Outros tempos...
Recentemente visitámos um museu, na Vidigueira, onde está recriada uma sala de aula da Escola Primária de há mais de um século e que cuja composição e mobiliário se mantiveram quase inalterados até há pouco mais de três dezenas de anos.
Quando frequentei a Escola Primária, há bem mais de meio século, a sala de aula era muito semelhante.
E avivaram-se as memórias da minha passagem pela Escola Primária.Agora recordo outro desastre mas este foi na pintura. No caderno de desenho tínhamos que fazer um desenho sobre a Primavera e eu desenhei as árvores cheias de folhas, flores, aves e duas ou três nuvens no céu. Na hora de pintar entrou em acção a minha preciosa meia dúzia de lápis de cor mas com a luz do candeeiro a petróleo, o azul e o verde foram trocados.
Quando mostrei o desenho à professora, à luz do dia, as folhas das árvores eram azuis e o céu estava pintado de verde. Fiquei tão assustada mas nesse dia só me calhou um ralhete. O que me salvou foram as flores e as aves cheias de cores!
Depois, um dia, tive a sorte de ter uma caixa com dúzia de lápis de cor (um luxo) de prenda do Menino Jesus que não havia cá Pai Natal. Não poupei os lápis nas pinturas, fazendo trabalhar bem o apara-lápis, para estarem sempre afiados!
O mais perto que estive de levar uma reguada foi por causa dos Mandamentos da Santa Madre Igreja!
Estava na quarta classe. Tínhamos aula de religião uma vez por semana e os mandamentos e orações tinham que estar na ponta da língua. Tão bem decorados como a tabuada, as preposições, advérbios (de modo, de tempo, de lugar), a conjugação os verbos, as linhas férreas, medidas de capacidade, de peso, de volume...
Ficou-me quase tudo arquivado na memória e ainda hoje sei de cor, muito do que aprendi e só mais tarde percebi para que servia (ou não).
Mas voltemos aos mandamentos! O sr. Padre naquele dia perguntou os mandamentos todos e várias orações. Houve muito engasgamento e falhas de memória. A mim calharam-me os Mandamentos da Santa Madre Igreja!
Creio que são cinco e eu acertei quatro e meio!
Depois do sr. Padre sair, a professora deu uma reguada por cada mandamento em falta ou oração não decorada e quando chegou à minha vez, disse-me "ficas para a próxima, já tens metade guardada"!
Se há Deus, Ele que lhe perdoe que eu não esqueço tanta reguada! Mas saliento que o sr. Padre não teve culpa nenhuma do castigo e até era boa pessoa.
Eu tinha sorte em ser boa aluna mas doíam-me as reguadas que outras meninas levavam e, sempre que podia, deixava copiar os problemas e as contas e a professora nunca me apanhou !!!!!!!!!! Durante os períodos de cópia ou de resolução de problemas havia alguma acalmia na vigilância e a professora sentava-se e fazia crochet ou renda. Não me lembro bem mas pareciam-me meias feitas com várias agulhas! E naquela meia hora de silêncio e paz, eu arranjava sempre uma maneira de passar escritinhos para a colega da carteira de trás ou do lado...
As competências treinadas na escola desse tempo eram a leitura, a escrita e o cálculo. Era assim! Teve aspectos negativos e outros positivos...
Com seis anos, na primeira classe, em três meses aprendi a ler correctamente e depois do Natal passei para a segunda parte do livro de leitura onde havia textos completos. Nessa altura, todos os dias fazia uma cópia geralmente em casa, lia a lição em voz alta, ao pé da professora e mais tarde ( já na 2ª classe) fazíamos um ditado da lição estudada. Fazíamos redacções sobre temas variados mas não gostava muito da parte da ilustração, pois não era (sou) muito prendada para o desenho... Gostava mesmo era de ler e de resolver problemas daqueles complicados que já metiam áreas, perímetros ou volumes! E de ir ao mapar viajar, de Faro a Miranda do Douro, pelas linhas férreas e ramais que hoje já não existem....
A capacidade de memorizar era largamente favorecida. Já a compreensão do que aprendíamos e a aplicação dos conhecimentos não era muito valorizado e no fundo acabava por depender de cada um de nós. Mas que a minha memória ficou bem desenvolvida e fornecida de dados, isso ficou!
Os intervalos eram tão bons! Cheios de jogos, canções e explorações no terreno da escola cheio de amoreiras e flores silvestres! Lembro-me tão bem!
As folhas de amoreira eram colhidas para alimentar os bichos-da -seda que eram preciosamente guardados numa caixa de sapatos. E ali víamos, sem saber, acontecer o milagre da metamorfose...
A nossa memória é mesmo uma máquina de viajar no tempo!



