Chegaste vestida de luz, gomo de
cereja na mediania das cores, mas eu era já tarde de mais, apenas cinza a pentear
silêncios.
À distância do tempo, fomos derrotados
por estações defeituosas, um poema mal escrito e todos os frutos apodrecidos
antes da boca, por isso resta-nos esperar a chuva, chapéu colorido aberto e
cabelos soltos para a única certeza: a de hoje sermos o derradeiro arrepio a
escalar-nos a pele.
Por fim, relembras... recordas o
tempo em que escrevias vozes em cada verso, mulheres mordendo a noite, copos
acesos de rimas à espera que os lençóis estendessem as mãos para as magnólias
de um tempo que adivinhavas eterno. Sim, escrevias, e no bailado de tinta, emaranhavas
serpentes que se lançavam para dentro do corpo – e o tempo foi água a correr,
invisível, na clepsidra das veias.
Hoje já nada escreves e a palavra
é apenas o abandono com que, de bengala na mão, recordas o fim da estrada. Por
isso, corres... à velocidade da solidão.
Éramos demasiado novos mas nem
isso nos impediu de colher ventos por debaixo do ventre. Sempre fomos metade
carícia e um tanto tempestade, passos desalinhados à saída do tempo, essa
galeria onde o perfume cresce do outro lado da luz a apedrejar o corpo e a
volúpia. E, todavia, não deixámos de caminhar teatralmente para dentro das
horas, por cima dos objetos, para além dos nomes.
O tempo passou ao lado das
primaveras que arderam em versos, as linhas assomaram ao rosto, mas nem assim
to disse, até porque sabias que eras tu quem levava toda a minha história
agarrada à pele, cosida pelo lado de dentro, indiferente ao pus, ao sangue e ao
esquecimento. Nada mais precisava de dizer, porque isso bastava para que tudo
em mim estilhaçasse à velocidade de um jato desgovernado a abrir rasto nas
nuvens, esse lugar único onde nem os deuses conseguem chegar e que os homens
ousaram chamar de "amor".
Hoje, somos olhos vazios voltados
para uma nova sentença: escassear sossegos e cicatrizar silêncios na grande
armadilha para onde atraímos tudo o que não fomos capazes de vencer.
São eles, os telhados, a lavar-lhes retinas ao anoitecer. Na obscuridade, mordem-lhes os dedos com figos e pão, enquanto cospem sílabas impronunciáveis com que alimentam cada escalada e precipício. Detêm-se nos corpos que, mão sobre a mão, devoram o tempo da fotografia, roída, gasta, a acariciar gavetas, por entre alfazema e roupa interior mal dobrada.
É a idade que passa, que lhes verga os passos sobre as vértebras de todos os segredos, guardando uma derradeira certeza: mais tarde será tarde de mais e já nem o nome lhes caberá no beijo.
És tu a ode onde aprendo a superfície do mundo, tu, corpo a serpentear pelas árvores enquanto metáforas te escalam a pele em absoluta nudez. Num gesto invisível, libertas as mãos, mãos estreitas, profundas, mais largas do que o amor, que é ter medo de morrer por não saber morrer. Arriscas dois passos para diante, agitas a anca antes de um mover de olhos para a luz onde nem a cal do meu rosto te trava o ímpeto, breve e inesquecível, como esse soalho feito de papel onde insistes em arder a cada movimento desprendido.
Saio de mim para te saber ver e é na leveza da dança que espalhas alfabetos indecifráveis, pétalas de certezas e travessuras onde, com a ponta dos dedos, rabiscas linhas no vidro embaciado do fim do magma - tão singelas, quase pueris, sem esconderem um ligeiro rubor de face que emudece a cada acorde musical no sacrifício branco do silêncio.
E ali ficámos, tu, eu e as marcas de um deserto suspenso na voz: é verdade, ninguém vive pela memória, mas é lá que o mundo se faz papel e tinta, poema atrevido e hemisfério noturno do tempo a desvendar todos os caminhos - mesmo os do impossível.