segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

13 resoluções para 2013

Quando 2011 chegou ao fim, não sei porque cargas d’água eu não renovei minhas resoluções para o ano que estava surgindo. O resultado disso foi que 2012 acabou me deixando com aquela sensação de não saber se eu tinha realizado algo de útil pra vida ou se o ano inteiro tinha sido um desperdício de esforço. Depois de muito tempo sem saber ao certo o que eu acho dessa história de se renovar em função das datas que mudam, acho que acabei concluindo que acredito sim que um ano novo é uma oportunidade perfeita para aqueles que esperam um empurrãozinho pra recomeçar – entre estas pessoas, eu. Sem mais delongas, eis aquilo que pretendo atingir em 2013: 

1. Emagrecer 7 quilos 
Quem lê essa resolução deve no mínimo pensar que estou beirando a obesidade mórbida. Mas o fato é que 2012 foi tão corrido e estressante que eu, sedentária por natureza, sofri o mal do qual nenhum de nós estamos salvos: engordei mais do que poderia. Fora esse descaminho alimentar, há também o agravante de que vou passar o mês de julho viajando e comendo muito mal, por consequência; assim, se eu já sair do Brasil gorda, imaginem quanto vou pesar quando voltar? Não vou dizer o meu peso atual porque ainda me resta alguma dignidade, mas confesso que o número da balança que pretendo atingir eu não alcanço desde os meus 15 anos, quando eu desfilava de biquíni com orgulho. Vamos aguardar. 



ps.: inclua nessa resolução começar a ir regularmente à academia. 

2. Passar na OAB 
No último dia 28 a OAB divulgou a lista com os aprovados na primeira etapa do último exame da Ordem de 2012. No fim de 2013, eu quero ao menos estar assim: com meio caminho andado. Passar na OAB, teoricamente, é fácil: estude bem durante 5 anos e faça duas provas, uma objetiva e outra dissertativa, onde o único concorrente é você mesmo. Infelizmente, todo mundo sabe que a coisa não é tão simples assim – para mim, então, que sou extremante nervosa em provas e adoro ter brancos em momentos impróprios, nem se fale. Se tem uma resolução que não vou atingir sem esforço, com certeza é essa. 


3. Ler um livro por semana 
Acho que 2012 foi um dos anos que eu mais li na vida, considerando que não li nada no primeiro semestre por causa da monografia e que li 29 livros somente no segundo semestre. Ainda assim, foi pouco. Não vou poder exigir muito de mim quanto a leituras, considerando a quantidade de eventos que 2013 promete. Em média, consigo fazer um livro a cada 4 dias, mas vou estender esse prazo para 7 dias já prevendo que minha meta normal é meio impossível, ao menos por enquanto. 


4.Voltar a escrever 
Por razões que ainda não posso dizer, com certeza esse ano escreverei bem mais que em 2012 – que, aliás, foi um dos anos que menos produzi. Além disso, farei o intercâmbio e darei notícias pelo blog, o que já é outro grande estímulo. Quanto aos meus textos mais comuns, descobri há muito tempo que minhas inspirações partem dos momentos em que minha alma está mais destroçada – então, se o preço a pagar por me manter espiritualmente intacta for a abstinência de escrita... Eis um grande vácuo na minha vida, com o qual eu não sei lidar. 


5.Ter mais cuidado com meu cabelo, pele e alimentação 
Pausa dramática porque essa é uma resolução que venho tentando realizar desde 2010 e eu não consigo. Eu tenho a maior preguiça do universo de salão, então a minha meta para 2013 é apostar em produtos com os quais eu posso me cuidar em casa, mesmo. Ainda sim, isso vai requerer uma paciência de Jó, coisa que o mundo inteiro sabe que eu não tenho. De toda forma, eu mantenho essa resolução até o dia que eu criar vergonha na cara. 

(sí, pero no mucho)

6. Parar de roer unhas 
Ipsi literis para o que eu disse sobre a resolução anterior. Só esclarecendo o fato de que eu disse que vou parar de roer unhas e não arrumá-las semanalmente, porque com o valor que manicure e pedicure cobram na minha cidade eu posso comprar livros para ler o mês inteiro. Ou eu aprendo a manusear um alicate ou vou ficar só no "não roer unhas", mesmo.

7. Melhorar minha média de notas na faculdade 
Meu comentário aqui é breve: não que eu seja má aluna; apenas não estou sendo metade do que eu sou capaz. 


8. Me empenhar no curso de inglês do intercâmbio 
Uma coisa é você passar anos enrolando o curso de inglês da sua cidade só porque você não tem saco de aprender línguas. Outra coisa é você passar quase um dia dentro de um avião e pagar caro para fazer de conta que estuda inglês no outro lado do oceano. Eu jamais me perdoaria se fosse tão imatura. Meu paitrocínio muito menos.


9. Me organizar financeiramente 
O histórico da minha conta bancária é o seguinte: dia 01 entra a minha mesada, dia 05 recebo meu salário e dia 10 não tenho mais um centavo. Tem alguma coisa MUITO errada nesse ínterim e eu sinto que é só falta de organização. Eu gasto meu dinheiro todo e não sei nem com o quê. Pra 2013, se não conseguir me controlar (Deus sabe como tento parar de comprar sapatilhas), eu pretendo ao menos descobrir a origem dos meus gastos. 


ps.: já fiz um cofre e já estou juntando minhas moedas. Ponto para mim. 

10. Não procrastinar mais que uma vez por semana 
Eu tenho até vergonha de entrar em maiores detalhes nesse aspecto. Basta que eu diga que, se em 2013 eu for tão preguiçosa como fui em 2012, o ano vai acabar e eu não saí nem da minha cama. Mas óbvio que eu me reservei uma tarde na semana para preguiça infinita, porque eu também sou gente.


11. Mexer mais com fotografia
Antes de comprar a minha câmera eu tinha um caderno somente para anotações sobre configurações e técnicas fotográficas. Hoje, meu caderno está num cantinho criando mofo e isso me envergonha profundamente. No fim de 2012 eu comprei uma lente nova e como em 2013 eu vou conhecer diversos lugares lindos, fico na esperança de não deixar o meu hobby mais querido morrer.


12. Sair da rotina
Por favor, por favor, por favor. Não aguento mais tanta previsibilidade, tanta monotonia, tanto mais do mesmo. Eu, que odeio rotina, acabei abraçando-a com força nesse ano que passou, mas já estou doida para cortar relações definitivamente e seguir por outros caminhos. Não aguento mais fazer as mesmas coisas nos mesmos dias e quem pode me julgar por estar me tornando rabugenta e ranzinza por isso, hein?


13. Participar 
De alguma coisa. De qualquer coisa. Da vida de alguém.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Aproveita que eu acordei feliz

Porque não é todo dia. Assim como não é todo dia que eu viajo 2992km, chego saltitando em um aeroporto e sou recebida com plaquinhas de identificação. Não é todo dia que banho com medo de molhar o banheiro e janto pizza até desmaiar de sono na melhor cama de edredom do mundo. Não é todo dia que eu acordo com ordem pra estar de pé antes do pão chegar à mesa, que como aquele bolo de chocolate (fofinho e com cobertura escorrendo pelos cantos, sabe?) no café da manhã, que misturo pão de queijo e mortadela.

Não é todo dia que alguém cuida do meu pé ferido, que me espera quando eu não acompanho o ritmo, que carrega as minhas coisas quando eu já estou a cara da derrota. Não é todo dia que alguém me dá colo quando faço burrada na balada, não é todo dia que alguém diz o quanto gosta de mim assim, sem eu ter feito nada de especial. Não é todo dia que alguém me adota só porque eu reclamo no meio da estação de metrô que não tenho mãe. Não é todo dia que é 26 de dezembro.

Mas devia, tudo isso, em looping infinito.

Porque todo dia deveria ser Renata Day. Ou todo mundo deveria ter, todos os dias, um pouquinho da Renata – como eu tenho. Ao menos uma vez na vida, alguém deveria receber um Abraço dela – Abraço de verdade, daqueles que quase ninguém mais dá, porque hoje em dia Abraço virou “bom dia” dado por cortesia. O dela não. Você tem que batalhar pra conseguir um Abraço dela. E a confiança? Vixe, põe tempo até ela deixar de achar que você é fake. E quando ela diz “eu concordo com você”? Bate aquela emoção no peito, aquele orgulho de que, por ao menos um milésimo de segundo, a Renta madura, organizada e responsável concorda com você. E quando ela ri de algo que você falou ou adora uma ironia sua? Soltem fogos de artifício, porque a Renata engraçada, rainha do sarcasmo, a Deusa-mor das tiradas fantásticas te achou (pausa dramática) divertida.

A verdade é que eu queria muito que a Renata gostasse de mim – louco é quem não quer. Quando viajei para conhecê-la, meu maior medo era que ela me olhasse, mandasse a Pandora me arranhar e depois me atirasse pelo 22º andar, gritando “você não é nada do que eu pensei”. Mas sempre foi lógico que ela não ia fazer isso, porque a Renata, aquela de quem eu tenho o maior orgulho, aquela cuja personalidade me inspira, aquela que sabe o jeito certo de te dar bronca e consegue por ordem na casa... A Renata sempre é melhor do que eu penso. A Renata sempre me surpreende positivamente. A Renata me faz até querer ser legal - mas só com quem merece. E olhe que eu não sou fofa. E nem digo "eu te amo" pra todo mundo. Mas ela consegue tudo isso.

É, mundo, aproveita que eu acordei feliz porque hoje é Renata Day.

As bravas também amam.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Estante virtual

Eis que das cinzas da mais escondida caverna do Tártaro, o blog ressurge. Com um meme, claro, porque exigir criatividade já é demais. É um meme bem bobinho, mas com perguntas bem gostosas de responder. Eu fiz rapidinho durante a tarde, pra aliviar da tensão da maratona de estudos, e já ia postar no blog quando eu vi que a Mayra tinha me indicado - ponto pra ela, porque fazer meme sem indicação é uma das coisas mais deprimentes no mundo blogueiro. A ideia é basicamente responder algumas perguntinhas relacionadas ao Skoob, uma rede social só para leitores - muito melhor que facebooks da vida, sinceramente falando.



 1. Quantos livros você tem na aba LIDO? 
128, mas não levem esse número muito a sério. Eu leio livros desde, bom... sempre, mas a minha memória é de 1GB e eu não lembrei de quase nada que eu li antes de fazer o skoob.

 2. Qual livro você está lendo? 
"Lola e o garoto da casa ao lado", da Stephanie Perkins. É um daqueles livros bobinhos de amor entre uma garota esquisita e um cara muito legal – a diferença é que a Perkins consegue fazer essa história parecer muito mais bacana que qualquer autora que eu já vi. Não é só mais um romance bobo e água com açúcar; é engraçado, não subestima meu intelecto (detesto livros que foram escritos como se quem os lê não tivesse capacidade de raciocínio) e eu desafio qualquer um a ler e não se apaixonar.

 3. Quantos livros você tem na aba VAI LER? 
114. Essa lista não para de mudar nunca. Praticamente todos os dias eu excluo ou incluo algum livro. Normalmente, os que passam muito tempo nessa aba acabam sendo excluídos, porque o meu encanto pela história já passou. Antes, meu sonho era zerar essa aba, mas daí eu pensei melhor no seguinte: se isso acontecesse, que mais eu faria da minha vida? 

 4. Você está relendo algum livro? Qual? 
Não sou muito de reler livros, não. Mas como penso muito nas histórias lidas, vez ou outra dou uma folheada para relembrar algum detalhe que eu esqueci – coisa que faço basicamente com meus favoritos. Nessa vibe, minhas estante está sempre remexida entre os lidos e os que vou ler.

5. Quantos livros você já abandonou? 
Eu sou do tipo que tenta até o último suspiro continuar a leitura, mas 3 livros conseguiram a façanha de acabar com a minha infinita paciência literária. Foram eles: 
1 – "Marley & eu": não pensem que eu sou um ser insensível. Eu adoro bichinhos, todos os tipos deles, juro. Eu tenho uma hamster, quer coisa mais anti-preconceito com animais que isso? Mas, por favor, não me venham com histórias de animais. Odeio filmes de gatos que falam, cachorros que pensam, porcos super-heróis, periquitos que cantam em italiano. Odeio. Por mais tocante e sentimental que a coisa seja, eu só consigo achar... Tosco. Então, não posso engolir mais de 300 páginas girando em torno de um cachorro sem sentir vontade de regurgitar tudo na cara do escritor. 
2 – "A Cabana": gente. Não, sério... Gente. O que é esse livro, alguém me explica. Alguém verdadeiramente gostou disso? Aliás, alguém viu sentido nisso? Ler esse livro me deixava deprimida a cada página, porque eu começava a pensar na quantidade de pessoas que produzem textos realmente bons e não tem livros publicados; enquanto isso, pessoas como o William P. Young publicam best-sellers. Esse mundo é muito errado mesmo, viu? 
3 – "Desculpa se te chamo de amor": tenho muita vontade de encontra o Frederico Moccia e perguntar qual a possibilidade dele fazer um curso de produção textual. Qualquer coisa que melhore a narrativa mais chata do todos os milênios. Conheço algumas pessoas que conseguem gostar desse livro (e que, pasmem, compram até a continuação), mas pra mim não deu. Aliás, quando eu vi que ele publicou mais livros, eu tive uma crise de riso, porque, né? Seria cômico se não fosse trágico. Foi ódio ao primeiro capítulo pela personagem, pela narrativa, pela estrutura do livro, pelo Moccia. Mas defendendo um pouco o rapaz, já tentei ler outro livro de uma autora italiana e a coisa também não fluiu muito bem. Talvez o problema seja comigo, mas eu pretendo continuar sem descobrir.

6. Quantas resenhas você tem cadastradas no Skoob? 
Uma só. Infelizmente, acho um recurso pouco usado no skoob, então sinto que se eu fizer resenha, quase ninguém vai ler. Porém, me senti na obrigação de fazer uma "resenha-alerta" sobre "Para todos os amores errados", tendo em vista que a autora debochou de mim no twitter porque eu critiquei sua escrita. Achei que seria uma boa coisa para se compartilhar sobre uma autora de um livro medíocre e que ainda não sabe receber observações negativas. A resenha foi "curtida" 8 vezes.

7. Quantos livros você já avaliou? 
Avalio todos que leio. É tipo um TOC, sabe? Lembro que uma vez o número não estava batendo e eu verifiquei todos os livros marcados como lidos, até descobrir qual não tinha sido avaliado. Mônica Geller se orgulharia de mim. 

8. Quantos livros você tem na aba FAVORITOS? Cite alguns deles. 
Não sou muito fresca para favoritar, mas também não saio dando o meu coração pra qualquer capa bonitinha. Tenho 19 livros nessa aba, dentre os quais "Anna e o beijo francês" (também da Perkins, porque ela é amor), "A culpa é das estrelas" (favoritado por 9 entre 10 leitores e com razão), "As vantagens de ser invisível" (por favor, leiam esse livro), "Ensaio sobre a cegueira" (uma das poucas leituras obrigatórias que vingaram), alguns de ''Harry Potter'' (dispensa explicações), alguns de ''Percy Jackson'' (tão pouco estimado, mas tão fantástico) e ''Caio Fernando Abreu: o inventário de um escritor ir-remediável'' (a melhor biografia que eu já li).

9. Quantos livros você tem na aba TENHO? 
136, um número que eu acho bem insatisfatório. 

10. Quantos livros na aba DESEJADOS? 
91. Eu desejo muito mais que isso, claro, mas só marco nessa página os livros que eu queria, tipo, pra ontem (pânico). 

11. Quantos livros emprestados no momento? Quais? 
Eu não uso muito esse recurso, dá preguiça. Até porque, exijo que as pessoas que pegam emprestado me devolvam tão rápido que nem dá tempo de deixar a marcação lá por muito tempo. Marquei como emprestado só ''Flores azuis'', mas também emprestei ''A culpa é das estrelas'' e ''As vantagens de ser invisível''. Estamos de olho, viu?

12. Você quer trocar algum livro? Qual? 
Olha que curioso: marquei para trocar ''Para todos os amores errados'' e já surgiram várias oportunidades supimpas, mas eu não consigo me desapegar. Nem quando o livro não vale o espaço da minha estante.

13. Na aba META, quantos livros você tem marcados? Conseguiu cumpri-la? 
Tenho 30 livros marcados, mas não me cobro muito com isso. É muito mais para definir uma lista de prioridade que qualquer coisa. Mas foram sim os livros que separei para esse ano – todos do segundo semestre, praticamente, porque como meu primeiro semestre foi dedicado ao TCC, eu não li na-da.

14. Qual o número do seu paginômetro? 
33.915. Também vergonhoso. 

15. Qual o link do seu perfil no Skoob?
 http://www.skoob.com.br/perfil/deysebatista

E eu não indico a ninguém, porque sou dessas que ama ser indicada, mas na hora de apontar alguém, prefere sempre o "deixo livre pra quem quiser fazer".

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Vienna waits for you

Disseram por aí que ela não tinha nada de passarinha negra; que, se fosse para lhe dar um codinome, que fosse beija-flor – pequeno e belo, aparentemente inofensivo e, quando necessário, de uma resistência que reflete sua sintonia com a vida. Mas saibam vocês que os corvos, por exemplo, estão sendo cada vez mais reconhecidos pela sua exímia inteligência. Admito que foi por essa particularidade que, primeiramente, eu a distingui dos demais. Nela, essa característica – a enorme astúcia com a vida, com as pessoas e com si mesma – é algo que surpreende qualquer um que tem a sorte de perceber a luz dos olhos de boneca que ela tem. Ela, que carrega no nome a missão de enfrentar o que as circunstâncias exigem; ela, que pelos dias como que todos eles fossem sempre dias de ser sonhadora. Mesmo quando a vida quer brincar de ser séria, mesmo quando o medo é inevitável, Ela dança na frente das adversidades como quem desafia um inimigo – às vezes o seu compasso é um pouco mais veloz, às vezes é mais tímido... Mas ela jamais perde o ritmo.

Milena.

Se fosse por mim, eu seria nascida e criada nessa lua que você mora. Teria dormido aos teus pés muitas outras noites, tentaria te acordar outras tantas vezes só pra ver você preferir dormir a provar nossa janta; se dependesse de mim, e não da distância, faríamos mais noites do pijama e eu dormiria ao som da tua risada só pro dia nascer feliz, sempre. Quase sem querer ou sabendo que eu não resistiria, você invadiu os meus dias, me cultivou inúmeros sorrisos e me provou que eu estava errada cada vez que pensei “não, Ela não pode ser ainda mais fantástica”. O dia 10 de outubro está marcado no meu calendário como “o dia da única Milena do mundo”. Ainda que venham outras, nenhuma jamais será tão valente e persistente, tão alegre e sensível, tão espirituosa e ajuizada... Tão Milena. Obrigada por dividir comigo os seus dias, os seus medos, suas alegrias, suas ideias geniais, seu abraço apertado de “até logo”. Obrigada por me deixar ser parte do seu infinito. 

Muitos diriam que ainda é cedo para a dimensão do sentimento, mas depois de te encontrar e te ver partir, sim, eu preciso dizer que te amo. É. Eu preciso dizer que te amo. Tanto.



De: Analu, Annoca, Dedê, Renata e Tary.

http://www.4shared.com/rar/XGbpqu8H/Milena_Tape.html

domingo, 30 de setembro de 2012

Nada é maior que o meu amor

Não sei quanto tempo se passou entre o momento que eu li aquele bilhete e a minha primeira reação diante dele. Só acordei da espécie de transe em que entrei no momento em que senti o meu estômago afundar e as coisas ao meu redor de repente pareceram estranhamente irreais – aliás, o que de “real” vinha acontecendo nos últimos tempos? A verdade é que eu sabia que não dava para parar e refletir sobre essa e tantas outras questões que rondavam na minha mente; a verdade, aliás, era uma só: eu perderia para o tempo se continuasse onde estava, fingindo que além das paredes daquele hospital não havia uma série de coisas erradas a serem consertadas. 
Não pensei na minha saúde, na minha disposição ou muito menos se seria pega; levantei-me da cama, vesti minhas roupas que estavam guardadas no armário do quarto e abri a porta. Sempre soube que isso de quando as pessoas querem fugir de hospitais os corredores estão absolutamente vazios era história de filme, por isso não me surpreendi quando coloquei a cabeça para fora do quarto e vi enfermeiros e médicos andando por todos os lados. Indignada, fechei a porta, olhei ao redor e a solução se iluminou à minha frente, além da janela de vidro oposta à porta: meu quarto era no primeiro andar. 
Pulei pela janela, segui por um corredor estreito e dei de cara com os fundos do hospital. Por lá estava lotado de funcionários trabalhando absortos nas mais diversas funções, de modo que eu consegui me misturar sem muita dificuldade. Quando consegui cruzar o portal de entrada do hospital, me dei conta de que não sabia para onde seguir – mas foi um instante breve de incompreensão. Óbvio que não existia outra saída, nunca houve; a resposta para todos os problemas que surgiram estava tão estampada à minha frente desde a primeira vez que a vi que era até difícil acreditar que eu tinha sido tão trouxa. 

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O prédio parecia abandonado, como se qualquer preocupação em vigiá-lo houvesse desaparecido. Perguntei-me a razão daquilo, mas não me ative muitos nesses detalhes. Segui diretamente para o terceiro andar, como se minha intuição me guiasse até onde eu precisava ir. Não pensei no caminho, sequer tracei-o – apenas segui a passos firmes em direção ao terceiro andar e, chegando lá, diretamente até aquela porta, cuja sala eu já conhecia bem melhor do que eu gostaria. 
- Você é tão previsível. Claro que seria essa sala. – eu disparei sem me conter, assim que entrei. 
Camila, que estava parada no centro da dala, virou para me encarar, sorrindo de orelha a orelha. Ela estava linda, como se um raio de luz a tivesse atingido desde a última vez que nos vimos. Mas o meu olhar não demorou muito nela, porque instantaneamente disparou para o lado oposto da sala, em uma cama isolada, onde Alex estava estendido. Vi o seu peito inflar de longe – ele respirava. E não tinha nenhum fio eletrônico ligado a si, o que me fez concluir automaticamente aquilo pelo quê eu torci todos esses dias: finalmente ele estava bem. 
- Não queria complicar muito as coisas para você. – ela respondeu de ombros, como se fosse aquilo o previsível de se dizer - Não me parece muito inteligente. 
- E o seu prédio me parece muito abandonado. – eu tentava provocar para ganhar tempo enquanto pensava no que fazer. Por que diabos a gente tem essa mania fazer as coisas sem pensar no que fazer em seguida? - Não está subestimando quem está fora dos muros? 
- Não existe ninguém para ser subestimado. – ela fez uma cara de nojo enquanto me encarava – A única pessoa que já foi insolente o suficiente para me enfrentar foi você. Mas isso acaba hoje. Você está aqui. Aliás, quanta demora, hein? 
- Se me queria logo aqui, por que postergou tanto esse encontro? – eu falava calmamente, tentando não demonstrar que dentro de mim algo estava prestes a explodir - Não acha que a ideia de clonar o Alex é um pouco absurda demais, mesmo vindo de você? 
- Eu precisava de tempo. – o marasmo da voz dela me irritava - Você quase o matou, sabia? – perguntou, com ar de superior, virando-se um segundo para olhar para o Alex - É muito cinismo da sua parte ainda insistir em bancar a heroína quando você mesmo o destrói mais e mais a cada dia... 
- Não sei como pude acreditar em você, com essa conversa de irmãzinha abandonada que queria ajudar aquele que foi criado de você. – eu não queria dizer isso, não queria bancar a ingênua enganada, mas nada me parecia ser o certo a dizer naquele momento - Estava escrito no jeito que você se portava, na maneira com que falava comigo... 
- Você é mesmo muito fácil de enganar. – ela me interrompeu, agora com um ar divertido, como se fosse uma grande surpresa o fato de ela estar por trás de tudo - Todos vocês, aliás. 
- Você não sabe do que está falando. – minha voz tremia de forma involuntária, porque estava mesmo impossível de me conter - Não sabe o que é amar alguém sem exigências, sem limites... 
- Sem exigências? Você acha mesmo que não exige nada dele? – ela sibilou as frases com visível escárnio – Quase matá-lo não é exigência suficiente? Isso já não é ultrapassar todos os limites humanamente aceitáveis? Entenda de uma vez, Diana: não importa o quanto você negue, nós duas sabemos que você nunca será a mulher que ele merece. 
- Do que você está falando? – eu começava a ficar histérica com tantos disparates sendo repetidos sem contenção – Quem você sugere que fique ao lado dele, então? Você?- e nessa hora eu só conseguia sorrir, um riso de deboche. 
- Você é tão obtusa que não consegue perceber o que está cristalino, não é? – ela sorriu de volta, como se a lunática da situação fosse eu. 
- Ele não ama você! – eu gritei o melhor dos meus argumentos, o mais inviolável, o que ninguém poderia mudar. 
- É EXATAMENTE POR ISSO! – ela berrou de volta, como se sentisse raiva por eu ainda não ter compreendido o que quer que ela tenha concluído – O fato de ele não me amar o faz forte! Eu posso dedicar o meus dias a amá-lo o quanto mais ele precisar e o seu saldo será sempre positivo, ele será sempre o homem que foi criado para ser. Eu não sou egoísta como você, uma mera humana ridícula que acha que só porque dá amor merece o mesmo de volta. Entenda, Diana: humano nenhum nasceu para ser amado em menor medida e você, querida, não é exceção à essa regra. 
Então eu me encolhi a essa verdade. Calei-me porque sabia que era verdade; no fundo, abaixo do meu orgulho e de toda a minha esperança, eu sabia que Camila estava certa. Sabia que se existia alguém naquela sala que faria bem ao Alex, esse alguém com certeza não era eu. Depois de todas as tentativas, de todos os sufocos pelos quais havíamos passado... Nada adiantava; sempre acabávamos naquela sala branca, onde as coisas tinham o mesmo início e fim. Não conseguia compreender porque ela havia me trazido até lá, afinal – talvez para me exterminar, talvez para me transformar novamente em Zumbot, talvez simplesmente para me fazer enxergar o óbvio. Eu só sei que diante do meu silêncio, ela sorria estonteante. Saboreava tanto a vitória que essa mesma pose de vencedora trouxe o seu fracasso. 
Camila estava tão distraída em fitar-me enquanto em me encolhia em tristeza que sequer percebeu ele entrando furtivamente por uma porta que surgiu em meio a parede branca. Eu quis gritar, mas me faltou voz. A agilidade dele me assustou e em um piscar de olhos, a seringa que ele trazia em mãos foi aplicada diretamente no coração de Alex. Imediatamente, Camila virou-se para encarar os dois, como se a picada que Alex sofreu a tivesse atingido também – ele permanecia imóvel, mas algo nela já começava a mudar. Rapidamente, Camila foi ficando envelhecida, sua pele enrugando em uma velocidade inacreditável e, em um segundo, ela me encarava com aqueles olhos miúdos, quase fechados, tempo suficiente para demonstrar aquilo que ela não tinha tido tempo de dizer. Ela me odiava, eu sabia, mas de nada isso adiantava. O corpo de Camila endureceu e caiu ao chão, espatifando-se como vidro. 

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Nós dois estávamos sentados à beira da cama de Alex, que parecia bem, mas ainda não tinha acordado – eu estava calma, porém, porque ele havia me garantido que isso aconteceria em breve. Eu ainda não tinha dito nada e não sabia como começar, de modo que agradeci em pensamento quando ele começou a falar. 
- Eu sabia que você ia aparecer. – ele disse, a voz arrastada, dando de ombros - Desde o dia em que vi o Alex e soube que ele não era aquele clone maldito... Eu soube que um dia você iria aparecer. E nesse dia eu estaria pronto para lhe ajudar. 
- Eu não compreendo, Dr. Oliver. – eu não sabia explicar metade das coisas que eu sentia naquele momento – Eu o conheci e não posso dizer que foi a experiência mais agradável da minha vida... 
- Você nunca me conheceu, Diana. Desde que o Alex começou a namorar você, a Camila mudou drasticamente. Quando eu soube que o maior dos meus projetos estava tomando rumos próprios eu decidi que já era hora de avançar um pouco mais na minha pesquisa... Decidi que era a hora de descobrir como torná-lo humano. – ele respirou fundo, como quando se pensa em um sonho – Claro que a Camila foi contra, porque tornar o Alex humano significaria o fim para a Camila. Ela sobrevivia porque parte dela era a parte Zumbot que era o Alex, mas com o fim disso... Escute, não me entenda mal, não ache que eu queria o fim de Camila. Não era a morte dela que estava em jogo, mas sim a vida do Alex. A vida dele ao seu lado. 
Era tanta informação que o meu cérebro não conseguia processar. Eu não tinha capacidade sequer de formular perguntar, porque as dúvidas surgiam em minha mente de forma desordenada – exatamente como a bagunça que foram os últimos tempos. 
- Eu consegui fugir daqui e Camila, achando que eu não lhe faria nenhum mal, simplesmente me substituiu, sem pretensão de me exterminar. Mas eu me dediquei nos estudos, esperando que quando o momento certo surgisse, eu estivesse pronto. Não existia oportunidade melhor que essa que surgiu hoje: você estava aqui e o prédio estava vazio. Camila foi inocente demais ao me esquecer. Enquanto ela se preocupava exclusivamente com você, eu tive tempo suficiente para desenvolver aquilo que Alex e você precisavam para serem felizes. 
Eu tinha medo de perguntar. Mas eu precisava saber. Respirei fundo e encarei a única questão que, após isso tudo, importava de fato. 
- E você acha que conseguiu? Acha que quando o Alex acordar será humano? 
O Dr. Oliver sorriu levemente e pôs uma das mãos em meu ombro. 
- Eu não tenho dúvidas quanto a isso. 
Eu encarei o meu Alex, estendido naquela cama, respirando suavemente. Sua expressão era serena, a cor de sua pele parecia natural – enfim, ele poderia estar simplesmente dormindo e ninguém saberia a diferença. Tão logo olhei para os seus olhos fechados, suas pálpebras começaram a se mover levemente. E como que acorda com um susto, Alex abriu os seus olhos, que saltavam de tanto brilho, esbanjando vida. Ele segurou a minha mão mais próxima de si de maneira forte e a apertou. Então eu senti: algo era diferente. Ele era mais quente, mais macio, mais forte. Os seus olhos encontraram os meus e percebi que um misto de felicidade e alívio inundou-os. E, por fim, seus lábios se moveram para formar o nome que eu conseguia achar lindo quando dito em sua voz. 
- Diana. 



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Esse conto celebra o primeiro aniversário da Máfia. Ele começou com a Rafaella, passou por mais 27 pares de mãos e hoje acaba comigo, a 29ª pessoa a contar essa história - cujo final ficou enorme, aliás, mas espero que digno da ideia maravilhosa que foi compartilhar o mesmo pensamento com essas meninas que eu tanto amo. Máfia, parabéns por mais essa - nós merecemos!

domingo, 16 de setembro de 2012

Doces rodopios



Ela nasceu em setembro, sob a proteção da primavera. Colecionava corujas de pelúcia, canecas e abraços. Quando sorria, não era só com os lábios, mas com o corpo inteiro. Gostava de fotografar o céu e guardar na lembrança aquilo que por vezes esquecia por traição da memória. Morava em uma casa no fim da rua; na frente, grama verdinha e com cheiro de chuva. Uma cerca verde separava o gramado da calça e na entrada, à beira da porta, jarros com flores coloridas. 
Naquele dia 16, fazia sol e um céu era de um azul que parecia pintado. Ela acordou sem conseguir viver entre quatro paredes; se levantou de um pulo, se vestiu e rumou para fora de casa, descendo a rua enquanto cantarolava que “temos nosso próprio tempo”. Seu vestido lilás rodopiava a cada salto sincronizado que ela dava à ponta dos pés, calçados com sapatilhas de bailarina. Estava tão feliz que seus olhos se esverdeavam. Seus cabelos longos, à altura de seus cotovelos, brincavam com o vento enquanto ela corria pelas calçadas, tirando para si uma flor de cada jardim. Antes de chegar à esquina já tinha um buquê em suas mãos. 
Olhou para todas aquelas flores em suas mãos e sentiu que a cor delas refletiam em sua íris. Eram tão lindas – tanto, que ela não conseguia pensar em um lugar merecedor suficiente daquele pequeno maço de beleza. Continuou a andar, sem guiar-se pra onde, e quando se distraiu para olhar para o céu e os pássaros que lá voavam – e foi só um segundo – tropeçou em uma pedra, lançando o pequeno buquê diretamente em uma poça d’água. As flores ficaram lá, machucadas, contorcidas e a formosura ardente que antes traziam estava apagada pela água gelada. 
Isso a fez chorar como se junto com as flores tivesse perdido a alegria. Chorou porque a vida às vezes te derruba; chorou porque quase sempre se perde o que se ama, porque um obstáculo teima em aparecer, porque nem tudo tem graça. Poderia ter chorado pela vida inteira, mas sempre preferia respirar fundo, andar mais um pouco e colher nova flores. Dessa vez, assim que levantou o olhar, percebeu que ele vinha em sua direção. Ao chegar próximo o suficiente, ele estendeu a mão a ela e ajudou-a a se levantar. Encararam-se por um breve momento e sorriram um para o outro. Pediu que ela fechasse os olhos; em seguida, ele pôs as mãos no céu, segurou o sol e colocou-o sob o olhar de Taryne. E quando ela abriu os olhos, pode seguir iluminando o mundo.

sábado, 8 de setembro de 2012

Tão logo me lembrei de você

Eu queria te dizer uma coisa, um monte delas, na verdade, mas não tenho certeza que o meu sentimento vá durar até o fim dessas linhas. Ainda assim, queria mergulhar nesse passeio suicida em que eu acho que digo alguma coisa que façam seus sentimentos se renovarem e você, em contra partida e sempre, pega a minha sinceridade e a deixa escorrer ralo abaixo. Você nunca foi muito bom em acreditar em mim. Nem quando minhas verdades saíam pelos olhos, escorriam pelo meu rosto e molhavam minhas roupas; nem quando a verdade arrancada de mim me fazia sangrar a noite inteira, nem quando eu sofria feito o diabo por cada vez que te fiz amargar o meu nome... Nem assim, nem com tudo, nem quando não tínhamos nada... Nem assim.  
Com o tempo, eu fui cansando de ser tachada de mentirosa, de falsa, de hipócrita, inclusive; ou, ao menos, passei a lhe dar razão para tais títulos que sempre atribuiu a mim sem vacilar. Nós entramos num círculo de automutilação de sentimentos; não sei por que, criamos ódio pelo nosso amor. Nunca vi duas pessoas se detestarem tanto justamente porque se gostavam em excesso. Esse sempre foi o pecado pelo qual nós nunca nos perdoamos: por você ser insubstituível para mim e eu ser a única no mundo para você. 
Certa vez você me disse que algumas relações que temos não se repetem na vida. Não, não se repetem mesmo, e eu venho aprendendo isso a cada dia decepção, a cada golpe no estômago, a cada encontro com uma alma vazia. Ou você acha que vai encontrar em outra, o que encontrou em mim? Eu sei que você nem chega a procurar, porque eu aqui, do outro lado, a quilômetros de distância, em um número desconhecido, em um endereço que você nunca saberá... Eu também não procuro. Cada vez que sinto sua falta o máximo que faço é ler uma carta sua, velha como o nosso caso, e choro como se tivesse acabado de te perder. Porque acabei: te perco todos os dias para a vida, para outra, para o passado, para o esquecimento. Te perco todos os dias dentro de mim e dói muito quando lhe procuro e custo lhe encontrar. 
Queria muito, queria sempre poder te ligar quando nada dá certo e soltar o meu coração nas suas mãos – você sempre o segurou com mais firmeza que qualquer outro e o apertava até eu entender que sempre poderia doer mais quando já doía muito. Mas acontece que desde a última vez que tive notícias suas, você já deve ter mudado de telefone umas mil vezes, mudado de endereço outras tantas e posto uma venda no seu coração. Sei que nem faz questão de mim e, na maior parte do tempo, eu também não faço muito caso de você. Mas acontece que a gente sempre cansa de ser fria e durona o tempo todo e é nessas horas que eu venho aqui, com o orgulho aos meus pés, te dizer que sinto tremendamente a sua falta – das nossas conversas à calçada, da sua inclinação de fazer piadas impróprias, do seu jeito torto como o meu em demonstrar afeto. 
Vez ou outra eu pego uma página em branco como essa era, olho para ela e penso em por pra fora tudo aquilo que eu jamais fui capaz de lhe dizer – e nunca serei, pelo visto. Eis aqui a verdade: nós estamos mesmo destinados a uma dessas histórias que acabam no meio – porque terminaríamos com um fim, se nunca tivemos um começo? É, amigo. Nós estamos mesmos direcionados a.


Sempre acaba com um de nós fugindo... Mas e dessa vez, quem foi?

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Por hoje

Eu me repetia achando que tinha chance, me dava uma chance achando que tinha escolha, escolhia algo fingindo um livre-arbítrio. Hoje, não sou pássaro solto, não sou pena ao vento, não sou chuva de verão – vem quando quer, se vai em mesma velocidade. Sim, sim, andei pensando que a curva da alegria é mais aberta e que muito cedo virei escrava da felicidade. Tudo que faço é em nome dela e, quando finjo não ser, é quando mais a procuro. Vez em quando saio de dentro de mim para me dar uma olhada e me surpreendo ao constatar que a postura está ereta, que o sorriso não é falso, que o olhar não está distante. Será mesmo isso possível? Será que a vida, afinal, é menos injusta do que sempre pareceu? Sempre fui poeta das dores, sempre cantei minha infelicidade como quem canta o coro da própria morte; acontece que há muito tempo não tenho mais voz para os meus urros, não tenho dores que expressem palavras e a única música que ouço é a voz da consciência dizendo para seguir em frente sem medo e sem olhar para trás. Sei que sou dona dessas fases que duram somente o tempo suficiente para que eu me abrigue novamente dentro de mim e me sinta, mais vez, estranha, desencaixada, fora de órbita. Minha vida virou uma página de livro rasgada pela metade, uma frase interrompida ao meio, uma vontade que nunca dura o tempo suficiente para ser real. Um susto. Mas quem eu quero enganar? Não quero mentir e dizer que espero que a próxima brisa me leve de volta ao descaminho, porque o aconchego de um lugar e a vontade de permanecer é o mais próximo que eu cheguei da satisfação plena. Sim, sou pássaro de asas quebradas, sou tempestade de inverno. Sei que estou dizendo nada com coisa alguma. Mas nunca fiz tanto sentido. 

Não encontrei um amor que me tire a razão, não fiz amizade com uma estrela do rock e muito menos fugi para onde sempre quis. Mas continuo me surpreendendo, todas as noites. Dentro de mim.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Temos nosso próprio tempo




Eu sempre fui feita de muitos conflitos interiores que eu gostaria de reverter, de conduzir ao meu modo, de relativizar. O mais contraditório de todos eles, porém, foi quando eu decidi fazer em umas das paredes do meu quarto um mural de fotos em formato de coração, colocando lá todos os rostos que iluminam o coração de verdade. O meu maior medo foi que chegasse o dia em que eu olharia para aqueles retratos e não fizesse sentido alguns eles estarem colados lá de um jeito tão permanente e difícil de retirar. Sempre tive um medo irracional de colocar pessoas no meu coração para ter que arrancá-las logo em seguida – literalmente ou não. 
Acontece que hoje eu acordei sozinha, sem barulho, sem vento frio, sem café da manhã digno de hotel. Acordei e não tinha ninguém com quem dividir o banheiro, não tinha mochila pesada nas minhas costas e muito menos tinha mala pra arrumar. Hoje, quando eu saí de casa, não cantei músicas no carro, não peguei metrô, ninguém me indicou o caminho e, quando cheguei ao prédio onde trabalho, ele não era na Avenida Paulista. Hoje, quando fui almoçar, não era Mc Donald’s e quando chegou a tarde, não havia Bienal, nem passeio no shopping, nem compras divertidas. E se eu cansasse dessa melancolia e saísse cantando Legião Urbana enquanto andava na rua, seria taxada de louca desvairada, inclusive por mim mesma, porque não é mesmo compreensível querer ser feliz sozinha. E quando chegou a noite, essa danada, a lua me pareceu mesmo feita de pedra, a pizza do jantar sem gosto, as músicas soavam estranhas como se nunca tivessem sido ouvidas e minha cama, antes estreita e quente, era grande demais só para mim. 
Não sei se dois dias é muito ou pouco tempo, mas sei que é suficiente pra reconhecer no olhar das pessoas aquilo – e muito mais – que eu sempre imaginei que elas fossem. Encontrar as minhas meninas foi um presente que Deus me preparou com cuidado e demorou 20 anos para entregar, porque de certo Ele queria ter confiança de que eu estava preparada para reconhecer em um simples encontro de corpos uma reunião de almas gêmeas. Sei que amor não é feito de saudade, muito embora o nosso esteja cheio dela; mas sei também que a vontade do reencontro é o que constrói os dias e que quando não há o que se esperar, a vida não passar de uma repetição do mesmo. Acabado do fim de semana mais surreal da minha vida, eu vejo as nossas fotos pra em seguida fechar os olhos daquele jeito de quem quer olhar para dentro e voltar devagar no tempo, desde o instante do pouso do avião até o último “a gente se vê em breve, viu?”. 
Eu poderia dizer muito mais sobre a nossa história, mas recentemente aprendi que "como todas as histórias de amor de verdade, ela vai morrer com a gente, como deve ser". E para quem me pergunte, eu me limito a dizer: nós somos amor, do tipo que transborda. Hoje eu estou no meu habitat – está calor, o céu está pintado em um azul lindo e a brisa do mar refresca minha alma. Mas eu nunca me senti tão fora de órbita. Nunca me senti tão fora de casa. Hoje, o meu lugar não é aqui; o meu lugar é com as minhas estrelas. 

E sem conflito interior algum, eu formaria um coração inteiro só com os sorrisos de vocês.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Agradecimentos monográficos

Ou: Como dizer “obrigada por tudo” a quem se ama 

 Ao som de There is a light that never goes out – The Smiths 

Ao longo da minha curta existência eu fui recendo lições demasiadamente preciosas e que foram categóricas para determinar a pessoa que eu viria a me tornar. Porém, nada até hoje foi mais precioso que um ensinamento que só recentemente eu consegui compreender e é por finalmente ter aprendido essa lição tão bonita que hoje eu agradeço a todos aqueles que a cultivaram em mim. 
Ao meu grande Pai, maior que qualquer adversidade e que esteve ao meu lado todos os dias dessa jornada. Graças à companhia dele eu pude trilhar esse longo caminho sempre em paz, em segurança e certa de que estava realizando um sonho. Ao Meu Deus, que foi perfeito em tudo que fez na minha vida. 
Aos meus pais, Nizete e Edson, que desde o início fizeram o possível e o impossível para que eu continuasse firme na minha jornada sempre cansativa rumo à universidade, sem me deixar fraquejar por um só segundo. Obrigada pelas palavras de apoio e por cultivarem incondicionalmente o meu amor pela literatura. Eu serei eternamente grata por tudo e por mais que eu me esforce, nenhuma retribuição a vocês será digna o suficiente. 
 Ao meu namorado, Francisco, o melhor amigo e companheiro, que sempre foi a pessoa que acreditava eu mim quando nem eu mais conseguia fazê-lo. Obrigada por me fazer forte, fiel às minhas convicções e por sempre me impedir de desacreditar na minha capacidade. Obrigada por me fazer ser sempre melhor. Sem o seu apoio eu não teria escrito uma linha sequer. Por você, minha gratidão e meu amor serão eternos. 
Às amigas do curso de Direito da UNDB, Carol, Juliana, Viviane e Marynelle, que me suportaram em todas as minhas crises existenciais. A minha vida não teria a mesma graça se não fossem as noites dividas com vocês. A próxima vez que eu escrever um TCC será pela UNDB e eu tenho certeza que, se existe uma forma suportável de passar por todo esse processo de criação novamente, é com vocês ao meu lado. 
 Aos meus companheiros de twitter, Fernanda, Klerianne, Vanessa, Diana e Wendel, que dividiram comigo até às vésperas da apresentação deste trabalho a angústia e a ansiedade que só conhece quem por a escrita de uma monografia já passou. O apoio de vocês foi incondicional, a ajuda foi mútua e o conforto que eu sentia após cada conversa trocada foi imensurável. Obrigada por me fazerem rir até nos momentos de mais extremo nervosismo. Finalmente chegamos ao ponto em que eu sabia que chegaríamos desde o princípio. Nós conseguimos! 
Às amigas do curso de Letras da UEMA, especialmente Lays, nas quais eu sequer consigo pensar sem que meus olhos se afoguem em lágrimas. Meninas, vocês foram a minha maior fonte de inspiração para a vida ao longo dos quatro anos em que me ensinaram a ser uma pessoa muito melhor do que eu julgava ser quando fui aprovada no vestibular; vocês são a prova que na universidade aprendemos muito mais que teoria e prática. Por tudo que passamos juntas, eu sempre me lembrarei de vocês com um sorriso no rosto e uma saudade sem fim no coração. 
Às professoras Iranilde Almeida Costa, Sílvia Furtado, Vanda Rocha e, especialmente, à minha orientadora, Andrea Lobato. A todos os professores que depositaram em mim algum conhecimento ao longo de quatro anos de graduação. Não existem palavras possíveis de descrever o tamanho da contribuição de todos vocês para o meu desenvolvimento pessoal e intelectual. O curso de Letras da UEMA mudou completamente a minha vida para algo melhor do que eu imaginei. 
Às amigas que eu encontrei graças ao amor pelas letras e pela escrita. Às irmãs de alma que me provam diariamente que você não precisa estar cara a cara com alguém para dizer um verdadeiro “eu te amo”; que me mostram que distância é um elemento cada vez mais insignificante; que acolhem todas as minhas loucuras e abraçam meus devaneios como delas próprias. À Máfia, enfim. 
Se hoje eu posso dizer “infinitamente, obrigada” é porque vocês seguraram minhas lágrimas ao me despertar um sorriso, sustentaram minhas pernas frágeis com um abraço, passaram algum tempo comigo mesmo quando este parecia escasso e, principalmente, me ensinaram a lição mais bonita que eu poderia aprender ao longo dos meus vinte anos: não há nada no mundo que substitua a maravilha de nunca estar só.


domingo, 8 de julho de 2012

Felicidade na mala

A fachada que me encantou. Além do cheiro do café, que era um tanto incomum, de verdade tudo me parecia normal: aquelas paredes de tijolo velho, as cortinas vermelhas com laços amarelos enormes amarrando-as e uma mesa no fundo, no canto da parede. Sob ela, a luz fraca parceira para esses dias obscuros. Entrei e quando o fiz, pensei imediatamente: é hoje. Nem me dei ao trabalho de abrir o Gabriel García Márquez que na mala pesada carregada na mão esquerda, porque seria inútil tentar entender qualquer jogo de sentimentos sem antes observar por um tempo ínfimo aquela situação que eu me encontrava. Quando a garçonete caminhou até mim, sem trajar um daqueles uniformes bem passados e me servindo uma xícara de café frio, eu percebi que aquele local terrível que eu estava admirando, que o serviço mal feito e o gosto fraco do pó de café desenhavam o único desfecho que caberia a mim. É claro como automaticamente se rejeita alguém que é triste pelo simples fato de o ser. Essa obrigatoriedade que é imposta de sorrir mesmo quando se tem vontade de correr em desespero nunca me convenceu, mas ultimamente vinha me sufocando como aquela falta de ar que a gente sente em locais fechados e cheios de gente que gosta de beber cerveja barata e vinho de supermercado. Andam falando que os meus textos estão tristes demais. Por isso eu resolvi mergulhar nessa esperança de que agosto chegará logo e que a nuvem  estática de julho simplesmente passará. Tirei da gaveta todos aqueles textos antigos, cheios daquelas palavras tortas, e me deu uma vontade tão grande de rir de mim mesma: como eu posso ser assim, tão drástica e trágica? É um terrível filme preto e branco, um monólogo chato onde só eu grito, só eu sinto, só eu sofro. Contento-me em viver de retalhos de uma alma nada nobre e acho que isso é o justo a mim mesma; incremento essa vida com perguntas cujas respostas eu sinceramente não faço a mínima questão de saber. Mas o que seria de um bom sofrimento se não fosse aquilo que sempre te atormenta e consome e destrói? Depois é que a gente percebe que não há nada a ser descoberto ou desvendado. É tal fácil perceber que está tudo aqui em nossas mãos: o café, o colorido do céu, o filme francês, o jornal de ontem, o brownie, o cd de The Smiths... Tudo aquilo que supostamente precisamos para atingir qualquer nível de um contentamento pessoal. Não é preciso sentir tanta falta, acumular tragédias e morrer de saudade. Está tudo aqui, a dois passos, e a cegueira é incrivelmente forte que só possibilita enxergar a beleza das coisas por questões de segundos; logo depois, lá está o peso de julho de novo em nossas costas, como se o mês não fosse acabar semana que vem. Mas ainda assim, medindo e pesando as minhas queixas e cada vez tendo mais certeza que eu deveria parar de boicotar a mim mesmo e ser feliz de uma vez – dar graças a Deus por tudo de bom e justo que vem acontecendo – eu ainda consigo encontrar um sabor delicioso em viver sozinho, amargurado e escrevendo como se isso fosse salvar a minha vida – que nem precisa ser salva, por fim. Cansei de explicar porque sinto esse gozo de me tirar do mundo cada vez que eu me entrego à misantropia, aos livros, às frases clichês e aos sentimentos mais fétidos porque, oras, não há nada a ser compreendido, aceitado ou concordado. É só o meu jeito de ver as coisas e a minha capacidade de me recuperar e dar a volta por cima quando eu cansar dessa arte de viver uma tristeza que não é minha – e quem poderá me julgar por isso? Quem poderá me condenar por não querer viver essa vida perfeita e preferir me sentir humano, vez ou outra, quando percebo que ainda sangro e ainda morro de amor? Assim, sem (querer fazer) sentido ou ter direção, eu escrevi por horas. Sem pensar nada, sem opinião, só mesmo por prazer. Só o puro e incontrolado desenhar de palavras, uma coisa meio sem fim, sabe? Essa vontade incompreensível que a gente tem de colocar tudo imediatamente para fora como se fosse parar de doer – e vemos que não para, mas sobra essa indignação, que também tem que ser mostrada, das coisas infelizmente não serem exatamente como nossa mente imagina, nem para mim nem para o resto do mundo que tenta me encaixar nesses padrões que eu visivelmente não suporto. No tempo que estive aqui, só parei para pensar como as janelas abertas me fazem respirar muito mais fácil. Esse ambiente de paz me faz sentir muito mais que uma simples tranqüilidade; é quase uma possibilidade de libertinagem, de se permitir sem qualquer interrupção, de ser capaz de gostar até do repugnante, de sentar numa cadeira velha e sentir que tudo bem com isso. Tem coisa melhor do que ser viver sem restrições? De viver sem rótulos, sem a necessidade de dizer “estou feliz” ou “estou triste”, de não ter medo de sentir o que for, de não distinguir o choro do sorriso, de não evitar abraçar você mesmo sem vergonha de não ser exatamente o que devia? Ainda não provei algo que me fizesse mais bem, até quando aparentemente faz mal. Mas nos poucos instantes que passei por aqui, notei que a calmaria realmente existe e para chegar lá, basta paciência e um pouco de fé – e isso eu tenho em mim mesmo, e de sobra, acreditem. Basta eu dizer: agora é a hora. 

 Agora, posso ler o meu livro?

* esse texto faz parte do meme "Recicle o título", onde um texto seria produzido a partir de um título colhido de postagem de outro blog.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Isabel, que não era Carolina

Teria sido mais fácil se ela tivesse recusado o convite, feito uma xícara de chá e sentado no sofá da sala para assistir Grey’s Anatomy – justo aquele episódio cruel em que a little Grey e o Mark se separam. Nada mais fim de romance que nem começou do que isso. Hoje, mais do que nunca, se sentia incapaz de carregar a força de ser Carolina. Preferia ser Isabel, aquela sem significado algum para alguém cética como ela. O seu plano de solidão teria sido perfeito se ele, o da noite anterior, não tivesse feito o telefonema em busca de outra dose de wisky e de paixão – não, nada de café dessa vez, nada de coisas mornas que facilmente ficam frias e desgostosas. Naquele bar e naquele encontro só tinha tido espaço para uma ou duas palavras de identificação, muitos abraços e pretensão alguma – ao menos era o que ela achava. O telefone chamou uma, duas, três vezes até eu ela resolvesse dar resposta àquilo que em duas frases bem ensaiadas poria fim ao seu indestrutível faro para um canalha bem vestido e com bom gosto para cigarros. Acabou cedendo, mesmo tendo plena consciência que no fim só caberia a acusação a sim mesma, a autopiedade e a condenação por ter sido a única culpada de romper suas verdades e aderir as mentiras alheias. Isabel, venha comigo – era impossível de denegar o convite. Juntou o necessário em uma bolsa pequena e partiu – não fez questão de salto alto, de maquiagem pesada e nem de um vestido escuro. Para quê máscaras? Era tão simples aquela complexidade. Ele falava uma ou duas palavras que no seu conceito seriam engraçadas ou convidativas – ela fingia rir enquanto se lembrava do quanto odiava Mark por ter deixado a little Grey partir. Ele expunha suas façanhas das últimas horas, apresentava o carro novo, listava diversas opções de locais para onde poderiam ir – ela concordava com a cabeça enquanto tentava lembrar se havia desligado o fogo do chá e guardado o que sobrara na geladeira. Para quê mais que isso? Era extremamente dispensável dividir contas, ter filhos para cuidar ou mesmo trocar confidências sobre como a relação estava evoluindo – quando na verdade só afundava de forma irremediável naquele abismo. Isabel, mais do que nunca, só queria por fim àquela sensação de estar só e seguir sozinha. Queria estar acompanhada, se pertinente, e depois três beijinhos, até logo, se me ligar novamente, que seja na só na semana que vem. Não que estivesse com medo – apenas não queria, por enquanto, tentar nada novo. Ali, onde os românticos não ousavam transitar e as putas ou mulheres bem resolvidas viviam sem menor pudor, era onde Carolina se perdia para ser Isabel no sentido vago que aquilo representava. Aquilo entre eles dois era alguma coisa quando tinha que ser e depois, simplesmente, não era mais nada – exatamente como deveria. Era assim que ela poderia ser absolutamente ninguém – um número na lista do telefone para as horas vagas e só. E quem poderá culpá-la por isso? Naquele momento, era pesado demais tomar conta de si próprio e também de alguém – naquele momento, o melhor era ser o mínimo que pudesse.

sábado, 5 de maio de 2012

Enlouquecida(mente)




Driving in your car 
I never never want to go home 
Because I haven't got one 
Anymore 


Me leve para fugir essa noite. Cale minhas reclamações e as transforme em sorriso. Me leve para algum lugar onde as luzes brilhem tanto que doa aos olhos de quem não quiser enxergar o colorido da avenida. Me ponha em movimento dentro de um carro, dentro de um abraço, dentro de uma roda de música e pessoas cantando alto, soltando a alma em um ritmo que não me faça querer parar. Me cerque do rock britânico dos anos 80 e do balaio dos violões com suas cordas quase rompendo de tanta euforia. Você sabe, eu nunca quis sair do meu mundo, mas, de qualquer forma, me apresente o seu. Me dê a chance de escolher algo diferente que me faça querer sair de casa e correr pelas ruas da cidade. Me leve para fugir essa noite porque eu quero ver o que de tão fabuloso e ao mesmo tempo cruel existe por trás das janelas do seu carro. Me leve para ver pessoas de verdade. Me apresente lágrimas e risadas. Faça com que eu sinta coisas boas. Faça com que eu sinta alguma coisa. Me leve para beber até perder o bom senso e me deixe sentada ao meu fio, cantando enlouquecidamente alguma cantiga que acabei de aprender. Não, não me deixe em casa. Não me ponha na cama, estenda o cobertor e me faça dormir. Eu não quero dormir essa noite; eu quero enlouquecer sem motivo algum e acordar amanhã com uma dor de cabeça que tenha valido a pena. Pensando bem, não me deixe voltar. Não quero ser mais benvinda no meu mundo, eu quero ser parte do seu. Quero pegar a sua mão e correr pelo meio das ruas, desviando de motos e ônibus, colidindo apenas com você. Esperar amanhecer ao seu lado é uma forma linda de uma noite chegar ao seu fim. E se a noite não acabar, e se o delírio permanecer, e se a realidade jamais retornar, bem, o prazer e o privilégio de viver essa loucura opcional ao seu lado terá sido todo meu. Mas me leve para fugir essa noite. Me leve para qualquer lugar, não precisa me dizer para onde, não precisa me dizer com quem, não precisa haver hora para voltar. Me transporte por meio de suas passagens secretas até chegar a um lugar que me faça pensar: esperei tanto para estar aqui. E se um medo inaceitável for aparente em meu rosto, novamente: cale minhas reclamações e as transforme em sorriso. Não deixe que nada nos detenha. Me leve para fugir essa noite e juro como nada mais me importa. Me leve para fugir essa noite e não me traga de volta. Me leve para fugir essa noite e se perca comigo em algum lugar. Me leve para fugir essa noite com você.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

É esse o fim?


Eu não sou a heroína
Dessa história 
E tão pouco você 
Mas acho que chegou a hora 
De salvarmos um ao outro. 

Há tempestade lá fora e também aqui dentro de mim, mas ele nunca percebeu a minha chegada berrante pela porta de entrada ou pela dos fundos. Para ele, nunca fez muita diferente – experimentei passar noites fora, sumir como todas as roupas do armário, não me alimentar bem. Passei noites em claro tentando me manter acordada enquanto escrevia uma palavra ou outra que fizesse algum sentido, que pudesse explicar algo no momento em que o silêncio não bastava. Não adiantou. Nada chamaria a sua intenção, eu deveria saber antes de ter dado início a esse circo patético lotado de palhaços e de nenhuma mágica. Acho isso errado de tantas formas que desconheço se existe um jeito certo de ao menos te dizer que já basta. Gostaria de ter o poder de ao menos terminar um pensamento por mim só, mas cada tentativa fica mais distante até chega nesse ponto que é o vazio de sempre. Não acho que estamos conseguindo alguma coisa; estamos nos ferindo e cometendo o pecado de esmagar os sonhos um do outro. Não, eu não sou inocente. É claro que eu já fingi um beijo ou um abraço que queria prender só para mim e não deixar feito pássaro livre para ser preso por outra pessoa. É claro que eu já menti, e muitas vezes – ou ele achou mesmo que ia entregar tão facilmente o meu coração? Tanto cuidado para apenas ter uma pilha de acusações na consciência e alguma canção triste para compor. Você consegue sentir? Eu sinto – o frio, a TV chiando, uma gota caindo na pia da cozinha, a janela da sala rangendo. Você vê? É o fim?

sábado, 21 de abril de 2012

Um momento distante

para ouvir: Sweet disposition - The Temper Trap



song of desperation,
I played then for you...

a moment, a love,
a dream, a laugh,
a kiss, a cry,
our rights, our wrongs... 



Nos últimos tempos, o único que não me traiu foi o mar. Aquele vai e vem de ondas nunca me deixou esperando, nunca me deixou só, nunca me decepcionou: sempre haveria volta. À beira mar eu me sentia em uma espécie de solidão acompanhada – existe isso, solidão sem estar só? Olhei para os lados pensando se haveria alguém que valesse a pena, que eu pudesse chamar de companheiro, pra quem eu pudesse dar abrigo, quem pudesse me oferecer um ombro, um abraço ou uma verdade, ainda que dolorida. Não havia. Pensei, então: estou acompanhada pela solidão. Estaria também em paz, se a música da última noite não tivesse ecoado em minha mente. Como se ninguém estivesse te observando, ecoava em meus ouvidos, me importunada a paciência, me deixava contrariada. Eu sei, eu sinto cada passo sendo monitorado – tive que admitir. Sinto o desapontamento, também. Cada vez que nos cruzamos no corredor e os olhares perigosamente e sem querer se encontram, eu sinto exatamente isso: uma necessidade tremenda de um momento que nunca mais aconteceu. Um sonho, uma risada, uma combinação de pensamentos... Como dois anos podem mudar tanto em dois meses? Como pode haver tanto desencontro entre duas pessoas separadas por uma avenida, alguns carros, muitas coisas não ditas e tanto sentimento oculto? A nova circunstância entre nós é o silêncio – logo ele, que nunca foi nosso companheiro, é o único que ainda torna tudo isso suportável. O silêncio é aquilo que adia mais um pouco o fim que se torna cada vez mais nítido. Eu consigo enxergar, você não? Já posso até prever e tenho ensaiado em frente ao espelho um “oi, como você está?” sem nenhuma pretensão que minha pergunta casual seja de alguma forma respondida. Eu sei que ainda posso te ligar. Sei que a qualquer momento isso será ridiculamente superado e seguiremos as nossas vidas com uma expressão rude no rosto e o pensamento de “o que mais se poderia fazer?”. Mas eu não quero, porque ouvir sua voz só por uma linha telefônica é incômodo demais para quem queria mesmo era as palavras de um silêncio presente, daqueles que parecia fazer carinhos em nós quando, sem dizermos absolutamente nada, já havíamos dito tudo. Nunca fui dessas que superam facilmente as dores como se no dia anterior não estivesse com o peito dilacerado e abraçado a decepção. Nada me incomoda mais que o excesso de coisas não ditas. Nunca fiz questão de coisas facilmente ou falsamente perdoáveis. Tenho, sim, vontade de bater mais uma vez à sua porta e sem descaminhos, indagar que porra é acha que estamos fazendo. Assim mesmo: sem orgulho ou vergonha alguma, eu renunciaria inclusive a essa minha sensação de que só eu estou tentando ver as coisas pelo lado bom. Mas eu tenho medo de algo mais terrível acontecer: que não haja nada a ser dito. Que não tenha remédio e que o fim já tenha chegado sem eu me dar conta. Sei que somos jovens e irritantemente parecidas – sei que temos outros problemas e outras vidas e outros abraços. Mas não me peça apenas para ficar aqui, esperando você chegar; não me peça para ver ir embora todos os momentos em que precisei de você até só ficar aquilo no que você é absolutamente dispensável. Não me peça para esquecer, nem que seja por pouco dias, porque minha memória ainda não aprendeu com o mar. Porque nada é mim é tal como uma onda. Porque nem tudo que vai, volta - mesmo que volte, não há garantia de que seja como um dia foi. Isso de fato soa como uma canção de desespero para você. Cante-a, se quiser. E não pare até que tudo isso tenha um fim.

sábado, 14 de abril de 2012

Antiga(mente)


How many special people change? 
How many lives are living strange? 

Tenho repetido o roteiro dessa história sempre com as mesmas palavras e sentimentos. Falar sobre o modo com que me relaciono comigo e com ou outros virou um desses dramas clichês que nos fazem deixar o cinema antes de chegar na metade da história – os personagens não sabem interpretar nem a si mesmos e ficam em um eterno movimento cíclico de mesmas escolhas, mesmos erros, mesmas lamentações, mesma falta de compreensão sobre aquilo que já é café morno até para si próprio. Não interessa se busco entender os problemas de um dia ou um ano atrás – é sempre a mesma ordem inevitável de coisas que só me fazem chegar à conclusão de que estou mesmo condenada a mim mesma, que sou a perdição da minha própria mente, que sou prisioneira da minha falta de vontade de conduzir a dança sem ninguém pisando nos meus sapatos e me dizendo que não gosta da música que está tocando. Queria tanto ter a paz e o silêncio de ouvir o que minha alma grita, mas sempre acabo em um desses shows de rock onde ninguém consegue dar atenção aos próprios pensamentos – é só aquela a gente ao seu redor julgando o jeito como você se veste, sem sequer lhe dar a chance de explicar porque está ali daquela forma, com aquelas companhias e com aquela expressão de que nada no mundo compensa tanta desordem. No fim, fica só o velho disco arranhando na vitrola, deixando escancarada no ar a pior das verdades: sou a única que ainda acredita nas mentiras que conto. Na última vez que eu disse que seria a última vez, pude sentir pelas minhas costas as risadas de todos que já sabiam que, em poucos dias, a única coisa que viria seria outro desabafo como esse. No início de tudo é tão fácil. Eu juro a mim mesma que me boicotar é coisa do passado e me convenço de que tenho em mãos todas as armas para sentir uma felicidade contagiante – e tenho mesmo, ainda que não pareça. Mas é com facilidade que rompo as minhas próprias promessas e traio todos os planos que tracei. Minha mente começa a trabalhar em auto-ataque e entra em choque por tudo que anda acontecendo – e pelo irreal, também. Jogo ao vento as convicções de que é possível vencer a mim mesma, até que novamente me dou conta de que há a chance de ser feliz com o que se tem e não somente com aquilo que se acha que deveria ter. É nesse momento que viro a metamorfose ambulante não muito nos moldes do que o velho Raul previa; ergo as mãos aos céus, me ajoelho num canto do meu quarto e só peço para que o que tiver de vir, que seja para acrescentar e jamais para destruir. Nem busco mais entender o que me leva a tanto extremos e por desistir de uma auto-compreensão é que percebo tantos olhares de dúvidas destinados a mim. Está escrito no olhar de quem me vê que a grande maioria acha que eu nunca vou conseguir encontrar em mim mesma alguma paz. Pois eu digo a todos que se eu estiver meditando à beira mar ou mesmo contando os grãos de areia para descobrir com quantos se faz um castelo é porque não desisto de viver ainda que isso implique em castigar a mim mesma até que eu pague a dívida de um dia ter ousado pensar que a verdade sobre mim está em outro alguém. Sou mais independente que essa minha vontade de estar sempre ligada a algo e na falta de pessoas que acreditem em mim, eu resolvi achar aqui dentro a coragem que preciso para recomeçar mesmo quando a luta parece vencida antes do seu início. Ainda ouço uns ou outros que me destinam algumas das frases mais clichês de Caio Fernando – vai passar, tu sabes que vai passar, talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? – mas tudo tem acontecido quando me ponho a pensar que guardar mágoas é um desperdício de espaço de memória e do coração e que se todos os dias eu dou uma nova chance a mim mesma, porque não dar oportunidade às outras pessoas, também? Se esperavam um novo rumo pra mim, se enganaram em pensar que por um único segundo eu cogitei a hipótese de desistir de mim mesma. Hoje, eu abraço os meus erros como quem acolhe um amigo que te leva sempre aos mesmos passeios, mas que no fim do dia te trás de volta para casa – foi o que o destino sempre quis e eu aprendi a ser muito bem assim. Talvez seja mesmo uma nova espécie de paz essa que eu tenho: boa o suficiente para trazer alegria, mas nunca duradoura ao ponto de me fazer acomodar. E cá estou eu, flutuando insegura no meio de tantas conclusões, reaquecendo o café e pensando que talvez seja essa a única saída: acreditar que não se pode ir mais em frente para, logo em seguida, ter vontade de ir muito mais além.

domingo, 1 de abril de 2012

O tempo passa, mas não passa

Você passou pela porta e eu fiquei acenando da janela, você ficando menor e menor a cada passo, minha mão indo para lá e para cá mais e mais lentamente. Ao cruzar o portão, virou o rosto para me encarar mais uma vez; eu já ia abrir a boca para dizer as palavras mais duras que guardei, mas antes disso você sorri de canto, pisca o olho e me priva de fazer tudo aquilo que já há muito tempo eu deveria ter feito.

Quando não consegui mais te ver, saí da janela e peguei o telefone – talvez você me ligasse. Logo o tic tac do relógio começou a caçoar de mim, mais e mais alto, mas o meu orgulho foi superior e virei a cara sem olhar uma única vez, como se não fosse comigo. Talvez não fosse comigo. Comecei a andar pela casa, liguei e desliguei o rádio para ver se esquecia. Não esqueci. Vaguei até a cozinha, passei um café, passei dias, passei semanas. A gente esquece que o tempo faz essa coisa engraçada com o estômago, essa coisa que não me deixa engolir o café sem você. Encaro o telefone sabendo que não sou corajosa o suficiente para te ligar e admitir o que quer que seja. Um olhar de relance no espelho e a verdade omitida explode no meu rosto: aqui dentro existe uma vontade de te deixar ir embora, te deixar ir para fora de mim – e isso seria culpa sua, completamente sua. É você que parte sem deixar bilhetes nem abraços nem adeus – é você que, entre tudo que poderia me oferecer, escolhe deixar apenas saudade. O problema é que você sempre teve um cuidado muito grande em não me deixar te esquecer. Você que me ensinou a me embriagar de ti até as suas palavras me soarem como arranhões melódicos e o teu cheiro ficar impregnado no travesseiro, nas minhas roupas e na minha memória. Quanto mais eu corro, mas eu te encontro nas esquinas, nos comerciais de TV, na roupa suja espalhada pelo chão do quarto. Vez ou outra alguém me recomenda: pare de cultivar as más lembranças. Como se apenas as más lembranças doessem. Deito no sofá e fecho os olhos. Penso em tudo e em nada, em todas as coisas e em coisa alguma. Acho que cochilo – ou hiberno. Acordo, antes de a vida me dar uma daquelas lições em forma de sonho, querendo saber que ano é hoje. Que ano é hoje e se o café ainda está quente. Que ano é hoje e quando é que você volta. Já não passou da hora de anoitecer?

Abro e fecho um livro. Resolvo que é melhor começar pelas orelhas. Não tenho tempo de ler uma frase inteira, o portão te denuncia. Olho para a porta como uma criança olha um presente. Você entra com o pacote de pão fresco pedindo desculpas pela demora, respondo que não tem problema, que nem percebi. Mas você já sabe que é uma mentira e sorri para ela e para mim.