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sexta-feira, dezembro 27, 2024

alhures

«Vim pela primeira vez a Chicago nos anos 20 e foi para ver um combate de boxe. Ernest Hemingway veio comigo e ambos ficámos alojados no campo de treino de Jack Dempsey. Hemingway tinha acabado de completar duas curtas histórias sobre boxeurs e, apesar de tanto Gertrude Stein como eu pensarmos que eram decentes, concordámos que ainda necessitavam de ser bastante trabalhadas.» Woody Allen, «Memórias dos anos vinte», Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - trad. Jorge Leitão Ramos

«Poderia ter feito de ti um fantasma, mas eu amava a tua realidade. Qualquer pessoa dirá que isto é o mais lógico: também tu o poderias ter pensado, mas para que adoptasses esta atitude era necessário que eu fosse um pouco mais corpóreo.» Félix Cucurull, «Carta de despedida» Antologia do Conto Moderno (1959) - trad. Manuel de Seabra

«"Perante mim, Honorat Grapazi, notário com cartório em Pampérigouste, / Compareceu: / O Sr. Gaspard Mitiflo, casado com Vivette Cornille, pequeno proprietário no lugar de Cigalières, onde reside: / O qual, pela presente escritura, vendeu e transmitiu, com todas as garantias e de facto livre de todos os encargos, privilégios e hipotecas / Ao Sr. Alphonse Daudet, poeta, residente em Paris, aqui presente e que declarou aceitar.» Alphonse Daudet, «Prólogo», Cartas do Meu Moinho (1869) - trad. Fernanda Pinto Rodrigues

domingo, julho 07, 2019

vozes da biblioteca

«A velha casa na colina usava o telhado inclinado com beiral como quem usa um chapéu de aba descaída enterrado até às orelhas.» Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas (1997) (trad. Teresa Casal)

«Apesar de estar a tocar a segunda chamada, continuavam todos ali, em cachos, para respirarem o cheiro a molhado, a verde dos álamos, a relvas regadas, que refrescava os rostos suados, misturando-se com hálitos de terra e de crostas cujas gretas se fechavam ao fim de longa seca.» Alejo Carpentier, A Perseguição (1956) (trad. Margarida Santiago)

«Chamava-se Faunia Farley e, fossem quais fossem os sofrimentos que suportava, escondia-os atrás de um daqueles inexpressivos rostos ossudos que não escondem nada e denunciam uma imensa solidão.» Philip Roth, A Mancha Humana (2000) (trad. Fernanda Pinto Rodrigues)

segunda-feira, junho 03, 2019

vozes da biblioteca

«A minha mãe, viúva, vendo-se sem marido e sem amparo, resolveu-se chegar aos bons para ser um deles, e foi viver para a cidade, onde alugou um buraco, e começou a fazer comida para os estudantes, e a lavar a roupa dos moços de estrebaria do comendador da Madelena, e assim começou a frequentar as cavalariças.» Anónimo, Lazarilho de Tormes (1554) (trad. Ricardo Alberty)

«Acontece que, como sabem, sou muito vulnerável à beleza feminina.» Philip Roth, O Animal Moribundo (2001) (trad. Fernanda Pinto Rodrigues)

«Winston Smith, de queixo fincado no peito num esforço para fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro da Mansão Vitória; não tão rapidamente, porém, que pudesse impedir um turbilhão de terra entrar com ele.» George Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1949) (trad. L. Morais)

terça-feira, junho 12, 2018

«O quarto, sufocante e caótico, que servia ao mesmo tempo de quarto de dormir e de laboratório, mal começava a iluminar-se com o resplendor do amanhecer na janela aberta, mas bastava essa luz para reconhecer imediatamente a autoridade da morte.» Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos de Cólera (1985) (tradução de Margarida Santiago)

«Enquanto ele dormia pela tarde fora --  acabara o longo turno da noite às oito horas daquela manhã --, o Apollo  ancorara a meia milha da costa de Brooklyn, presumivelmente para a professora Summers e os membros científicos da expedição terem tempo de analisar a atmosfera.» J. G. Ballard, Olá, América! (1981) (tradução de Fernanda Pinto Rodrigues)

«Por entre as árvores corriam os escravos da cozinha , espavoridos e quase nus; as gazelas saltavam na relva balindo; era a hora do pôr-do-sol e o perfume dos limoeiros tornava ainda mais pesada a exalação de toda esta gente suada.» Gustave Flaubert, Salammbô (1862) (tradutor anónimo)