sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Mais um sorriso,
mais uma palavra,
mais um tudo nada que sabe a pouco
na voraz coincidência do tempo que se esgota.
Só mais um olhar
e posso então voar nas asas leves do vento
que teima em pairar no amanhecer incendiado de luar.

Por um dia,

não importa quando,

podia ouvir o eco da serra agreste

no serpentear ardente do asfalto ardente de luar.

Se um dia em contramão vogasse,

sentiria o trepidar do grito melodioso do milhafre

ou da mangueira madura roubada do suculento fruto por mão ufana de vaidade.

Por um dia, neste dia, voltaria a ser menino,

e a ver que o grão minúsculo de areia pode ser praia

do mar que se espraia por aí.

Entao um dia, ecoaria na mais pequena ondulação,

em cada rajada de coração apressado em viver de emoção.
Que intensidade vem do pairar no cristalino instante
em que se funde o ser na profusão de paisagens por ser.
Que harmonia vem de ser onda rebentada na perfeição no areal de algum ser.
Quando o vento agreste fustigar as raízes do teu viver,
encontrarás então a chave da ilusão de que mais vale ser do que parecer.
Ouve o som do trovão que pernoita no olhar meu quando te sonho.
Mesmo que as cores, os sabores e os cheiros de ti se desvaneçam na poeira da memória,
verás que sempre habitas na centelha que acende a tua luz em mim.

[a pensar na minha África]

sexta-feira, novembro 10, 2006

Em cada dia recrio o grito primeiro,
Chorado sentir da veloz sonoridade do termo da gestação.
Audível memória uterina tornada perecível na escuma dos dias hipotecados ao limite possível,
A calha riscada e sem idade esgota-se no marulhar da pele engelhada pelo fim da vida.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Estas só
mesmo que os raios de sol te abracem na madrugada do amor
Estas só
ainda que o tempo marque a hora do encontro.
És só tu
o tempo e a hora perdidos no infinito sonho de aurora.
És tu só
na estrada marcada a ferro,
rasto cintilante na paisagem suspensa de um rosto à procura de si.
És só
tu, assim, sem abismo ou cume onde se rever.

no ocaso que em ti desponta sentirás o enlace do dia
feito chão da caminhada dos que sentem que vale a pena viver!

sexta-feira, julho 14, 2006

Sonhei no vazio de mim
um ocaso encontrado no acaso sem fim
dos dias nascentes em céus cinzentos
das noites cadentes sem auroras por fim!
sonhei-me, assim, despido de mim
palpitação suave perto da noturna magia do sim
negado no instante distante e ruim
em que o sonho deixa em ondas carmim
o travo amargo de ti
vogando em marés de abandono
acordo em madrugadas prometidas sem fim
caídas em teias infinitas tecidas por mim

e o sonho adormeceu assim
sem o doce despertar em ti.

[2.006.05.07-espelho bar- praia da oura]

quarta-feira, junho 28, 2006

Um fio de água,
ténue teia cristalina urdida no silêncio da gota,
sulca a aresta polida da curvatura da íris que não o quer verter.
Preso no outro mar que cruza o olhar,
perdido na vela que se distancia a cada afago do vento,
torna-se calmaria que aquieta a corrente que o tornará vaga
em promessa de assalto a areais sonhados em dias de tempestade.
Um ténue fio de água
agora mancha o espaço vazio
deixado vago pela maré que tardou a fluir no olhar
em si fechado na ausência de um Sim!

2.006.06.06

terça-feira, junho 13, 2006

No caminho que trilho à força de uma vontade inquebrantável fogem-me horizonte e chão.
No escolho inesperado desafio o desiquilíbrio que me suga o sorriso que o novo dia me oferece na luz que banha as margens do meu voo picado.
Na poeira que lentamente cobre o areal onde reclino a canseira que me tolhe o passo surpreendo as pegadas que me contam o segredo que pressinto no único par marcado na areia.

E alegro-me por saber que há alguém que comigo caminha
e que NADA me impedirá de voar nas correntes ascendentes que me conduzirão lá onde nada mais importa a não ser a nudez de uma alma libertada do chão na simplicidade da entrega ao Amor que tudo pode e tudo realiza.

E no anoitecer fatigado desponta a aurora do sentido de existir assim, aqui e agora.

[espelho bar- 12.06.06. - 23:29]

quarta-feira, maio 31, 2006


na crista da lágrima vertida no fio das alegrias
está o pesar contido na gota
que os dias sentidos sem ti ocasiona em mim.

sulcando-a de memória,
dou-lhe a forma de um viver imaginado.
galgando-a arrojadamente,
percorro a extensão de água
que me faz jangada em alma arrebatada pelo horizonte distante.

e quando se precipita no vazio que medeia emoção e razão
já não há lágrima!

só a sensação que o impacto no chão da seca provoca no coração.