Estamos na Primavera, mas esses primeiros dias da estação tèm nos deixado confusos. No mesmo dia é possível vivenciar as quatro estações, e com poucos minutos entre elas. Essa foto tirei-a no fim de semana em Oostende, na costa belga. Nada melhor que um poema do escritor belga francófono Émile Verhaeren (1855-1916) para descrevê-la.
Os Céus (Les ciels) Os céus são baixos e pesados, como tampas de chumbo sobre a terra; eles pesam sobre os campos longínquos e sobre as aldeias imóveis. Nenhum sopro os eleva, nenhum clarão os rasga; eles se estendem, contínuos e compactos, de horizonte a horizonte. As torres surgem, finas, como dedos erguidos na bruma; e os caminhos perdem-se ao longe, sob sua sombra interminável. Tudo parece esmagado sob sua massa cinzenta e lenta, como se o mundo inteiro fosse mantido em silêncio. E o olhar, cansado, vagueia sem encontrar fim nem luz, nesses céus que nunca se abrem sobre a Flandres infinita.
Agradeço sua leitura e visualização. Até ao próximo post! 😉
Para este 6 on 6 com o tema road trip urbano, a minha viagem acontece sem sair de Sint-Niklaas, Bélgica. A cidade é uma verdadeira galeria a céu aberto de arquitetura Art Déco, onde linhas geométricas e fachadas elegantes transformam um simples passeio urbano numa viagem ao início do século XX.
O primeiro exemplar é o Hotel De Spiegel (O Espelho). Bem no “coração” da cidade, surge com a sua clássica elegância numa fachada de três andares, com janelas e portas retangulares. No topo de cada pilar, um laço com guirlanda pendente é o único elemento decorativo da fachada austera.
Esta segunda foto traz dois belíssimos exemplares da cidade. À esquerda, uma casa dupla de 1930, de dois andares e três colunas. A forma da fachada e a cor branca cimentada contribuem para o equilíbrio visual. O toque final de elegância é dado pelo detalhe à volta da porta de entrada e pelas duas janelas em estrutura de sino, com grades na varanda. Ao lado, um edifício de três a quatro andares, com telhado plano. Os elementos em pedra natural e o revestimento de mármore preto garantem uma harmonia que não escapa aos olhos. As janelas retangulares e a cor dos vitrais conferem um belo efeito decorativo à estrutura, animando a sua forma austera.
Sigo caminhando e encontro mais um exemplar: um edifício de aparência funcional, com largas janelas retangulares, e com destaque para a coluna à direita, onde um vitral de formas geométricas e detalhe em verde chama a atenção.
Quando encontrei esta porta, fiquei tão encantada que só ao chegar a casa percebi que tinha esquecido de fotografar o prédio inteiro.
Este é um magnífico exemplo de Art Déco, com vários elementos retangulares de diferentes tamanhos e cores que animam a arquitetura. Tinha mesmo de ser uma escola!
O último exemplar desta road trip urbana apresenta, além dos elementos retangulares nas janelas, nos tijolos e nos vitrais, linhas oblíquas que eu não tinha observado nos exemplos anteriores. A porta é a cereja no bolo. Linda!
Nota: Programei este post para o dia 6 de Fevereiro. Eu levarei alguns dias para responder a possíveis comentários porque estarei em outra road trip. 😉 Se você ainda não sabe, pode também me encontrar no Instagram, YouTube e TikTok, sempre como O Miau do Leão.
Momento de regressar à Bélgica. No fim de semana seguinte foi a vez de visitar o mercado de Natal de Antuérpia. Eu já conhecia os de Bruxelas, Brugge, Gent, Sint-Niklaas e Veurne, mas o de Antuérpia acabou por ser o mais fraco de todos. Depois da experiência nos mercados alemães, nada se comparava àquela beleza.
A caminhada entre a belíssima estação de trem e o mercado mostrou-me, ainda assim, uma cidade extremamente fotogénica. Apesar da noite especialmente fria, consegui captar um pouco dessa beleza em fotografias.
O mercado de Natal de Antuérpia apresentou pouca variedade de comida e artesanato, além de preços mais altos do que no país vizinho. A divisão em áreas afastadas umas das outras também não ajudou à dinâmica da festa. E, ao contrário dos mercados que conheci na Alemanha, na Bélgica não há “pirâmide dos bêbados” nem canecas personalizadas para levar de recordação.
O dia prometia ser lindo na Bélgica, algo raro por aqui (risos). E, como manda o lema, era preciso aproveitar. O destino escolhido estava há tempos na minha lista: voltei ao sul do país para conhecer Mons, ou Bergen, como dizem os falantes de neerlandês. Não poderia ter escolhido um dia mais simbólico: era 24 de agosto, data da famosa Batalha de Mons, que descobri ao chegar à praça principal, tomada pelas celebrações.
A Batalha de Mons começou em 23 de agosto de 1914, com o primeiro grande confronto da Força Expedicionária Britânica (BEF) na Primeira Guerra Mundial. Os soldados britânicos enfrentaram as forças alemãs que avançavam ao longo do Canal Mons-Condé, mas acabaram obrigados a recuar no dia seguinte, devido à inferioridade numérica e à ameaça de um cerco. Apesar das pesadas baixas, cerca de 1.600 homens, os britânicos infligiram perdas ainda maiores aos alemães, estimadas em 5.000. Essa retirada marcou o início da chamada “Retirada de Mons”, que se estenderia por duas semanas, até os arredores de Paris.
Só ao chegar à praça percebi que a cidade estava em festa. Uma simpática banda, a Mons and District Pipe Band, animava o público ao som da gaita de fole, enquanto os sinos das igrejas marcavam o compasso. O clima era de emoção e respeito, mesmo depois de 111 anos daquela batalha.
Agradeço a sua leitura e visualização do vídeo que fiz. Segue O Miau do Leão também no YouTuBe. Até ao próximo post! 😉
Outubro chegou e, com ele, o dia do projeto fotográfico 6 on 6. É um mês que nunca me é fácil: traz o frio, os dias curtos e o vento. Curiosamente, o tema escolhido pela Lunna Guedes é o oposto dos meus sentimentos em relação a outubro: “Nossa Casa”.
Posso viajar por todo o mundo, conhecer novos lugares, encontrar pessoas e provar novos sabores, mas nada é mais acolhedor como retornar ao meu cantinho, minha casa. O lugar que reflete quem sou e que conta um pouco da minha história. Hoje eu vou abrir as portas da minha casa e mostrar um pouco do meu mundo.
No passado, tive a ideia de fazer um post sobre como é a recolha de lixo na Bélgica, mas nunca escrevi. Essa é a vista que tenho ao abrir a porta de casa. Praticidade. Aqueles caixas em aço são depósitos de lixo. Há para plásticos, papel e o resto do lixo. A colocação no lixo de papel é gratuita. Para o plástico e o resto do lixo usamos um pequeno cartão (badje) que consta um saldo em dinheiro e a bandeja para colocação do lixo abre-se. Atualizamos o saldo através de pagamentos via Internet. Regularização vem um caminhão com guindaste e recolhe o lixo que está no subterrâneo. O container de lixo proveniente de grama cortada e restos de comida são recolhidos seguindo um calendário. Para isso temos que colocar uma etiqueta comprada de acordo com o volume do container. Tudo funciona com uma precisão quase matemática, e, confesso, ainda me surpreendo cada vez que o caminhão com guindaste chega para “pescar” o lixo do subterrâneo.
Quando eu tinha 18 anos e fui fazer o exame para carteira de motorista, encontrei um ex-vizinho da mesma idade ou quase, e ele disse algo sobre mim que nunca mais esqueci: “Quando éramos crianças, corríamos para rua e você corria para dentro de casa.” Eu reagi com uma boa gargalhada. O quintal sempre foi o meu lugar preferido. Era para lá que eu corria. Protegida dos olhares, em segurança, eu podia dar asas à criatividade infantil. Do meu quintal atual posso admirar viajantes em balão em fundo de céu quase sempre cinzento.
O meu bonsai salvou-me. Ele é uma parte da minha história, quando eu esqueci de mim. Eu já contei a história dele aqui no blog. Eu lia Bonsai, de Alejandro Zambra, sobre o fim de um amor. A dor de uma separação é enorme. Nunca se cura. O bonsai estava tão mal quanto eu. Faz quatro anos. Pesquisei como recuperá-lo, e como me recuperar. Ambos estamos recuperados. Às vezes, ele fica com um galho perdendo folhas, e, às vezes, aquela dor vem à memória. Somos um só.
Bem, pela foto abaixo, e esta confirma, sou um pouco bagunceira. Gostei do que uma visita disse: “Aqui há vida!”. Hahaha Visitas assim são sempre bem-vindas. Essa gaveta reflete o meu gosto por cozinhar e descobrir novos sabores. Eu vou viajando e aprendendo. Um mundo de especiarias em uma gaveta.
Ah, uma coisa boa de outubro… Os meus simpáticos camaradas aparecem para alegrar o ambiente e fazer a segurança dos livros. À noite, descansam junto ao cacto sem espinhos. Uma decoração para não esquecer de onde venho. Neste momento olham para mim pacientemente enquanto escrevo este post sentada no sofá com o portátil ao colo.
E na janela, o pombo ou talvez um amante disfarçado. De costas para mim, olhando o mundo lá fora — talvez planejando a próxima viagem, ou apenas fazendo pose para o “Miau do Leão”. Afinal, até os pombos gostam de aparecer em blogs. Só ele (ou ela) viu o meu quarto. 😉
Um castelo de contos de fada, um penhasco rochoso e um rio tranquilo. Essas informações parecem a descrição de uma pintura, mas não é. Inspiração para artistas profissionais e amadores, a descrição trata de uma das silhuetas mais icônicas da região Valônia e o castelo é um dos mais bonitos da Bélgica.
O Castelo de Walzin fica perto da cidade de Dinant, no sul do país. Com origem nos séculos XI-XIII sua função era a defesa estratégica do vale do rio Lesse. Foi queimado e saqueado pelos franceses durante o século XVI. Passou por várias restaurações, até ser reconstruído no séc. XIX com a aparência neogótica que vemos hoje. Atualmente é uma residência privada e não está aberta ao público.
Há várias maneiras de vê-lo, seja pela estrada nacional, a pé através de trilhas ou alugando um caiaque. Foi dessa última forma que escolhi para conhecer este belo castelo fazendo um percurso de 12km. Até lá desfrutei do silêncio que era apenas interrompido por brincadeiras entre caiaques, o som de nossas remadas, dos patos, cisnes e pássaros. E ainda pude apreciar a exuberante presença dos penhascos de calcário afiados conhecidos como Aiguilles de Chaleux. Com mais de 350 milhões de anos, é classificado como patrimônio histórico excepcional da região. Uma visão verdadeiramente majestosa que vale cada remada dos 12km de percurso. Recomendo! 😉
Nas últimas semanas deparei-me com uma placa de trânsito curiosa que alertava sobre a migração de sapos. A princípio, eu pensava se tratar de algum humor belga, porque eu passei com alguma frequência pelo mesmo local nos anos anteriores e nunca tinha visto esta placa anteriormente, como eu voltei a avistar tal placa em Stolberg, na Alemanha deduzi que não era nenhuma piada.
Bélgica ,Alemanha
A curiosidade levou-me à busca por informação sobre a migração de sapos e outros anfíbios, então descobri que ela ocorre em certas épocas do ano, especialmente em períodos chuvosos. A ideia é criar passagens seguras a estes animais que deixam seus locais de hibernação e buscam um novo lar, ou quem sabe, um novo amor.
Eu ainda não precisei frear para a passagem dos anfíbios. Reduzir a velocidade é o máximo que posso ajudar, além de gritar de pavor. Acredito que aos fins de semana apareçam voluntários bem mais corajosos do que eu para ajudar na travessia e inspecionar a segurança deles para que possam continuar a desempenhar sua função no ecossistema.
Como num piscar de olhos chegamos ao dia do projeto fotográfico 6 on 6 para Novembro. O tema é Quinquilharias. Eu achei um tema estranho. Não que eu não soubesse o que são quinquilharias passados vinte e quatro anos fora do Brasil, até porque estou sempre de alguma forma em contato com a minha língua materna, mas eu não sabia como ia realizar este projeto se eu não tenho um baú, por exemplo. Então, eu fui buscar o significado da palavra: substantivo feminino algo sem importância; insignificância, ninharia. objeto (brinquedo, bijuteria etc.) de pouco ou nenhum valor ou utilidade; bugiganga.
Foi a partir do significado da palavra que eu tive a ideia de buscar as quinquilharias urbanas.
Tenho encontrado armários para encomendas online em vários países europeus. Eles costumam estar no canto de construções como supermercado. Este tornou-se uma quinquilharia urbana deslocada e solitária.
O centro da cidade que vivo está cada vez mais vazio. Antes, o culpado era o shopping. Hoje as compras online e bugigangas como os da figura anterior são concorrentes fortes diante de um mercado local que não recebe incentivos para captar clientes. Passei por tantos espaços abandonados, mas o da foto foi um dos que mais me chamou a atenção. Modelos nus, de costas para a rua, alguns perderam a cabeça. Senti tristeza. Pensei nos robôs humanoides apresentados recentemente. Mais tristeza senti. Acelerei os passos.
Com passos acelerados, numa manhã de nevoeiro, aproximei-me de uma antiga drogaria da cidade. Sua proprietária já com muita idade, e aparentemente, sem herdeiros, pôs já a algum tempo o prédio à venda sem sucesso. Atrevi-me a olhar com cuidado uma das vitrines e suas quinquilharias congeladas no tempo. Voltei ao passado.
Passo por mais uma vitrine. Nunca vi clientes aqui. O cuidado como estão as bugigangas organizadas cuidadosamente, imagino que seus proprietários são de outro tempo, e desconfio que moram no andar sob a loja.
Na Bélgica flamenga e na Holanda há o costume de se realizar feiras de quinquilharias ao ar livre, Rommelmarkt. Quando se realizam em recintos fechados é cobrada uma entrada simbólica. As pessoas podem se inscrever e alugar uma tenha para Vender suas quinquilharias.
Há uma tarefa doméstica que não é do meu agrado, a limpeza. Mesmo assim, eu a faço. E este canto deixa-me com os nervos à flor da pele, mas assim que agarro um ou outro para limpar, a nostalgia vai me envolvendo, e até um sorriso deixo escapar.
Não faz muito tempo que ainda tínhamos a rotina de aguardar a passagem do carteiro. A esperança em receber cartas apaixonadas, cartões postais ou de aniversário, e até mesmo a não esperança em receber contas a pagar, tem sido aos poucos substituída por facilidades encontradas na Internet. Novos tempos que afetaram os atuais modelos à venda de caixa de correio que se tornaram mais formais e/ou mais indicadas para se depositar pacotes de compras online, pelo menos na Bélgica. Se o país, por vezes, é considerado o país das casas mais feias da Europa. Aliás, já escrevi sobre isso (aqui). Eu, após um bom currículo de viagens, posso considerar que o país mereça o título das mais belas/divertidas caixas de correio. Assim, compartilho com os meus leitores, a minha coleção de fotos de caixas de correio na Bélgica. Um passatempo que adquiri com minhas caminhadas.
Os carteiros também colocam reclames nas caixas de correio, a não ser que em sua caixa haja um adesivo a dizer que não aceita reclames. No entanto, eles são obrigados a colocarem informativos de instituições públicas mesmo que haja o tal adesivo. E, nestes casos, também os informativos de partidos políticos. Estamos num ano com muitas eleições na Bélgica, Junho e Outubro. Então, eu encontrei este “divertido” aviso numa caixa de correio. Coloquei entre aspas porque, na verdade, considero um divertido triste. A polítíca não era para ser vista desta maneira, mas compreendo o morador, pois a política como tem sido exercida leva-nos a este tipo de atitude. E, quando chega um período de eleições, o “bichinho” político lembra-se de nós, e resolve entupir nossas caixas de correio.
Nenhum folheto político nesta caixa, o papel é demasiado escorregadio para limpar o meu buraco
De bônus, também foto de uma aldraba…
E ainda de bônus, o vídeo de uma música que me foi apresentada neste verão, e entrou para a minha playlist. Acho-a divertida como algumas das imagens acima. É rara como as caixas acima por ser cantada em espanhol. Positiva quando diz “Procura tua felicidade”. Pós-punk espanhol, uma nova “caixa” em minha playlist.
Dia de projeto fotográfico 6 on 6. Setembro traz o tema Mania Literária. E eu vou combinar com a minha mania de em viagem conhecer o seu povo através de suas manias literárias. Escrevo este post em viagem de férias.
Estou em Sévrier. Fui conhecer o caminho para o lago de Annecy e no escuro do fim de tarde encontro uma “casa” repleta de livros. Escolho à toa algum livro. E a sorte trouxe um livro de Freud. Um dia de descanso no lago de águas claras merece um livro.
Esperava ter encontrado mais livrarias em Genebra. Através da leitura de Adultério de Paulo Coelho tive o primeiro contato com a cidade. E foi tentando recordar o cenário que cheguei a esta livraria típica do estilo de “ser” da cidade.
Quem imaginaria encontrar numa pequena cidade da Sérvia, Novi Pazar, uma livraria com pelo menos 6 obras de Paulo Coelho (Paulo Koeljo). Eu tive este prazer. Críticas à parte, não deixa de ser algo positivo para a literatura brasileira. Falarei sobre esta cidade aqui no blog. Adianto que os sérvios são maníacos literários.
Anos atrás, a minha mania literária levou-me até Redu, na Bélgica. O que há de especial nisso? Redu é conhecida como a Aldeia dos Livros. Nesta pequena aldeia belga, os livros são os seus tesouros. E eles estão expostos em vitrinas ou em grandes cestos pelas suas estreitas ruas. A maioria está em francês, mas mesmo assim, é impossível deixar esta aldeia sem um livro.
A França é um capítulo a parte em mania literária. Eu estava em Annecy, a Veneza dos Alpes Franceses, e esbarrei nesta vitrina. Poderia ser um altar de culto para alguns maníacos literários. E no meio de tantos homens estava uma belga, Marguerite Yourcenar. Coincidência! 😉
Outra vez os franceses! Dijon é conhecida por seus tesouros: sua mostarda e seu licor de cassis. Encontrei este outro tesouro à entrada de um jardim sem tabaco. Ainda temos esperança na humanidade.
Espero que tenham gostado. Até ao meu próximo post quando eu estiver de volta à rotina, que eu também gosto e que me proporciona essas escapadelas. Au revoir!