Não se pretende fazer aqui crítica literária. Sou um cidadão do mundo que sente amor natural pelos livros. Na minha casa as paredes estão cobertas pelos livros. E falo com eles ou melhor eles falam comigo como se fossemos grandes amigos. Revelam-me os seus segredos e os conhecimentos dos seus autores ou contam-me histórias onde se inscrevem valores humanitários universais.

São ensaios, romances, contos e narrativas, peças de teatro, clássicos e modernos, mas também sobre o ambiente ou tecnologias úteis no nosso dia-a-dia. São obras que fazem parte da minha paixão pelos livros e que humildemente indicamos como sinal e guia para quem deseje conhecer conteúdos que julgamos dignos e fiáveis.

E porque desejo transmitir uma análise que embora pessoal seja minimamente correcta nem sempre consigo manter a actualidade que seria normal se a falta de tempo por abraçar outras actividades não o impedisse. Mas aqui estarei sempre que possa.

Gil Montalverne

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CAPITÃS DE ABRIL
Ana Sofia Fonseca

 As comemorações dos 40 anos do 25 de Abril trouxeram à actualidade literária um enorme conjunto de obras que focaram os mais diversos aspectos do significado das conquistas de Abril nesse grande momento da nossa história recente. Como era viver nos tempos da ditadura, a polícia política, a censura na comunicação social, os livros proibidos, as inaugurações de fachada, a guerra colonial, a luta académica, os exilados, tudo isto e muito mais a que estávamos sujeitos antes dessa data memorável. Publicaram-se livros de entrevistas, biografias e os mais variados ensaios políticos sobre o tema. Escolhemos para este nosso espaço, onde não podíamos deixar de assinalar a efeméride, um livro de uma jornalista que nos conta a revolução dos cravos no feminino. As Capitãs de Abril revela-nos, pela primeira vez, quem foram, o que fizeram e como viveram as mulheres dos militares que fizeram a revolução que derrubou a maior ditadura da história europeia. De Ana Coucello, casada com o adjunto operacional de Otelo Saraiva de Carvalho no Regimento de Engenharia 1 na Pontinha, a Natércia Salgueiro Maia ou Teresa Alves, respectivamente viúvas do grande Capitão de Abril Salgueiro Maia e do Major Vítor Alves, são descritos os momentos decisivos dos dias que antecederam aquela célebre madrugada vividos por 13 das mulheres que a jornalista conseguiu entrevistar para nos dar a conhecer exemplos de muita coragem e abnegação que também eram vividos em família numa certa clandestinidade. Ana Sofia Fonseca relata-nos com extraordinária precisão como elas viviam, algumas nos locais onde se travava a luta contra os chamados “turras” nas antigas colónias portuguesas, sempre aguardando a chegada dos maridos que tinham partido de manhã para a frente militar, espingarda na mão e umas tantas granadas à cintura. Será que voltariam? Nos ouvidos o som das bombas a rebentar lá longe ou a passagem do helicóptero que transportava feridos para o hospital próximo. Será que ele vai ali? Outras em Lisboa, fingindo que nada se passava, escondendo o receio daquilo que se preparava, visitando com eles locais chave que haveriam de dar que falar. Enfim, nas horas antes daquela madrugada, as palavras dos futuros heróis que, embora confiantes, não podiam deixar de transparecer o receio de que “a coisa” corresse mal. ”Olha, é esta noite” diz o marido a Teresa Alves. “É esta noite o quê” pergunta Teresa ao Vítor. E ouve de imediato a resposta: “A revolução que temos andado a preparar”. “É hoje. Liga o rádio e se ouvires aquela canção do Adeus já sabes que começou”. E lá ficavam presas, de olhos fixos no pequeno transístor aguardando a canção que tinham ouvido dias antes no Festival televisivo. Mas para Dina que sempre acompanhara o marido nas missões no ultramar, Otelo foi ainda mais preciso: “Se ouvires o nosso comunicado é porque tudo correu bem”. “- E o que é que acontece se correr mal”. Pergunta Dina, escondendo o desassossego que a enche. “Eh pá, sei lá? Enfiam-me no Tarrafal e é esta a última vez que aqui estamos a falar”. Todas estas situações nos são contadas neste livro com grande precisão. Como se estivéssemos a presenciá-las no foro íntimo das personagens da história memorável que foi o 25 de Abril.
Facto curioso que a autora resolveu e muito bem incluir é o de existirem duas mulheres que sem serem casadas com militares de Abril desempenharam também o papel de “Capitães” ao lado das restantes. É o caso de Celeste Caeiro, empregada num self-service a colocar flores nas mesas dos clientes. Naquela manhã, o gerente mandou-a para casa pois o estabelecimento ia fechar devido a algo que se passava nas ruas. E que levasse as flores com ela pois já não eram precisas. Celeste agarrou nelas e foi de metro para a baixa. À saída, soldados por todo o lado. Aproxima-se de um e pergunta: “O que é que estão aqui a fazer?”. “ –  Uma revolução”. É a resposta. “- Precisam de alguma coisa? Como é que posso ajudar?”. “Se tiver um cigarrinho...um cigarro calhava bem.”. “- Bem gostava mas nunca fumei... Olhe, tome lá um cravo que tanto se oferece a uma senhora com a um senhor.” O militar agradece e põe o cravo no cano da G3. Celeste distribui o molho inteiro pelos militares com que se cruza. Gosta da Ideia – confessa mais tarde – antes cravos que balas. E o exemplo foi seguido por outras vendedeiras de flores nesse dia e nos seguintes. Quem diria que foi graças à Celeste que apareceu o nome de “Revolução dos Cravos”.
O outro caso, também de uma mulher não casada com um militar mas também Capitã de Abril é o de Clarisse Guerra, nessa época locutora do Rádio Clube Português e que, encontrando-se em casa quando às 4 da manhã é avisada por uma colega de que ia haver um revolução, corre a ligar a telefonia e vai ouvindo os comunicados lidos de quando em vez pelo seu colega Joaquim Furtado. “Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas...”. Corre para o telefone, avisa alguns amigos e sai de casa com a filha, a caminho do Rádio Clube, ali a 10 minutos da casa onde mora, em Campolide. Vai para a mesa de locução, passa canções e músicas censuradas, mas são eles, as vozes masculinas, o Joaquim e o Luís Filipe Costa que vão lendo os comunicados. Então e eu? Pergunta. Até que finalmente, cerca das 2 e meia da tarde, Joaquim Furtado olha para ela e pergunta-lhe se quer ler. Clarisse responde que sim claro. O chefe dos noticiários confirma “até é bom uma mulher ler”. Clarisse Guerra respira fundo, afasta os nervos, nunca antes lera noticiários. O documento acabara de chegar da Pontinha. E ela vai ler as palavras dos heróis. A única mulher a ler aos microfones de uma estação de rádio um comunicado do Movimento das Forças Armadas. (A única, sabemo-lo bem, pois na E.N. onde eu era colega dela, apenas às vozes masculinas foi dada essa oportunidade, eu, um deles). Mais do que possamos acrescentar sobre este livro que ficará por certo para a história do 25 de Abril poderá ser lido nas suas páginas e é isso que recomendamos.

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À Janela dos Livros
Rui Beja
Temas e Debates/Circulo de Leitores

Há muitos anos que conheci o autor, precisamente no Círculo de Leitores, onde acompanhei todo o seu percurso até ao último cargo de Administrador. Já antes, como sócio, adquiria regularmente algumas edições que hoje povoam as minhas estantes e são, sem sombra de dúvida, das melhores leituras que é possível recomendar. Não porque as escolhi. Mas simplesmente porque o Círculo de Leitores pautou a sua gama de edições pelo que de melhor havia na literatura mundial, incluindo naturalmente os autores portugueses. Claro que, como um Clube de Livros que era, houve sempre a necessidade de ter entre os títulos editados obras que agradariam mais a uns do que a outros. E por isso mesmo, isso significava um êxito editorial no mercado português. Mas estou a afastar-me deste livro em si e sobre o qual haveria muito que dizer se o espaço e o talento não me faltassem. Tal como o subtítulo menciona, Rui Beja apresenta-nos não só a sua vivência dentro da editora como também a “Memória de 30 anos do Círculo de Leitores” que foi afinal quantos o Círculo comemorou em 2001. Uma Janela é sempre algo que se abre e esta abre-nos as portas do que se viveu naquela casa onde os livros passavam pelas várias etapas que lhes são específicas: desde a leitura atenta dos manuscritos à sua edição propriamente dita. Rui Beja, licenciado em Controlo Financeiro pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa iniciou a sua actividade no Círculo como Director Financeiro e assumiu o cargo de Presidente Administrativo em 1992. Extraordinário é como Rui Beja nos consegue conduzir ao longo da história de uma editora de Livros com o mesmo interesse que teríamos em ler um romance marcado por avanços e paragens momentâneas para escolher o melhor caminho, mas sempre conduzindo da melhor maneira a forma de tornar aquela editora uma referência nacional e internacional nos meios literários. Mas o extraordinário que Rui Beja nos consegue também dar neste seu livro e que considero de inegável interesse é como ele acompanha toda a história do Círculo e a sua de um rigoroso estudo histórico dos acontecimentos de carácter político e cultural que classificam um período muito triste e trágico da nossa história recente. As perseguições políticas a escritores, jornalistas e intelectuais que foram impedidos e alguns presos e traumatizados pelo fascismo. Tudo acompanhado de uma documentação cuidada que inclui extractos de ofícios, estatísticas, etc. Um trabalho admirável que nos reaviva a memória dos que viveram tais tempos e revela aos que vieram depois e não os conheceram nem lhes é por vezes contado como devia ser. Mas voltando ao Círculo, A Casa Mãe Bertelsmann, que tivemos oportunidade de visitar, acompanhando um anterior administrador mas certamente com o apoio de Rui Beja tinha um lema aliás citado no livro que afirmava “ A falta de velocidade é nos dias de hoje um luxo a que não nos podemos dar”. Estávamos então em 2000/2001. O Círculo era já um exemplo e não foi por acaso que em 1998 foi distinguido com o prémio da Revista Exame para a “ Melhor entre as Maiores” empresas no sector de “Edição, Informação e Artes Plásticas”. De facto e isso vamos constatando ao folhear este livro de Rui Beja, o Círculo de Leitores apostou fortemente numa área que tinha de lutar nesse tempo com uma taxa de 30 por cento de analfabetismo, contra uma censura cega que negava tudo o que fosse acesso ao conhecimento e à cultura. Conforme refere Francisco José Viegas, ao tempo pertencente aos quadros daquela casa dos livros, o Círculo de Leitores representava naquela época, ao pensarmos hoje nos poderes da Internet, “a verdadeira rede social erigida em nome da leitura, transformando os costumes portugueses e as paredes das casas de família, com as lombadas e colecções históricas que obrigaram milhões de portugueses a ler, a conhecer os nomes dos autores e a partilhar essa experiência entre pais, filhos (e) vizinhos”. Era a verdadeira fonte do conhecimento para os que queriam ir mais além no seu direito à cultura que se torna também um prazer. Mas um prazer que nos traz sempre algo que se fixa na nossa memória e que nos ajudará mais tarde a melhor reflectir, decidir e actuar. As diferentes ideias que, como Director Financeiro ou como Administrador, Rui Beja permitiu que fossem divulgadas e chegassem às mãos dos leitores contribuiram com toda a certeza para um Portugal mais culto e esclarecido.
Como é natural, para compreendermos a personalidade de Rui Beja, ele dispõe nas primeiras páginas uma completa autobiografia e dela se inferem já muitas ideias que mais tarde viria a por em prática, depois fala-nos dos tempos difíceis em que era necessário lutar por elas e vencer, etapa a etapa, a rota que ele iria traçar, num trabalho dentro do Círculo de Leitores que sempre conhecemos com lealdade e respeito pelos seus colaboradores. Não será possível esquecer – pelo menos no meu caso – o sorriso aberto com o qual nos recebia durante os lançamentos que viriam a tornar-se grandes sucessos editoriais. Era fácil adivinhar, depois de com ele privarmos um pouco, que a sua forma de trabalhar dentro do Círculo era para além de exemplar um verdadeiro estímulo para todos dentro daquela casa darem o melhor de si e do que sabiam. E por isso a ele se devem certamente tais sucessos. Rui Beja era um exemplo a seguir. O Círculo foi até certo ponto o espelho da sua vontade e do seu saber. Cresceu com toda a certeza porque teve à sua frente pessoas que deram o melhor de si para que a cultura fosse elevada ao grau que merece. Lançaram-se novos autores, editaram-se os grandes clássicos da Literatura Portuguesa, traduziram-se os mais ilustres nomes da literatura mundial, não se esqueceu a História, a nossa e a universal, como não se esqueceram as grandes áreas da Ciência na sua vertente mais Técnica ou da Biologia, as Artes, os Ensaios, os livros práticos de divulgação eventualmente mais ligeiros, as religiões, e todo um vasto mundo cultural que hoje constitui o seu enorme catálogo de títulos, muitos deles de há muito esgotados. Rui Beja ficará sempre com um dos nomes que mais influenciou os êxitos que o Círculo de Leitores espalhou pelas nossas casas. Saiu no momento em que uma transformação se aproximava e que certamente não estaria de acordo com os seus critérios. Facilmente se compreende ao observar o que se passa nos dias de hoje. Mas aqui o que importa salientar é como neste livro fica extraordinariamente bem documentado todo o percurso desta verdadeira Casa dos Livros, que foi a sua e que representou uma parte da de todos nós. Rui Beja tinha e tem, posso afirmá-lo com toda a certeza, um grande amor pelos livros. Obrigado Rui Beja pelo prazer que me deu em ler esta obra que aqui coloco agora no meu Amor pelos Livros.

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PALAVRAS PARA JOSÉ SARAMAGO
Fundação José Saramago
Editorial Caminho

Este livro, lançado no dia do aniversário da Fundação José Saramago, reune alguns das centenas de textos que foram publicados em todo o mundo após a morte do grande Nobel da Literatura portuguesa. Pilar del Rio, nessa cerimónia onde se reuniram muitos dos autores e dos amigos de Saramago. Disse que foi extraordinariamente difícil fazer essa escolha tal era a quantidade de textos que foram escritos e que estavam guardados na Fundação. Assim depreendemos que se trata da escolha possível onde estão representados nomes da literatura e do jornalismo português, como também de países como Alemanha, Argentina, Bélgica, Brasil, Canadá, e por aí fora até ao Reino Unido e Uruguay, enfim ao todo 24 países. Assim, escritores, jornalistas, professores, críticos literários e mesmo políticos ali estão representados nas suas palavras mais ou menos eloquentes, mais ou menos literárias, mas todas elas transmitindo as suas diversas sensibilidades e sobretudo a admiração e o porquê dessa mesma admiração por aquele que era um amigo, um companheiro, um irmão ou um mestre e que tinha partido para uma viagem de onde não se volta. Que poderia eu escrever aqui, para além do muito que também tenho escrito sobre Saramago, para vos deixar este livro admirável no meu AMOR PELOS LIVROS. Nas Palavras para José Saramago está tudo dito - ou quase pois faltará sempre mais a dizer – sobre esta admirável figura que ficará para sempre na nossa História, quer pela importância imortal da sua obra quer pelos seus dotes humanistas de amor pela liberdade e pela paz, combatente sem limites da desigualdade, da corrupção, da miséria, da fome e das injustiças que pululam neste mundo em que vivemos. Amado por muitos, odiado por alguns que não souberam compreender a grandeza das suas virtudes expressas em palavras e gestos, José Saramago, para mim como felizmente para muitos mais por todo esse mundo, não morreu. Estará sempre vivo e presente na nossa memória e aqui fica nesta casa de Amor pelos Livros porque foi por eles que se deu melhor a conhecer e se tornou amado e admirado.

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JOSÉ SARAMAGO – Biografia
João Marques Lopes
Guerra e Paz Edições

Esta é uma “pequena” Biografia de José Saramago (“pequena” porque tem apenas 165 páginas sobre a vida de uma grande Homem). Isso não desmerece, naturalmente, o autor nem o biografado. Foi escrita e publicada antes do falecimento do Nobel da Literatura Portuguesa. Entre os títulos já publicados pelo autor, Licenciado em Filosofia pela Universidade de Letras de Lisboa, contam-se as biografias de Almeida Garrett, Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Mas esta é na verdade a primeira biografia de um dos escritores mais importantes da Literatura Portuguesa. José Saramago nunca escondeu, antes pelo contrário, os primeiros anos da sua vida nascido na Aldeia da Azinhaga, Golegã, num meio dos rurais mais desfavorecidos, numa casa de terra batida que já pertencera ao seu avô, guardador de porcos. Nas muitas crónicas e artigos que escreveu, sempre relatou em pormenor as dificuldades passadas nesses primeiros anos, assim como viria a contar, ao mesmo tempo que comentava episódios da actualidade com aquela independência e agudeza que sempre caracterizou a sua obra, momentos difíceis da sua meninice que por vezes chegavam a ser apresentados com certa nostalgia como se afinal tivessem sido importantes – e foram certamente – para a sua formação intelectual. É que ele também tivera os seus sonhos como qualquer criança e sobretudo aprendera a conhecer o que significa a existência da desigualdade que separa os homens entre si. Mais tarde, quando desempenhava funções no Diário de Notícias, saía ao fim da tarde para ir passar longas horas, até lhe ser permitido, numa das salas de Leitura do Palácio Galveias, devorando as mais variadas obras dos grandes escritores e pensadores, o que de certo contribuiu para o conhecimento mais profundo do significado da vida e dos verdadeiros valores humanitários. Adorado por muitos e odiado por alguns que nunca aceitaram a sua independência e a sua defesa dos valores em que acreditava, combatendo a mentira e a falta dos mais elementares princípios éticos, Saramago permaneceu igual a si próprio até aos últimos momentos. Como já aqui dissemos neste mesmo espaço do AMOR PELOS LIVROS, no próprio dia em que viria a falecer, ao escutar os comentários feitos por alguns dos seus amigos que em voz baixa, num recanto do quarto onde ele se encontrava deitado, falavam sobre a crise actual, Saramago ainda foi capaz de juntar o seu, dizendo: “Não se trata de uma crise económica mas de uma crise de valores”. Que lucidez extraordinária a daquele homem ao qual restavam apenas algumas poucas horas de vida. Mas afastei-me da essência desta Biografia publicada antes da sua morte e à qual só agora tive acesso. É a Biografia possível para definir perfeitamente o que foi o seu trajecto de vida, a sua acção em defesa dos ideais muito próprios em que acreditava, um pouco do histórico do muito que deixou escrito, para além dos seus livros memoráveis, em jornais e revistas da época, em Portugal e nos outros países. O autor relembra portanto para além das suas obras mais significativas, as crónicas no “Jornal do Fundão” e na “Capital” ou a crítica literária que fazia na “Seara Nova”. Em todo esse vasto mundo que descrevia e nos personagens que criou, Saramago mostrou o reflexo de muitas das suas lutas, das afrontas de que foi alvo por pensar como pensava e escrever como pensava, sempre fiel à verdade em que acreditava e desmascarando o que muitas vezes se esconde sob falsas crenças e atitudes. Faltará por certo escrever a grande Biografia da sua vida, para tornar mais fácil o muito que ele próprio deixou escrito sobre ela. Mas esta Biografia de João Marques Lopes merece ser lida por quem queira conhecer o essencial do seu trajecto até praticamente aos últimos dias da sua vida.

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Uma Dor Silenciosa
Francisco Guerra
Editora Livros d'Hoje

Há cerca de dois anos, trouxe a este mesmo espaço um livro a que me referi na altura como desejando não ter tido necessidade de o citar, melhor dizendo, que ele não tivesse sido escrito ou alguém não tivesse tido necessidade de o escrever. Bernardo Teixeira, uma das vítimas do Processo Casa Pia resolvera divulgar a sua história, ao mesmo tempo que se interrogava Porquê a Mim?, título do livro. Fora já testemunha no processo que se arrastava há anos perante o espanto da esmagadora maioria do povo português. Abandonado pela família quando tinha 11 anos, Bernardo fora entregue aos cuidados daquela instituição onde acabou por ser violentamente abusado e usado quando era suposto que o Estado o devia proteger. O livro foi leitura obrigatória para quantos acompanhavam o desenrolar do processo. Mas Bernardo não foi o único a testemunhar. Já depois do recente julgamento que terminou como todos sabemos com algumas condenações, adiadas por interpelação de recursos dos arguidos e enquanto aguardamos de novo o que se seguirá, é bom que se leia a história comovente de outra vítima que sofreu atrozmente os abusos violentos dos pedófilos envolvidos e que, sem citar os seus nomes, não é difícil reconhecer nas suas palavras. Francisco Guerra, considerado a principal testemunha do processo Casa Pia, muitas vezes citado como FG, conta-nos em “Uma Dor Silenciosa” a terrível história que, como confessa, destruiu os seus sonhos de criança. Exactamente. É que por mais cruel que infelizmente, algumas vezes e pelas mais diversas razões, a infância possa ser, todas as crianças constroem os mais belos sonhos que desejam ver realizados no futuro. Francisco Guerra foi retirado da guarda da família com cerca de 5 anos de idade e é toda a história a partir desse instante que ele nos conta, culminando com o enorme sofrimento que passou na sua passagem pela Casa Pia, de cujo processo se tornou a principal testemunha. Com alteração dos nomes dos envolvidos, revela todo o desenrolar do seu infortúnio durante a infância e porque resolveu contribuir para que se fizesse a justiça possível. São estas as palavras em que explica as razões porque resolveu escrever este livro: “A primeira de todas é para que a Casa Pia não seja esquecida e não deixe de estar na mira do país inteiro e, sobretudo, de quem deve zelar por ela (…) Em segundo lugar para que toda a gente saiba a verdade do que realmente se passou, em terceiro, e esta a menos importante de todas as três razões, porque talvez seja uma maneira de conseguir encerrar um capítulo muito triste e muito doloroso da minha vida. Embora saiba que nunca conseguirei esquecer o que se passou…”Com prefácio da Dra. Catalina Pestana eis um livro que não deveria ter sido possível contar como história verídica porque esta não deveria existir num mundo onde todas as crianças estivessem a salvo da maldade dos homens. É esse o mundo que todos deveríamos fazer o possível por construir. E por isso aqui aconselho a sua leitura. Para que a verdade seja conhecida e porque, infelizmente, como tudo leva a crer, a rede internacional de pedofilia continua activa em Portugal.

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MEMÓRIAS Rómulo de Carvalho
Coord. Frederico de Carvalho
Fundação Gulbenkian

É com um misto de prazer e muita dificuldade que vou aqui falar mais uma vez daquele a quem chamo “meu querido Professor”. Como devo então falar deste livro de Memórias que ele próprio ia escrevendo a partir de certa altura da sua vida para, como nelas confessa por diversas vezes, ser lido mais tarde pelos seus tetranetos e que está agora à nossa disposição numa cuidada edição, a que o seu filho, Frederico de Carvalho, juntou imagens que se encontravam dispersas e que agora aparecem reunidas no fim da obra? Frederico de Carvalho, construíu também um índice remissivo por pensar que teria utilidade para o leitor que pretendesse localizar facilmente este ou aquele assunto ou nome de personagem, sobretudo importante para quem pretender servir-se das “Memórias” como instrumento de estudo e trabalho. É de facto um prazer para este seu aluno plenamente convencido de que Rómulo de Carvalho, pelo lugar que sempre ocupou na minha vida e na minha memória, a ele lhe devo com toda a certeza muito do que sou. Mas é com dificuldade que encontrarei as palavras exactas para classificar esta obra que certamente representa algo de muito valioso para a história do nosso país durante o período que abrange toda a vida deste professor, pedagogo, poeta e humanista, contada a partir do momento em que nasceu, para o que recorreu naturalmente a consultas dos jornais da época, até aos últimos dias. A propósito recordo que durante as suas aulas no Liceu Pedro Nunes, toda a turma estava concentrada em escutar o que dizia com uma atitude completamente diferente do que acontecia em outras disciplinas. Será que é necessário explicar tal atitude daqueles jovens? Muito simplesmente todos estavam presos das suas palavras na forma como nos explicava os fenómenos da química e da física. Era algo de maravilhoso o que conseguia transmitir-nos. Era a sua eloquência simples e o seu saber mas também a sua bondade e a sua ternura. Foi provavelmente por eu ter pertencido à Estação Emissora do Liceu Pedro Nunes, da qual Rómulo de Carvalho era Director e estava sempre pronto a ajudar-nos e a entusiasmar-nos no que fazíamos, que a minha vida acabou mais tarde por se mudar da Faculdade de Ciências onde cursava os primeiros anos de Engenharia para a paixão da Rádio, tornando-me profissional da C.S. Mas voltemos a este livro de memórias. Não consegui ainda ler na totalidade as 500 páginas onde nos descreve (e a mim me leva a recordar até algumas coisas que tinha esquecido) factos ocorridos durante a sua infância (e como era a vida na cidade ou fora dela como eu ainda conheci), desde o modo como se batia à porta de um prédio com uma peça em forma de mão presa a ela ou um ou mais toques num badalo puxado por um arame (os repenicados para os lados esquerdos dos andares) até ao modo de chamar o merceeiro da rua a partir da janela. O dia-a-dia da vida na cidade, que ele observava e descreve, pode daqui a alguns anos ser uma verdadeira surpresa para quem o ler. E daí a importância histórica que o livro tem se outras não houvesse. Como ele próprio escreve numa simples folha de caderno escolar (reprodução em fac-simile): “Memórias que para instrução e divertimento de seus tetranetos escreveu certa pobre criatura que, entre milhares de milhões de outras, vagueou por este mundo na última centúria do segundo milénio da era de Nosso Senhor Jesus Cristo”, Rómulo de Carvalho está a contar aos seus prováveis leitores (e nem imaginaria que este conjunto de memórias viesse a ser transformado num livro) algo de muito pessoal e íntimo, utilizando as palavras cuidadas da sua escrita única e nunca igualada de um verdadeiro pedagogo que sabia como ensinar e prender a atenção dos seus alunos para lhes transmitir conhecimentos ou, melhor ainda, a forma de os saberem apreender no futuro. Constantemente, ao longo dos vários capítulos que ele próprio definiu, dirige-se particularmente aos tetranetos, citando mesmo muitas vezes o facto de que no tempo deles já nada daquilo subsistirá e constituirá certamente um mistério de como a vida e os costumes eram no seu tempo, como ele a viveu e assim descreve. O livro tem ainda a riqueza de reproduzir fotografias, recortes de jornais, ilustrações, cartões-de-visita (como o da parteira que assistiu ao seu nascimento), cartas, alguns poemas, etc. que ele guardou durante a sua vida e que estão hoje depositados na Biblioteca Nacional. A ideia de escrever as suas memórias apareceu já numa idade adiantada, mais precisamente em Junho de 1985, ao regressar de uma intervenção cirúrgica a que fora sujeito num hospital, embora, como também declara essa ideia lhe teria aparecido de há um certo tempo. E então confessa que “isto só me interessa a mim, e quando nisto falo aos filhos dos netos dos meus netos é na vaguíssima esperança de acharem graça em imaginar a figura de um seu antepassado movimentando-se num ambiente que muito pouco se deverá parecer com o seu, expondo sentimentos que o tempo tornará ridículos. E prossegue dizendo e descrevendo quase o momento do seu nascimento em 24 de Novembro de 1906, data anual que por decisão, no aniversário dos 90 anos, em 1996, foi decidida, pelo reconhecimento do mérito da sua obra, como Dia Nacional da Cultura Científica. Agnóstico, que respeitava as crenças de muitos dos seus amigos e até familiares, desafecto ao salazarismo e crítico do regime ditatorial em que o país viveu durante 50 anos, a sua análise a muitos dos acontecimentos ocorridos desde os tempos da Monarquia até ao 25 de Abril e aos dias difíceis que se lhe sucederam, é todo um rico manancial de factos observados, vividos e sentidos, com a clareza da liberdade de pensamento, não sujeito a ideias ou partidos. Ele próprio apenas, na sua simplicidade e no seu verdadeiro sentido humanista de preocupação com o ser humano, de o compreender, mesmo que tivesse de o aceitar ou criticar. É de facto uma visão do mundo e da história, como poucas vezes tem acontecido ser descrita com o notável pormenor que enriquece o conhecimento. E temos depois António Gedeão, o poeta, que escrevia poemas para si próprio e depois rasgava mas que um dia numa espécie de concurso numa Associação resolve fazer um teste para sentir como reagiam e se surpreende de tal modo que passa a publicar com esse nome que também se transformou num ícone da poesia dos oprimidos ou dos sonhadores desses tempos. Daí para o sucesso das adaptações às canções foi um pequeno passo. E estão registadas no livro as suas transmissões e entrevistas nas Rádios, os recitais, as inúmeras conferências dadas durante a sua vida. Como foi possível que um professor dedicado com todo o coração à arte de ensinar conseguisse preencher de modo tão intenso as suas horas livres com a variedade infinita da escrita e das suas actividades em prol do seu semelhante? O visitante a este espaço dirá certamente que ainda não consegui dizer o que queria. E é verdade. Adivinhava essa dificuldade. E difícil vai ser também escolher os excertos que sempre escolho para estes livros que amo. O livro estará com toda a certeza à vossa espera. E ficarão maravilhados e presos à sua leitura, tanto como eu, de tal modo o interesse se desdobra página a página. Tal como é meu hábito referir-me a Rómulo de Carvalho. Obrigado, meu Querido Professor.

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OS FILÓSOFOS NO DIVÃ
Charles Pépin
Publicações Europa-América

Todos sabemos que as ideias por vezes defendidas por algumas pessoas nem sempre são coincidentes com as suas verdadeiras preocupações e com aquilo que na realidade sentem na sua mente. Claro que felizmente essa não é a regra geral e acontece sobretudo na política mas já se registaram até casos de individualidades das mais variadas áreas mesmo com escritores. O que passaram para o papel e ficou às vezes para a posteridade não coincidia com as suas reais convicções. Vá lá saber-se porquê! Mas será que quando se trata de filósofos, grandes nomes históricos cujas teses nos habituámos a respeitar, podendo ou não concordar com elas em todos os seus aspectos, cometeram igual pecado? Poder-se-á perguntar se tal seria concebível ou antes pelo contrário as suas teses filosóficas eram precisamente o produto das suas mais intrínsecas preocupações. E quando esses filósofos são nomes como Platão, Kant ou Sartre, a nossa curiosidade sobre as causas que os levaram a defender as suas teorias é ainda maior. Pois foi o que Charles Pépin, jovem escritor e professor agregado de Filosofia no Liceu do Estado da Legião de Honra de Saint-Denis e no Instituto de Estudos Políticos de Paris resolveu investigar baseado, conforme ele explica no seu livro “Os Filósofos no Divã”, num criterioso conjunto de fontes históricas, textos autobiográficos, cartas dos próprios filósofos, obras biográficas e até no caso de Sartre, de entrevistas. Charles Pepin afiança-nos que nada foi inventado. E assim imaginou um encontro ou melhor vários encontros desses três personagens estendidos num divã em casa de Freud. Junta-se assim a Psicanálise à Filosofia e assistimos ao processo do regresso às suas vivências passadas, aos seus afectos e contradições, desde a infância à execução das obras que nos deixaram. Só Freud de facto os poderia fazer revelar a verdade. E isso é tão importante como afinal poder compreender o legado das suas ideias. As teorias de Platão, Kant e Sartre aparecem-nos à luz de uma mais completa transparência e Pépin oferece-nos de facto um livro fascinante e maravilhoso que se lê com enorme agrado. O leitor encontra-se na posição de verdadeira testemunha dessa sucessão de entrevistas em que personagens tão célebres confessaram num divã as suas preocupações. E no desenrolar das situações que viveram e que perante nós - através de Freud claro ou através da análise de Charles Pépin – recordam e de algumas obsessões que por vezes os atingiram mais profundamente, acabamos por conhecer melhor o que eram tais celebridades como homens e como conduziram as suas vidas. Com esse aditivo não é de estranhar que assimilemos também melhor a profundidade das suas ideias que se consumaram nas suas teses filosóficas, desde o idealismo de Platão ao significado do dever para Kant e naturalmente às mais recentes teorias defendidas por Sartre num momento muito próximo de nós e que até muitos de nós chegámos a viver. Uma obra que se lê com um prazer inegável, razão mais do que suficiente para aqui figurar e deixar a todos o convite para acompanharem estas três grandes figuras no livro de Charles Pépin “Os Filósofos no Divã”.

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MANÍACOS DE QUALIDADE
Joana Amaral Dias
A Esfera dos Livros

“Portugueses célebres na consulta com uma psicóloga” é o subtítulo deste livro que justifica de imediato o porquê de existirem maníacos de qualidade. Eles são então célebres e portanto é suposto neles existir qualquer espécie de qualidade, seja ela cultural, política ou social. Mas ao mesmo tempo neles existem ou melhor foram reconhecidos no seu tempo pequenos ou grandes distúrbios mentais, levando uma vida que muitos analisaram e apelidaram das mais diversas formas. Joana Amaral Dias, figura mediática bem conhecida, licenciada em Psicologia Clínica, docente e terapeuta familiar, com vastos conhecimentos adquiridos pela sua experiência e pela presença assídua nos areópagos da especialidade, resolveu debruçar-se sobre a vida de alguns portugueses que entraram em diversos ramos da nossa história. De todos eles, desde D.Afonso VI(dado como louco), Marquês de Pombal (um obsecado ou desequilibrado) ou a Rainha D. Maria I (considerada doida), mas também Fernando Pessoa (preocupado com a sua sanidade mental), Antero de Quental(que se suicidou) e João César Monteiro (o cineasta excêntrico), alguma coisa portanto sabíamos sobre o seu comportamento mais ou menos estranho. Menos conhecidos como portugueses célebres seriam Ângelo de Lima e António Gancho. Perante uma lista considerável de grandes vultos da nossa história com assinaláveis perturbações psíquicas ou como tal considerados e sentindo a necessidade de efectuar uma escolha que tivesse uma representatividade para a finalidade que se propunha neste seu livro, Joana Amaral Dias decidiu-se por dois critérios. Em primeiro lugar todos eles deveriam possuir “indícios fortes de grande sofrimento psíquico” mas o conjunto escolhido deveria também preencher a necessária “diversidade” que permitisse abranger um vasto leque de uma certa tipologia apelidada por uns de desvios de personalidade e por outros de verdadeira doença psíquica. A loucura é um tema recorrente na história da humanidade sendo até muito comum dizer-se que “de génio e de louco todo o mundo tem um pouco”. Seria natural portanto que figuras mais proeminentes ficassem também conhecidas pelos seus eventuais actos de uma certa loucura. E tudo isso seria igualmente uma classificação de terceiros. A investigação cuidada de Joana Amaral Dias vai mais longe e na impossibilidade de sentar num divã as personagens do livro baseia-se não só nos muitos documentos históricos mas também registos biográficos e mesmo auto-biográficos, diários, cartas, etc. É um trabalho muito honesto e tanto quanto possível correcto sobre a verdade do que foi dito e escrito mas sobretudo – e isso é importante – do que teria sido sentido pelos personagens que chamou para este livro. Em certos casos – e sempre que tal foi possível - eles aparecem mesmo num discurso directo quase parecendo que estamos a assistir a uma sessão de psicanálise. Quase nos permitimos dizer que a autora assim o entendeu de tal modo os vultos estudados nos aparecem nas páginas que oferece à nossa leitura. Nada foi ignorado - ou muito pouco - do que disseram terceiros, que pudesse ter importância para a análise feita. Digamos que esta obra se lê com a consciência de que ficamos mais conhecedores dos actuais conhecimentos sobre o que se passa no universo da mente humana apesar de Joana Amaral Dias nos afirmar que poderão existir alternativas às interpretações apresentadas. No entanto, quanto a nós, este estudo sobre alguns “Maníacos de Qualidade” que fazem parte da nossa História contribui firmemente para o nosso enriquecimento cultural. E por isso aconselhamos vivamente a sua leitura.

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EFEMÉRIDES ROMÂNTICAS
António Cartaxo
Ed. Caminho

António Cartaxo é uma voz inconfundível na Radiodifusão Portuguesa. Quando o ouvimos, temos de parar seja o que for que estamos a fazer para escutar a "sua" música, a música que as suas palavras introduzem e nos dão de seguida. No seu livro Efemérides Românticas ele reúne agora a vida e a obra artística de seis compositores cujas datas de nascimento ou morte são recordadas entre 2009 e 2011. António Cartaxo é um homem do Amor. Tudo o que tem feito e faz na sua vida é feito com Amor. Estivemos com ele durante largos anos enquanto andavavamos os dois na RDP. E por esse tempo e quando eventualmente nos encontramos hoje, a sua expressão envolvida naquela farta cabeleira que sempre usou, não respira senão amizade leal e sincera. O seu mundo é assim. Que outra coisa poderia acontecer senão ter reunido em livro seis histórias românticas ligadas à música? Albéniz, Mendelssohn, Chopin, Schumann, Liszt e Mahler aparecem-nos na escrita excelente do autor como se estivéssemos lado a lado com eles, vivendo os seus momentos de glória ou de sofrimento, as suas aventuras e desventuras e como é natural o lado intensamente romântico da sua obra, no expoente do período romântico, para alguns deles acompanhado igualmente do romantismo na sua vida privada, sobretudo em Chopin mas também Schumann ou Mahler. Ao lermos este livro notável de António Cartaxo e através da forma como nos apresenta a descrição dos momentos mais importantes da vida dos compositores que escolheu – ou não escolheu porque na verdade eles obedecem a um factor comum – é quase possível, para aqueles que já ouviram as suas obras musicais, como que escutá-las em fundo de mistura com as suas palavras de uma textura cuidada mas fácil. A escrita é fluida e harmoniosa como se estivesse inscrita numa pauta musical. As descrições precisas e preciosas encantam o leitor, fazendo-nos esquecer o tempo que passa. Acompanhamos assim o autor, o músico e a maior parte da obra que nos deixou e que ficará para sempre na História da Música. Estamos de facto “Em sintonia com António Cartaxo” tal como no programa que mantém com esse nome na Antena 2. E que o faça por muitos anos são os nossos desejos. Certamente que tem cativado muita gente que sem ele andaria arredada da felicidade que se tem ao ouvir um bom concerto e as grandes músicas que para sempre serão ouvidas enquanto o Homem habitar este planeta. “Efemérides Românticas” merece assim por todas as razões um lugar de destaque no nosso Amor pelos Livros.

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