O céu da Flandres em poesia

Estamos na Primavera, mas esses primeiros dias da estação tèm nos deixado confusos. No mesmo dia é possível vivenciar as quatro estações, e com poucos minutos entre elas. 
Essa foto tirei-a no fim de semana em Oostende, na costa belga. Nada melhor que um poema do escritor belga francófono Émile Verhaeren (1855-1916) para descrevê-la.

Os Céus (Les ciels) 
Os céus são baixos e pesados,
como tampas de chumbo sobre a terra;
eles pesam sobre os campos longínquos
e sobre as aldeias imóveis.
Nenhum sopro os eleva,
nenhum clarão os rasga;
eles se estendem, contínuos e compactos,
de horizonte a horizonte.
As torres surgem, finas,
como dedos erguidos na bruma;
e os caminhos perdem-se ao longe,
sob sua sombra interminável.
Tudo parece esmagado
sob sua massa cinzenta e lenta,
como se o mundo inteiro
fosse mantido em silêncio.
E o olhar, cansado, vagueia
sem encontrar fim nem luz,
nesses céus que nunca se abrem
sobre a Flandres infinita.

Agradeço sua leitura e visualização. Até ao próximo post! 😉

Mosteiro de Ostrog: uma experiência fora da zona de conforto

Montenegro ainda reservava-me uma experiência única: o Mosteiro de Ostrog.

Foi a minha primeira visita a um santuário da Igreja Ortodoxa. Esculpido em uma montanha rochosa, é dedicado a São Basílio de Ostrog e atrai peregrinos e turistas de todo o mundo. Ao longo da subida, os fiéis deixam pequenas recordações. Há inclusive diferentes níveis de estacionamento, adaptados à condição da pessoa — como no caso de grávidas.


Ao chegar ao portão, é preciso verificar se a vestimenta é respeitosa. Há panos disponíveis para cobrir pernas, por exemplo. Depois disso, é mergulhar na história deste santuário que remonta ao século XVII, uma época turbulenta em que a região enfrentava o Império Otomano. Muitos cristãos ortodoxos refugiavam-se nas montanhas. A estrutura atual não é totalmente original, já que um incêndio levou à sua reconstrução entre 1923 e 1926.

Fundado por Vasilije, bispo da Herzegovina — mais tarde conhecido como São Basílio de Ostrog —, seu corpo está guardado em um relicário dentro das paredes frias e escuras da igreja rupestre. Rapidamente se espalhou a fama dos supostos poderes milagrosos de cura de seus restos mortais, e o mosteiro tornou-se um importante centro de peregrinação, não apenas para ortodoxos, mas também para católicos e muçulmanos, até hoje.

vídeo

No interior, forma-se uma fila para entrar no local onde ele está sepultado. Naturalmente, não é permitido fotografar ou filmar — aliás, nada pode ser registrado a partir do portão de acesso à igreja. Um número limitado de pessoas entra de cada vez na pequena cela escura, de teto baixo e sem luz natural. Ali, um monge segura um ícone do santo, e todos o beijam.

Este foi um momento difícil para mim, por diversas razões. Então, por respeito, limitei-me a encenar o gesto — não havia outra solução. Quem me conhece provavelmente riria ao imaginar a cena. O que um viajante não faz? ;))



Em seguida, passei pela loja de recordações e aproveitei para comprar um saboroso vinho produzido pelos monges ortodoxos.

Essa visita ao mosteiro fica ainda melhor contada em vídeo. 🙂

Agradeço sua leitura e visualização.
Até ao próximo post! 😉

Além de um aeroporto: Eindhoven

Há uma cidade nos Países Baixos a menos de duas horas da fronteira com a Bélgica que não é conhecida como destino turístico clássico, mas sim como uma possibilidade de viagens low-cost de avião: Eindhoven.

Eu já conhecia essa “fama” antes de ir — a de ser pouco mais que uma alternativa de aeroporto. Ainda assim, encontrei muito mais: uma cidade com muitos jovens e repleta de pop art.

No meio de uma grande avenida chamada Kennedylaan, próxima à estação central e à Universidade de Tecnologia de Eindhoven, estão grandes pinos de boliche e uma bola — o Flying Pins. Foram instalados em 2000 como boas-vindas ao novo milênio, e a prefeitura diz que representam a “combinação de trabalho e vida em uma cidade repleta de inovação”. A cor amarela harmoniza com os narcisos que surgem a cada primavera no canteiro central.

Vídeo

Não muito longe dos Flying Pins, seguindo em direção ao centro da cidade, passei por outra intervenção urbana divertida: o Silly Walks Tunnel. Uma passagem subterrânea perfeita para brincadeiras — e confesso que não deixei escapar uma habitual exibição pessoal. Quem é fã da comédia Monty Python vai reconhecer o personagem do esquete “Ministério das Caminhadas Engraçadas”, interpretado por John Cleese.

No centro, uma parada obrigatória para admirar o estilo neogótico da Igreja de Santa Catarina. E predios das famosas empresas holandesas.

Fora do centro, há um restaurante de uma famosa cadeia americana de fast food que, pelo seu estilo vintage, acaba por atrair visitantes. Não costumo comer nessa rede — ainda mais no momento atual —, mas abri uma exceção para me sentar ali, sob o olhar dos eternos rapazes dos The Rolling Stones.

Eindhoven também é um convite para quem gosta de turismo de compras, com o bónus de bons restaurantes. Só é preciso estar atento ao habitual tráfego dinâmico de bicicletas. A cidade ainda é um excelente ponto para os amantes de spotting, como eu. 😉

Agradeço sua leitura e visualização.
Até ao próximo post! 😉

Uma placa de estrada em Montenegro

Durante a nossa road trip pelos Bálcãs, enquanto atravessávamos o interior do Montenegro, passamos por uma pequena aldeia chamada Sekulići. Como sempre faço quando encontro um nome curioso, parei para fotografar a placa da localidade.

O que me chamou a atenção não foi apenas a paisagem tranquila da região, mas a sonoridade do nome. Para um falante de português, “Sekulići” pode soar como uma brincadeira involuntária: lembra um pouco a palavra século ou até algo que poderia designar uma estranha inflamação anatômica. Nada disso, claro. É apenas mais um exemplo de como as línguas nos pregam pequenas peças durante uma viagem.

Esses encontros inesperados com palavras fazem parte do prazer de viajar. Às vezes não é um monumento, nem uma paisagem grandiosa que fica na memória, mas simplesmente o momento em que passamos por uma placa de estrada e pensamos: será que eu ouvi isso mesmo?

Agradeço sua leitura.
Até ao próximo post! 😉

A janela de Kotor, Montenegro

Uma pausa de descanso no mar Adriático levou-me, em um dos dias, até a cidade mais antiga do Montenegro: Kotor. São apenas quarenta minutos de estrada partindo de Rafailovici, mas o suficiente para descobrir outro tesouro do país. Ali está um cenário natural que muitos chamam de fiorde do Adriático — um dos lugares mais belos que já vi. A cidade possui uma enorme riqueza histórica e possivelmente foi construída sobre um assentamento ainda mais antigo, que remonta ao período entre 700 e 400 a.C.

A presença de turistas hoje é imensa, assim como no passado foi extensa a lista de ocupantes e invasores de Kotor. Isso se percebe na organização do seu território: um verdadeiro labirinto urbano, com degraus, declives naturais das colinas, muralhas e fortificações. Tudo parece ter sido pensado de forma estratégica, dificultando que invasores compreendessem exatamente onde estavam. Em 1979, um forte terremoto danificou parte dessas estruturas de defesa, mas Kotor continua irresistível em sua beleza.

Não são apenas turistas que ocupam as ruas de Kotor. Os gatos também fazem parte da paisagem. Estão por toda parte — e são tão queridos que a cidade possui até um pequeno Kotor Cats Museum dedicado a eles.

As fortificações são principalmente medievais e podem ser percorridas até o ponto mais alto da colina. Existe uma via alternativa mais fácil, pela qual é necessário pagar. Eu escolhi seguir um caminho mais “tradicional”: mais longo, mais difícil, mas que acabou se transformando numa pequena lição de superação. Naquele momento pensei: sim, eu consigo. Antes de iniciar a subida, comprei uma garrafa de meio litro de água gasosa.

No final da trilha havia uma janela. Era preciso alcançá-la para ter acesso à vista mais bela que eu já tinha visto. Esse foi o maior obstáculo a superar. Havia apenas uma escada — se é que pode ser chamada assim. Outros aventureiros iam chegando e, pouco a pouco, a solidariedade aparecia: um ajudando o outro a ultrapassar aquele pequeno desafio. Ajudamos um casal francês com dois filhos pequenos, e eles também nos ajudaram. Em meio ao esforço coletivo acabamos soltando uma ou outra palavra em português, e foi assim que descobrimos que a mãe da família era portuguesa. São histórias assim que constroem as memórias de uma viagem.

Deixar aquela colina não foi fácil. A vontade era de se apoderar para sempre de toda aquela beleza natural. Ainda era necessário, mais uma vez, transpor a janela — e, desta vez, descer não foi tão fácil quanto parecia. Aqueles que pagaram pela via alternativa provavelmente não tiveram o prazer de conhecer um simpático casal idoso local que mantém uma pequena loja com iguarias montenegrinas. E, claro, o seu simpático gatinho.

Publiquei 2 vídeos curtos e um terceiro vídeo com pouco mais de 7 minutos:
Vídeo 1
Vídeo 2
Vídeo 3

Agradeço sua leitura e visualização.
Até ao próximo post! 😉

O Caderno, o livro

Pilar disse: “Tens um trabalho, escreve um blog.” Foi assim que as breves prosas de José Saramago se transformaram no livro O Caderno.

José Saramago, escritor português e Prêmio Nobel de Literatura, é o meu escritor favorito. Não venham criticá-lo para mim. Eu não vou dar ouvidos. (risos)

A leitura de O Caderno foi diferente de tudo o que li dele até hoje. Aqui encontrei o cidadão, suas opiniões sobre política, religião, escritores, Portugal, Brasil, Espanha, Estados Unidos etc.

O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar.

Para os Estados Unidos qualquer pessoa, seja emigrante ou simples turista, indiferentemente da sua atividade profissional, é um delinquente potencial que está obrigado, como em Kafka, a provar a sua inocência sem saber de que o acusam.”


O que mais gostei foi ler o que Saramago pensava sobre três escritores que admiro muito: Fernando Pessoa, Jorge Amado e Chico Buarque.

Fernando Pessoa
Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Era um super-Camões. Um fenômeno nunca visto antes em Portugal.

Jorge Amado
Era o espelho e o retrato de um povo. Através dele, uma parte importante do mundo leitor estrangeiro começou a conhecer o Brasil.

Chico Buarque de Holanda
Com o romance Budapeste, Chico Buarque cruzou um abismo sobre um arame e chegou ao outro lado, onde estão os trabalhos escritos com maestria. Algo de novo aconteceu com este livro.

Depois de ler O Caderno, fiquei com a sensação de ter conhecido não apenas o escritor, mas o homem por trás da obra.

Para fechar este post, uma música que me parece dialogar bem com o espírito de Saramago.

Agradeço sua leitura e visualização.
Até ao próximo post!

Projeto Fotográfico 6 On 6: Lombadas

O tema do Projeto Fotográfico 6 On 6 de março é Lombadas.
Com frequência, é para elas que o nosso olhar se dirige primeiro. Fico imaginando as escolhas de um editor ao definir cor, forma e tipografia — escolhas visuais que moldam a nossa primeira impressão, antes mesmo da leitura começar.

Uma boa alma passou por minha casa e, com seu senso de estética, organizou os livros das estantes da sala por cores.


Lombadas brancas
Sinto que pedem silêncio, como se guardassem histórias que preferem ser abertas com calma.

Lombadas pretas
Parecem-me mais sérias. Prometem densidade, mistério e algumas noites mal dormidas, se ficarem sobre a minha mesa de cabeceira.

Lombadas verdes
Gosto de estar em contato com a natureza, e elas fazem-me viajar sem sair do lugar. Cada lombada é um pedaço de paisagem. Junto às lombadas azuis, o cenário fica completo.

Lombadas amarelas
Parecem não ser levadas muito a sério, mas são justamente elas que costumam surpreender mais.


Lombadas de cor desgastada

Essas evocam o passado, outras vidas, sebos… Quantas mãos já terão tocado essas obras?


Lombadas artísticas
Há lombadas que são, por si só, pequenas obras de arte. O diferente se impõe na estante — ou seria o exótico? Gosto dessa presença artística.

Agradeço sua leitura. Até ao próximo post! 😉

Participam ainda deste projeto: Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Os Botões de Napoleão, o livro

A matemática foi uma paixão na minha vida, mas a química não. É uma pena, porque reconheço a sua enorme importância: compreender a química é, em certa medida, compreender a própria vida.

Foi tentando despertar essa paixão tardia pela química que cheguei ao livro Os Botões de Napoleão, de Penny Le Couteur e Jay Burreson. A obra é organizada em 17 capítulos — as 17 moléculas que mudaram a história —, mas é a introdução que dá título ao livro.

Teria sido a composição dos botões de estanho dos casacos e calças do exército de Napoleão Bonaparte responsável pela sua desintegração durante a campanha na Rússia?

Em junho de 1812, Napoleão contava com cerca de 600 mil homens; no início de dezembro, restavam apenas 10 mil. Esses sobreviventes enfrentaram fome, doenças e um frio paralisante, mal vestidos e mal equipados. Surge então a curiosa teoria de que o inverno russo teria provocado a transformação do estanho metálico dos botões em uma forma friável, um pó cinzento e não metálico — continuava sendo estanho, mas com outra estrutura.

A pergunta levantada no livro é intrigante: sem botões, os soldados teriam passado a usar as mãos para manter os casacos fechados, em vez de empunhar as armas? Esse processo ficou conhecido como a “doença do estanho”.

A verdade é que a deterioração do estanho é um processo relativamente lento. A leitura da introdução levou-me à conclusão de que não se pode atribuir com exatidão esse fenômeno como a causa da derrota do exército napoleônico. Ainda assim, trata-se de um episódio que os químicos gostam de evocar. Afinal, os metais aparecem como personagens silenciosos em muitas batalhas e guerras ao longo da história da humanidade. Concordam?

Não concluí a leitura do livro porque percebi que, para aproveitar plenamente o conteúdo, seria necessário um bom domínio de química — sobretudo química orgânica —, algo que já ficou no meu passado escolar. Ainda assim, é interessante notar como temas como o ácido ascórbico, a celulose e outros são apresentados de forma entrelaçada com a história ao longo da obra.

Agradeço sua leitura.
Até ao próximo post! 😉