Esse cheiro de ano novo sempre enche dezembro com uma vontade imensa de deixar os fantasmas e as lágrimas em um passado que não nos pertencerá mais. Mas é com o meu orgulho enfiado goela abaixo que eu admito que, no fim do último dia do ano, o balanço que eu posso fazer sobre os últimos 365 dias não poderia ser mais realista. Chega a ser irônico com uma perspectiva de vida que foi construída ao longo de uma vida inteira muda assim, depois de alguns episódios desastrosos e outros nem tanto. Antes, na minha ingenuidade juvenil, tinha plena consciência que um ano a mais só era válido se ele existisse para que eu fosse feliz para sempre, enquanto esse sempre durasse. Fui ridiculamente romântica, uma burguesa de coração atado à paixão, ao afeto, ao carinho. Esperei muito, por tempos, aquilo que eu sempre fiz questão de clamar como o justo e o merecido. Nada do esperado veio, mas é estranho como às vezes o esperado pode ser desinteressante se comparado ao inesperado. Não tive nada do que eu pedi: tive muito mais. Não enchi meus dias de misantropia, de manhãs deitada na rede, de livros fabulosos, de amores perfeitos, de amizades eternas. Vendo por esse lado, a felicidade é tão comum e banal. Todos sempre desejamos as mesmas coisas. E mesmo tento tudo isso em doses satisfatórias, a inquietude sempre me avisou: você não quer nada além do normal. O fantástico meche demais com a cabeça das pessoas. Tanto que começamos a duvidar daquilo que é real. Boa demais para ser verdade, essa realidade de vidro que trinca no primeiro suspiro. Foi com muita contrariedade, para ser sincera, que eu pareço ter entendido que a verdadeira alegria não precisa estar fantasiada de “inacreditável” para existir. Sempre proclamei que não precisava de nada maravilhoso para ser feliz, mas isso sempre foi a maior das minhas mentiras; sempre estamos à espera que algo lindo aconteça, algo que nos faça rever nosso conceito de mundo, que nos faça brindar usando champagne, que nos resgate a vontade de sorrir sem precisar de algum motivo que justifique a nossa loucura incontrolável. Essa exigência do melhor sempre me consumiu, ao invés de me fazer seguir em frente por acreditar. Acima de tudo, é decepcionante esperar coisas que só existem com fruto de uma imaginação nada confiável, que muda de idéias com o passar das horas e que desfila pelos mais perigosos e incertos sentimentos. Por diversas vezes, eu deixei claro que o meu desejo para um novo ano que se inicia é que tudo se transformasse para melhor; hoje, a única coisa que precisa mudar sou eu e essa inclinação a querer o perfeito enquanto este nunca me agradou. Tudo o que eu peço, depois de muito desperdiçar as minhas vontades com coisas que eu nunca quis, é que tudo o que vier seja o mais normal possível. Que os meus amores sejam sinceros e palpáveis e que eu possa reconhecê-los em pessoas sem poderes espetaculares. Que as minhas amizades sempre cultivem o sentimento do real e que nunca tragam consigo a fantasia que evapora ao fim da história. Que as manhãs de cada dia brindem a força, a fé e a esperança, mas que jamais cultivem o sentimento do falso, do que nunca existirá. Que eu jamais, em tempo algum, venha a estimar o desnecessário, o vago, o impreciso, o inoportuno. E que meu coração se acalme e descanse naquilo que habita dentro de mim, que não é tudo de bom que existe, mas que é suficientemente maravilhoso.
Nessa troca de datas de anos, eu não levo comigo nada que trouxe até hoje por falta de coragem de deixar para trás. Fica aqui a minha prece por um coração renovado, livre de todas as mágoas que anos a fio ocupam lugares desnecessários; deixo para trás o medo de acreditar nos sonhos que tenho receio em admitir; reciclo a minha mente para as pessoas que já havia condenado, para tudo em que já havia perdido a fé, para a paciência que sempre me faltou. Nunca fui de ter crença em recomeços, mas a vida me pediu e me mostrou como é imprescindível mudar essencialmente nós mesmos, quando estamos fadigados da nossa própria presença. Por fim, que o novo ano me traga a compreensão sobre tudo aquilo que sempre precisei e que nunca me faltou, mas que por vezes eu desperdicei.
Feliz vida, mente e coração novos a todos.





























