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domingo, 30 de novembro de 2025

Arcadia (2023 - ?) [segunda temporada]

Numa sociedade distópica cujo lema é "temos o que merecemos" e em que o valor da pessoa é medido por pontuação, a família Hendriks está cada vez mais ameaçada. Hannah é exilada como o pai, Alex fica em maus lençóis, e Milly também se encontra sob suspeita. Entretanto, na floresta do Exterior, o patriarca Pieter Hendriks começa a congeminar um plano para derrubar o regime.
Confesso que não esperava uma segunda temporada desta série holandesa, e muito menos que a qualidade da estreia conseguisse ser mantida. "Arcadia" não é um produto de Hollywood em termos de produção e orçamento, e às vezes nota-se no mau sentido, mas, no que é verdadeiramente relevante, a série aguenta-se bastante bem.
Fiquei muito impressionada pela maneira como nos fazem compreender os personagens, até os vilões. Podemos não concordar com eles nem gostar deles, mas percebemos porque é que a Guardiã está realmente convencida de que a repressão securitária em Arcadia é a melhor solução para a sociedade. Ver as coisas pela perspectiva do contrário ao que acreditamos faz-nos ponderar os nossos princípios mais a fundo. Ultimamente, ela diz que "já não há crime nem medo", mas alguém a recorda de que agora há outro tipo de medo. Tentar viver numa utopia/distopia em que as pessoas só são valorizadas por aquilo com que podem contribuir vai forçosamente fazer com que os mais frágeis (ou doentes, ou inadaptados) sejam excluídos e, em caso extremo, como em Arcadia, considerados inúteis e não merecedores do custo que a sociedade tem de despender com eles. É a sobrevivência do mais apto, a lei da selva, aplicada com a intenção e a racionalidade fria de que o ser humano é capaz quando põe de lado a empatia. Nestes casos, regra geral, aqueles que estão em posição dominante nunca pensam que poderão ser eles, um dia, os mais frágeis, ou tentam viciar o sistema (mesmo que inconscientemente) em que aparentemente acreditam para que as regras cruéis que aplicam aos outros nunca se apliquem a eles nem aos que lhes são próximos. Esta série despretensiosa mostra-nos a humanidade falível dos que defendem sistemas baseados em ideias erróneas de mérito social, e por isso já vale muito a pena.
No entanto, acho que a série não explicou bem o golpe de Estado que deu origem ao regime. Daquilo que percebi, estão a culpar um só homem como cabecilha do atentado e isso simplesmente não seria possível. Mesmo que houvesse uma predisposição social para aproveitar o ataque terrorista para implementar o autoritarismo, uma acção deste tipo teria de ser sempre concertada entre vários conspiradores, aliás, como até está documentado na História recente. Caso contrário, líderes autoritários fariam questão de perseguir o responsável e exibir-lhe a cabeça na praça pública como exemplo. Não cheguei a perceber se "Arcadia" falhou neste ponto ou se não conseguiu mostrar o que queria (ou se não tinha orçamento para filmar uma conspiração a larga escala), mas foi a ideia com que fiquei.
Esta série surpreendeu-me. Com poucos meios fazem-nos pensar em tanta coisa.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Distopia, 1984, ficção científica, sociedades pós-apocalípticas

 

terça-feira, 18 de novembro de 2025

The Giver / O Dador de Memórias (2014)

Numa sociedade distópica, muito depois da destruição da Terra, o jovem Jonas prepara-se para assumir o papel de adulto e membro produtivo da comunidade, mas, ao contrário dos seus colegas e amigos da mesma idade, a quem são atribuídas funções de acordo com as suas personalidades, Jonas é seleccionado para ser o novo Receptor de memórias.
Esta sociedade, regulada pelo princípio da Semelhança, em que toda a gente tem de ser igual e a individualidade foi abolida, conseguiu suprimir as memórias do passado e as emoções através da medicação que todos tomam, e inclusivamente a capacidade de ver a cores (para que não haja diferenças raciais). Deste modo, o filme começa a preto e branco e vai ficando colorido à medida que Jonas se recorda das cores. Como receptor das memórias, Jonas é incumbido de receber do Dador que o precede toda a verdadeira História da Humanidade que esta sociedade esqueceu de propósito: as emoções, as cores, a paixão, os sentimentos, mas também a perda, a violência, a guerra, a morte. A sua maior dificuldade vai ser mesmo confrontar-se com a morte, algo que os habitantes da comunidade preferem ignorar que exista.
Esta sociedade podia ser uma mistura de "Admirável Mundo Novo" e "1984", com a adição de eugenia em que os velhos e os bebés considerados não "aptos" são enviados para o Outro Lugar (eufemismo para assassinados). Uma coisa aterradora! Para meu horror, no entanto, o filme desenvolveu-se como uma versão Young Adult de "Admirável Mundo Novo" + "1984" para crianças, o que não anda longe da verdade porque o filme é baseado no livro homónimo de Lois Lowry, que, segundo vi em críticas, é realmente lido às criancinhas como maneira de "preparação" para os clássicos de Aldous Huxley e George Orwell. Eu não li o livro mas não concordo nada com isto. Acho que "1984" deve ser lido a frio, por volta dos 14 anos, para a pancada acertar no sítio. Seja como for, George Orwell até nos fez o favor de escrever a versão "infantil" em "Animal Farm", e tudo o que li sobre o livro de Lois Lowry não me convenceu de que fosse melhor escolha.
Mas voltando ao filme, pelo que percebi é ainda mais Young Adult do que o livro, com o inevitável trio romântico e tudo, a assemelhar-se (colar-se) mais a "The Hunger Games" e "Divergent". Se no livro existe algum "murro no estômago", aqui fica tudo tão diluído num mundo de adolescência que nem a eutanásia de um bebé produz o efeito que merece.
No fim resume-se tudo a salvar um destes bebés enviados para Dispensa (dispensa de viver, entenda-se). A sociedade apresentada podia dar uma história sinistra, de arrepiar, mas em vez disso é tudo tão insonso que eu cheguei a torcer para que o bebé morresse à mesma só para infundir algum drama a esta seca. Ainda por cima o final não faz sentido. Tudo o que Jonas tem de fazer para restaurar as memórias à comunidade onde vive é fugir para lá da Fronteira que separa a comunidade do mundo selvagem, e as memórias regressarão. Mas regressarão como?! Parece que ele e o Dador se comunicam por telepatia, mas, do que vimos, os residentes medicados não reagem à telepatia. Aqui não há magia nem sobrenatural, é tudo ficção científica, então como é que raio o atravessar de uma Fronteira iria afectar a comunidade?
Foi doloroso ver o desperdício de actores como Jeff Bridges, Alexander Skarsgård (o Eric de "True Blood"), e, principalmente, de Meryl Streep, que (tal como Julianne Moore em "The Hunger Games") merecia estar a interpretar papéis à sua altura em vez de participar nesta chachada. Espero que lhe tenham pago bem.

11 em 20
 

domingo, 9 de março de 2025

Daybreakers / O Último Vampiro (2009)


(Para começar, o título em português não tem nada a ver com o filme. Isto não é a história do “último vampiro”, nem dos “últimos vampiros”, nem sequer dos “últimos humanos”. Fica a clarificação.)
Uma pandemia (alegadamente causada por um morcego) transformou a esmagadora maioria da população mundial em vampiros. Dez anos depois restam apenas 5% de seres humanos, muitos deles mantidos em cativeiro em condições desumanas para extracção de sangue. Os que conseguiram escapar e esconder-se são perseguidos e capturados por um exército de vampiros criado para esse efeito. Mas nem tudo são rosas neste mundo controlado por vampiros. Com a diminuição dos seres humanos vem também a escassez de sangue, que se torna cada vez mais caro. “Daybreakers” não é exactamente um “filme sério” mas existe espaço para a crítica social: nesta distopia, muito semelhante à nossa sociedade, os mais pobres não conseguem acompanhar o preço do sangue. Isto tem consequências graves, uma vez que os vampiros não alimentados se transformam em “nosferatus” (a palavra é minha) de orelhas pontiagudas, asas de morcego, monstros sem emoções nem racionalidade que inclusivamente atacam outros vampiros. Por esta razão, os vampiros que ainda conservam características humanas são os próprios a tentar exterminar esta raça de desprivilegiados (que tiveram o azar de ser pobres).
Um hematologista, Edward, e a sua equipa de uma indústria farmacêutica (de vampiros), trabalha para conseguir fabricar um substituto para o sangue humano, sem grande sucesso. Edward sente compaixão pelos seres humanos aprisionados (recusando beber sangue humano e sobrevivendo de uma dieta de sangue de porco) e tenciona antes encontrar uma cura para o vampirismo. Já o seu chefe nem quer ouvir falar de tal coisa porque tinha cancro antes de ser vampiro e considera que o vampirismo é a cura para a morte.
No entanto, quando Edward já está em risco de se tornar ele próprio num “nosferatu”, um encontro fortuito com um grupo de humanos fugitivos leva-o a apurar que a cura foi acidentalmente descoberta por um deles. Edward submete-se à mesma cura em ambiente controlado e funciona: torna a ser humano. Mas antes de conseguir espalhar a notícia é traído por um colega da farmacêutica que afirma já ter conseguido criar um substituto para o sangue humano. Contudo, é tarde demais. A escassez está a tornar a maior parte dos vampiros em monstros e já nem há rações de sangue suficientes para o exército, o que significa que os militares se estão a transformar em “nosferatus” também. Um aspecto inesperado da “cura” acaba numa carnificina entre vampiros, a melhor cena do filme.
Não sei como é que “Daybreakers” me escapou este tempo todo, mas devo confessar que nem os vampiros me conseguiram aquecer nem arrefecer. “Daybreakers” é demasiado filme de acção para o meu gosto (tiros/setas, perseguições, militares) e os personagens demasiado bidimensionais para me lembrar deles depois de o filme acabar. Serve para entreter e fazer pensar um bocadinho, mas só isso.
Nota curiosa: estes vampiros são em tudo o vampiro clássico que só pode ser morto com uma estaca no coração, tem caninos salientes, arde ao sol e essa lenda toda, incluindo não se reflectir ao espelho. No entanto, conseguem ser filmados em câmaras digitais. Eu sempre pensei que o princípio do espelho se aplicava também a filmagens (e fotografias), mas se calhar estou muito enganada.

12 em 20

 

 

domingo, 25 de agosto de 2024

Danse Macabre, de Stephen King

“Danse Macabre” é um livro não ficcional de Stephen King em que o autor se propõe a fazer uma análise da literatura, cinema e televisão no âmbito do terror entre os anos 50 e 80, à mistura com alguns episódios auto-biográficos e bastantes citações das obras mais emblemáticas. Obviamente, como o próprio reconhece, não seria possível incluir tudo sem produzir uma enciclopédia, pelo que muitas das escolhas do autor são forçosamente subjectivas. Concordo com a maioria, não concordo com algumas, mas teria de ser mesmo assim. Como seria de esperar, King escreve de um ponto de vista americano, com referências americanas, e confesso que nunca tinha ouvido falar de alguns comics dos anos 30, 40 e 50 que ele menciona (nem teria como ouvir). Muitas vezes King tem de ir ainda mais atrás, aos séculos XIX, XVIII e antes, para puxar o fio condutor de obras como “Frankenstein”, “Drácula” e precursores mais antigos.
Nunca pensei que o livro fosse tão extenso. Para analisar “Danse Macabre” era preciso escrever outro livro, por isso não vou sequer tentar resumir. Pelo contrário, vou acrescentar!
“Danse Macabre” foi publicado em 1981. Desconheço se Stephen King actualizou os seus pontos de vista com um “Danse Macabre II” (e eu gostava de ler isso), mas o período analisado é dos anos 50 aos 80. Daí até 2024 muita coisa mudou. Por exemplo, as pessoas tornaram-se tão fanáticas por gatos que no remake de “Pet Sematary” o gato é quase a personagem principal (na minha opinião é mesmo a personagem principal e gostava de saber o que Stephen King pensa disto.)
Mas regressando a “Danse Macabre”, Stephen King preconiza a existência de alguns arquétipos do terror a que ele chama O Vampiro, O Lobisomem (mesmo o lobisomem que usa o “pêlo” por dentro, como em “Psycho”), O Fantasma, A Coisa Sem Nome e O Lugar Maldito (The Bad Place). Na opinião dele, o zombie e o vampiro são apenas um só arquétipo porque ambos se alimentam dos vivos. Ora, do meu lugar de espectadora em 2024 não posso concordar. Talvez tenha sido assim até aos anos 80 mas actualmente o vampiro e o zombie são personagens bastante diferentes. O vampiro, hoje em dia, é uma estrela de rock, um símbolo sexual de juventude e beleza eterna, um bad boy carismático e magnético. (Na verdade, sempre foi, desde que Lucy e Mina correram para os braços do Conde, mas talvez seja uma coisa tão feminina que escapou a Stephen King?...) “Danse Macabre” foi publicado antes da explosão dos vampiros de Anne Rice com o filme “Entrevista Com o Vampiro”. Aliás, é significativo que Stephen King não tenha sequer destacado “Interview With The Vampire” como referência, embora o livro seja mencionado no Apêndice. Já nem falo das filas de adolescentes aos gritinhos em cada estreia de “Twilight”, nem dos posters de Robert Pattinson no quarto… (Acreditem, tive de ir pesquisar o nome do actor.) “The Hunger”, com Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon, é igualmente de 1983. Este não é o mesmo vampiro dos filmes Hammer.
Por sua vez, o desgraçado do zombie (e afins) lá se vai arrastando, mas ganhou um protagonismo que já vai em duas décadas com o fenómeno “The Walking Dead”, e também já não é o mesmo zombie de George A. Romero. O zombie dos anos 2000 é quase um adereço em histórias pós-apocalípticas, em distopias em que o verdadeiro inimigo são os outros sobreviventes, onde impera a lei do mais forte e a violência extrema, curiosamente servidas à primeira geração que sabe que não vai ter uma vida tão boa como a dos pais antes deles. São outras as preocupações sociológicas, como as preocupações com a energia e a guerra nuclear dos anos 50 e 60 que Stephen King não deixa de identificar e que produziram toda uma série de filmes de insectos gigantes, por exemplo, e que até deram motivo ao clássico “The Night of The Living Dead” de Romero (1968).
Mas eu não quero mesmo escrever o livro e fico por aqui. Notei uma tendência extremamente exagerada na maneira em que Stephen King tenta explicar que o autor de terror não é um gajo psicologicamente transtornado, psicopata ou imoral, como lhe parece quando lhe perguntam infinitamente se não se importa de “viver dos medos dos outros”. Se calhar tem razão em ser tão defensivo. A pergunta parece-me incompreensível mas deve ser uma provocação americana. Afinal, ninguém é obrigado a ler ou ver terror, tal como ninguém é obrigado a ler ou ver erotismo. Mas é interessantíssimo que a imprensa americana lhe pergunte isto (e a outros autores do mesmo género) a ponto de o irritar.
Aconselho “Danse Macabre” a todos os amantes de terror e, principalmente, a todos os autores do mesmo ofício. O livro é longo mas não parece, está muito bem escrito e nunca aborrece.


domingo, 28 de julho de 2024

Arcadia (2023)

Num futuro pós-apocalíptico, depois de sofrer com as alterações climáticas e com um golpe de Estado que alterou o regime, a sociedade de Arcadia é uma comunidade distópica e fechada, fortemente vigiada no estilo “Big Brother”, onde o lema é “cada um tem o que merece”. Todas as pessoas têm implantado um chip obrigatório e são avaliadas a partir dos 18 anos por uma pontuação baseada na utilidade social, emprego, educação… e saúde.
O casal Hendriks e as suas quatro filhas (algumas deles, outras adoptadas) faz parte da classe mais privilegiada e próxima do governo, usufruindo de todas as regalias disponíveis em Arcadia. No entanto, os Hendriks têm um problema: a filha Luz é uma adulta autista, embora funcional, que mal distingue a bondade da maldade, o que é muito perigoso numa sociedade do tipo “1984”. Oficialmente, Arcadia não pratica a eugenia, mas na prática todos os deficientes são ostracizados através das suas pontuações e a dos seus pais. Ser ostracizado em Arcadia significa, em último caso, ser expulso da sociedade para sobreviver Lá Fora dos muros, na floresta selvagem. É o que acontece ao pai Hendriks quando se descobre que este manipulou as pontuações das suas filhas Hannah e Luz de modo a conseguir-lhes uma posição melhor. Num julgamento sumário, Hendriks é posto no exterior com uma mochila e a roupa do corpo, onde não tem qualquer hipótese de subsistir. Toda a família é igualmente castigada, quer soubessem da fraude ou não, perdendo 2 pontos cada um.
As classes menos privilegiadas têm ainda pior sorte. Sem a pontuação necessária não têm direito a uma boa alimentação (por exemplo, leite verdadeiro) nem aos cuidados médicos ou remédios de que precisam (onde é que eu já vi isto?). Quem fica doente perde o emprego, e quem perde o emprego perde pontuação porque não se considera que a pessoa valha o custo-benefício de a manter. Com a pontuação cada vez mais baixa, a pessoa acaba por ser expulsa para Lá Fora, ao que Arcadia chama o eufemismo “exilar”.
Uma das filhas dos Hendriks, Millie, militar despromovida devido ao processo que atingiu a família, pede transferência para o Serviço de Patrulha Exterior na esperança de encontrar e ajudar o pai. Graças à ajuda do seu parceiro, Millie descobre que existe uma colónia de sobreviventes na floresta, que subsistem da terra e de tudo o que lhes chega dos exilados de Arcadia, mas subsistem. No entanto, Millie não encontra lá o pai e continua a procurar, arriscando cada vez mais ser descoberta e punida pelos superiores.
Por seu lado, outra das filhas, Alex, polícia igualmente despromovida, é aliciada pelos detractores do pai a envolver-se numa intriga governamental entre facções inimigas na tentativa de ajudar a família que já perdeu a casa e cuja pontuação continua a descer sem explicação (porque o regime também a manipula).
Entretanto, começa a surgir uma Resistência em Arcadia, que desenvolveu uma tecnologia que consegue neutralizar o chip de vigilância. Graças a esta Resistência, por exemplo, pessoas que não teriam direito a um transplante recebem tratamentos clandestinamente. Como enfermeira, Hanna, outra das filhas dos Hendriks, vê-se directamente envolvida nesta tentativa de ajudar as pessoas em necessidade. O lema de Arcadia é “todos têm o que merecem” mas só os ricos e poderosos é que merecem tudo (onde é que eu já vi isto?).
Embora as séries europeias tenham a reputação que têm (muitas vezes injustamente), e ainda pior no canal SyFy, “Arcadia” é uma produção belga/holandesa que vale mesmo a pena ver, embora a língua, a princípio, nos soe bastante estranha (pelo menos a mim pareceu, mas habituei-me rapidamente). O ritmo é rápido, o enredo é tenso, o perigo é real. O final da primeira temporada é um cliffhanger e eu queria muito saber o que vai acontecer a seguir, mas, infelizmente, não me parece que esteja na calha uma segunda temporada. Por outro lado, talvez não seja precisa nenhuma continuação. Neste género de distopias o final acaba por ser um dos dois: a vitória da Resistência, como parece estar a acontecer na versão televisiva de “The Handmaid’s Tale”, ou o assassinato literal ou psicológico de todos os personagens, levados à completa submissão como em “1984”. Mesmo assim, recomendo vivamente.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Distopia, 1984, ficção científica, sociedades pós-apocalípticas

 

domingo, 21 de abril de 2024

The Last of Us (2023 - ?)


Fiquei decepcionada com esta série. “The Last of Us” é a adaptação de um jogo de vídeo num mundo pós-apocalíptico. O que causou o apocalipse foi um fungo mutante que começou a infectar seres humanos, controlando-lhes o cérebro e tornando-os agressivos de modo a contagiarem o máximo de pessoas possível (é-nos dito no prólogo que isto acontece na natureza, mas não em seres humanos). Chamam-lhes Infectados mas na verdade são mais “colonizados”, e comportam-se como uma mente única, a do fungo, que inclusivamente tem tentáculos subterrâneos que os controlam como uma só unidade. No entanto, embora se assemelhem a zombies, estes Infectados não o são e o próprio fungo acaba por matá-los mais tarde ou mais cedo.
Devo avisar que algumas imagens de Infectados são imensamente repugnantes. O fungo aloja-se dentro do hospedeiro mas acaba por sair para fora. Numa das cenas, uma professora universitária de Micologia está a fazer uma autópsia a um deles e, ao abrir uma incisão no cadáver, o interior do corpo é só fungo. A professora fugiu disparada da sala de autópsias e eu até fiquei com comichões e com os pêlos dos braços em pé de tanto nojo. Na verdade, acredito que “The Last of Us” podia ter feito os Infectados ainda mais repulsivos (alguns fungos são bastante repelentes) mas se calhar recearam que as pessoas não conseguissem ver a série devido à reacção física de repugnância.
Com este cenário, pensei que talvez “The Last of Us” viesse a preencher o vazio deixado por “The Walking Dead”, mas isso não aconteceu por várias razões. Uma das maiores é a notória falta de Infectados. Enquanto que em “The Walking Dead” tínhamos zombies em quase todos os episódios, aqui, por alguma razão, em 9 episódios só existem 3 ou 4 confrontos com Infectados. Terá sido falta de orçamento ou uma aposta maior no drama entre os personagens? Não tenho nada contra séries dramáticas, antes pelo contrário, mas se toda a história gira em torno dos Infectados não deveríamos vê-los mais vezes?
Voltando ao enredo, vinte anos depois do início da pandemia a sociedade organizou-se numa ditadura militar dentro de centros fortemente vigiados chamados Zonas de Quarentena. As pessoas vivem mal, tendo de trocar trabalho por rações. Existe uma Resistência bastante activa mas não consegue grandes resultados. Joel, um homem de 56 anos que perdeu a filha adolescente no início da pandemia, é um deles e vive na Zona de Quarentena de Boston. Joel também trabalha, mas é mais para disfarçar a actividade de contrabandista que comporta risco de execução sumária.
Acidentalmente, a Resistência encontra uma adolescente muito especial, Ellie, que parece ser imune ao fungo. Na sequência de um ataque imprevisto, a líder da Resistência incumbe Joel (a troco de contrapartidas) de acompanhar Ellie em segurança até às instalações médicas onde, têm a certeza, Ellie será fulcral para desenvolver uma vacina ou uma cura. É este o enredo: Joel e Ellie têm de atravessar o país enfrentando Infectados, salteadores, militares, rebeliões e até fanáticos religiosos canibais (o episódio dos canibais foi o melhor).
Como acontece sempre neste tipo de história, a princípio Joel encara Ellie como mais um “trabalho”, uma mercadoria a transportar, mas obviamente o seu instinto protector e a culpa por não ter conseguido salvar a vida da filha começam a vir ao de cima e Joel acaba por desenvolver um sentimento paternal para com Ellie. Ellie, em princípio à defesa e relutante em confiar, acaba por se afeiçoar também a Joel como ao pai que nunca teve (como em “The Witcher”, na verdade, só para citar um caso em milhentos). É nesta relação que se baseia o fundo dramático da história, que acaba por suplantar os elementos pós-apocalípticos da premissa.
Agora, as razões do meu desapontamento. Para além do exíguo número de Infectados que Joel e Ellie encontram pelo caminho (e esta queixa não é só minha), o que mais me afastou da série foi mesmo a miúda (e a queixa também não é só minha). Não tenho nada contra a actriz Bella Ramsey, pelo contrário, adorei-a como Lyanna Mormont em “Guerra dos Tronos”, mas Ellie é uma miúda embirrante, armada em boa, com 14 anos mas mentalidade de 12, inculta, tem acesso a livros mas os seus preferidos são uma compilação de trocadilhos sem piada nenhuma e uma banda desenhada do mais básico possível que só um miúdo de 8 anos partilha com ela (já nem falo do “auge” da vida dela que foi jogar Mortal Kombat), e ainda por cima acha-se muito engraçada. Ainda me irrita mais quando outros personagens dizem que ela é engraçada (não é) e que tem capacidades de liderança (eu não vi nada, qual liderança, a miúda segue Joel como um cachorrinho atrás do dono). Enfim, detestei-a. Preferia muito mais que a protagonista fosse a filha de Joel, essa sim, uma personagem empática, mas infelizmente tiveram de a matar logo a princípio.
Outra coisa que me desagradou na série foram os episódios filler, isto é, de encher chouriços. Sem nunca ter visto o jogo à frente (nem vi nem quero ver) fiquei com a impressão de que não havia enredo que chegasse e tiveram de arranjar maneira de esticar a massa. Um dos exemplos mais flagrantes é logo o terceiro episódio (de uma hora e vinte minutos!) que é o flashback da relação entre Bill e Frank. Bill é um survivalista quarentão que aparentemente não sabe que é homossexual quando conhece Frank, já depois do apocalipse. Apaixonam-se, vivem felizes e envelhecem juntos apesar de tudo o que se passa no mundo. É um episódio muito bonito, muito romântico, muito comovente, mas eu tive a sensação de que estava a ver outro filme. Bill e Frank nem nunca se cruzam com Joel e Ellie e o episódio não faz nada para avançar o enredo. Quando estava a ver pensei que Bill e Frank deviam ser muito importantes para o jogo para terem direito a tanto destaque e tão pormenorizado, mas ao ler as críticas percebi que (mais uma vez) a queixa não era só minha. Frank e Bill só têm importância marginal para o enredo em geral, não são personagens assim tão relevantes. Mas não é caso único. Novo episódio, novos personagens, novo sub-plot, morrem todos, novo episódio. E a série vai assim até ao fim. Tendo em conta que são apenas 9 episódios, esperava-se uma história mais coesa e focada nos protagonistas. Isto nem vai parecer eu a falar, mas realmente faltaram Infectados e confrontos a dificultar a vida a Joel e Ellie. Os adversários que eles encontraram, em vez disso, foram outros humanos, alguns muito monstruosos, é verdade, mas isto devia ser uma série sobre um fungo que infecta humanos e não sobre a monstruosidade humana em geral. Um título mais apropriado para o drama realmente retratado na história devia ter sido “Joel e a Filha Perdida”.
E ainda outra coisa que me irritou bastante na série: ao fim de 20 anos aquelas alminhas ainda não aprenderam que a maneira mais eficiente de matar um Infectado é o inescapável tiro na cabeça (até porque é lá que o fungo se aloja e de onde controla o hospedeiro). Foi tanta a munição desperdiçada ao desbarato que se Daryl Dixon ou Carol ou até a pequena Judith vissem aquilo abanavam a cabeça em desdém: “Amadores!”
Não detestei a série mas esperava muito melhor e um enredo mais baseado na premissa. É sobre humanos controlados por fungos. O drama pode ficar à mesma, mas mostrem-nos os fungos, bolas!
Pelo menos assistimos a 15 minutos do desagregar da sociedade antes do salto temporal de vinte anos para a frente, o que eu gosto sempre de ver, mas ainda não foi desta que fiquei satisfeita. Quando é que nos vão mostrar a sociedade a desagregar-se como deve ser?

PS: Já depois de escrever o artigo, para não morrer estúpida, fui espreitar um stream do jogo, que por acaso estava precisamente na parte mais emocionante do episódio dos canibais. Não tive paciência para ver mais de um minuto. Definitivamente, não gosto de jogos.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies, Young Adult, mundos pós-apocalípticos, distopia


terça-feira, 2 de abril de 2024

Witch Hunt / Caça às Bruxas (2021)

Numa América dos nossos dias onde a bruxaria é ilegal e as bruxas sofrem pena de morte, uma adolescente tem de decidir de que lado está.
“Witch Hunt” é muito melhor do que devia ser, nem que seja pela tentação despropositada de lhe meter “sustos” à filme de terror, quando o terror aqui é a perseguição e a execução sumária (inclusive na fogueira) de mulheres inocentes só porque fazem magia. Sim, a magia é sobrenatural, mas isto só funcionaria se o filme mostrasse uma bruxa que usasse a magia para fazer o mal. Como as bruxas são representadas como inofensivas, o que nos incomoda é uma perseguição implacável a lembrar os piores regimes totalitários de que há memória onde as minorias são exterminadas. Por exemplo, nesta sociedade faz-se mesmo o teste da água: todas as jovens de certa idade são imersas numa piscina: se flutuarem é porque são bruxas. Pelo menos aqui, ao contrário de outros tempos, as raparigas estão atadas a uma cadeira mas têm direito a um tubo de oxigénio. Mesmo assim, algumas entram em pânico e afogam-se. Nenhuma flutua. São estes os momentos de terror, os momentos de fanatismo absurdo.
Mas “Witch Hunt” conta com um trunfo, a actriz Elizabeth Mitchell (a Juliet de “Lost”), que é a mãe da adolescente em causa e faz parte de uma Resistência para ajudar as mulheres acusadas a fugir do país. Elizabeth Mitchell ilumina o écran no momento em que aparece. (Por exemplo, quando diz a uma vizinha que na sua opinião “até deviam ter construído um muro mais alto”, é uma piada política que nem parece cómica.) Assim que vemos a Juliet de “Lost” pensamos logo que ela vai salvar tudo porque é uma durona. Mas salvará mesmo?
Uma das dicas que nos é dada é o apelido da miúda (muito óbvio para quem sabe alguma coisa dos julgamentos de Salem). Outra é o fascínio de algumas raparigas pelo filme “Thelma & Louise”. O próprio final quer fazer uma homenagem a este clássico (à mistura com ”Harry Potter”, não sei), mas não correu muito bem.
As verdadeiras cenas de tensão são aquelas tiradas da vida real, em que pessoas perseguidas são transportadas às escondidas na mala do carro e aparece alguém que o manda parar. São bruxas, mas podiam ser judeus, ou outra minoria qualquer a fugir ao extermínio.

13 em 20 (porque o fim não esteve à altura da premissa)

 

domingo, 18 de junho de 2023

The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood

Não é costume dizer isto, mas a série estragou-me o livro. Não consegui ler sem imaginar “The Handmaid’s Tale” (a série) na minha cabeça a todos os instantes. Isto significa duas coisas: que a série respeita perfeitamente o material original, e que o livro publicado em 1985 foi o bastante para incendiar imaginações e perturbar consciências até aos dias de hoje.
Não estou a dizer com isto que não adianta ler o livro se já se viu a série, nem que a série é melhor do que o livro, mas depois de ter uma visualização de todo este mundo com personagens tão fortes como June (na série, porque no livro nunca é revelado o nome de Offred, a protagonista) não me foi possível dissociar as duas coisas. A maior parte das vezes dei por mim a reconhecer as cenas e a apontar mentalmente os monólogos de Offfred: “Olha, a June disse isto exactamente assim”; “Olha, a June disse isto mas deixou parte de fora”; “Olha, aqui está dito de forma diferente”. Também não ajuda que eu esteja completamente viciada na série.
Em suma, preferia ter lido o livro primeiro, mas agora já está. Atwood foi ousada em apresentar-nos Gilead tão intimamente sem grande exposição, como se o leitor conhecesse perfeitamente a distopia em que Offred estava aprisionada e porquê. Só posso imaginar o choque que isto tenha causado aos leitores que não sabiam para o que iam (como me costuma acontecer a mim), e que se calhar tiveram de ler duas ou três vezes para perceber todo o horror que Offred, muitas vezes veladamente, lhes ia revelando nos seus diários.
No entanto, existem pequenos pormenores de diferença. Como aquelas crianças a quem é repetidamente contado um conto de certa maneira até o ouvirem de forma diferente e que dizem “a história não é assim”, obviamente que reparei neles. Outros ajudam-nos a perceber melhor certas relações e acontecimentos que a série não aprofundou. Por exemplo, a origem da frase “nolite te bastardes carborundorum” está aqui muito melhor explicada.
E depois há a cena da gata…

Spoilers
No livro, June (vou usar o nome da série) e Luke têm uma gata. Quando Gilead faz com que June e todas as mulheres percam o emprego, June conforta-se abraçando a gata contra o peito. Comovente, não é? Mas na hora de fugir para o Canadá com Hannah, Luke e June apercebem-se de que não podem “levar um gato com eles a cruzar a fronteira”, que deixar a gata para trás os podia denunciar (se a deixassem à solta ela miava em volta da casa) e que não a podiam oferecer a ninguém que os pudesse trair de seguida. Então o que é que fazem? A gata está escondida debaixo da cama e June até diz “eles sabem sempre”. Luke leva a gata para a garagem e mata-a. Assim mesmo. Mais tarde, quando de facto são traídos, June pergunta-se que género de maldade leva outros seres humanos a traírem os vizinhos. June, filha, e o que terá pensado o animalzinho nos seus últimos momentos naquela garagem, traído pela única família que conheceu, a quem amava e por quem se julgava tão amado que era abraçado contra o peito, que últimos momentos foram esses, cheios de medo, confusão, dor e amargura? Pensaste nisso?
Felizmente, os criadores da série perceberam que isto não ia cair nada bem no público actual e não incluíram essa cena. Afinal, o livro foi publicado em 1985, quando os animais não eram considerados parte da família. Que lhes fazer? Matá-los, afogá-los à nascença, fazia-se tudo isso quando eram incómodos e já não davam jeito. Actualmente é impensável deixar um animal para trás (por exemplo, os refugiados da Ucrânia levaram cães e gatos com eles), e não daria tanto nas vistas porque muita gente leva os animais de estimação quando vai de férias. Na altura talvez não.
Não é que eu não acredite que a June da série não seja capaz de matar um gato, dois gatos, mil gatos. Pelo contrário. O que acho é que a June da série é monstruosa a um ponto que a Offred do livro nunca chega a ser e mesmo assim não me apeteceu torcer por ela. Perturbou-me, revoltou-me. Isto não é dizer pouco quando se fala de “The Handmaid’s Tale”, mas para tudo o resto eu já ia preparada.
Ainda por cima, na série, quando fogem, June e Luke passam por imensos matagais desertos onde podiam muito bem ter deixado a gata e assim esta sempre tinha uma oportunidade de caçar ou encontrar um novo lar. Na garagem é que não teve oportunidade nenhuma.
A acção do livro só cobre as primeiras duas temporadas da série e a própria Margaret Atwood faz parte da equipa, o que poderá explicar o sucesso da expansão do mundo de Gilead. O livro termina quando Offred é levada para parte incerta pela polícia do regime, sem saber o que lhe vai acontecer. Acredito que este fim em aberto tenha causado pesadelos a inúmeras gerações de leitores.
Por fim, o livro deixa-nos uma nota de esperança. Muitos anos no futuro, durante um simpósio sobre Gilead, os diários de Offred (aparentemente gravados em cassete, como em certa passagem da série) são analisados e debatidos, sendo mesmo posta em causa a sua veracidade e de que modo Offred os poderia ter gravado e escondido. Mas Gilead é sempre referida como uma sociedade do passado, algo de extinto que merece a pena ser estudado. O que nos diz, também não disfarçadamente, que Gilead não ganhou no fim.
Margaret Atwood escreveu uma distopia magnífica, um sucessor perfeito dos gigantes “Farenheit 451” e “1984”, e ainda por cima com um contexto muito actual.
Recomendo a toda a gente que não faça o que eu fiz: leiam o livro primeiro, até porque é curto. E depois, sim, devorem a série.
Quanto à cena da gata… vou fingir que não li. Já me perturbou mais do que o bastante.

 

domingo, 4 de junho de 2023

Wayward Pines (2015 – 2016)

Alguém se lembra da primeira temporada de “Wayward Pines”, prometida como uma mistura de “X-Files”, "Twin Peaks", ficção científica, distopia e terror? Eu também não. Mesmo assim, decidi ver a segunda e última temporada, só para saber como é que a história acabava.
Se a primeira parte de “Wayward Pines” era toda um jogo mental, entre destrinçar a realidade da mentira, entre descobrir em quem confiar ou não, a segunda parte é muito menos pretensiosa. Aqui já sabemos tudo o que precisamos de saber.
A cidade de Wayward Pines, com cerca de 1500 habitantes mantidos em criogenia até ao ano 4000 e tal, é o último reduto da raça humana. Fora dos seus limites, os seres humanos sofreram mutações genéticas que os transformaram em aberrações, com dentes e garras e tudo, e são donos do mundo. O problema de Wayward Pines é sobreviver.
Se na primeira temporada os dirigentes da cidade nos pareciam fascistas, agora vemos as coisas pelo outro lado. O objectivo é “frutificar”, aumentar o número de sobreviventes para terem alguma hipótese, e assegurar comida para todos. Nestas circunstâncias o que nos parecia fascismo assemelha-se mais a Lei Marcial. O que não quer dizer que não haja atropelos. As meninas são incentivadas a ter filhos assim que têm o período, preparadas ou não. É uma violência. Assegurar a sobrevivência da humanidade não implica cair na desumanidade. A resistência ainda existe, cada vez mais fraca, até ser completamente arrasada. Nesta altura já não há muito a que resistir, diga-se a verdade.
As colheitas estão fora da vedação e é perigoso ir buscá-las. Com os números de sobreviventes a aumentar, é necessário procurar mais locais de plantação. A comida é racionada. Pouca gente se preocupa a sério com este problema.
De repente, todas as aberrações desaparecem de vista e os sobreviventes julgam ter uma oportunidade. Mas subestimaram os novos habitantes da Terra. Quando estes regressam, muito mais inteligentes do que os julgavam, queimam todas as colheitas já existentes. Parece ser o fim da humanidade como a conhecemos.
A segunda temporada de “Wayward Pines” é isto, uma última comunidade de seres humanos a tentar sobreviver numa situação periclitante e cada vez mais improvável. Mesmo assim conseguiram atingir-me directamente nos sentimentos com uma revelação que ninguém esperava.
Penso que a premissa podia ter sido muito mais bem aproveitada mas não tenho a certeza se “Wayward Pines” julgava que ia ser renovada ou não. Todos os sobreviventes da primeira temporada são rapidamente despachados em meia dúzia de episódios, até os principais. O fim é ambíguo e frustrante. Apesar de tudo indicar que alguém tinha um plano infalível para dizimar as aberrações com um cocktail de doenças infecciosas, parece que estes não só sobreviveram mas agora estão a procriar com os seres humanos dando origem a uma nova espécie? Estou a especular, porque não sabemos. O objectivo seria renovar ou era mesmo para acabar assim?
Aconselho esta temporada a quem gosta de distopia e histórias de sobrevivência, sem grandes expectativas.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA : uma vez 


domingo, 12 de março de 2023

The Handmaid’s Tale [quarta e quinta temporadas]

[contém spoilers]

[Primeiras duas temporadas]

[Terceira temporada]

“O pânico é um desperdício de energia.”
Assistir a “The Handmaid’s Tale” é difícil. Das quatro pessoas que faziam críticas que eu lia desde o início da série, só uma delas não desistiu. Pior do que a violência física talvez seja mesmo a violência psicológica que o espectador tem de suportar tal como os personagens. Eu, no entanto, considero esta série educativa e até mesmo inspiradora, um abre-olhos, um kit de sobrevivência para quem não gosta de enterrar a cabeça na areia. Por exemplo, quando June e Luke são capturados e muito possivelmente vão ser executados, e June lhe diz quando ele se está a passar: “O pânico é um desperdício de energia.” June tem experiência com situações extremas e já percebeu que em Gilead o importante é manter sempre a cabeça fria (“keep your shit together”, como Moira lhe diz) para poder agir no caso de surgir uma mínima hipótese de fuga. Não adianta entrar em pânico. Acontecerá o que tiver de acontecer.
“O pânico é um desperdício de energia.” Vou assimilar esta lição de vida e não me esquecer dela.
“We only wanted to make the world better. Better never means better for everyone. It always means worse for some.”, diz Fred logo na primeira temporada. Nos regimes totalitários, a primeira coisa a ser proibida são os livros. Gilead não é excepção. Chamo a atenção para o nº da porta de Emily em Toronto: 451, o que certamente também não é um detalhe inocente.
No último episódio da terceira temporada, num flashback, June recorda o início de Gilead. Vemos mulheres serem presas e separadas. Vemos doentes e deficientes mentais serem levados para parte incerta. Vemos mulheres nuas a serem examinadas em contentores, recordando os campos de concentração nazis. A partir da terceira temporada (que já ultrapassa o livro de Margaret Atwood) a série começou a estabelecer cada vez mais paralelos deste tipo, a começar com o símbolo de Gilead, que não sei bem o que é mas dá a entender que é uma pomba de asas abertas. Parece mais a águia nazi, especialmente nas longas faixas negras que acompanham os procedimentos oficiais. A presença constante dos soldados a falar indistintamente ao rádio, os cães a ladrar, os adornos subliminares em forma de suástica nas portas das Jezebels e até nos canteiros da escola de Hannah, acentuam esta imagética da 2ª Guerra Mundial. Custa-me menos ver “The Handmaid’s Tale”, porque afinal é ficção, do que a assistir a documentários do que aconteceu na realidade.

Com esta ninguém contava
Mais uma vez, não esperava voltar a escrever sobre “The Handmaid’s Tale” tão cedo mas os acontecimentos no enredo já começam a ser demais para a crítica final.
A grande “bomba” da quarta temporada é sem dúvida a gravidez de Serena Joy. Como eu dizia, o casamento dos Waterfords já estava de pantanas antes da chegada de Offred e eles simplesmente já não tentavam. Ambos julgavam que o outro era estéril. Na última noite que passaram juntos, quando Serena o ia entregar aos americanos, aconteceu o improvável. A gravidez de Serena vem acentuar ainda mais que tudo o que Offred passou foi em vão.
Mas finalmente conseguimos ter uma certeza sobre a personagem: a maior ambição na vida de Serena era mesmo ser mãe, isso não era fachada. Vemo-la ajoelhada na capela do estabelecimento prisional do Tribunal Criminal Internacional, a agradecer a Deus por mais uma semana de gravidez sem perder o bebé. Isto é sincero. Serena faria tudo para ter uma criança, inclusive roubá-la à mãe. E não seria a única. Ainda antes de Gilead, quando June dá à luz Hannah, uma estranha entra na maternidade e tenta roubar o bebé. É preciso ter em mente que foi esta crise de natalidade que esteve na origem do regime de Gilead. Com esta gravidez, Serena consegue esquecer a sua obsessão com Nichole (o que já era doentio).
A quarta temporada é também aquela em que vimos June transformar-se num monstro. Depois de uma tentativa de fuga falhada, June é recapturada e desta vez a Tia Lydia propõe uma inovação para as Servas mais insubmissas, uma “Colónia de Madalenas” onde estas podem trabalhar no campo e receber os Comandantes para a Cerimónia mensal. Ou seja, uma quinta de procriação. As servas em causa não chegam a ir para lá porque conseguem fugir de vez (ou morrer pelo caminho). June é resgatada no cenário de guerra de Chicago (que me recordou o mundo apocalíptico de “The Walking Dead”) por Moira, que ali se encontrava com uma ONG humanitária. “Resgatada” não é bem o termo. Moira quase teve de a arrastar dali para fora porque June continuava a recusar sair de Gilead sem Hannah.
Enfim, June está no Canadá, junto de Luke, Moira e Nichole, mas é uma estranha que eles já não reconhecem. Na sua deposição ao representante do governo americano no exílio, Mark Tuello, June acusa Serena Joy de ser um monstro, uma sociopata narcisista e uma grande actriz. Pergunto-me se neste caso não estará a chamar roto ao nu. Sim, compreendo muito bem que June tenha regressado de Gilead um monstro de raiva e fúria, com a culpa de ter falhado (não ter conseguido libertar Hannah) e a culpa de todo o sangue nas suas mãos (por esta altura June já foi a causadora de tantas mortes como o número de pessoas que salvou, o que é um balanço complicado, mas por outro lado quem se mete na Resistência já sabe ao que se arrisca) a acrescer à frustração. E sim, acredito que Serena Joy seja um monstro, mas um outro tipo de flor venenosa: a fanática religiosa. Ainda não estou convencida da sua sociopatia porque quando Eden foi executada (temporadas atrás) Serena ficou tão impressionada que decidiu tomar uma posição pelas mulheres e raparigas de Gilead, o que lhe custou um dedo. Isto demonstra empatia.
June, por outro lado, está completamente descontrolada. Depois de uma magnífica cena em que June depõe contra Fred em tribunal (aconselho a reparar em como a câmara se vai movendo na direcção dela, tão devagar que nem se nota), com toda a compostura e coerência, Fred faz um acordo com o governo americano para revelar os segredos de Gilead em troca da sua liberdade. June perde a cabeça. Ou ganha-a, é difícil tecer julgamentos, e consegue aliciar as mulheres do seu grupo de terapia a darem vazão a toda a raiva que tentam ultrapassar. June não quer ultrapassar a raiva, quer usá-la. E com alguma sorte que a pôs no caminho das pessoas certas, consegue o que quer.
Ao primeiro visionamento, pensei que o que acontece a Fred é um barbarismo sádico, mas ao segundo visionamento mudei de ideias. Temporadas atrás, Fred dá uma tareia de cinto a Serena que não era obrigado a dar (pela lei de Gilead, isto é). No meio de tantas atrocidades em “The Handmaid’s Tale” aquilo passou-me quase despercebido (e Serena até merecia levar uma tareia, se bem que não do marido nem naquelas circunstâncias). Detestei Fred, e descobri que era possível detestá-lo ainda mais. E agora temos a confirmação de Serena de que Fred não era assim mas mudou quando o poder lhe subiu à cabeça. Como eu desconfiava. Logo, Fred não passa de um homem desprezível e só teve aquilo que mereceu.
Da primeira vez que conseguiu fugir, June quase rompeu a orelha para arrancar a etiqueta vermelha de “mulher fértil” que lhe foi colocada como se fosse gado. É curioso e intrigante que após chegar ao Canadá June não tire a etiqueta e continue a usar a cor vermelha típica das servas. Interpreto esse comportamento como o de alguém que desta vez não está disposto a deixar Gilead para trás, que quer usar a raiva contra Gilead para continuar a lutar.

Rita
Não cheguei a falar muito das Marthas. As Marthas são as criadas (escravas) de Gilead. Rita Blue é uma delas e consegue escapar. Não ter sido uma Serva não significa que esteja menos traumatizada. Tudo o que quer é esquecer um passado em que era considerada propriedade, “registada e tudo”, como ela diz. No meio de tantos horrores, foi um prazer vê-la sozinha a deliciar-se com um sushi que não teve de cozinhar ela própria no seu apartamento em Toronto. Rita é das personagens mais simpáticas e teve um fim feliz. Bem, esperemos.

Pactos com o Diabo
Também não falei muito das Tias. As Tias são a Gestapo no feminino, basicamente. São elas que determinam a vida de todas as outras mulheres, até as das Esposas. A Tia Lydia é um monstro de sadismo com muitos traumas pessoais a transformarem-na noutra fanática religiosa com um bastão de electrocutar gado na mão. Duvido que esta personagem consiga alguma vez redimir-se. Mas há progressos. Lydia desenvolveu um carinho especial pela Serva Janine e decide tratar as mulheres sob sua guarda com maior compaixão. As definições de “carinho” e “compaixão” de Lydia não são iguais às nossas, mas é melhor do que nada.
Quase afastada devido a um ataque contra si (Emily espetou-lhe uma faca nas costas, e bem merecida), Lydia encontra-se na necessidade de fazer uma aliança com alguém que antes desprezava, o Comandante Lawrence. Também a situação dele é periclitante, mas neste pacto improvável ambos decidem “corrigir Gilead” no que está mal. Finalmente percebemos que Lawrence foi vítima das utopias que escreveu e que nunca deviam ter passado de ficção. Lawrence odeia Gilead. A sua última invenção é a ilha de New Bethlehem, sem as regras de Gilead, sem Servas nem enforcamentos e sem proibição de ler, para atrair os refugiados de volta. Curiosamente, a ideia quase consegue convencer June (aliciada pela proximidade de Hannah), que abre os olhos a tempo.

Por esta altura, dois movimentos curiosos começam a desenvolver-se no Canadá sem que estejam aparentemente relacionados. Um deles é religioso e apoia os Waterfords. Em suma, as pessoas ficam fascinadas com Serena e a sua gravidez miraculosa. Não é de espantar. A crise de natalidade é real. Serena é uma mulher bonita, alta, carismática, boa oradora quando a deixam abrir a boca, uma Grace Kelly encantadora. Os casais inférteis podem naturalmente pensar, em desespero de causa, que se Gilead consegue uma gravidez de uma “mulher estéril” eles também deviam fazer o mesmo, fechando os olhos a todas as atrocidades. O imperativo biológico de procriar é muito forte.
O outro movimento é talvez ainda mais preocupante. Se a princípio os refugiados de Gilead eram bem-vindos, agora uma contra-corrente de canadianos começa a querê-los fora do país.
Sabendo isto tudo, Serena dirige-se a Gilead onde se sente em casa para fazer propostas, e leva patadas atrás de patadas. Mas uma fanática não desiste, e Serena ajudou a conceber Gilead, excepto quando…

Pacto de duas diabas
O episódio mais marcante da quinta temporada, se não da série toda, no entanto, é “No Man's Land”. June e Luke fazem uma incursão por terras de ninguém (em busca de informação sobre Hannah) onde June é capturada para ser executada em Gilead ou pelo caminho. Entretanto, Serena é enviada para um Centro de Informação de Gilead em Toronto, tipo uma embaixadora informal, mas o Centro é depressa fechado. Ficamos a saber que Gilead tem gente rica e poderosa do seu lado no Canadá, e Serena vê-se “refugiada” na casa dos Wheelers. É um paralelo com os Waterfords, porque Mrs. Wheeler prende Serena na propriedade e tenciona roubar-lhe o bebé. Pela primeira vez, Serena sabe o que é ser uma Serva, e não gosta nada.
Conseguindo convencer Mr. Wheeler de que quer ser ela a matar June, consegue fugir da mansão, já em trabalho de parto. E assim as duas inimigas confrontam-se em pleno matagal, sozinhas. Muito contra a sua vontade, June ajuda Serena a ter o filho. A solidariedade feminina sobrepõe-se ao ódio. Esta série não é sobre a infertilidade; pelo contrário, o tema principal é a maternidade.
Este foi um dos melhores episódios que eu já vi na vida, por todas as razões e mais alguma, e especialmente pelo realismo com que se desenrola o parto. Se Elisabeth Moss faz um papelão quando teve de dar à luz Nichole sozinha, Yvonne Strahovski não lhe fica atrás. Se Serena Joy merecia ajuda? Talvez não, mas June é incapaz de virar as costas a outra mulher em dificuldades. Talvez agora, que Serena está em muito maus lençóis, June consiga seguir em frente e dar a vingança por terminada.

O fim está próximo
O que podemos esperar da última temporada? Eu gostava de ver a redenção de alguns personagens. Mas não quero, NÃO QUERO, ver o apaixonado Nick Blaine na Parede, nem Luke, ou, pior ainda, a pobre Janine (a quem saiu a sorte grande ao ser colocada na casa de Lawrence e não percebeu a oportunidade que deitou fora. Se ao menos June lhe tivesse contado mais coisas…) Lawrence e Lydia podem muito bem acabar na Parede, se bem que eu preferisse uma redenção. Mas é possível redimir Lydia? Duvido. E Serena Joy, terá finalmente a epifania de perceber que o seu papel é ajudar a derrubar Gilead, da mesma forma que derrubou o governo dos Estados Unidos? E o desgraçado Mark Tuello, que tem um fraquinho romântico por Serena, terá alguma sorte?
Por último, e June? Esta é uma mulher capaz de tudo para resgatar a filha Hannah. Será que vamos ter um final feliz… ou não? Isto é “The Handmais’s Tale”, não esqueçamos. June já gastou toda a sorte que tinha.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 3 vezes

domingo, 5 de fevereiro de 2023

The Hunger Games: Mockingjay - Part 2 / Os Jogos da Fome: A Revolta - Parte 2 (2015)


Gostei muito mais deste último “episódio” de “The Hunger Games”, muito devendo a finalmente terem deixado brilhar as estrelas: Donald Sutherland e Julianne Moore. Parecendo que não, é logo outro nível. Concomitantemente, o meu prazer neste último filme pode dever-se também ao efeito “Acabou! Acabou!”. Admito que já estava cansada do formato e queria uma resolução. Então vamos lá ao mais importante.
Finalmente, Katniss decide-se e fica com o… Haha, como se eu fosse dizer! Os leitores deste blog já devem sabê-lo, romances (e triângulos amorosos) Young Adult não me excitam grandemente e este já durava há tempo a mais.
No último filme, Katniss continua no coração da Resistência, onde a Presidente Coin (Julianne Moore) a utiliza como símbolo para galvanizar a rebelião contra o Capitólio. Mas Katniss não é rapariga de ficar metida num bunker a ser um símbolo e decide ir pessoalmente ao Capitólio apertar o gasganete ao Presidente Snow (Donald Sutherland), como ele merece.
Aqui acontece a parte mais idiota do filme. O Capitólio encontra-se sob ataque da Resistência, uma equipa de soldados acompanha Katniss pelas ruas da cidade, e, em vez de exercer uma resposta militar, o Capitólio decide colocar armadilhas aqui e ali e televisioná-las, como se fosse mais uma edição dos Jogos da Fome. Às vezes nem percebi muito bem o que estava a acontecer. Por exemplo, uma das armadilhas lança toneladas de óleo, supostamente para afogar a equipa. Não teria sido mais eficiente incendiar o óleo?... Desta forma a equipa conseguiu escapar para um prédio alto. Com o óleo a arder talvez não tivesse escapado. Não estou a ser má, estou a pensar em termos militares. Não percebi aquilo.
Mas avançando. Sem incorrer em muitos spoilers, Katniss apercebe-se de que a Presidente Coin tenciona tomar o poder e reinstaurar os Jogos da Fome, desta vez com os apoiantes do Presidente Snow como vítimas. Katniss não gosta nada da ideia. Afinal, tanto Coin como Snow são iguais no sentido em que só pensam em conquistar e manter o poder. Gostei da reviravolta.
O final é bastante satisfatório para o que se pretendia desta distopia Young Adult. Eu queria mais, muito mais, mas já sabia que não o teria daqui. Adeus, “Hunger Games”. Acabou, acabou!

14 em 20


domingo, 25 de dezembro de 2022

The Handmaid’s Tale [terceira temporada]


[contém spoilers!]

[Primeiras duas temporadas]

Não esperava escrever tão cedo sobre esta série mas há tanta coisa a acontecer na terceira temporada que merece um post próprio.
Esta é a temporada em que o mundo se expande para lá de Gilead. É a temporada em que conhecemos a Resistência. É a temporada em que Serena Joy “fornica” o marido (e não no bom sentido) e em que Fred se vinga “fornicando-a” também.
Após a fuga de Emily, auxiliada pelo enigmático Comandante Joseph Lawrence, June é destacada precisamente para casa dele (a pedido de Lawrence, obviamente), passando a chamar-se Ofjoseph.
É-nos dito que Lawrence foi o grande arquitecto da economia de Gilead, mas eu pergunto: qual economia? Daquilo que percebemos das temporadas anteriores Gilead não tem economia, está sob sanções de muitos países que se recusam a estabelecer relações comerciais devido à falta de respeito pelos direitos humanos de Gilead, não existe turismo, o Canadá acolhe todos os refugiados de Gilead, a comida é racionada e só existem produtos da época devido a uma agricultura à antiga, e a “economia” das colónias (continuo sem saber onde elas são) resume-se a encher sacos de lixo radioactivo. A série não conseguiu estabelecer isto, mas percebe-se que Lawrence é efectivamente muito importante porque nem se digna de sair de casa para reuniões com os outros comandantes: são eles que vão à casa dele. Se isto não é importância e estatuto não sei o que será.
Devido a esse estatuto irrepreensível, Lawrence é a pessoa ideal para ser simpatizante da Resistência, especialmente porque a sua mulher, a quem ele adora, tem problemas mentais e sofre imenso com o que se passa no regime. Por esta razão, Lawrence não permite que ela saia de casa (para não ver o que se passa e para não trair o que se passa na casa deles). A casa de Lawrence, mesmo debaixo dos narizes dos outros comandantes, é um núcleo da Resistência. As Marthas (criadas para quem ninguém olha, que não são tão escrutinadas como as Servas) são as suas principais agentes com ajuda de alguns guardas e até comandantes que querem destruir o regime do seu interior.
Nesta temporada, e a série foi bastante criticada por isso, June comete vários erros de julgamento que teriam significado a morte de qualquer outro personagem. Mas June adquire um execrável “plot armour” (não pode morrer porque o que seria do enredo se a protagonista morresse?) e escapa a todos os erros com um puxão de orelhas, a ponto de se tornar irrealista num mundo em que as pessoas vão parar à forca e são penduradas na parede (como exemplo) à menor transgressão.
Algo que vai valendo a June é a protecção de Lawrence, a quem esta convence de que a mulher dele estaria melhor fora de Gilead porque a doença mental está a agravar-se e é cada vez mais difícil encontrarem-lhe a medicação de que ela precisa. Lawrence acaba por concordar.
Podemos pensar muito mal de Lawrence, um dos arquitectos de Gilead, que embora simpatizante da Resistência não faz parte dela e também não atrapalha. Mas uma coisa é certa: Lawrence ama a mulher Eleanor, a sério e de verdade.
No entanto, Lawrence tem inimigos. Como sempre nestes regimes, há facadas nas costas. Fred Waterford, antigo “dono” de Offred, insinua que Lawrence não está a cumprir o seu dever na Cerimónia, uma vez que já teve quatro Servas sem “produtividade”. Fred, um outro comandante, Serena Joy e a Tia Lydia (não falei das Tias antes, mas estas são as carcereiras sádicas que “treinam” e controlam todos os pormenores das vidas das Servas) sugerem proceder a um Testemunho, isto é, irem a casa de Lawrence na noite da Cerimónia para testemunharem se esta é realizada.
Foi a cena mais difícil de ver em “The Handmaid’s Tale” (o que não é dizer pouco nesta série). Lawrence, Eleanor e June fecham-se no quarto e Lawrence sugere que não façam nada enquanto Eleanor, fora de si, lhe grita: “Tu prometeste que nunca teríamos de fazer isto!” Ficamos a saber que a Cerimónia nunca aconteceu na casa de Lawrence. Tem de ser June a explicar que a Cerimónia tem mesmo de acontecer porque a Tia Lydia trouxe um médico para a examinar depois. Se Lawrence não fizer sexo com ela, não é o único a ser punido: ele, a esposa, as criadas e June, todos correm risco de vida. Lawrence pede à esposa que se sente a um canto, jurando que não significa nada, e corre as cortinas para ela não ver. Nesta cena, todos são violados. Ninguém está a salvo em Gilead.
No dia seguinte, Lawrence faz planos para fugir.
É também na terceira temporada que June começa a exibir um carácter de quem está disposto a tudo para lutar, e não apenas sobreviver. Quando June encontra Eleanor em coma numa tentativa de suicídio com comprimidos, June ainda pensa em ajudá-la… e de repente pára e pensa melhor, no seu momento “Breaking Bad”. Eleanor, completamente instável e descompensada, queria ir falar a toda a gente dos planos de fuga para “salvar as crianças” raptadas aos pais. A sua morte resolve esse problema. Algumas pessoas viram compaixão no acto de June para com uma mulher em sofrimento que quer morrer, e acredito que tenha havido uma parte disso também, mas acredito mais que June pensou duas vezes e deixou as coisas acontecerem como lhe interessava mais. 


Fred e Serena
Mas voltemos ao nosso casal “preferido”. Vimos a saber que Fred costumava trabalhar em marketing. Para convencer os canadianos a devolverem Nichole (a bebé de June e Nick que Emily levou com ela ao fugir) organiza grandes eventos de oração em que June tem de colaborar à força. Aqui parece que os canadianos estão numa de realpolitik, porque começam a dizer que é melhor reatarem negociações com o vizinho Gilead por causa das relações comerciais e isso tudo. Mas Gilead está a usar Nichole para tentar que o Canadá extradite todos os refugiados no seu território, atrasando as negociações de propósito. Serena apercebe-se disto e sugere a Fred que contactem um representante do governo americano no exílio, um homem da sua confiança, para recuperarem a bebé mais cedo. Sozinhos, de carro, Fred e Serena vão ao encontro deste representante, que imediatamente prende Fred por crimes de guerra. Mais tarde Fred vem a saber quem o traiu: Serena. Eu fiquei tão atónita como ele. Serena enganou-nos bem. Mas Fred também tem crimes a apontar a Serena, e Serena é presa também. Adoro quando são os próprios maus a destruírem-se uns aos outros. Foi uma satisfação indescritível.
Mas porque é que Serena Joy traiu Fred? Pela promessa de passar algum tempo com a bebé Nichole, a quem ela chama “filha”. Ora, aqui há conclusões a tecer sobre Serena. Eu nunca acreditei quando ela dizia que ter um filho era tudo o que queria da vida. Sempre pensei que era uma desculpa, que Serena foi uma das arquitectas de Gilead pela ambição do poder mas o tiro saiu-lhe pela culatra. Neste episódio fui obrigada a acreditar que Serena, apesar de se encontrar agora no “mundo normal”, ainda vive na fantasia e obsessão em que ela é a mãe de Nichole, embora a criança nada lhe seja biologicamente e esteja a viver com o marido de June. Isto já é caso de psiquiatra, o que explicaria muita coisa.
“The Handmaid’s Tale” tem representações notáveis, especialmente a de Elisabeth Moss (que conhecemos de “Mad Men”) no seu enorme papelão como Offred/June, mas eu quero destacar o magnífico trabalho da actriz Yvonne Strahovski (Serena Joy), ainda por cima uma vilã, a quem não conhecemos o monólogo interior como no caso de June, e que mesmo assim nos engana e deixa na dúvida, quando o mais normal seria sentirmos uma repulsa imediata por Serena Joy.
Já vi mais temporadas de “The Handmaid’s Tale”. Se alguém ficar frustrado com a aparente falta de movimento da terceira temporada (discordo, mas algumas pessoas preferiam que o enredo andasse para a frente mais depressa) garanto que a partir daqui as coisas começam mesmo a aquecer.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes

 

domingo, 4 de dezembro de 2022

The Handmaid’s Tale (2017-?)


[crítica à primeira e segunda temporadas]

Uma das séries mais chocantes dos últimos tempos, esta é a adaptação do livro homónimo de Margaret Atwood.
Antes de entrarmos na crítica propriamente dita, tenho duas coisas a dizer.
A primeira, é que fiquei chocada por haver mulheres que ficaram chocadas por esta série mostrar o quanto as mulheres podem ser más umas para as outras. Não percebo, sinceramente. Que existências resguardadas devem estas “chocadas” ter experimentado a vida toda ou, pelo contrário, o “choque” é fingido. Custa-me a acreditar que uma mulher não conheça a perfídia (e o fingimento) de que outra mulher é capaz.
Segundo, embora não seja grande apologista de leituras obrigatórias, penso que este livro (e/ou a série), tal como outros clássicos distópicos como “1984” de George Orwell e “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, deviam fazer parte de um kit de leitura de sobrevivência e prevenção contra todos os totalitarismos.
Acho muito curioso que o livro tenha sido publicado em “1985” (embora todos os livros sejam escritos muito antes), como se uma sequência natural de “1984”. Terá sido apenas uma coincidência, mas não deixa de ser interessante.
Uma vez que não estou a escrever um livro, posso dar-me ao luxo de um pequeno info dump para situar a história. A Terra está tão poluída que isso se reflectiu nas taxas de fertilidade e natalidade. Muito poucas mulheres conseguem engravidar e levar a gravidez a termo, ou mesmo dar à luz bebés saudáveis. (Isto recorda outro clássico distópico, “Children of Men” de P. D. James, mas muito mais chocante.) Na América, uma facção de fanáticos religiosos chamados Sons of Jacob tomam o poder pela propaganda e pela força, entrando em guerra com o governo americano (que perde) e estabelecendo o regime do novo país Gilead. Mulheres férteis são escravizadas como Handmaidens (Servas) para darem à luz os filhos dos governantes de Gilead.
Pauso novamente para explicar de onde os Sons of Jacob tiraram a ideia. É possível que os Sons of Jacob tenham sido uma seita evangélica antes do regime, mas os pressupostos bíblicos em que se baseiam e a nova religião que inventam não têm nada a ver com qualquer cristianismo que conheçamos hoje. A ideia das Servas vem do episódio bíblico em que Raquel, sendo estéril, “oferece” a sua serva (escrava) Bila a Jacó (a Bíblia está cheia destes exemplos edificantes) para que este tivesse relações sexuais com ela e Bila “parisse sobre os joelhos” de Raquel, como se o filho fosse desta. (Génesis 30, 1-5) Basicamente, Bila é uma barriga de aluguer à força, tal como o são estas novas Servas de Gilead.
A nova religião leva este “sobre os joelhos” completamente à letra e inventa um ritual em que a Serva é violada no meio das pernas da esposa enquanto o marido a penetra sem lhe tocar. Isto não é só doentio e repugnante e criminoso, acho-o mesmo escabroso e até um pouco badalhoco (em todos os sentidos). Mas segundo a doutrina do ritual em que marido e mulher participam, a Serva é apenas o receptáculo entre eles.
Da mesma forma, quando a Serva dá à luz, a esposa finge que também está a dar à luz, fazendo a respiração e tudo. Dito assim, até parece cómico. Foi mesmo por achar cómico que uma das futuras Servas, ainda em “formação”, perdeu um olho.
Quando as Servas têm filhos, as crianças são-lhes tiradas e as Servas são enviadas para um novo “destacamento”. Uma vida de inferno.

Offred / June
Offred é a Serva do Comandante Fred Waterford (daí o nome OfFred) e da sua esposa Serena Joy. Na “outra vida” Offred chamava-se June, casada com Luke e mãe de Hannah. Quando o regime de Gilead começou a exercer poder, como a própria June explica, estavam “adormecidos”, incapazes de acreditar que as coisas chegassem tão longe. Mas então começa a guerra e o totalitarismo impõe-se de forma brutal e sangrenta. June e Luke ainda tentam fugir para o Canadá, mas são apanhados. Luke consegue escapar, com ajuda de estranhos. Hannah é retirada à mãe e entregue a um casal de dirigentes do novo regime. June, por ser fértil, é “recondicionada” para ser Serva, o que implica tortura, lavagem cerebral, mutilação e até morte para as mais rebeldes.
Demorei um bocado a perceber que nem todas as mulheres férteis iam para Servas. June não escapou porque é considerada adúltera. Descobrimos depois que June e Luke começaram por ter um caso enquanto ele ainda era casado com outra mulher, de quem se divorciou para casar com June. Basta isto para ser pecado, ou desculpa, para arrebanharem mais uma Serva. Mães solteiras, lésbicas, “pecadoras” várias, desde que férteis, vão para Servas. Outras mulheres vão para Marthas (criadas domésticas). Em Gilead tudo está previsto, até as cores com que todas se vestem: as Esposas vestem verde, as Servas vermelho, as Marthas cinzento. Assim não há confusões quanto ao lugar de cada qual na sociedade. Para além da violação ritualizada uma vez por mês, chamada a Cerimónia, as Servas também podem ir às compras, duas a duas, por ruas cheias de enforcados: homossexuais, médicos que fazem abortos, até padres. Gilead não gosta da religião antiga porque tem a sua.
As mulheres são proibidas de ler, até mesmo a Bíblia. A pena por ler é o corte de um dedo ou da mão toda. (Pergunto-me como é que eles pensam continuar a fazer isto no futuro. Para uma sociedade que passa o tempo a declamar salmos e outras passagens bíblicas memorizadas, vai tornar-se difícil que as mulheres memorizem o que não conseguem ler… Mas se calhar bastará um ”ámen”, como na Idade Média em que o povo também não lia.)
Como desculpa para todos estes horrores, os dirigentes de Gilead proclamam que estão a criar um mundo sem poluição (à excepção dos carros e aviões deles). Isto justifica também regressar a hábitos “tradicionais”, como andar 300 anos para trás.
Não há nada em “The Handmaid’s Tale” que não se tenha passado algures na História, como diz a própria autora, mas admito que aquela violação escabrosa e institucional a dois possa ser um elemento realmente original.
Nesta sociedade santarrona, apesar de tudo, o vício tem lugar nos bastidores. Quando uma mulher é considerada “irredimível” é enviada para bordéis secretos onde é chamada Jezebel. A Jezebel é igualmente uma escrava, mas não institucional. As mulheres, até mesmo as Esposas, perderam todo e qualquer poder. Se sabem, fecham os olhos.
Finalmente, quando a mulher já não tem qualquer valor reprodutivo ou sexual, ou é demasiado rebelde, é enviada para as sinistras Colónias (ainda não percebi onde são) encher sacos de lixo radioactivo até à morte. Estas são chamadas Unwomen, o que lembra a “non-person” de Orwell (quem era morto pelo regime). Aliás, o que não falta aqui é “new-speak”, como em qualquer totalitarismo. “Bendito Seja o Fruto”, “Que o Senhor Abra”, é a saudação entre Servas. Cada classe tem a sua.
Offred tem momentos de grande desespero, mas não pode desistir porque não perde a esperança de salvar a filha Hannah. Isto é um grande motivador. Outras mulheres perdem a cabeça (como Janine) ou recorrem à violência em desespero de causa (como Emily, que já não julga escapar com vida). Offred tem dois grandes trunfos para além da motivação de encontrar a filha: é uma manipuladora nata, e está (sempre esteve) muito à vontade com a sua sexualidade. Isto permite-lhe, por exemplo, seduzir o Comandante Fred e fingir-se sua amante (chega a fazer sexo com ele fora da obrigação da Cerimónia) de modo a obter mais margem de manobra e protecção. Não imagino uma Emily a conseguir fingir isto, mesmo que quisesse. Numa forma de reclamar o seu corpo e a sua sexualidade, June envolve-se numa relação romântica (e consensual) com o guarda/motorista dos Waterford, Nick, o que se vai revelar fulcral para o desenvolvimento do enredo.
June tem a perfeita consciência de que pisa demasiado o risco. É necessário resistir, mas não ser estúpida a ponto de ser enforcada: morta, não conseguirá ajudar a filha. Mas June não é a personagem perfeita, longe disso. Tal como alguém lhe diz, já na terceira temporada, muitas vezes é egoísta e age apenas no seu interesse, não importando quem tenha de sacrificar. E é verdade, por exemplo, quando quase obriga um casal a ajudá-la a fugir, o que estes fazem por decência, com resultados funestos. (Curiosamente, esta é uma família muçulmana que esconde o Corão debaixo da cama, o que leva June a meditar que podia ter sido a família dela, se tivessem sabido jogar o jogo, se soubessem que o estavam a jogar, e se tivessem frequentado “a igreja certa”. As famílias medianas em Gilead não têm Servas e Marthas ao dispor, são apenas gente normal a tentar sobreviver mesmo que tenham de esconder a sua religião, o que nos leva imediatamente para um paralelo com o Nazismo.)
Noutra situação, Offred incita as outras Servas à revolta, sabendo que por estar grávida se tornou “intocável”, mas as outras são barbaramente castigadas e June tem de viver com essa culpa. Mas eu gosto de personagens realistas, complexas e atormentadas. O que nos leva aos verdadeiros vilões.

Fred e Serena Joy Waterford
“The Handmaid’s Tale” recorre bastante aos flashbacks para nos mostrar como as coisas evoluíram até Gilead. Fred e Serena eram dois fanáticos fundamentalistas que já na altura acreditavam que a humanidade estava à beira da extinção e que era preciso tomar todas as medidas necessárias para o evitar, drásticas que fossem. Serena foi mesmo uma das arquitectas do regime ao escrever o livro “O lugar de uma mulher” onde expôs o seu conceito de “feminismo doméstico” , remetendo a mulher ao seu papel de esposa e mãe. Sim, ironicamente, foi ideia dela. Isto ainda era no tempo em que Fred e Serena se olhavam como iguais e Serena escrevia livros e dava palestras. Depois de Gilead, tudo mudou. Agora Serena não pode sequer ler o seu próprio livro, e aceitou tudo isto voluntariamente por acreditar na “causa maior”. Mas quando Offred chega a casa dos Waterfords, o casamento deles já está de pantanas. Já não dormem juntos, já quase nem se falam. Serena Joy é a personagem mais complexa nisto tudo. Apesar de ter tido parte bastante activa no estado de coisas, tenta afogar todas as frustrações no objectivo (ou obsessão) de ter um filho através de uma Serva, mas cá para mim não há nada que sacie Serena Joy porque todo o seu intelecto e brilhantismo foram apagados na sociedade que ela própria criou. Não admira que tenha dores de consciência ocasionais, e ataques de raiva que descarrega na Serva e nos criados. Serena Joy poderá nunca ser absolvida perante a sociedade pelos crimes que cometeu, mas também não encontrará paz de espírito enquanto não aceitar os seus erros.
Fred é o personagem menos explicado. Nos flashbacks de “antes” vemos claramente que não era o monstro em que Gilead o tornou, nem Serena Joy teria casado com ele se o fosse, mas não percebemos exactamente como é que ocorreu a transformação de homem que apoia e admira a mulher que escreve livros e discursa em público para marido capaz de a castigar com tareias de cinto. É uma grande diferença e só posso concluir, sem outros motivos, que o poder lhe subiu à cabeça. Mas o estatuto de pai de família é importante e não lhe corre bem alienar ainda mais Serena Joy. Não conseguimos empatizar com estes monstros, mas salta à vista que ninguém é feliz em Gilead, nem os mais poderosos do regime.

Uma série mais actual do que a própria Margaret Atwood poderá ter julgado em 1985
Haverá mais a dizer com as temporadas seguintes, mas para já decidi ficar por aqui. “The Handmaid’s Tale” é uma história cada vez mais actual. Basta recordar que em alguns estados americanos, muito recentemente, o aborto foi proibido. Tal como nos diz a própria série, “não aconteceu da noite para o dia”. Foi progressivo, de perda de liberdade em perda de liberdade até à submissão total.
Destaco ainda a belíssima cinematografia que contrasta propositadamente com as atrocidades a que temos de assistir. Neste aspecto, e pelo tema, “The Handmaid’s Tale” lembra-me “The Man in the High Castle”, mas muito mais realista e acutilante.
Esta é uma série difícil de ver pela tortura e pela barbaridade, mas que aconselho a toda a gente, especialmente àqueles que preferem enterrar a cabeça na areia até ser demasiado tarde (como June e Luke) e não gostam de ver estas coisas. Dois olhinhos bem abertos evitam muitos males. Há que pará-los antes de começarem.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes

domingo, 20 de março de 2022

The Incredible Tide, de Alexander Key


Admito que fui à procura deste livro assim que descobri que foi a base de inspiração dos desenhos animados “Conan, o rapaz do futuro”, tão queridos da minha infância. Não fiquei desapontada. Se os desenhos animados estão cheios de exagero, de infantilidades, de super-poderes, “The Incredible Tide” é uma história realista e adulta, entre o mundo pós-apocalíptico, a ficção científica e a distopia.
Conan é realmente um rapaz do futuro, mas um rapaz muito mais vulnerável do que aquele que conhecemos. A Terceira Guerra Mundial aconteceu. Ambos os lados beligerantes insistiram em usar armas magnéticas para destruir as cúpulas magnéticas que protegiam as cidades de ataques, ignorando os avisos do Professor Briac Roa. (O livro foi publicado em 1970, em plena guerra fria; de certeza o autor queria referir-se às armas nucleares.) O que conseguiram com o uso das armas magnéticas foi a inversão dos pólos da Terra (como no filme “2012”), destruindo o planeta. Os poucos sobreviventes a esta gigantesca tsunami (o mar que cobriu os continentes) são aqueles que conseguiram refugiar-se em picos elevados.
Conan, ainda muito jovem, vai dar a um destes refúgios, sozinho, sem utensílios. Para sobreviver tem de construir tudo pela força braçal. Alguns anos depois é de facto um adolescente forte, mas devido ao esforço físico que a própria sobrevivência lhe exigiu.
No pós-guerra, um poder assume-se, intitulado a New Order, que tem como sede a cidade de Industria e procura incessantemente o Professor Briac Roa, o último cientista capaz de produzir a energia de que Industria precisa desesperadamente. Esta New Order é tão tirânica como se podia esperar de um regime único num mundo apocalíptico e o Professor faz tudo para lhes fugir.
Entretanto, Conan é “resgatado”, ou melhor, capturado, e levado para Industria onde, para sua surpresa, encontra o Professor disfarçado debaixo dos narizes da New Order sem que ninguém desconfie.
O Professor tem planos de se reunir à sua família, noutro refúgio chamado High Harbor. É aqui que entra outra das melhores personagens, a sua neta Lana. Lana conseguiu desenvolver uma espécie de comunicação telepática com os animais, especialmente com os pássaros. O Professor e a filha dele, por outro lado, conseguem comunicar telepaticamente um com o outro.
Juntos, num barco construído pelo Professor, atravessando oceanos tão novos como desconhecidos, e perante uma estranha ameaça climática chamada a “época dos nevoeiros”, Conan e o Professor vivem a aventura de chegar a High Harbor perseguidos pela New Order e por outro perigo iminente. Acontece que a cidade de Industria está sobre uma falha tectónica e não tarda a cair para o mar, o que vai provocar uma tsunami gigantesca. Conan e o Professor têm de chegar a terra antes dela.
Eu estava realmente a gostar até chegarmos ao fim: o fim é tão abrupto que me perguntei se a minha edição estava completa. Mas parece que sim, está mesmo completa, e o final não faz justiça ao resto. Mesmo assim, uma boa leitura para quem gosta de aventura, ficção científica, distopia e mundos pós-apocalípticos.

“Conan, o rapaz do futuro”


Não podia acabar sem falar do desenho animado que me levou a ler “The Incredible Tide”. É claro que não esperava o mesmo, mas comparativamente fiquei desiludida. O papel de Lana é muito mais extenso no desenho animado de Hayao Miyazaki. Senti também a falta de Monsley, personagem de “Conan” que não entra no livro. Acontece que Monsley era a minha personagem preferida, o meu primeiro contacto com uma vilã “cinzenta”, como se diz agora. Monsley trabalha para Industria e persegue Conan e os amigos. Extremamente traumatizada pela tsunami a que sobreviveu quando era criança, tem momentos de vulnerabilidade que a tornam empática. Recordo perfeitamente a cena fulcral em que a tsunami se aproxima e Monsley fica paralisada. Conan, que tem à disposição um submarino para escapar à onda assassina, arrisca a vida para sair do submarino, pega nela ao colo e leva-a para segurança, o que inicia uma nova dinâmica entre Monsley e os heróis. A personagem mais parecida, no livro, é Doctor Manski, uma pesquisadora completamente devotada à New Order que abre os olhos quando percebe que o regime que serve não é inteiramente benévolo. Mas Manski não tem a profundidade de uma Monsley, na minha opinião a melhor adição que “Conan, o rapaz do futuro” fez à história original.
Apesar de tudo isto, gostei de rever estas personagens de infância, se bem que em versão adulta e num livro muito sério. Aconselho a todos os fãs de “Conan, o rapaz do futuro”, e aos outros também.


domingo, 5 de dezembro de 2021

Brave New World / Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley


Uma distopia é sempre a utopia de quem a inventou. Perguntem aos comunismos, aos fascismos, até ao nazismo, e a resposta seria igual: instituir um regime para o Bem comum, para a melhoria e estabilidade da sociedade ideal conforme esse regime a imagina. A própria democracia é uma utopia, mas, como disse o outro, é o método de governo menos mau que já inventámos até agora.
“Brave New World” foi publicado em 1932, entre duas guerras. O título espanhol é particularmente bem conseguido ao traduzi-lo como “Um Mundo Feliz”. “Brave New World” foi o livro que iniciou todas as distopias, mas não temos aqui a violência e a brutalidade de George Orwell ou Ray Bradbury. George Orwell e Ray Bradbury já tinham visto regimes que Huxley não viu. Como li numa outra crítica, se em “1984” (George Orwell)* as pessoas são controladas pelo medo, em “Brave New World” as pessoas são controladas pelo prazer. Se em “Farenheit 451” (Ray Bradbury) os livros são queimados, em “Brave New World” as pessoas estão tão imersas em prazeres acéfalos que já ninguém quer ler livros.
O livro deve ter sido bastante chocante em 1932, mas, admito, quase 100 anos depois, eu própria fiquei chocada. Na sociedade de “Brave New World” não há mães nem pais. Aliás, “mãe” e “pai” são palavras obscenas. Todos os bebés são feitos em laboratório e a sua inteligência é manipulada, ainda no tubo onde são gerados, de acordo com as funções que essa pessoa vai ser condicionada a desempenhar. Desse modo, por exemplo, um bebé condicionado para trabalhos manuais nunca ficaria frustrado com o seu trabalho, enquanto que a um sujeito Alfa é permitido que a inteligência se desenvolva e são atribuídos trabalhos intelectuais. Resultado, o trabalhador da fábrica é feliz, o Alfa é feliz. São todos felizes e não questionam.
A juntar a isto, o sexo com vários parceiros é incentivado. O objectivo é que o sujeito nunca crie laços afectivos (com uma família, por exemplo) ou passionais (com um só amante). Essas emoções fortes criam motivações, ressentimentos, ódios, instabilidade. Para que todos sejam felizes, a sociedade tem de ser estável.
Neste mundo, nunca ninguém está sozinho nem tem tempo de pensar. Ou estão a trabalhar ou a divertir-se em jogos ou filmes. A juntar a isto, a sociedade fornece uma droga, Soma, para quem começar a pensar demais. A ciência está tão avançada que as pessoas podem divertir-se, sem adoecer ou envelhecer, até morrerem.
Isto não é muito diferente do nosso mundo, pois não? Até há quem já tenha experimentado este modo de vida. Tirando a parte não envelhecer e morrer de overdose, isto é.
Confesso que em algumas passagens me senti atraída por esta sociedade de juventude e felicidade permanente. Não era tão bom? Estar contente, estar sempre contente?
No nosso mundo, por exemplo, não se pode manifestar muita tristeza. Mandam-nos logo para o psiquiatra e dão-nos antidepressivos. Pensar demasiado na morte? Prolongar "demasiado" um luto? Não gostar particularmente da vida? Só podem ser doenças mentais. Venha daí uma tablete de Soma. Sim, estamos quase lá.
A esta sociedade chega um estranho, a quem chamam Selvagem, que acidentalmente leu todas as obras de Shakespeare. São obras proibidas, mas mesmo que estivessem disponíveis talvez ninguém lhes pegasse porque são “velhas”. O Selvagem fica chocado com o que vê. Foi criado noutros princípios e não quer viver numa sociedade sem individualidade nem espiritualidade, em que não existe noção de transcendente, em que não há sequer a necessidade de Deus.
Num diálogo muito filosófico com o Controlador do Mundo, o Selvagem diz-lhe:

"But I don't want comfort. I want God, I want poetry, I want real danger, I want freedom, I want goodness. I want sin."
"In fact," said Mustapha Mond, "you're claiming the right to be unhappy."
"All right then," said the Savage defiantly, "I'm claiming the right to be unhappy"


No nosso mundo, aqui, que não é uma utopia de certeza, há cada vez menos este direito à infelicidade. Ninguém quer ser infeliz e ninguém quer lidar com os infelizes.
Há dissidentes, no mundo artificialmente feliz de “Brave New World”. Mas não há medo, tortura, violência, intimação. Os dissidentes, os que recusam esta sociedade sem individualidade, são simplesmente enviados para ilhas distantes onde podem viver uns com os outros como lhes apetece. Dois dos amigos do Selvagem são enviados para lá, compulsivamente. O Selvagem também quer ir, mas recusam-lhe o desejo. Como filho de um pai e de uma mãe naturais, tornou-se um valioso espécime de estudo. Mas o Selvagem também não tem qualquer interesse em ser estudado. Foge da civilização, cheio de culpa e remorsos devido à morte da mãe, e entrega-se, por sua vez, a uma outra utopia, a religiosa, vivendo num farol abandonado como um monge eremita, com auto-flagelação e tudo.
Nem mesmo assim o deixam em paz. Alguém o descobre e o transforma num divertimento circense, numa atracção de Feira de Aberrações. Tal como eu previa, o Selvagem não aguenta mais este isolamento, esta sensação de ser único e incompreendido, e volta-se para o Soma também. Mas não previ o que aconteceria a seguir.
Este livro continua tão actual como no dia em que foi publicado, se não mais, porque a nossa sociedade caminha (ou já lá está?) para o hedonismo absoluto, mesmo sem precisarmos de ser condicionados. Quem é que não quer estar contente, sempre contente? Mas de que vale a vida sem a morte, a alegria sem o sofrimento? Valerá alguma coisa? Uma excelente reflexão a termos todos.

* Nota sobre “1984” de George Orwell
Entretanto, li também “1984” de George Orwell. Fiz a crítica, agendei o post, estava pronto a publicar. Desgraçadamente, entrei no post agendado para mudar uma vírgula. Com um CTRL+Z desastrado, apaguei o post todo. O Blogger tem um sistema de “auto save” e não me permitiu voltar atrás com outro CTRL+Z. Lá se foi a crítica toda, e que trabalho me deu a escrever! Como o post já estava pronto, corrigido e agendado no Blogger, já não tinha sequer o rascunho da crítica. Fiquei tão zangada, mas tão zangada, que desisti de a escrever outra vez. Neste momento ter-me-iam dado jeito uns comprimidos de Soma para acalmar. Serviu-me de lição. Agora não apago os rascunhos enquanto os posts não estiverem publicados e guardados em back up.
Devido à violência do livro, também não voltarei a lê-lo e muito menos a comentá-lo. Direi apenas que devia ser um livro de leitura obrigatória para toda a gente. Se ainda não leram “1984”, larguem tudo e vão já ler.