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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

RIO DOURO - X

6.1.10 - Das Fontaínhas aos Guindais


As Fontaínhas são um dos melhores miradouros do Porto – 1920



Os rabelos com vela branca levam mercadoria para montante, os de velas pretas levam carvão - 1932


Fonte das Fontaínhas - 1940


Ao fim da tarde - 1950


Lavadouros - 1950


O lugar das Fontaínhas é, desde 1869, um dos mais concorridos na noite de S. João. Em tempos passados a multidão que saía nesta "bendita" noite acabava o seu festejo nas Fontaínhas. Com o passar do tempo muitos outros lugares foram festejando o S. João à sua maneira. A Ribeira enche-se de festejantes e à meia-noite é lançado o fogo-de-artifício. Este já tem muita fama e beleza, a ponto de ser transmitido na TV.  


“…O S. João das Fontaínhas ainda não existia. Só começaria a despontar 35 anos depois (1869), quando um morador do sítio resolveu montar na Alameda uma monumental cascata ao redor da qual se vendia cabrito com arroz de forno, arroz doce e aletria, e café quente com pão com manteiga. Os ranchos que cirandavam pela cidade deslocavam-se ao célebre miradouro para apreciar a novidade e a curiosidade transformou-se em rotina. Os romeiros cantavam:

Abaixai-vos carvalheiras
Com a rama para o chão;
Deixai passar os romeiros
Que vão ver o S. João”. 
 Germano Silva

Cascatas de S. João 

O S. João era a oportunidade dos poetas fazerem quadras, ligadas, em grande parte, ao amor e ao casamento. São conhecidas as quadras, cantadas, que referem as festas nos locais acima, tais como:

- Donde vindes S. João
Com a capa de estrelinhas?
- Venho de ver as fogueiras
Do largo das Fontaínhas

Orvalhadas, orvalhadas, orvalhadas…
E viva o rancho das mulheres casadas.

Na noite de S. João
É bem tolo quem se deita
Todos vão às orvalhadas
Aos campos de Cedofeita.

Orvalheiras, orvalheiras, orvalheiras…
E viva o rancho das mulheres solteiras.

Fui ao S. João à Lapa
Da Lapa fui ao Bonfim;
Estava tudo embandeirado
Com bandeiras de cetim.

Orvalhudas, orvalhudas, orvalhudas…
E viva o rancho das mulheres viúvas.


Esta cascata era montada na fonte que acima mostrámos.


2009

Uma tradição centenária é a cascata do S. João. Nas ruas e nas casas ou seus quintais era obrigatório haver uma. Infelizmente é uma das mais belas tradições que se está perdendo. Os nossos filhos e netos já não as fazem.
Em nossa casa, desde muito pequenos, guardávamos, de ano para ano, algumas figuras imprescindíveis e quando íamos ao Senhor de Matosinhos comprávamos as que eram novidade ou se tinham partido.
Encostado a um muro ou parede construíamos um monte de terra e cobríamo-lo com musgo.
No cimo estava o S. João com o seu cordeiro e pela rampa abaixo figuras como carneiros, pastores, uma banda de música, uma procissão aproveitada do presépio, lavadeiras, vendedeiras e muitas outras figuras típicas em barro. Também não faltava um pequeno lago com uma figura de um pescador. Por vezes era um espelho redondo, muito usado nesse tempo, com publicidade de casas comerciais. O que mais nos divertia era a forma tão entusiasmada com que a construíamos e depois a melhorávamos e limpávamos.
Assim que ficava noite nosso pai e tios traziam algum fogo-de-artifício tal como bichas de rabiar, pirilampos, estrelinhas e outros, pouco perigosos. Mas os momentos mais emocionantes eram o fogo preso, os vulcões e pequenos foguetes que faziam muito barulho e eram muito lindos no ar.
Só nos deitávamos à meia-noite, o que para nós era tardíssimo.



Os pratos mais populares destas festas são as sardinhadas e o cabrito assado.

Para conhecerem melhor as festas de S. João no Porto poderão visitar o nosso lançamento de 5/1/2014, Divertimentos dos portuenses XXXV, festas de S. João.



Depois da extinção da Feira dos Ferros Velhos, em Abril de 1894, houve uma longa espera para a abertura de outra dentro do mesmo género, só que não eram as ferragens o principal produto. Só em 1980 alguns estudantes, por sua livre iniciativa, se encontravam ao sábado de manhã junto da Sé, na calçada de Vandoma, a vender livros e outros objectos usados. Foi tal o sucesso que começaram também alguns comerciantes a vender produtos novos, o que trouxe uma grande animosidade da parte dos comerciantes locais. A CMP impôs taxas de ocupação, o que levou a que se fossem mudando para as Fontaínhas. Ocupou alguns anos o largo em frente à Cadeia de Relação. Tendo sido regulamentada em 2006, esta feira passou a ter uma ocupação paga, por espaços de 6 metros quadrados, mas a venda é exclusivamente de artigos usados. Estende-se pela Calçada da Corticeira até perto do rio.


O largo das Fontaínhas é um dos locais com melhores vistas sobre o Rio Douro, como se vê nas fotos abaixo - Foto de Fernando Pereira


Ponte S. João em construção – 15/10/1989


Pontes Maria Pia e S. João e seu reflexo no Douro – foto José Paulo Andrade - 2014


Cais dos Guindais – Projecto do alargamento do cais e caminho para a Ribeira – Existiu a Fonte das Aguadas, que fornecia a água às embarcações, e que a Junta das Obras Públicas pretendeu melhorar, de forma a que só fosse possível ter acesso pelo rio.


“Após a derrocada, por entre os destroços das casas, rapidamente deflagrou um extenso incêndio que se prolongou durante toda a tarde, reforçando a impressão apocalíptica que se sentia no espírito dos sobreviventes e de tantos outros que se juntaram para ver o desastre. Nem no Douro se estava a salvo. Uma pequena embarcação despedaçou-se, logo depois de ter sido atingida por um rochedo perdido que rolou pela encosta. A ponte de D. Maria II tremeu, expondo toda a sua fragilidade pênsil.
Os bombeiros, a polícia municipal, os estivadores da Ribeira, toda a gente veio ajudar a salvar os vivos e a contar os mortos. Ao todo pereceram quatro ou cinco pessoas, ninguém sabe ao certo, mas, dada a violência e a amplitude da derrocada, a tragédia poderia ter sido muito pior”. 
Texto Blog Avenida dos Aliados 

Outras derrocadas se verificaram, como a de 8/1/1906, em que 6 casas foram destruídas, mas não houve feridos. As únicas mortes foram algumas galinhas que estavam nas capoeiras…


Vista dos Guindais para Nascente - 1900


Cais dos Guindais – 1900 – tinha um grande movimento de mercadorias, sobretudo vinho que parece estar a ser descarregado. Devia ser vinho para consumo no Porto, pois o tratado ia para Gaia.


Foto tirada dos Guindais para Nascente – 1930 – que diferença de movimento de mercadorias de 30 anos antes.


Cais dos Guindais e ponte Luis I

Os cais dos Guindais foram mandados construir em 1784, com o imposto de um real por quartilho de vinho, que já vinha de trás.


Cais dos Guindais – foto Aurélio Paz dos Reis


Cais dos Guindais antes da abertura da marginal


Escarpa do bairro de S. Nicolau


Ponte Maria Pia, varanda das freiras no último cubelo da Muralha e, em cima à direita, o cubelo perto da Porta do Sol.


Muralha Fernandina antes da reparação – Vê-se o edifício que foi o Convento de Santa Clara.


Muralha Fernandina a ser recuperada após a derrocada de 1959 - ao fundo a Igreja do Convento da Serra do Pilar.


Muralha Fernandina e Guindais – foto Francisco Oliveira - por trás da muralha vê-se o Paço Episcopal com a sua característica clarabóia.  


Escadas dos Guindais e a linha do elevador - Foto de Fernando Pedro


Escadas dos Guindais e ponte Luis I


Escadas dos Guindais – capa da revista Life – 1949


Escadas dos Guindais – segundo Eugénio Andrea da Cunha Freitas, guindais poderá significar terreno ou caminho íngreme - foto Francisco Oliveira.


Sobre o elevador dos guindais trataremos em local próprio - Foto de Armando Tavares


Os Guindais e o troço da Muralha Fernandina que acaba no antigo Convento de Santa Clara – belíssima foto recente pois já está construída a estrada marginal. Gostaríamos de saber o autor para  o registar aqui.


Feira na Cordoaria – desenho do Barão de Forrester – 1835 – à esquerda da Torre dos Clérigos vê-se o Recolhimento do Anjo que deu lugar ao Mercado do Anjo, inaugurado em 9/7/1839.

Carta número 10 

O cachão da Baleira é o sítio mais romântico e importante de todo o rio Douro.
Até 1791 um enorme rochedo que aqui fazia cachão, impossibilitava a navegação direita por toda a extensão do rio. Então, Tua era um lugar importante por ser o cais onde se descarregavam os géneros que tinham de ir por terra para cima do Cachão, ou se carrregavam os que vinham da raia e embarcavam para baixo. O rio está actualmente tão seco que nas raízes deste, outrora formidável rochedo, se vêem a meio palmo abaixo de água os buracos das brocas, dos trabalhos do século passado, quando a dez palmos mais acima e outros tantos mais abaixo, o poço tem de 40 a 50 palmos de profundidade. No fragão à esquerda, por baixo de uma coroa imperial, vê-se a inscrição seguinte:


"Imperando Dona Maria I já se demoliu o famoso rochedo que fazendo aqui um cachão inacessível, impossibilitava a navegação desde o princípio à séculos, Durou a obra desde mil setecentos e oitenta até mil setecentos e noventa e um"
Ainda há poucos anos desapareceram uma espada e bandeira que aqui existiam. O insigne geólogo português, Dr. J. Pinto Rebello, (que teve de se expatriar, por não achar meios no seu país) descreve este sítio do Douro nos seguintes termos:
"É precisamente neste ponto, onde outrora existiu a cataracta que se opunha à navegação superior do rio, que termina o país vinhateiro propriamente dito. - É pois a quinta da Valeira, que ultima a demarcação da Companhia Geral, encostada ao grande penhasco de granito por onde o Douro se precipita numa longa e estreita fenda."
O canal do cachão propriamente chamado, tem de comprimento 400 braças, contando do ribeiro de Campeires até ao cais da Baleira. As margens são rocha viva, que não tem menos de 1500 palmos de altura. Abundam aqui pombos bravos e as corujas fazem entoar o seu grito melancólico por todo o sítio.
Na margem esquerda sobre o ponto mais elevado do pinhasco citado, existe a Ermida de S. Salvador do Mundo e Senhora da Penha com todas as suas capelas e passos do Senhor, que não podem ser comparados em importância e extensão com o Bom Jesus de Braga; contudo belíssima que é a vista do senhor do Monte não iguala em magestade e aspecto sublime, a perspectiva que de S. Salvador se descobre. Que sítio este para o artista, para o homem de gosto, admirador da natureza inculta, para o geologista, arqueólogo ou naturalista! Daqui do lado do nascente os castelos de Numão e Anciães, situados em elevados terrenos de granito, conquistam um e outro a uma légua de distância objectos que tornaremos a referir quando concluirmos a nossa viagem pelo rio. Nota-se mui distintamente logo meia légua adiante que acabam os granitos e principiam os xistos e com eles a célebre Quinta do Vesúvio do qual nos ocuparemos quando aqui chegarmos. Pelo lado do norte descobre-se uma grande extensão de terreno montanhoso coroado pelo notável alto da Senhora da Cunha, pelo sul os vales de S. Xisto e Caçarelhes, cobertos de ricos olivais, e na encostada do mesmo monte de S. Salvador vêem-se sítios que serviam de túmulos aos Romanos e mais acima entre as vinhas de terreno de lousa e granito encontram-se provas irrefragáveis de ter aqui havido em outras eras erupções vulcânicas: finalmente, voltando-se o expectador para o poente, logo se admira vendo correr o Douro no primeiro plano entre vinhas, no segundo entre granitos e no terceiro outra vez nos xistos.
Não sendo esta a primeira nem mesmo a vigésima primeira vez que tenho visitado estes sítios não me esqueci que uma pinga do meu bom vinho do Duque do Porto, do Marquês do Pombal, ou antes de D. Maria I (por ela ser a senhora do Cachão) misturado com a deliciosa água da bela fonte que nasce na casinha da - Ermida - acompanhada com um petisco tendo para sobremesa as belas vistas naturais, havia de saber bem; aqui descansei num gozo perfeito, esquecendo-me de amigos e inimigos, dos filhos, parentes, negócios e cuidados; entregue ao novo mundo criado na minha imaginação, à admiração da natureza e dela ao Creador de tudo.
Ah! que satisfação não teria metade dos habitantes deste país se podessem também gozar destas delícias; porém não há estradas, ainda que em S. João da Pesqueira que dista um quarto de légua, se vêem palácios e edifícios magníficos não há comodidades para os viajantes.
Eu digo isto por experiência: passei as últimas duas pontes em uma intitulada estalagem na qual não tivemos luxo, a não ser que a abundância de percevejos à noute e o importe da nossa conta pela manhã, possam assim ser considerados. Quando pedi contas, a resposta do estalajadeiro foi muito galante - fumando o seu cigarro e dando uma cospidela formidável para o meio do chão, disse-me que quanto a contas não se lembrava para as dar por miudo, porém o que tinha a receber que eram dous osberunos.
Perguntei-lhe de que terra ele era - respondeu-me: "Sou de Vila Nova de Foz Côa - A vossa senhoria parece lhe que a conta é grande? Eu também tenho andado pelo país e não me parece muito o que tenho levado!"
Há anos, encontramos no monte de S. Salvador, vestígios de um acampamento e vários tijolos romanos - bem como algumas moedas - pedras de moer pão, ou de pisar terras metálica - porém, Sr. redactor, vamos continuando com as pedras do rio, deixando o monte de S. Salvador para quando tivermos mais vagar.
A descida desta posição elevada até ao cais da Baleira levou-nos um bom quarto de hora. Quando entramos na barquinha tivemos ocasião de gozar as escabrosas margens do poço da Caçarelhos até à Ripança e dai até S. Xisto onde intervêm os xistos e continuam até Arnozelo - aqui tornam a atravessar os granitos pela distância de um quarto de légua - ou até à quinta do Vesúvio, ou das Figueiras, em cujo cais paramos.

Sou de VV.
J. J. Forrester 

Publicada por Porta Nobre à(s) 7/04/2013 “. 

domingo, 5 de janeiro de 2014

DIVERTIMENTOS DOS PORTUENSES - XXXV

3.5.14 - Festas de S. João - I


Os romanos festejavam já o solstício de verão. A partir da Idade média começou a substituir-se essa festa pagã pela de S. João Baptista, que se festeja na noite de 23 para 24 de Junho. 
Santo Elói, no século VII, proclamou do seu púlpito aos fiéis que o ouviam: “Eu vos peço... que na festa de S. João e em outras solenidades dos santos, se não faça uso do solstício; que não se entreguem a danças, a jogos, a corridas, a coros diabólicos…”. Os frades Loios fundaram no Porto o Convento de S. Elói em 6 de Novembro de 1491, que foi muito apoiado pelos portuenses até  que foi extinto em 1834, após a revolução liberal.

Festas de Verão de 1908 – Arco de triunfo na Rua de Santo António

O São João do Porto é uma festa popular que tem lugar de 23 para 24 de Junho na cidade do Porto, em Portugal. Oficialmente, trata-se de uma festividade católica em que se celebra o nascimento de S. João Baptista, que se centra na missa e procissão de São João no dia 24 de Junho. As pessoas festejavam a fertilidade, associada à alegria das colheitas e da abundância. Mais tarde a Igreja cristianizou essa festa pagã e atribuiu-lhe o S. João como Padroeiro. 
Não se conhece com rigor quando teve início a festa do S. João do Porto. Sabe-se, pelos registos do Séc. XIV, já que Fernão Lopes, por essa altura se terá deslocado ao Porto para preparar uma visita do Rei, tendo chegado na véspera do S. João, deixou escrito na Crónica de D. João I que no Porto era dia de "maior folgança da cidade", festas "cheias de animação e entusiasmo desabrido". 
É no entanto possível que essa festa fosse mais antiga, pois existia uma cantiga da época que dizia “”té os moiros da moirama”” festejam o S. João. 
Era também no dia de S. João que a Câmara Municipal do Porto se reunia em Assembleia Magna, que corresponderia à actual Assembleia Municipal, reunião essa realizada no Claustro do Mosteiro de S. Domingos, pelo seu grande espaço, onde se procedia à eleição dos Vereadores e onde se tomavam as decisões mais importantes para a cidade”. In Wikipédia


“Em 1834, o Porto vivia com intenso júbilo a sua victória no cerco. Nesse ano, o S. João foi festejado na cidade com enorme euforia. Houve arraiais na Lapa, Campo de Santo Ovídio (hoje Praça da República), na Rua Nova do Almada e dos Caldeireiros diante do velho Hospital de S. João instalado na Confraria de Nossa Senhora da Silva”. Germano Silva 
Já em 1851 em vários pontos da cidade estalejou foguetório na véspera de S. João. A Rua de Trás, de Santo António, das Hortas, agora do Almada e outras estavam iluminadas, embandeiradas, e foi lançado fogo preso etc.


No alto da Rua de Santo António, S. João estava sentado numa grande cascata e havia iluminação pela rua acima. Na escadaria destacava-se o obelisco profusamente iluminado. 

“O despique político era a tónica dos festejos sanjoaninos, logo após a victória dos liberais. Os miguelistas não se davam ainda por vencidos. E aproveitavam a festa para mandar recados: 

O S. João da Lapa
Escreveu ao do Bonfim
Visse bem o que fazia
Que a coisa não ia assim…

Na Lapa o S. João fazia-se na alameda, onde está agora o hospital. Em 1844, 10 anos depois da victória dos liberais, escrevia-se nos jornais que o S. João da Lapa levou a palma a todos os outros. Entre danças e descantes, vendiam-se espetadas, peixe frito, tripas à moda do Porto, regueifas de Valongo, pão de Paranhos, doce da Teixeira. Nesse ano houve uma novidade, o vinho era de Amarante. A Irmandade da Lapa levava para a alameda os bancos da sacristia que alugava a quem quisesse assistir comodamente ao fogo-de-artifício. Rezam as crónicas que o fogueteiro desse ano foi muito aplaudido. Em 1845 o despique é entre os S. Joões de Cedofeita e do Bomfim. Moços e moças passavam em ranchos a cantar:

Não diga que tem saúde
Quem nesta noite se deita;
Sem tomar as orvalhadas 
Nos campos de Cedofeita.

A velha igreja românica, era a esse tempo, um monumento isolado no meio de quintas e pinhais onde os festeiros da cidade acampavam com as suas merendas. O Sr. D. Prior de Cedofeita franqueava a sua quinta aos romeiros que por ela se espalhavam a cantar:

Que é aquilo,
Que é aquilo,
Que é aquilo?
É S. João a caçar um grilo…

Em 1849 começaram a organizar-se comissões de moradores em certas ruas e locais. Faziam-se subscrições cujo produto revertia a favor das festas. No Bonfim, iluminavam-se as ruas como nunca antes acontecera em parte alguma. O S. João é festejado sobretudo nos quintais com luminárias, foguetes, fogo de ar e preso. Dançava-se por entre as bichas de rabiar, os buscas-pés, as bombas. Nas ruas o povo suava e acotovelava-se… O S. João era nas ruas. Ainda estava muito longe o S. João do Palácio de Cristal. Pela simples razão de que o Palácio ainda não existia”. Germano Silva
Também o Conde de Rezende abria a sua bela Quinta de Santo Ovídio para os festeiros aí passearem, descansarem e comerem nessa noite.


Embora um pouco longo, entendemos que, a autenticidade da descrição das festas de S. João nas décadas de 60 e 70 do séc. XIX, o texto do eminente médico portuense Ricardo Jorge, escrito em Paris no dia 23 de Junho de 1919, tem o maior interesse em ser dado a conhecer.

“…No meu tempo o S. João de Cedofeita andava já a tocar ao viático, prestes a desaparecer. 
O da minha infância era o da Real Capela onde jaz o coração do dador, como se dizia em estilo do tempo; tão ardente fora o seu culto que os negociantes das Hortas, mercadores de ferro e linho, projectaram erguer-lhe ao norte da alameda templo próprio de que se viam ainda então os primeiros panos gretados e musgosos, onde se espetavam as varas dos silvados e faziam tocas as osgas e sardaniscas, que nós, os rapazes do colégio da Lapa, fisgávamos á pedrada. 
A novena de S. João cantava-se ao sol fora com singular e pitoresco acompanhamento: em vez do organista, dois matulões da Ribeira, trajando a rigor á moda de Redondela rufavam no tamboril e sopravam na gaita de fole…


O arraial armava-se na alameda da Lapa, donde a vista se espraia até á orla luzente do mar, alameda hoje atravancada por um hospital merencório que bem podia ter ido pousar-se noutro sítio, sem empecer um dos mais saudosos logradoiros panorâmicos da cidade— coisas do Porto. Doces de Paranhos, negros e duros de rilhar — barracas de lona onde se fregem com fragor e fumarada as espetadas e as postas de pescada tão amada do tripeiro, e se empipa no carro de bois o verde de Amarante e o preto da Companhia, bebidos em tigelas vermelhas de Aveiro, — as regueifas de Valongo sobre as canastras, a filarmónica do Pau-Teso, e um burburinho de ensurdecer onde estridulam as gaitas de chumbo sopradas pelos rapazes. Na clareira as raparigas da Maia de pé descalço e saia arregaçada, dançam ao som da chula a Cana-verde e o Regadinho. Noite de patuscada, até que para essa meia-noite, aos gritos de “”ó careca””, a isca incendeia as dobadoiras pirotécnicas do Devezas, saudadas de palmas quando se exala a centelha do último caniço da árvore de fogo consumida e morta. 


Os madrugadores desandavam então para o Campo de Santo Ovídio; os ranchos de viola, requinta, violão e flauta, enfiavam pelo portão amplo da quinta do Pamplona — o solar dos condes de Resende, sempre aberto fidalgamente ao povo. Ao romper da aurora colhiam-se as plantas míticas, a que o orvalho da manhã do santo servia de água benta — o alecrim, o louro, o azevinho, o alho-porro. Uma rua não sei de quê atravessa e sepulta hoje esta que foi uma estância paradisíaca, derrubando os balaústres do palacete, os tanques onde boiavam os velhos barbos, as magnólias negras de flores de neve, as sebes das japoneiras, os álamos frondentes, as murtas arbóreas, os loureiros estroncados, que bracejavam as rancas idosas pelos caminhos e maciços do parque, donde se soltavam os silvos aflautados dos melros.

O ladrão do negro melro
Onde foi fazer seu ninho…

Há vinte e cinco anos, antes do meu exílio, assisti com a emoção bucólica do herbanário de Júlio Diniz a este arboricídio que me levava as sombras viridentes onde se esbateu a minha desinquieta meninice.


Iam-se os olhos nas cascatas onde o santo precursor e o carneiro branco troneiam, debaixo duma arcada de ramalhoça e sobre um monte de escórias e areia, povoado de monos de barro pintado, adquiridos nas lojas de traz dos Clérigos — imaginária popular tão curiosa, a reproduzir as cenas triviais da vida rústica, fabril e doméstica. Espécie de presépios, mais variados e movimentados, pois que os anima a minúscula catarata dum veio de água: gira a roda do moleiro da azenha, bate o malho do ferreiro na bigorna, sai do túnel o comboio, volteja o burrinho da nora, faz vaivém a serra do madeireiro... Que pequenas maravilhas de cenário e de hidráulica se não engenhavam para o engodo e alegria dum dia! 
Há hoje justamente quarenta anos que fiz a ultima noitada de S. João com um grupo de rapazes divertidos, meus camaradas da Escola Médica. Não sei se alguns d'eles ainda a rememorará, porque aqueles que me lembram, só nas loisas tomarão as orvalhadas. 
Havia festa rija e fogo preso na Rotunda da Boavista, e de lá vamos cear aos Caldos de galinha do Carmo.


Nova estação no mercado do Anjo, todo iluminado, empavesado e enramado, onde as colarejas á roda da fogueira, foliam danças e descantes abrejeirados. Ao Santo que pagava com a cabeça as suas austeras imprecações contra a dança lúbrica da Salomé, tocam os restos do culto fálico e fescenino, de mescla com o S. Hilário e o S. Gonçalo de procazes alusões populares:

Repenica, repenica, repenica,
S. João a m… em bica.
Repenica, e tornar a repenicar,
S. João sempre a m…


O último passo era nas Fontaínhas, onde de madrugada convergiam de toda a parte os bandos e as ranchadas, na frente o harmónio ou a banza e os pares em fila, de cravo ao peito e de grandes chapéus de palha feitos na Cadeia, entrapados em lenços de chita berrante: 

Orvalheiras, orvalheiras, orvalheiras, 
Viva o rancho das mulheres solteiras. 

E os compassos esfusiantes do hino popular do S. João a retinir sempre, até ao lusque-fusque da manhã a palhetar de rosicler as agulhas da rotunda fronteira do Pilar e as arestas dos penhascos que se empinam sobre o fosso onde escorre fundo e lobrego o veio do Douro - a paisagem severa e solene que Herculano dizia ter sido lavrada por Miguel Ângelo. 
Sol fora enfim, sol alegre a bailar, como é de tradição neste dia solsticial, em que o homem e a natureza se abraçam panteisticamente numa convulsão de alegria: 

Se S. João bem soubera 
Quando era o seu dia, 
Descera do céu á terra 
                                    Para dançar de alegria.                Ricardo Jorge 


“O S. João das Fontaínhas ainda não existia. Só começaria a despontar 35 anos depois (1869), quando um morador do sítio resolveu montar na Alameda uma monumental cascata ao redor da qual se vendia cabrito com arroz de forno, arroz doce e aletria, e café quente com pão com manteiga. Os ranchos que cirandavam pela cidade deslocavam-se ao célebre miradouro para apreciar a novidade e a curiosidade transformou-se em rotina. Os romeiros cantavam:

Abaixai-vos carvalheiras
Com a rama para o chão;
Deixai passar os romeiros
                            Que vão ver o S. João”.           Germano Silva

O S. João era a oportunidade dos poetas fazerem quadras, ligadas, em grande parte, ao amor e ao casamento. São conhecidas as quadras, cantadas, que referem as festas nos locais acima, tais como:

- Donde vindes S. João
Com a capa de estrelinhas?
- Venho de ver as fogueiras
Do largo das Fontaínhas

Orvalhadas, orvalhadas, orvalhadas…
E viva o rancho das mulheres casadas.

Na noite de S. João
É bem tolo quem se deita
Todos vão às orvalhadas
Aos campos de Cedofeita.

Orvalheiras, orvalheiras, orvalheiras…
E viva o rancho das mulheres solteiras.

Fui ao S. João à Lapa
Da Lapa fui ao Bonfim;
Estava tudo embandeirado
Com bandeiras de cetim.

Orvalhudas, orvalhudas, orvalhudas…
E viva o rancho das mulheres viúvas.

“Diz a tradição que a água das orvalhadas da madrugada de São João tem poderes excepcionais de purificação, regeneração e protecção, garantindo amores felizes e casamento próximo, para além de proporcionar vigor aos idosos e beleza aos jovens. Este simbolismo universal das águas também se observa nos poderes místicos de certas plantas, como o alho-porro, o manjerico, a alcachofra, o cardo ou a cidreira. A alcachofra tem o poder de adivinhar a realização do casamento, devendo por isso ser queimada ou chamuscada na véspera do dia 24, à meia-noite, na fogueira de São João -""Em louvor de São João, para ver se fulano me quer bem ou não"" - e deixada ao relento, enterrada num vaso. O casamento está garantido se a planta reflorir no dia seguinte”. In Infopédia


Festas de S. João na Rua de D. Pedro – 1908

Após a Revolução do 5 de Outubro, a República pretender modificar muitas das tradições. Uma delas foi a alteração dos dias feriados nacionais e a imposição a cada câmara a escolha do seu feriado municipal.
No Porto foi feito um referendo, através do Jornal de Notícias, em que se pedia ao povo que escolhesse o dia da sua preferência, entregando no jornal o seu voto em envelope ou mandando um postal até 2/2. No dia 4/2/1911 foram publicados os resultados:
Dia de S. João – 6.565 votos
Dia 1 de Maio – 3075
Dia de Nossa Senhora da Conceição – 1975
Dia 9 de Julho – 8.
Portanto, só a partir desta data o dia de S. João é, oficialmente, feriado municipal.


Cascata de S. João – Museu Etnográfico do Porto 



Uma tradição centenária são as cascatas. Nas ruas e nas casas ou seus quintais era obrigatório haver uma. Infelizmente é uma das mais belas tradições que se está perdendo. Os nossos filhos e netos já não as fazem.
Em nossa casa, desde muito pequenos, guardávamos, de ano para ano, algumas figuras imprescindíveis e quando íamos ao Senhor de Matosinhos comprávamos as que eram novidade ou se tinham partido.
Encostado a um muro ou parede construíamos um monte de terra e cobríamo-lo com musgo. 
No cimo estava o S. João com o seu cordeiro e pela rampa abaixo figuras como carneiros, pastores, uma banda de música, uma procissão aproveitada do presépio, lavadeiras, vendedeiras e muitas outras figuras típicas em barro. Também não faltava um pequeno lago com uma figura de um pescador. Por vezes era um espelho redondo muito usado nesse tempo, como publicidade de casas comerciais. O que mais nos divertia era a forma tão entusiasmada com que a construíamos e depois a melhorávamos e limpávamos. 
Assim que ficava noite nosso pai e tios traziam algum fogo-de-artifício tal como bichas de rabiar, pirilampos, estrelinhas e outros pouco perigosos. Mas os momentos mais emocionantes eram o fogo preso, os vulcões e pequenos foguetes que faziam muito barulho e eram muito lindos no ar.
Só nos deitávamos à meia-noite, o que para nós era tardíssimo. 


A decorar a nossa cascata havia sempre alguns balões de papel que lhe davam muita graça e cor.


Nas ruas do Porto era comum encontrar rapazes a pedir 1 tostãozinho para a cascata. Assim que a construíam punham-se de guarda para que nada fosse tirado, mas continuavam a pedir o tostãozinho. 

Cascatas de S. João 

Desejamos aos nossos leitores um Novo Ano cheio de saúde, alegria e Paz