quarta-feira, novembro 30, 2005

Suave...

Na leveza da brisa, corre suavemente o sangue que alimenta a minha emoção,
no cadenciado bater de um coração,
no trémulo pulsar de uma ilusão,
no fulgor áureo de um olhar intenso,
em mim, sem mim, e por mim,
onde estou sendo ausência na permanência do amor.
Ah, suave ser que no estar se compraz!
Ah, suave andar que é tanto pairar como vogar!
Ah, onda que timidamente acaricias areais imensos de distâncias só imaginadas!
Suavemente me ligo à ténue luz que se escoa por entre o carregado céu,
e ternamente afago o audaz raio que teima ser fulgor em mim .
No suave instante em que me entrego ao ar rarefeito, respiro o sopro criador,
e desabo em chuva de emoção que inunda o rio que me vai no coração.

[A.D. 2.005.11.30- Paderne ABF]
Subir à montanha mais alta e de lá olhar o longínquo horizonte
e ver que está saturado com um sorriso teu.
Descer o vale mais cavado, num rio de aluvião na rocha moldado
e dar de caras com o teu rosto aberto num abraço amigo.
Mergulhar no teu olhar de contradições matizado,
ser o teu tipo e voltar a não ser ao rítmo de um pestanejar.
Viver simplesmente a alegria do momento de falar de tudo, de nada
e do imenso que ainda fica por dizer mesmo dizendo.
Ah, a montanha mais alta, no vale mais cavado do rio mais profundo são o desenho de ti no meu mundo de sonho e de fantasia e de magia.
Não vou afinal abrir os olhos.
Vou deixar-me vogar na tua imagem retida brevemente nesta nossa viagem.
[ao dany boy, um portuga com charme e ar de italiano. A.D. 2005.11.28]

segunda-feira, novembro 28, 2005

ngateletele musoso; mahezu
ou o fim da história...
no início foi sentida,
no meio partida,
no fim fingida
ngateletele kamososo...
ah, ngingi, ngingi, muazeka kadia?
como dormir, como?
jina diami, eme Nuka,
jina diami, eme Nunca...
o meu nome é Nuka
o meu nome é Nunca...
a história do sempre
a ngana kumbi ni mbeji ni ma-kishi

do do sol, da lua, dos espíritos...
ah, assombração, não fujas do Hoji. não vás esbarrar com o Nzamba.
Só o kisonde te assusta, ó elefante, aquele de Malemba ainda mais...
Ngateletele kamusoso!
O conto acabado, Deus seja louvado.

terça-feira, novembro 22, 2005

Não vos preocupeis com o dia de amanhã.
No silêncio de hoje, ouvi a voz que vos impulsiona e guia.
Não ouseis fazer-vos de surdos.
Escutai o som do brado que se eleva do chão,-as pedras ousarão chamar-vos néscios se não ouvirdes-, a clamar por justiça.
E no ruido do instante saibai entender o infinito silêncio do íntimo cadente de alguém em ascensão.
Nem o Agora nem o Já vos pertencem!
Atentai antes no Sempre que vos foi dado como redenção.
Fixai os vossos olhos aí, e exultai.
O dia de amanhã já tem os seus problemas.

[inspirado na leitura de Mateus, 6:34]

segunda-feira, novembro 21, 2005

breves são as pausas que abrem brechas no tempo da memória vivida.
longos são os espaços preenchidos de imenso Vazio.
curta é a hora em que o Todo se torna em Nada.
breve é o dia que amanhã trará luz que em Longo tornará o que é Breve
e em Tudo aquilo que Nada é.
na certeza da intemporalidade do ser, a dúvida do mortal parecer descansa em paz!
sozinho, junto ao pôr do sol, me deixo emocionar pelo cântico que o dia que finda entoa à noite que cai.
a estrada de luz multicor convida à união entre o céu e a terra num beijo intensamente saboreado.
na linha do horizonte distante, o ribombar do coração torna presente o anseio intemporal de trautear para sempre a canção de embalar que o vento sussurra quando a nuvem quer encantar.
alí, no imenso areal lavado pela maré, fui oráculo segredado num murmúrio de maré, raio ténue de sol ou grão ínfimo de areia.
alí, na solidão procurada, fui voz do silêncio que suavemente se instalava no ruído do fim do dia.
alí me encontro com a intemporalidade que transforma o grão de areia em pérola.

terça-feira, novembro 15, 2005



ao lado do meu quintal,
carregado de frutos vermelhos está um medronheiro.
nada me diz de manhã quando por ele passo a correr.
entretém-se a falar com os pássaros
que malucos debicam cada um dos seus bagos encarnados.
empoleirados num galho,ensaiam o voo ansiado, só para se estatelarem no chão,
admirados com a gravidade que os bagos vermelhos tornaram real.
ah, medronheiro malandro! deixa lá a passarada!
não lhe armes cilada, não vá o céu reclamar de solidão não desejada.

segunda-feira, novembro 07, 2005

na refrega do momento cambaleio sem do Norte saber.
no dissabor temporário deixo que o Sul se centre
e ancore a maré numa onda gigante que cavalga velozmente a distância que a Este se ilumina.
a cada instante percorrido aumenta de pujança a onda que agora sou eu.
zarpando firme, de rumo mudo e o Oeste acontece assim, sem querer,
na onda eu que suavemente varreu as planícies de areia que um dia ousaram esquecer.

[A.D. 2005.11.06]
no limite do sentir-me vazio , cheio me encontro de contradição.
da outrora viçosa cepa pende a seca vontade de caminhar com o olhar posto na alegria do amanhã hoje visto.
as lágrimas que a alma lavam sulcam contínuas os rios que desaguam nos meus olhos
e inundam breves a face contrita que em vão procura ver-te.
derrotado deponho o elmo na poeira do sonho,
firmo o estandarte da solidão no chão de um corpo tombado,
faço o sinal da cruz na fronte gretada pela febre de esperar que o momento se desvaneça.
apeado de novo no Pégaso do meu sentir,
com determinação cruzo o espaço do teu abismo
e vitoriosamente volto a cravar o estandarte da vitória num corpo vivente
que é de novo paisagem de um sonho de amanhã.

[a caminho... A.D. 2005.11.06]