Não sei se era alguma memória de infância que estava guardada nos confins da mente, quando em criança andava de mão dada com a minha mãe em Joanesburgo, a primeira cidade em altura que conheci, memórias essas que hoje não passam de umas silhuetas disformes perdias numa via láctea de átomos, décadas depois parecem ter voltado noutra forma e a darem um sentido de familiaridade, mal aqui pus os pés. Seria um dejà vu?Andei demasiado nesses dias, se o frio preserva os corpos também torna o passo mais rápido e o cansaço menos evidente, mas ele lá sempre chega e permanece durante muitos mais dias.Começava a caminhada mal a temperatura subia qualquer coisa, parava já noite e num dia reparei que tinha perdido as luvas, que tinha feridas nos dedos e que nesse dia só tinha comido umas bolachas de Oreo com creme e um pacotinho de amendoins sortidos, comprados ainda em Atlanta. Nem me lembrei das refeições.Observei patinadores em danças no gelo, folheei edições de livros que nunca serão publicados cá, percebi identidades em fluxo, li mensagens de salvacão na porta dos cultos, árvores despidas a apontar aos céus, noivos felizes posando para as fotos, almas que habitam só a noite, fui à China em meia dúzia de quarteirões, pressenti os ritmos de todo o mundo em cada em cada recanto.De Little Amsterdam, fundada por exploradores holandeses sedentos de liberdade, Nova Iorque transformou-se num caldeirão que é hoje essencialmente afro-latino, com aqui e ali umas pitadas europeias, asiáticas e judaicas, sem, no entanto, nunca ter perdido a ousadia e a sua capacidade de reinvenção.Voltar aqui saberá com certeza como a primeira vezAté breve, grande maçã, porque a nossa história não vai ficar por aqui. 🗽🍏
Caffè Atlântico
04 fevereiro, 2026
New York City II
03 fevereiro, 2026
New York City I
EXISTEM cidades que servem para nos dar lições, cidades que já só existem nos livros de história e na mitologia, outras que ainda não se definiram e algumas que tentam se reinventar. Neste preciso momento existem cidades a nascer na China e outras cidades são ainda casulos na mente inquieta de arquitetos e engenheiros. E por fim existe Nova Iorque, que serve para os inspirar. Que serve para nos inspirar.Sempre que eu olhava para o céu ela me dizia através do vento gélido que atravessava os arranha-céus “Se queres te sentir pequeno vem aqui.”Vagueei o que era humanamente possível vaguear em poucos dias e daqui saio com a frustrante sensação de que pouco ou nada vi.Ouvi discussões aos berros no meio da cidade, vi autoridades sorridentes, ouvi todas as línguas do mundo, vagueei pela Chinatown e por momentos senti-me como o único não oriental a circular naquelas ruas. Vagueei por Chelsea, onde a arquitectura industrial vintage e a cultura de nichos convivem bem com o aço e o vidro dos arranha-céus de Manhattan.Não fui a Little Italy onde Al Capone dominava o submundo do crime nos bastidores desses quarteirões, não fui à Korean City, quase não percorri a Broadway onde as grandes estrelas de cinema emergiam à saída das limousines de luxo para as estreias dos primeiros filmes sonoros, não fui a Bronx nem a Brooklyn, não ouvi Frank Sinatra a cantá-la, não fui aos bairros judeus, não me empuleirei de nenhum view point como pássaro pós moderno a fazer caca nas alturas como uma câmara fotográfica empunhada ao ver a cidade de cima.Aspirei tudo o que tinha direito nesses dias, praticamente sempre a pé, porque a metro nova-iorquino é uma teia de aranha demasiado complexa para a minha mente com crónico défice de atenção.
03 dezembro, 2025
Estocolmo, dezembro de 2025
Estocolmo é uma espécie de teia de aranha, não daquelas asiáticas, construídas na ambição, em altura, com aço e vidro, mas uma teia natural, espalhada sobre imensas ilhas e águas frias vindas de todas as direções.Estocolmo é também tratado de inveja e mágoa sobre o que todas as outras grandes cidades deveriam ser, mas não são. Penso que é aquilo que secretamente todos os visitantes que chegam a esta cidade saem daqui a pensar. Eu nunca seria excepção.
E Estocolmo é desafiante. Nesta altura do ano o crepúsculo chega pouco depois das duas da tarde e pelas três horas já é noite, um cenário depressivo para qualquer pássaro do sul, mas nem assim o povo desta latitude parece desesperado com isso. Pelo contrário, passeiam pela cidade de forma ordeira, relaxada, não raramente com sorrisos na cara, este povo alto e silencioso, povoado de muitas mulheres bonitas e imensas crianças que dão alegria às ruas iluminadas de Gamla Stan e Ostermalm.Pareceu-me ser a última grande cidade ainda capaz de respirar um pouco de comunidade sem deixar de ser cosmopolita e cintilante até ao tutano.A cidade anoiteceu rapidamente mas foi logo agraciada pela iluminação sumptuosa que nesta altura de Natal transforma toda a cidade numa enorme gambiarra horizontal e não há vento gélido a roçar as gargantas que retire essa beleza.Se existem povos que dão valor à família e ao tempo para estar com ela são estes nórdicos. Não precisaram de andar a explorar o mundo nem ninguém, nem mesmo os vikings, seus antepassados quiseram muito sair deste habitat de florestas e lagos. E fizeram eles bem, guardando as suas virtudes para eles próprios, para as suas famílias, para a sua comunidade. Talvez essas vontades tenham chegado até hoje, pois não há país que ofereça 480 dias de licença parental como a Suécia e as ruas e os passeios sejam percorridas diariamente por milhares de carrinhos de bebé em ambiente descontraído, num centro pensado para as pessoas e para andar a pé, não para o trânsito. Tão boa para passear, que integra na perfeição a vida urbana, as florestas e a água.
Estocolmo dá lições de como deve ser gasto o dinheiro público. Tem o melhor sistema de metro que já utilizei, e eu já utilizei muitos. Os bilhetes são caros mas são a prova de que só tens os melhores serviços se pagares um pouco por eles. E o que eles prometem, eles cumprem. Nem um elevador parado, nem uma escada rolante em manutenção eterna, nem comboios atrasados. Sinto mágoa por estarmos tão longe deste nível.
Certamente que existirão bairros perigosos aqui, que os há certamente, mas não existem sem abrigo e aqui ninguém vos abordará para vos vender droga nem se sente no ar o aroma das plantas tropicais, muito apreciadas em países mais a sul. Não há gritaria, não há ambiente pesado nem há garrafas nem copos de vidro partidos no chão porque nem os supermercados os vendem. É o estado que gere e controla a venda de álcool, com regras apertadas num registo semelhante ao da Finlândia, e que resolveu muitos problemas ligados ao seu consumo. Ótimas dicas para Portugal.Em Estocolmo não há graffiti nas paredes, essa sinal de decadência ficou confinado aos países do sul, para gaudio destes suecos que quando nos visitam gostam de fotografar esses hieróglifos e os consideram como parte da nossa “exótica” cultura. Estes são governos que pensam além da próxima eleição, governos que pensam na próxima geração.
E depois é o charme que resiste nas monarquias e que as repúblicas, coitadas, não têm. É o terem a sua moeda, a sua Guarda Real. No sábado assisti à cerimónia da Troca da Guarda, com banda militar, desfiles e a guarda de honra real da Suécia, vestida a rigor, orgulhosos da bandeira que ostentam, na proteção que dão ao Palácio Real, que por extensão dão ao país todo, a nos explicarem o porquê daquela cerimónia diária. Milhares de turistas a aplaudir. E nós ficamos reduzidos a uma república, sem legitimidade alguma porque ninguém a sufragou, diga-se de passagem. Mais uma vez, inveja da boa.Se eu tivesse menos uns aninhos e se ainda me puxasse esta veia estrangeira, estaria escolhido o país. Sem hesitar.Para já festejámos cá os 16 meses da nossa Ari.
Queria tanto voltar aqui no verão. Sei que um dia vou voltar aqui no verão! 🇸🇪🩵
17 novembro, 2025
Unhais da Serra
A malvada da Cláudia quase que estragava uns dias na Cova da Beira, reservados há muito tempo para esta quadra de castanhas assadas, um frio crescente, dias cada vez mais curtos e alguma reclusão.A chuva não parou de cair durante dois dias inteiros mas os ares da serra reservam sempre boas alternativas para além de me relembrarem a ter o devido cuidado com os seu humores. Dos dois mil metros de altitude na Torre da Serra da Estrela até aos oitocentos da Covilha são para estômagos mais fortes do que aqueles que habitam à beira Tejo. Aceitei a lição com um nó no estômago.A mil e seiscentos metros de altitude, entre picos e nuvens infladas, ficaram memórias de bons dias naquele chalêt feito de madeiras de todas as qualidades, de corredores compridos e pequenas salas labirínticas, de lareiras acesas com pellets que não pararam de estralar na tarefa de aquecer aquela atmosfera interior. Deu para levar a pequena sereia que já começou a correr, a esbracejar na piscina interior de água quente e fazê-la acreditar que já sabia nadar. E na melhor tradição clássica deu também para saborear os enchidos da região num dos seus restaurantes rústicos e nas esplanadas interiores convidativas a uma bebida quente ou a um jogo de xadrez nos seus tabuleiros estampados nas mesas. É um bom lugar para todos - para famílias com filhos, para casais em chama e para solo travelers. A montanha é um território que acolhe e integra.Haverá tempo para voltar aqui quando os humores do clima não forem tão caprichosos, por volta dos dias grandes, porque os ares da montanha são curativos mesmo para quem é feito de mar e calhau e dá-se melhor nas latitudes mais baixas. Haverá tempo para acampar, quem sabe ver javalis, fazer churrascos, beber da água pura que brota destas rochas, apreciar o silêncio da montanha ao entardecer e ser parte desta natureza. ☘️ 🗻⛅🌲🪵
07 outubro, 2025
Entre Como e Bellagio
Existem lugares que parecem ter sido esculpidos por algum mestre do divino e Bellagio é sem dúvida um desses recantos que recomendo a toda a gente.A viagem de barco entre Como e Bellagio dura cerca de duas horas e o filme que durante esse período nos passa à frente dos olhos é a de uma visita às belíssimas montanhas alpinas, aos raios de sol que penetram por entre as colinas, dando-lhes outra tonalidade e o seu reflexo sobre as águas do lago. Por todo o percurso avistam-se palacetes de estilo neoclássico que brotam na paisagem, rodeados de extensos jardins, que refletem a sua beleza sobre o lago, refúgio das famílias de magnatas e onde seria possível imaginar uma sumptuosa cerimónia ao ar livre e as mais belas fotografias possíveis devido a este cenário, onde o tempo passa mais devagar, onde parece ser sempre domingo à tarde.Bellagio é um lugar para contemplação, do que existe de mais belo nesta Europa, um lugar de introspeção entre o natural e artificial, um lugarejo onde não se sabe onde termina o real e começa o seu reflexo.Bellagio sofre das mesmas dores de todos os lugares turísticos da Europa. Os barcos e os cruzeiros chegam a quase todas as horas e deixam centenas de visitantes à solta pelos seus jardins, pelos seus miradouros e pelas suas íngremes ruelas, algo semelhantes às da nossa Alfama mas em versão primeiro mundo. Por cá não existem grafitis, não existem paredes a cair ou transformadas em enclaves sombrios. Ninguém deixou que o pequeno vilarejo fosse colonizado pela economia das migrações, por lojas de bugigangas incaracterísticas, camisolas de futebol e todo o lixo visual a que elas remetem, para além da inexistência de fumarentos e barulhentos tuktuks conduzidos por quem nem sabe italiano. Bellagio faz de todos os outros lugares de turismo massificado parecerem infelizes caricaturas.Ao invés, Bellagio está repleta de galerias de arte, de artistas locais e de marcas italianas de interiores. Aqui respira-se a cultura erudita do país que tanta falta faz ao mundo contemporâneoPelas montras das lojinhas observo as marcas de vinho do Vale da Aosta e do Veneto, os queijos de Trento e da Toscana, irresistíveis só de olhar. As esplanadas ostentam orgulhosos chapéus e belas mesas em metal, branco e negro, cobertas com toalhas de cores que remetem à paisagem e à região e não em mesas de vermelho chocante patrocinadas pela Sagres e pela Super Bock. Aqui come-se o famoso gelado italiano e bebe-se o melhor café com a marca de Turim. Eles não precisam de importar nada. Eles têm orgulho no que é deles.Bellagio é um belo lugar para as famílias e para os amantes que certamente se inspirarão neste cenário, onde se verão reflectidos nas águas.Ao contrário de outros lugares do mundo senti-me desassossegado perante semelhante beleza, ao mesmo tempo envergonhado pela forma como o turismo deveria ser feito no meu pais e onde uma cultura decadente e degenerada é tomada por alguns como autêntica. Eles sabem lá.
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