“Não sei por que estou contando isso agora, mas suponho que seja sempre assim: escrevemos algo para contar outra coisa” escreve María Gainza em O nervo óptico (2014).
Estava no banco de trás do Gurgel cinza esverdeado da minha mãe. Lembro daquele raio de luz batendo insistentemente na minha cabeça. Fortaleza e sua luz que desbota tudo. Estava vestida com uma blusa que tinha duas crianças de costas empinando uma pipa em formato de estrela, com um PT bem no meio dela, no meio da estrela vermelha, voando lá no alto. As duas crianças olhavam para cima, para o céu, para a pipa e a estrela. No carro tentava tapar em vão a luz do sol alencarino, com minhas mãos. Naquele ano de 1989, as carreatas foram infindáveis. Participei de todas do banco de trás, cara de preguiça, preguiça do sol, arrastada pela minha mãe: Rita Stella ou Rita Estrela. Quando o muro de Berlim caiu em 09 de novembro de 1989, estava com certeza no banco de trás do Gurgel da minha mãe, em uma carreata petista. A venda de pedacinhos do muro de Berlim acontece até hoje, 33 anos depois. Ainda existe muro? Sua queda, para as narrativas eurocêntricas, encerraria o longo período de Guerra Fria (União Soviética x EUA) e abriria outro caminho de disputas políticas e econômicas – marcado pela globalização.








