
Uma hora depois, Gonçalo acabava de dar a sopa ao seu
afilhado, Miguel de vinte e seis meses, enquanto a irmã punha a mesa para o
almoço deles.
Então, Laura disse à filha:
- Sara, já acabaste de comer, vai para a sala brincar com o
mano, enquanto a mãe e o tio almoçam. Podes ligar a televisão.
As crianças saíram e os dois sentaram-se à mesa.
Ele e a irmã tinham uma pequena diferença de idades, dois anos apenas e desde criança, sempre foram muito unidos, até que ainda na Universidade ela conhecera Joaquim Cardoso e os dois se apaixonaram. Laura ficou grávida e foi complicado, os dois eram muito jovens, estavam ainda a terminar o curso, tinham a cabeça cheia de sonhos, e o terem de casar à pressa não era nenhum deles.
Mas quando tomaram conhecimento da gravidez, de imediato a assumiram, sem que o aborto passasse pela cabeça de nenhum deles. Joaquim, estava a terminar o curso de direito, já tinha assegurado trabalho em Lisboa, no escritório do tio, também advogado.
Laura formara-se em Literatura e Línguas, sonhava ser professora. Tinham casado pouco antes do fim do curso e logo que o terminaram mudaram-se para Lisboa, onde ficaram a viver em casa dos tios do Joaquim, que na prática era como se fossem seus pais, pois o criaram desde que aos seis anos perdera os pais num acidente.
Fora um grande desgosto para os seus pais, especialmente para a
mãe que sonhava com outro tipo de casamento para a filha. Não que tivesse algo
contra Quim, (era assim que amigos e família o chamavam), mas não queria
separar-se da filha, principalmente quando esta estava prestes a torná-la avó.
Gonçalo apoiou o casal, mostrando aos pais que não tinha
qualquer sentido, Laura ficar em casa dos pais em Braga, quando os dois estavam tão
apaixonados e Quim ia começar uma nova vida em Lisboa. Ele precisava do apoio da esposa, não de
estar preocupado e cheio de saudades, porque a mulher ficara lá longe.
Sara nascera cinco meses depois. Era uma menina linda, mais
parecida com o pai e o tio do que com a mãe. E Laura ficou em casa com ela, até
aos dois anos, altura em que a levou para uma creche, e iniciou a sua carreira
de professora, num colégio particular bem perto de casa.
Durante dez anos, foram um casal feliz. Tão feliz que
tinham resolvido ter outro filho. E
então sem nada que o fizesse prever, no final de uma tarde de Outono, Quim que
em toda a sua vida nunca se queixara sequer de uma dor de cabeça, sentiu-se
mal, e morreu a caminho do hospital. A autópsia registara que morrera de um
aneurisma cerebral. Sara tinha dez anos e Laura estava grávida de cinco meses.
E fora nessa altura que Gonçalo viera para Lisboa. Inicialmente ficara a viver
com a irmã, apoiando-a na gravidez, cuidando da sobrinha, de modo a que elas
ultrapassassem aquela fase de maior dor.
Apoio que se manteve, depois de Miguel ter nascido, até que
há meio ano atrás, decidira que era altura de deixar a casa da irmã, e alugar
um apartamento onde pudesse ter alguns momentos só para si.
Mas a irmã sabia que podia recorrer a ele sempre que
precisasse desde que não estivesse de serviço no hospital.
- Já pensaste que talvez esteja na hora de pores o Miguel
numa creche e voltares ao ensino? – perguntou Gonçalo enquanto partia um pouco
de pão.
-Não. É ainda tão pequeno!
- A Sara tinha dois anos quando foi para a creche. O Miguel
já tem mais dois meses.
- Mas a Sara tinha pai e mãe. O Miguel só me tem a mim.


