Último 6 on 6 de 2025.
O tema escolhido pela Lunna é Quote Literário — marcações feitas em livros já lidos.
Eu nunca faço marcas nos livros. Vejo-os como algo quase sagrado, que merece cuidado e respeito. E, se um dia os empresto, prefiro que sigam seu caminho sem as minhas interferências, sem as minhas escolhas já assinaladas.
Isso não significa que condene quem sublinha com lápis, caneta ou post-its. É apenas a minha maneira de estar no mundo e de me relacionar com a leitura.
Quando um trecho realmente me toca, não o marco na página: eu o guardo noutro lugar. Escrevo-o num arquivo online, de fácil acesso.
Neste 6 on 6 de dezembro, partilho alguns desses trechos.
“Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!”(Charneca em Flor, de Florbela Espanca.)
Sempre me emociono ao ler este trecho do soneto de Florbela Espanca. Évora (Portugal) ainda corre no meu sangue.
“Viajar é sempre um encontro: com pessoas, lugares, mas sobretudo consigo mesmo.”
(O Homem Duplicado, José Saramago)
Não podia faltar um quote do meu escritor preferido junto ao meu olhar sobre as minhas cidades do coração, Recife e Olinda (Brasil)
“Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte,
Empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos.”
(O Guardador de Rebanhos, Fernando Pessoa)
Mais um talento em língua portuguesa. Eu vou raramente à costa belga. Em uma dessas idas a inspiração revelou esta foto que penso combinar bem com o trecho do poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.
“Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…”
(O Guardador de Rebanhos, Fernando Pessoa)
Eu tive muitos traumas com animais. Por isso, não demonstro muita afeição com eles. Um dia em férias na costa belga, num fim de ano, esse cãozinho vinha ter à porta. Eu sentia que ele gostava de mim, havia reciprocidade, mesmo sem nos tocar.
“… Florence nunca entendera. Quem sabe, pela mesma razão não fora capaz de entender que ele (Gregorius) não gostava de avião. Entrar num avião para, poucas horas depois, aterrissar num mundo completamente diferente, sem ter tido o tempo de absorver imagens ao longo do caminho – não, ele não gostava daquilo, aquilo o perturbava. Não pode dar certo, dissera para Florence. O que significa isto?, respondera ela, irritada. Ele não era capaz de explicar, …”. (Trem Noturno para Lisboa, Pascal Mercier).
Sinto o mesmo quando viajo de avião, por isso prefiro, sempre que possível, viajar de carro. Este trecho faz-me lembrar minha viagem a Hong Kong e Macau. Pensei ter desembarcado em outra vida.
“Há poucas coisas a que os seres humanos se dedicam mais do que a infelicidade.”
(Como Proust pode mudar a sua vida, Alain de Botton)
Ler este trecho é pensar em minhas fotos em Skiathos, Grécia. Eu estava com depressão e não aceitava. Hoje quase não me reconheço nas fotos. A doença refletiu nas minhas fotos, sinto isso.
Agradeço sua leitura e até ao próximo post! 😉
Participam ainda deste projeto: Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso