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18 de mar. de 2015

O Buda no sótão - Julie Otsuka





“Porque se nossos maridos tivessem dito a verdade nas cartas - que não eram mercadores de seda, mas apanhadores de frutas, que não viviam em casas com muitos cômodos, mas em barracas, em celeiros e ao ar livre, nos campos, sob o sol e as estrelas - , jamais teríamos vindo para a América fazer o trabalho que nenhum americano com amor-próprio aceitaria fazer.”

14 de abr. de 2013

Resenha: O Ano da Leitura Mágica - Nina Sankovitch



"As pessoas compartilham os livros que amam. Elas querem espalhar para os amigos e familiares a sensação boa que sentiram ao ler o livro ou as idéias que encontraram nas páginas deles. Ao compartilhar um livro amado, um leitor está tentando compartilhar o mesmo entusiasmo, prazer, medo e ansiedade que experimentou ao ler. E porque mais o fariam? Compartilhar o amor pelos livros ou por um livro específico é uma boa coisa. Mas é também uma manobra arriscada para ambos os lados. Quem dá o livro não está exatamente expondo a alma para uma rápida olhada, mas quando o entrega com o comentário de que é um de seus preferidos, está muito próximo de expô-la. Somos aquilo que gostamos de ler e quando admitimos que adoramos um livro, admitimos que este livro representa verdadeiramente algum aspecto do nosso ser, seja o fato de sermos loucos por romance, ou por aventura, ou secretamente fascinados por crimes."

Desde criança sempre fui muito curiosa e ávida por saber. Não tinha pretensões de saber tudo, mas queria sim, como ainda quero, saber um pouco sobre tudo, ou quase tudo. Lembro-me que com 4 anos eu já arriscava algumas palavras, aos 5, alfabetizada, deixava minha mãe louca quando saia com ela à rua, pois queria ler tudo, parava à todo instante pra ler as placas de trânsito, propagandas pregadas nos muros, enfim, o que fosse combinações de letras eu queria ler!

Com o passar dos anos fui aprendendo que poderia fazer viagens muito mais interessantes do que as mudanças a que meu pai nos obrigava a fazer todo ano, devido ao seu trabalho. Nessas novas viagens eu tinha a certeza de que os amigos que faria ficariam comigo e que eu os poderia revisitar sempre que tivesse vontade. Tudo bem que alguns deixei no passado, outros nem mais me recordo e alguns, ah, como me fazem falta...

A leitura sempre foi, pra mim, algo muito mais que prazer, muito mais que lazer e diversão, ultrapassou o sentido de arte, abarcou a terapia e além de tábua de salvação, também foi minha madrinha, me levando a querer arriscar a me deixar traduzir em palavras.

Em O Ano da Leitura Mágica, Nina Sanckovitch faz um relato autobiográfico de como conseguiu superar a morte de sua irmã mais velha Anne Marie, que aos 46 anos descobre um câncer já em fase terminal. A princípio ela tenta superar a dor e a falta da irmã sendo o porto seguro de quem está a sua volta: seus pais, marido, irmã caçula, os 4 filhos e amigos. Mas depois de 3 anos se dá conta de que não consegue além de estar emocionalmente esgotada.

Então, depois de admitir pra si mesma que não conseguia viver plenamente a sua vida e nem a parte que caberia à Anne Marie, Nina resolve se voltar para uma paixão em comum com a irmã e o restante da família: os livros!

“Livros. Quanto mais eu pensava em parar e voltar a ser uma só pessoa sã, mais eu pensava nos livros. Eu pensava em fugas. Não correr para fugir, e sim ler para fugir.”

Ela resolve usar os livros como terapia, e para tanto resolve que lerá um livro por dia durante o período de um ano. Um projeto audacioso, ao menos pra  eu imaginar, já que ela é mãe de 4 filhos, mas ela consegue. Faz todo um planejamento, se propõe a não ler o mesmo autor duas vezes, seu número de páginas lidas em 1 hora não pode ser menor que 70 e procura não ler calhamaços, ou seja, nenhum livro com mais de 250 a 300 páginas! E como se não bastasse, o compromisso consigo mesma vai um pouco mais além, fazer também uma resenha por dia, que ela publicaria religiosamente em seu blog, que mantém até hoje, veja aqui!

Entre as suas leituras muitas  que não são nem de longe nossas conhecidas, no entanto há muitos autores e livros já editados no Brasil, como os lindos Mia Couto e José Eduardo Agualusa, kasuo Ishiguro, Stephenie Meyer, Tolstoi, Roberlo Bolaño, Camus, Saramago e muitos outros, muitos mesmo! O livro é recheado de citações e paralelos que a autora traça entre os livros e a sua própria vida.

É bem gostosa a leitura até metade do livro, depois fica um pouco cansativa, com seu teor mudando um pouco de foco, partindo mais pro cunho de auto-ajuda, e confesso que o fato dela ficar repetindo sempre o jargão de "ler um livro por dia durante um ano" me cansou um bocado! Mas a leitura é fácil e a gente se emociona com o claro amor que ela tem aos livros, a sua paixão em compartilhar com amigos e família, enfim, é um livro pra se ler, e pra ter onde buscar algumas inspirações, já que Nina nos deixa de presente, no final do livro, a sua lista de livros lidos no período de um ano! ;oD

♥♥♥

"Eu assumi o compromisso de passar um ano lendo por um motivo. Porque as palavras são testemunhas da vida: elas registram o que aconteceu e tornam tudo verdade. Palavras criam histórias que se transformam em histórias inesquecíveis. Histórias sobre as vidas relembradas nos levam para o passado ao mesmo tempo em que nos permitem seguirmos em frente."




O Ano da Leitura Mágica 
Título Original: Tolstoy and the Purple Chair
Autora: Nina Sankovitch
Tradução de Paulo Polzonoff
Editora leya
230 páginas


27 de mar. de 2013

Resenha: Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

“Queime tudo, queime tudo. O fogo é luminoso e o fogo é limpo.”


Tantas  foram as vezes em que tive a oportunidade de ler esse livro e deixei passar...
Tantas  foram as pessoas que o indicaram e eu permaneci alheia a ele...
Mas dentre tantas leituras novas, não me concedi o direito de continuar a deixar de encará-lo... E agora sei que fiz muito bem!

O romance foi escrito após a Segunda Guerra Mundial e se passa numa América do futuro, totalmente hedonista, anti-intelectualizada, uma sociedade totalitarista onde se queimam livros, o pensamento crítico foi habilmente desestimulado e extirpado e quem tem opiniões próprias são tidas como, no mínimo, pessoas antissociais.  
Nessa sociedade, quase tudo está fora de controle, pessoas se divertem dirigindo à alta velocidade pelas ruas, sendo violentas e agressivas umas com as outras e uma minoria [seja ela qual for] é quem dita o politicamente correto e pode denunciar livremente o que lhe incomoda. Em casas há muito construídas com um eficaz sistema anti-incêndio, vivem cercadas por telas e interagem com as "famílias", personagens de programas, seriados que praticamente anula a convivência real entre as pessoas. Nessa sociedade os bombeiros ainda existem, mas com uma nova função: a de queimarem livros, o que fazem com um prazer orgasmático!

E é assim que o romance começa, com Guy Montag, o protagonista da história, bombeiro, assim como seu avô e pai, relatando o seu prazer em incendiar livros. Mas a trama toda se modela justamente quando Guy conhece a adolescente Clarisse McClellan, uma jovem de pensamento livre, questionadora, feliz com os pequenos prazeres diários e há muito esquecidos. É Clarisse que o leva pelas mãos, como se fosse a serpente no paraíso, e abre a ele os caminhos para a busca do que é o  verdadeiro conhecimento e a real felicidade.

“Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar. Isso mesmo! Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Façamos uma brecha no espírito do homem.”

Depois de alguns encontros com Clarisse Montag muda nitidamente, ao ponto de questionar a real natureza do seu casamento com Mildred, que, por mera distração com suas telas, não percebe estar tomando todo um frasco de medicamento, levando o marido a chamar uma equipe "médica" que, com uma máquina, irá filtrar todo o sangue dela e permitindo-a que continue viva e sem lembranças do que ocorreu.

A partir do questionamento de ser ou não feliz, Montag envereda por outros, como o que pode haver nos livros que os tornam tão desnecessários e tão perigosos. E durante a narrativa vamos sendo apresentados a outros personagens igualmente importantes, como Beatty, chefe dos bombeiros, um homem intrigante, capaz de citar grandes autores e apregoar a sua periculosidade da mesma forma que acende seu cachimbo.
Há também o professor Faber, que é quem o esclarece sobre o verdadeiro potencial dos livros:

“Os bons escritores quase sempre tocam a vida. Os medíocres apenas passam rapidamente a mão sobre ela. Os ruins a estupram e a deixam para as moscas.”

O livro é narrado de forma fluida e o é dividido em três partes: 'A Lareira e a Salamandra', 'A Peneira e a Areia' e 'O Clarão Resplandecente'.
Com um texto que condena não só a opressão anti-intelectual nazista, mas principalmente o cenário político-econômico dos anos 1950, Fahrenheit 451 revela a apreensão de uma sociedade opressiva e comandada pelo autoritarismo do mundo pós-guerra. Além também de ser uma crítica super atual, onde cada vez mais as pessoas se alienam, claro, com a cumplicidade e atuação maçante do nosso estado, onde a diverção e a interação através das telas [tvs, celulares, tablets e afins].
Fahrenheit 451 é a exata temperatura que o fogo atinge ao queimar um livro, ou 233ºC.

“Agora, inalando toda noite para dentro de sua boca aberta e exalando-a pálida, com todo o negror que lhe restava pesado dentro de si mesmo, retomou um passo regular de caminhada.”


♥♥♥♥


Título: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Editora: Globo de bolso
Nº de páginas: 256 [conta com uma Coda e Suplemento de leitura]