 28 de agosto de 2011

Lembrança nenhuma, nunca mais


Hoje eu não vou escrever uma carta para você. Já fiquei por tantas vezes acordada até tarde da noite tentando reunir em um papel em branco as palavras certas, as frases perfeitamente conjugadas e os sentimentos escritos que fariam você voltar para mim; mas hoje, não. Tudo o que eu digo me parece em seguida tão estupidamente masoquista e cruel que acabo rasgando tudo dentro de mim, me corroendo, me arranhando, estapeando a minha alma em uma busca desesperada por me livrar de uma vez de toda inexatidão que você trás. Quem gostaria de viver eternamente assim, menino? Eu vivo. Eu busco a cada dia a discórdia de pensamentos entre a realidade de viver sem você e o sonho atroz de que algo bom ainda possa existir. Eu vivo essa peça teatral, esse drama mudo do silêncio que você guardou para mim, do adeus que eu nunca mereci, do fim cheio de incógnitas e mistérios que até hoje deixa essa curiosidade doentia no ar. Afinal, menino, o que você fez comigo? Isso não foi amor, não foi paixão, não foi qualquer tipo de relação que envolvesse duas pessoas que sentissem afeto uma pela outra. Você tentou encontrar em mim algo que sequer eu sei se existe e é tão bom quando a gente encontra alguém que consegue ver em nós além dessa imagem simples e superficial que encaramos dia a dia no espelho. É tão bom quando essa pessoa nos mostra que por baixo dessa pedra que colocamos no lugar do coração, ainda se esconde aquele resquício de inocência e crença em qualquer coisa que seja boa. É tão bom não precisarmos nos procurar porque há sempre alguém que nos encontre em nós mesmos, em si próprios. Ruim mesmo é a hora de partir. Ruim é esse vento frio que entra pela janela e leva embora o calor do seu corpo que inutilmente eu tento prender à cama. Ruim é ter que sair do sonho de nós dois e encarar uma realidade não tão bonita e justa. Gosto de te escrever como se você fosse saber dessas palavras porque isso me dá a certeza de que foi real, de que existimos, de que eu ainda tenho algo para dizer, de que ainda tenho muito para sentir. Mas hoje eu não vou escrever uma carta para você, porque faz frio, porque é agosto, porque há dor e solidão e porque por mais que eu goste de saber que há algo de você em mim, eu preciso sentir se ainda há algo de mim aqui dentro, também.

domingo, 21 de agosto de 2011

Nunca mais


Hoje eu acordei drástica, trágica... Insignificante. Cruel. Sinto culpa e não sinto nada; fica sempre essa sensação de escuridão sem fim que nós tão bem conhecemos nos nossos últimos dias, hoje tão distantes que parecem mentira. Toda essa história pareceu roteiro de filme que acabou sem suspense, sem grandes revelações, sem chance de continuação. Lembro que assim que você se foi, eu passei dias pensando em onde reunir forças para juntar todos os pedaços de você que foram deixados na sala, na cozinha, no nosso quarto. Fiz muito esforço – em vão – pra me olhar no espelho e não ver em memória o seu reflexo ao meu lado, quente em um abraço. Tentei por muitas vezes sair de dentro de mim mesma, mas a memória forte de você me puxava cada vez mais fundo e eu fui ficando assim, miudinha em um mundo só meu.
Das piores das mentiras que eu já contei, a de que esqueceria você sempre me pareceu a mais cruel. A mais ridícula de todas, porque não engana a ninguém, não satisfaz as nossas necessidades e não me ensina a seguir em frente. A pior parte do deixar ir é não poder pedir pra voltar. A pior parte de ser magoada é a necessidade do consolo por justo aquele que magoou. A pior parte da saudade é a foto no retrato, a Marisa Monte do rádio, o resto de comida do último jantar. A pior parte de você é você ainda existir enquanto eu tento inutilmente te expurgar da minha vida, dar um basta, levantar a cabeça e começar de novo.
Você me ensinou a ser mulher, a ser mais eu, e isso não há mágoa nenhuma que possa apagar. Mas também não posso ser injusta comigo mesma e lhe dar mais do que merece: hoje, não passa de uma lembrança minha, de uma estranha curva, de um caminho torto. Hoje você é um homem com cheiro de cerveja barata, cigarro e putas mal pagas. Hoje, meu bem, o que eu espero de você é que não volte jamais.

sábado, 13 de agosto de 2011

As últimas palavras sobre você


Eu jurei a mim mesma que nunca mais ia lhe escrever, porque depois de provocações, dramas chulos e uma conversa que nunca existiu, pensei que não faria mais bem algum nem a mim nem a você mais alguma prolongação dessa história. Nas últimas oportunidades, o que sobrou foram comentários clichês meus e uma fuga desenfreada sua de não ver mais o meu rosto nem de longe. Mas acontece que hoje o dia está tão bonito e me vieram umas lembranças tão fortes de você. Eu sei que no seu coração estão guardados, acima de tudo, os desentendimentos e mágoas que são tão característicos de nós dois; mas não é reciprocidade o que eu busco e, ainda que fosse, eu não poderia deixar de ver você como a única oportunidade que tive de ser absolutamente diferente de tudo que eu já fui. Eu não posso privar o meu sentimento de agradecimento em relação a você, menino, e me desculpe se eu não demonstro isso na mesma imensidão que eu sinto – mas, você sabe, nunca fui boa em afeto, carinhos e amor. Sempre achei que depositar todas as minhas certezas em algo não palpável como um sentimento – em especial o nosso – seria uma loucura imperdoável da minha parte. Até hoje acho que não errei em pensar assim, mesmo porque eu passo muito tempo querendo uma coisa sem ter certeza que foi de fato aquilo que eu sempre quis. E de forma nenhuma eu quero aqui falar sobre futuro, destinos e escolhas. Eu só queria dizer que é muito forte o carinho que eu tenho por você. Que eu espero que a vida não te maltrate nunca e que as suas escolhas sejam bem mais certeiras que a minha. Espero que sempre valha a pena lutar e que a batalha não seja árdua – que nunca lhe falte um amor no qual acreditar e uma fé enorme para seguir em frente. Espero que você saiba aproveitar as suas alegrias e aprender a imensidão de coisas que cada instante de tristeza pode lhe ensinar. Espero que você siga em frente sem olhar para trás e que você sinta sempre coisas muito boas, principalmente quando a saudade apertar e for inevitável lembrar-se de mim – porque, saiba: eu me lembrarei de você. Espero que você encontre os seus caminhos, mas que também se perca de vez em quando – deixe o destino transformar o seu coração em algo impulsivo, quando necessário. Espero que você seja forte e não deixe que lhe digam o contrário – ninguém, nem mesmo você mesmo, sabe até onde pode ir antes de chegar lá. Aliás, desejo que você chegue lá e que deixe pelo caminho o máximo de você mesmo; não se desespere por isso, não se sinta partido ou incompleto, porque você jamais deveria privar as outras pessoas de conhecer você da forma que eu conheci. Espero que você cultive sempre o seu melhor e que vá matando pouco a pouco aquilo que nada lhe ajuda ou acrescenta. Espero que você tenha a quem desejar coisas assim – de repente nada tão cheio de despedida, mas algo igualmente bom. Espero que você saiba de tudo isso e entenda que é sincero, que é verdadeiro e sem uma gota de mágoa. Espero que um dia você acredite: você foi parte do meu coração.

''Me despeço dessa história
E concluo: a gente segue a direção
Que o nosso próprio coração mandar,
E foi pra lá, e foi pra lá, e foi pra lá...''

[Assinado eu - Tiê]

sábado, 6 de agosto de 2011

Toda minha mágoa e amor de sempre


Venho sonhando com luzes fortes e carros em movimento; deito a cabeça no travesseiro e automaticamente surgem os sons do vinho sendo aberto, do seu sorriso estridente e do meu coração palpitante. Mês passado eu jurei ter juntado a última leva de todas essas sensações, empacotado e endereçado a você – como se eu soubesse o seu endereço. O correio devolveu e novamente eu abri meu coração a tudo o que mais me dói – um boicote de mim mesma, um rasga fora do pouco amor próprio que ainda me restava. Você não me deixou nem um resquício de sentimento bom, nem um traço do caminho que eu desenhei tão cuidadosamente para nós; não sobrou nem minha dignidade para que eu pudesse juntar todos os pedaços de mim e viver daqui pra frente uma espécie de faz de conta, uma mistura de solidão, mal me quer e desejo de retomar minhas ilusões infantis de quem nada sabe sobre a vida, amores e partidas. Você escreveu bem a tragédia de história que nós iríamos viver e ao final dessa peça mal ensaiada, o que resta a nós é essa sensação de perda de tempo, de “poderíamos ter feito melhor, se tivéssemos querido”. Se você tivesse querido.
Nunca fui de desejar mal a ninguém, mas seria a pior das hipocrisias se eu dissesse que espero lhe ver feliz e satisfeito, com outras paixões e outras histórias que não a nossa; porém, tão pouco vou perder minha força e os meus dias lhe despejando mil e unas sementes de vingança. Quero mais é que você apareça à minha porta uma última vez; não me dê bom dia, não pergunte como estou – se não quiser uma resposta ríspida – e tão pouco me deseje qualquer coisa como se lhe importasse de algum modo o que tenho ou deixo de ter – apenas recolha suas coisas, esvazie sua existência da minha vida, saia da minha sala, do meu quarto, dos meus livros e das minhas boas músicas; recolha suas fotografias e quando acabar, nem precisa dizer adeus. Deixa no ar essa vagueza de uma despedida não concluída. Deixa eu sentir saudade de você, morrer de solidão se for preciso; mas não volte, não ouse pensar em me fazer uma visita, não passe à minha rua quando eu estiver na calçada. Deixa eu chorar e me afogar em mágoas próprias, deixa eu destinar mil cartas mal escritas a você, deixa eu amargurar minha alma idosa e reclamar horas a fio para as paredes. Deixa eu achar que tenho o direito de tentar escolher a quem amar e com isso dizer: nunca mais, não desse jeito, não com essa dor. Deixa eu aprender a viver sem você.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Para atravessar os dias

Fugir. Sair da cidade na segunda à tarde, sem previsão de volta e sem sentir culpa alguma – apenas porque é gostoso, porque é bom, porque é leve. Por muito tempo eu quis escapar de mim mesma; hoje, eu só quero ser cuspida por esse mundo cheio de desgostos, que não me aceita em uma forma mais simples de ser, se assim eu quiser. Ninguém está preparado para ser feliz nem para ser amado, coisas hoje que eu busco desesperadamente; estão todos presos aos seus dramas sem fim, em um ímpeto incomum de se sentir incompleto. É um ultraje da minha parte querer descomplicar boa parte dessas coisas que por si só já são difíceis – porque o normal é querer sentir o gosto do veneno impregnando o seu estômago, você mesmo dar cabo a qualquer chance de terminar essa história com um final feliz.
De fato, eu sou também masoquista assim e não sei com que direito estou me comportando como se amanhã, na hora de realmente fugir, eu não fosse dar para trás e resolver que minha cama e meu edredom são mais seguros. Mas, por enquanto, eu sinto coragem o suficiente para não aceitar esse mundo covarde como está; por enquanto, “trago no peito o saudável defeito de ainda acreditar na vida”; por enquanto, eu sinto vontade de ir além do que eu posso ser, de me dar ao direito de sonhar com Paris, samba e amor, de atingir os corações de todos com essa vontade danada de sorrir até ficar sem ar.
Me confundindo nas minhas próprias palavras, eu retifico: amanhã, eu não sei se serei triste, feliz ou poeta. Talvez tudo perca a graça, talvez tudo esteja mais difícil; talvez surja um problema, talvez eu receba à porta um aglomerado de soluções. Amanhã, eu não sei. Mas o “por enquanto” me soa tão bonito e justo, que a fé infla tão grandemente e só posso pensar: há de ser sempre bom, há de ser.


Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Essa mania de viver por amor


Se não for pra ser bom, gostoso, romântico, carinhoso, divertido, presente, construtivo. Enfim, se não for pra ser amor, nem me dê bom dia.

Tudo o que eu queria era ter coragem de dizer adeus, mas ainda me recuso a ser o que querem de mim. Já fui e voltei tantas vezes em um caminho de mesmas palavras que não querem dizer absolutamente nada; você já se foi há muito tempo e, ainda assim, na última noite sonhei com nós dois. Tinha um gosto de pesadelo e saudade, misturado a um desejo que de se não repetisse jamais. Não tenho o direito, e isso é o que eu mais custo a entender, de proferir qualquer palavra sobre você; deixamos claro o abismo entre nós, seguimos nossos próprios rumos e estamos muito mais felizes assim. O que custa a ser aceito é essa necessidade de perder as pessoas para que se possa ser feliz. Não tolero e não entendo o jeito humano de se comportar, de julgar o amor como se fosse pesado e medido, como se fosse a menos valiosa moeda em circulação; não entendo como, ainda que para o meu bem, eu pude deixar um grande amor como você me escapulir, e isso sem um adeus, sem uma despedida digna de nós, sem sequer olhar para trás. Tenho vergonha de me sentir assim e tenho nojo de ser o contrário. Nunca me encaixei nesse sobe e desce do valor das relações; me falta mesmo é coragem para abrir a porta e ver lá dentro a verdade sobre a vida e todas as coisas. Falta mesmo é admitir que nada é eterno, insubstituível ou inesquecível. Falta é mesmo vontade de viver, se não for por amor.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A carta que você deveria ler


“Tem coisas da gente que não são defeito nem erro:
são só jeito da gente ser”.

Eu sempre acreditei que tudo que algumas pessoas esperam é uma chance para destruir a vida de quem está logo ao lado. Simples assim: esperam até ter a primeira oportunidade e vão lá – sugam tudo o que há de bom e cospem na cara de alguém, para que essa pessoa veja sua única fonte de felicidade se esvair pelo ralo. Por muito tempo, essa foi a nossa história do ponto de vista de cá: você, meu calo no pé; eu, sua perseguidora fiel. Não que isso importe a você, e eu sinceramente acho que não importa, mas de repente eu descobri que ao menos para mim ainda vale à pena: se não por você, mas com certeza pela minha incapacidade de carregar por toda a vida algum sentimento que não seja bom. Compreendi que mesmo aquelas pessoas que me fizeram (sentir) mal ou que não me fizeram (sentir) nada ou aqueles que nunca dedicaram a mim uma única palavra que não explicitasse desprezo ou, mesmo ainda, quem me ofendeu de forma justificada ou não... Enfim, ninguém, nenhum desses, é dispensável, porque por mais insignificante que qualquer pessoa tenha sido, eu devo a todos uma parcela da motivação por eu ser quem – felizmente – eu sou hoje. E assim eu acabo nesse dilema de um pedido de desculpas mal feito – não sou boa em ser humilde, mas a intenção não é o que vale? –, a expectativa de que releve qualquer atitude ou palavras da minha parte que, intencionalmente ou não, tenha lhe atingido. Porque esse nunca foi o meu intuito – atingir alguém. A ideia sempre foi me proteger, e quem pode me julgar por isso? E, mais ainda: quem pode nos julgar por compactuar com uma briga infantil que, cá entre nós, nem motivo real e concreto ainda tem. Se quer saber a (minha) verdade, acho até que nos daríamos bem – me atrevo até a dizer que muito temos em comum em relação aos nossos tipos de gente. Mas ninguém quer ceder, embora, de todo coração, eu não me importasse de fazê-lo porque não vejo a possibilidade de perder nada com isso – por baixo de todas as implicâncias, confesso, sempre guardei uma impressão boa de você. De qualquer forma, não serei eu que vou mergulhar sozinha e sem perspectiva de sucesso em uma relação por enquanto condenada ao fracasso; tampouco vou julgar os seus juízos de valores, os seus sentimentos e, mais ainda, não serei eu que de alguma forma mudarei esse rancor que sente por mim: isso já é com você, e se achar necessário que assim o faça. Mas de minha parte deixo claro: você, para mim, é como qualquer outra pessoa que eu ainda não conheci – sem pré-juízos, sem condenações ou antecedentes. Só uma admiração boba à qual, sinceramente, espero atribuir motivos. E no mais, não serei hipócrita em dizer que o passou está no passado, porque se uma coisa é perdoar, outra bem diferente é esquecer – e não quero me olvidar nunca, de qualquer forma, porque só me lembrando de tudo eu tenho a garantia de, com um pouco de esforço, não ser pegar na minha própria armadilha outra vez. E no fim, até sorrir, quem sabe, de ter perdido tanto tempo com birras inúteis e que não acrescentaram – e isso eu garanto – nada nem a mim nem a você.
E se ainda assim, tudo o que eu tiver de resposta for um silêncio gelado ou uma frase arrogante seguida de um “tanto faz”, eu estarei satisfeita – aprendi a não esperar o esperado.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Meu mistério é você

Você me soa como uma incógnita tão grande que me faz perder o ar. Algo como um pouco de paixão e um muito de loucura. Algo como você e eu em tardes de um dia qualquer, sentados à mesa do bar e recitando nossas ironias incomuns. Eu lembro que sentávamos lado a lado meio sem querer, meio que de propósito; lembro que eu sempre tomava a iniciativa, já que você nunca foi muito um homem de atitude. E era nesse momento em que eu deveria ter percebido que seria essa a causa da nossa morte: a falta de ação. Porque nós morremos sem tentativa, morremos por pouco interesse, morremos sem tentar.
Nossa história acabou em alto mar, boiando no meio do nada, afogada nesse seu medo incomum de ser feliz – porque, eu lhe digo, eu poderia ter lhe feito muito feliz. Você ainda me fez, mesmo que por acaso, mesmo que nem nisso você tenha se empenhado. Pois bem, meu garoto, você que sempre disse não saber de nada, foi capaz e sem esforço algum de me plantar no rosto alguns poucos e sinceros sorrisos. E agora eu planto em você a possibilidade de um arrependimento: imagine o que você teria feito por mim se tivesse tentado, hein? Imagine o que eu poderia ter feito por você se tivesse sido permitido, se a janela para a alegria não tivesse travado o seu coração.
Não sou mulher de olhar para o passado e graças ao bom Deus aprendi que ficar remoendo as mesmas palavras às mesmas pessoas é tão frutífero quanto ficar calado; mas eu não posso deixar de dizer que agora sim faz sentido a minha atitude, naquele momento absurda, de ficar calada quando, pela primeira vez, você, de forma igualmente inédita, quis dizer alguma coisa. Acho que agora começa a fazer sentido o medo que você sentia – que deveria ser o meu medo, também, só que a mim com razão. Preciso remoer tudo isso, repetidas vezes, para que eu finalmente compreenda: não há nada a ser compreendido.

"Amo-te tanto que decidi deixar-te ir, se é isso mesmo que queres, mas és tão egoísta ao ponto de não me dar escolha, fazendo com que fiquemos ligamos para sempre pela vergonha, culpa e dor", foram minhas palavras a você quando eu finalmente percebi a impossibilidade de viver sozinha uma história a dois.

Às vezes eu tenho a ligeira impressão que a minha vida
trabalha em loop infinito de encontros e desencontros.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Um pouco do que incomoda

Tenho me sentido estúpida. E, acima de tudo, clichê. Parece que ninguém entende a minha aflição de estar sempre em cima do muro que divide aquilo que eu era e aquilo que pretendo ser – ambas as vidas são bem tentadoras e é isso que vem me tirando o juízo dia a dia. Penso que nada é por acaso e vejo mensagens subliminares até na caixinha de achocolatado – no noticiário da TV, nas músicas aleatórias do meu Media Player. Indiscutível como sempre toca justamente aquilo que eu fazia questão de jamais chegar a ouvir – mesmo tendo sido fraca o suficiente para jamais apagar da memória do computador. Aí eu ponho a culpa no destino, nas cartas, em runas antigas, no movimento do sol, no calor que faz na cidade... E fica sempre a dúvida: qual o próximo passo? O que vem a seguir, quando nada eu posso prever? Imagino que a linha da vida seja um pouco mais justa que isso, afinal. Que eu não tenha sempre que viver de restos – o que restou do conhaque, o que sobrou de forças para comemorar, o que falta para o fim da noite de sexta. Nunca fui o estilo mulherzinha, mas um desejo nunca abandonei: quero ser importante. Para quem quer que seja. Quero ser a primeira opção de alguém, e não apenas mais um número na lista telefônica. Quero encontrar pela sala do meu apartamento lembranças da noite passada, quero andar pela cidade e ver em cada esquina um traço da minha história. Quero não precisar escrever por medo de esquecer de mim. Acho que quero algo que ninguém pode me dar.

Estou precisando sentir algo bem forte, arrebatador. E apesar de nada me fazer falta alguma, dizem que isso é coisa de quem precisa viver mais... Como é mesmo? Ah, sim. In-ten-sa-men-te.

"Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota - tá me entendendo, garotão?"