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7.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE III

 


Contrariamente ao que Lena pensava, nem os pais, nem o irmão a recriminaram e embora ela soubesse que estavam desgostosos, apoiaram-na na decisão de ter o bebé.

Assim depois de conversar com os pais, cancelar a matrícula e adiar os estudos, pelo menos até o bebé nascer, despediu-se de Rita, e regressou ao lar paterno, não sem antes  ter convidado a amiga para madrinha do bebé e lhe ter pedido para a ir visitar à quinta sempre que quisesse e pudesse. Precisava mais que nunca da sua amizade. 

 A gravidez decorreu sem percalços e no final de Maio do ano seguinte, Helena dava à luz uma bela menina, com cinquenta centímetros e três quilos e duzentos gramas, a quem registou com o nome de Matilde.

Matilde cresceu robusta e sadia e cedo conquistou o amor dos avós.

Porém no dia em que completou o primeiro ano de vida, Joaquim, o avô, decidiu que era altura de ter uma conversa séria com a filha e disse-lhe:

-Lena, ontem conversei com a tua mãe, e ambos estamos de acordo, em que se ainda pretendes continuar os teus estudos, é altura de o fazeres. Pensa que já passaram dois anos da data em que terminaste o Secundário e quanto mais tarde, mais te custará a ambientares-te e mais terás esquecido daquilo que já aprendeste. Talvez queiras desistir por causa da tua filha, mas se assim é, cometes um erro enorme e é meu dever de pai aconselhar-te. 

É precisamente por ela que deves continuar os teus estudos e seguir uma carreira, tornares-te uma mulher independente, já que desde menina, nunca gostaste da vida na quinta e não serias feliz aqui na aldeia. E se tu não és feliz a tua filha também não o será, nem te agradecerá o sacrifício que faças por ela.

Sei que a Rita gosta muito de ti e adora a afilhada. Falei com ela esta tarde, enquanto adormecias a Matilde e estamos de acordo em que precisas de seguir com a tua vida. Prometeu que te ajudará a cuidar dela enquanto não arranjas uma boa creche. Nós ficaríamos encantados em cuidar dela, mas a menina ia sentir a tua falta, e depois já não somos novos e ela precisa conviver com outras crianças. Que dizes?

-Não sei, pai. Na verdade, o que me propõe é a realização de um sonho. Mas tudo isso custa muito dinheiro. Como posso pagar propinas, livros, roupas para mim e para a minha filha, creche, alojamento e alimentação? Não posso continuar a sobrecarregar—vos com despesas. Um bebé, é uma despesa enorme, e vocês têm pago tudo até agora. Não vos posso sobrecarregar mais.

- Bom, lembro-te que tens uma conta no banco que abrimos quando nasceste. Não é uma grande fortuna, mas dá para um bom tempinho. O teu irmão usou a dele quando decidiu ir viver com a Sofia, para montar  a casa e comprar o carro. E como sabes a tua mãe, vai vender a casa que herdou da tua avó, já recebeu o sinal e tem a escritura marcada. Decidimos dividir esse dinheiro pelos dois, nós não precisamos dele, e de qualquer modo será para vocês, quando nós partimos. Mas para quê guardá-lo se é agora que vos faz falta? Assim não terás de te preocupar, tanto mais que a Rita me disse que não vai aceitar dinheiro pelo quarto, troca o aluguer pela vossa companhia. Pensa nisso, filha.



 

7.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXIX


No sábado, Teresa acordou cedo.  Sentia-se cansada. O calor excessivo que já vinha da segunda metade de Junho, e se prolongara por aquela primeira quinzena de Julho, com noites de temperaturas verdadeiramente tropicais, fazia com que dormisse pouco e mal. Depois durante o dia, sentia-se cansada e muito sonolenta. Tinha tanto sono, que por vezes tinha a sensação de que não dormia há meses. Fora uma grande ideia ter contratado Inês para gerente da pastelaria. Do jeito que se sentia, nunca teria conseguido manter o ritmo de trabalho.

Nessa manhã, além do sono e cansaço, começaram os enjoos e vomitara tudo quanto tentara comer, não sabia se efeito da gravidez, ou se porque estava nervosa, com a aproximação da hora em que o empresário a viria buscar para a levar a almoçar.

Ele não lhe dissera onde era o almoço e isso preocupava-a. E se fossem vistos por algum jornalista? Teresa vira nas notícias do dia anterior uma reportagem da festa sobre o lançamento do jogo. Ela não usava o computador a não ser em trabalho, não percebia nada de jogos, mas a julgar pelos muitos jornalistas que o rodeavam, aquele lançamento era algo de muito importante.  Desligou a televisão a pensar que se ele já era famoso antes, agora sê-lo-ia muito mais. Caramba, não lhe bastava a situação em que estava metida, tinha que ser com um homem rico e famoso. Se fosse um pobre anónimo, provavelmente nem chegaria a saber o que tinha acontecido.

Às vezes arrependia-se de o ter procurado. Quem sabe ele levava alguns meses para descobrir a sua identidade, e ela não estaria agora preocupada com aquela convivência. “Foste precipitada como sempre. Quantas vezes te disse que as cadelas apressadas parem os filhos cegos?” Era o que a avó lhe costumava dizer quando em criança, agia de forma impulsiva.

Todavia ela sabia que não conseguiria conviver com a angústia de não saber o que o empresário faria quando descobrisse a sua identidade.  Agora pelo menos, tinham conversado, e não fosse ela, tão desconfiada em relação ao sexo oposto, poderia pensar que “o diabo não era tão mau como o pintavam”.

Depois do banho, viu-se ao espelho e observou as diferenças no seu corpo. O ventre estava mais arredondado, os seios maiores, e a auréola que rodeava os mamilos mais escura. Além disso estavam muito sensíveis e doloridos ao toque. Seria normal? Segundo o livro que estivera a ler, dizia que sim, embora também acrescentava que umas mulheres tinham muito mais sintomas que outras. Será que ela iria ser uma daquelas mulheres que a meio da gravidez já têm um barrigão que parecem estar no fim do tempo? A sua amiga Inês fizera uma barriga pequena e, no entanto, o Martim nascera com peso e comprimento normal. Depois também se sentia muito cansada. Se aquilo era às cinco semanas, como ia conseguir chegar às quarenta? Bom quando voltasse ao médico, ele lhe diria se aquilo era ou não normal, para o tempo que tinha. E por falar no médico, tinha pensado muito, e ia pedir à sua ginecologista  se a podia acompanhar e se lhe aconselhava um obstetra. Não queria continuar a ir ao Centro de PMA. Tinha perdido a confiança neles. E de resto fora com a sua ginecologista que fizera vários tratamentos anti esterilidade a fim de tornar maiores as hipótese de ficar grávida após o primeiro procedimento, já que sabia que algumas mulheres só o conseguiam à segunda ou terceira vez.

Olhou o relógio. Onze e meia. Tinha-se perdido nos seus pensamentos. Abriu o roupeiro e depois de uns momentos de indecisão optou por umas calças de algodão rosa-velho e um top de alças branco. Escovou o cabelo e prendeu-o num coque. Olhou-se ao espelho e não gostou do seu aspeto, mas também nunca gostara de maquilhagem. Bom, a bem da verdade ela até gostara bastante de se ver, quando a esteticista da Inês, a maquilhara no dia do casamento da amiga. Mas ela nunca se maquilhara, e não tinha ideia nenhuma de como fazê-lo, pelo que apenas passou o batom incolor e hidratante nos lábios e deu-se por pronta.

Pouco depois ouviu a campainha, pegou na mala e desceu.

 

4.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXVIII




AGRADECIMENTO

Do coração agradeço as carinhosas mensagens com que tornaram o meu dia  ontem um dia especial e mais feliz. Bem Hajam


As palavras da sua assistente mexeram com ele. Não que acreditasse que ela estava certa. De modo algum. O facto de se surpreender várias vezes ao dia a pensar como é que ela estaria, e com vontade de lhe telefonar, devia-se ao facto de saber que ela carregava no ventre um filho seu, não tinha nada a ver com paixões repentinas. Até porque ele não acreditava no amor. Nem sabia se existia tal sentimento, mas se existia ele nunca se tinha cruzado com ele. Acreditava no sexo, no poder do desejo, entre duas pessoas, no trabalho, até na amizade. Mas no amor? Se ele existisse, a sua mãe tê-lo-ia abandonado como se fora coisa sem préstimo? Não diz toda a gente, que o amor de mãe é o amor maior?

Então se esse era o amor maior, o que podia esperar dos outros.

Quando mais novo, procurara esse amor, com ânsia, na tentativa de provar a si mesmo que era um homem como os outros. Mas encontrou-o? Que nada. Encontrou mulheres capazes de jurar amor eterno, enquanto ele se mostrava generoso, mas quando deixava de o ser, partiam em busca de outro que satisfizesse os seus caprichos.

Por momentos recordou Glória, a última mulher que mitigara as suas necessidades de homem jovem e saudável. Tinha tanto de bonita, quanto de ambiciosa, e apesar da relação ter durado um pouco mais que as anteriores, nunca em momento algum tocou o seu coração.

Excetuando Olga e a mãe, nunca encontrara uma mulher em cuja sinceridade pusesse fé.

Então porque confiara em Teresa? Porque não pusera um investigador em campo para que lhe fizesse um relatório sobre ela e lhe mostrasse se era ou não confiável? Decerto que fora pelo receio de que se ela o descobrisse, afastasse dele a hipótese de ter nos braços o seu filho, ou porque isso a pusesse nervosa e pudesse prejudicar o desenvolvimento do seu filho, não era de modo algum porque em pouco mais de uma hora, ela tinha destruído a muralha que ele erguera, e mantivera intacta em toda a sua vida, na relação com as mulheres. Ou seria?

Bom, a sua decisão estava tomada. Tinha sensivelmente oito meses, para a convencer de que o melhor para a criança seria um casamento entre os dois. Se ela não acreditava nos homens e ele não acreditava nas mulheres, podiam realizar uma união de amizade e respeito mútuo. De resto era a única hipótese que ele via de poderem criar a criança em conjunto. Afinal quando o bebé nascesse, ele estaria quase nos trinta e cinco anos, ela já tinha ultrapassado os trinta. Ambos eram empresários, responsáveis, encarariam o casamento como uma transação entre iguais. Por mais voltas que desse à cabeça era a única solução que lhe parecia viável. Ela dissera que como amigos podiam criar e educar a criança entre os dois. Mas isso só seria possível com os dois a viverem debaixo do mesmo teto. Era uma questão de lógica, não de amor, como Olga insinuava. Amor! Ela só podia estar a sonhar. Afinal ela era uma romântica que por qualquer razão que ele desconhecia, resolvera ficar solteira. Isso era algo que ele nunca entenderia. Porque é que uma mulher bonita, inteligente e simpática, sempre pronta a ajudar os outros, cujos olhos brilhavam quando via alguma criança, nunca se casara? Durante toda a sua meninice, e adolescência, ele viu vários tipos a rondar a sua casa, mas nunca a viu sair com nenhum. Passava a vida no emprego, e em casa com a mãe. A única exceção era a sua casa, onde ia muitas vezes. Na verdade, pensando bem, era ela e a mãe quem cuidavam da sua casa, já que o seu pai, saía para a oficina logo de manhã e regressava à noite, muitas vezes diretamente para a cama, sem se preocupar sequer se o filho tinha ou não jantado.

Passou a mão pelo cabelo, num gesto habitual quando tomava uma decisão da qual não se afastaria.

 

 

28.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXV

 





Duas semanas e três dias depois…

Teresa encontrava-se sentada no sofá da sua sala.

No regaço tinha um livro aberto, “A Bíblia da Gravidez”, mas o olhar perdia-se no espaço, para além da janela, e o pensamento recordava a conversa tida, com o pai biológico do seu filho. Saber quem era, tinha as suas vantagens, sabia que o bebé tinha os genes de um homem inteligente, empreendedor, e porque não reconhecê-lo? - bonito. Por outro lado, agora em sossego permitia-se interrogações que na altura não lhe surgiram, e que eram uma preocupação acrescida. Ele dissera querer fazer parte da vida da criança, antes mesmo do seu nascimento. Queria acompanhá-la às consultas, às ecografias e no parto. Estava no seu direito, se ela fosse casada ia querer ter o marido consigo nessas alturas. O problema, é que o pai biológico do seu filho era alguém completamente desconhecido. Como é que ela ia permitir situações que lhe iam expor parte do seu corpo? Ainda que os dois viessem a desenvolver uma relação de amizade, uma mulher não partilha a sua intimidade com os amigos. Como é que não lhe ocorrera isso durante a conversa? E como ia agora abordar o assunto com o empresário?

Será que estava a ser demasiado pusilâmine? Afinal ia fazer trinta anos, não era uma adolescente. “Uma adolescente hoje em dia, sabe mais da vida, e das relações íntimas que tu” segredou-lhe uma vozinha na sua cabeça. E era verdade.

Crescera a ouvir a sua avó a dizer-lhe que não devia confiar nos homens, que eles eram seres egoístas, incapazes de amar. “Olha para a tua mãe, rapariga. Não lhe bastava o meu exemplo, nem o desprezo do pai que desde que nos abandonou, nunca mais se lembrou que tinha uma filha. Tinha que se deixar enrabichar por uma cara bonita e meia dúzia de palavras estudadas para a iludir. E o que é que ganhou com isso? Um coração cheio de amargura e uma filha para criar”.

A sua mãe, nada dizia, mas tantas vezes a viu chorar, que sem se dar conta, o seu inconsciente foi criando barreiras que a afastavam do sexo oposto, desde muito nova. Mais tarde, já na cidade, a frequentar a Universidade, e vendo as colegas felizes com os seus namorados, desejou ser como elas, e durante algum tempo tentou cultivar amizades com os rapazes do seu curso.  No segundo ano aceitou até as juras de amor do Alfredo, um colega dois anos mais velho, que pouco depois, estava a tentar levá-la para a cama. Teresa, achava que ainda era muito cedo, recordava a história da avó e da mãe, e tinha medo de entregar a sua virgindade, sem que a relação fosse mais séria. Porém numa festa de anos de outra colega, bebera mais que a conta, e acabara sendo convencida. E não podia ter sido pior. Não só porque estava bêbada, e não se recordava de parte do que acontecera, mas também porque a atitude do namorado depois disso mudou por completo. Ele só queria ter sexo, e um tanto arrependida, Teresa disse-lhe que não voltaria a ir para a cama com ele enquanto não tornassem oficial o noivado. A resposta foi como uma facada no peito. Alfredo disse que não ia haver noivado nenhum, não tinha idade para se prender, numa relação dessa natureza. Mais, disse-lhe que ela era uma antiquada, e que ninguém espera casar com a primeira pessoa com quem dorme, isso era no tempo dos seus avós ou bisavós. Teresa convenceu-se então de que os príncipes só existiam nas histórias para crianças. Na vida real só existiam sapos. Mais, pensou que a sua avó sempre estivera certa, e jurou a si própria, que nunca mais daria poder a um homem algum, para lhe causar sofrimento. Felizmente que no ano anterior, a tia-avó Julieta, condoída do sofrimento que tinha todos os meses, a convencera a ir a uma consulta de ginecologia, e a médica a aconselhara a tomar a pílula, para evitar esses incómodos. Não fora isso e talvez, ela se visse, aos vinte e um anos, na mesma situação da mãe e avó. Essa fora a razão, que na hora em que decidira ser mãe a levou a tomar a decisão de procurar o Centro Médico e recorrer à doação de espermatozóides e à Inseminação Artificial, na altura em que achou ter chegado a hora de cumprir o seu sonho de ser mãe.

 

24.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXIII



- Para ser sincera é bem mais do que tinha pensado. Não creio merecer tanto, nem quero que em nome da nossa amizade, fiques prejudicada.
- Não te preocupes. Pesquisei no mercado, e é o que teria que pagar a outro qualquer profissional que contratasse para o lugar. Vou passar um email para o advogado pedindo-lhe que elabore o teu contrato, por um prazo de um ano, renovável por igual período se quiseres continuar. Ontem dissestes que pensavas arranjar um trabalho apenas por dois anos, pois pensas num segundo filho depois disso. O teu pai vai ajudar-te nos primeiros dias, ele conhece o funcionamento da empresa tão bem ou melhor que eu. De resto estou certa de que em breve estarás dentro de todos os assuntos.
- E tu que farás agora? Sempre adoraste este trabalho.
-É verdade. Porém tenho muitas coisas para resolver. Até passar estes primeiros três meses, vou dedicar-me a descansar, e a ler todos os livros que comprei sobre gravidez e cuidados com os recém-nascidos. Depois tenho que contratar uma empresa, que me desocupe o quarto que era da minha tia, que como sabes tem ligação direta ao meu, mobilá-lo e passar para lá a fim de decorar e mobilar o quarto do bebé onde agora tenho o meu. Espero que me ajudes nisso. Ainda não decidi se vou ou não vender um terreno que tenho na aldeia. Há uma pessoa interessada nele, talvez consiga um bom preço. Tinha sonhado construir lá uma pousada, a aldeia é muito bonita, os ares são maravilhosos, e está situada a menos de um quilómetro de uma das melhores termas nacionais. Era a maneira do meu filho, ou filha crescer em contacto com a natureza. Porém as obras de ampliação da pastelaria, consumiram praticamente todo o meu dinheiro, e eu não quero recorrer a empréstimos. Depois com a situação atual, tudo mudou. Não sei mais o que posso ou devo fazer. A propósito, ainda não sabes, mas ontem à tarde fui à TecnInformática, conheci o João Teixeira e tivemos uma longa conversa!
- Depois que saíste lá de casa? E eu que pensava que estavas em casa a descansar do desgaste emocional. Conta-me tudo!
-Sabes que não consigo dormir sobre os problemas. E viver diariamente com o medo de ser descoberta e de a imprensa criar uma novela à minha volta, não faz de modo algum o meu género. Então meti-me no carro e dirigi-me à empresa.
-Assim, sem mais nem menos, sem sequer um telefonema a marcar uma entrevista?
- Se telefonasse para marcar uma entrevista, provavelmente ia perder a coragem antes da hora dela, isto claro, se ma marcassem, já que teria de ter um assunto muito importante para tratar com ele e não podia dizer pelo telefone a uma secretária desconhecida o que se passava. Claro que corri o risco, de chegar lá e ele não estar na empresa, mas joguei verde para colher maduro como dizem lá na aldeia.
- O que fizeste? – perguntou Inês visivelmente interessada.
-Disse ao porteiro que tinha uma entrevista com ele às dezasseis horas. Se ele não estivesse o empregado ter-me-ia dito e eu inventava uma desculpa qualquer, como ter trocado o dia da entrevista por exemplo e vinha-me embora. Mas ele só me pediu a identificação e mandou-me subir, ao quinto andar onde fica o escritório dele.
Fez uma pequena pausa que Inês não se atreveu a interromper e continuou:
- Até aí tinha corrido tudo bem, mas claro que antes de chegar até ele tinha a parte mais difícil. Convencer a sua secretária a deixar-me entrar sem marcação alguma.
-E o que fizeste?


10.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XVII


Tentando aparentar uma calma que não tinha, João voltou para o seu lugar e sentou-se.
- Muito bem, Teresa. Suponho que não tenha inconveniente em que nos tratemos pelo nome. Vamos resolver o assunto com calma entre os dois, pelo menos durante a gravidez, de modo algum, quero ser o motivo, de um possível aborto. Deseja tomar alguma coisa?
- Uma água por favor.
Ele carregou no intercomunicador e disse:
- Olga, por favor, traz-me um café. E um copo de água para a dona Teresa!
Enquanto aguardavam pelas bebidas, ficaram em silêncio, observando-se mutuamente. Era como se cada um estudasse o outro, na tentativa de descobrir se eram ou não confiáveis.
Pouco depois, Olga entrou trazendo um tabuleiro com as bebidas que poisou sobre a secretária.
- Mais alguma coisa? – perguntou Olga ao poisar sobre a secretária o tabuleiro com as bebidas.
-Localiza o Afonso e diz-lhe que abandone a missão, e regresse à empresa.
-Sem nenhuma explicação? – perguntou.
-Mais tarde, falo com ele.
Quando a porta se fechou atrás da assistente, João  disse:
- Como deve calcular, quando o Centro Clínico entrou em contato comigo, fiquei revoltado, aquela era a minha única hipótese de ser pai, de ter um herdeiro, que desse sentido ao trabalho, de toda uma vida, de sentir o que é ter nos braços um pequeno ser, a quem amar, proteger e educar. Quero esse filho. Pelo que me disse há pouco, você deseja-o de igual modo, pelo que não vou correr o risco de a ofender, oferecendo-lhe dinheiro para que mo entregue quando nascer. De modo que temos um problema para resolver. O que pensa fazer?
- Como bem disse, é um problema que temos de resolver, mas de momento a única coisa que quero é paz. Quase mal acabei de saber, que o filho que tanto desejara, estava a caminho; e sem ter sequer tempo para festejar, dizem-me que houve um erro, que o pai dessa criança está disposto a tudo para ma tirar, que por causa disso posso ver-me envolvida numa longa batalha judicial, que a imprensa vai levar meses a alimentar-se do escândalo, vai esmiuçar a minha vida até ao meu nascimento, quiçá para além disso. Não preciso do seu dinheiro, tenho mais do que suficiente para criar e educar sem esforço, um ou dois filhos, porém podia precisar muito, trabalhar sem descanso, dia e noite até à exaustão, que não aceitaria nunca dinheiro, para ceder os meus direitos de mãe.
Fez uma ligeira pausa, como que tentando reorganizar os seus pensamentos, enquanto o empresário a olhava admirado com a paixão que ela punha nas palavras, e mentalmente se interrogava, se ela usaria a mesma paixão na intimidade da sua cama. Passou a mão pela testa, tentando afastar tão inoportunos pensamentos, enquanto Teresa alheia aos seus pensamentos, continuava:
- Não sei se sabe, mas a maior parte dos abortos espontâneos acontecem nos primeiros três meses de gravidez, razão porque nós, mulheres, não gostamos de falar do nosso estado, antes de decorrido esse tempo. Compreendo o seu desespero, e em consciência sei que não lhe posso negar o direito de ver, e conviver com a criança, tal como os casais que se separam não o podem fazer. Seria uma crueldade, e eu não sou cruel.


31.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XIII




-E em mim, tens confiança? – perguntou Inês.
- Que pergunta é essa? Sabes que confio em ti como em mim mesma. Estás interessada no lugar? Não querias ter um segundo filho em breve?
- Decidimos que só tentaremos uma nova gravidez dentro de dois anos. E estou farta de estar em casa. Podia por o Martim na creche e ocupar o lugar. Daqui por dois anos, o teu bebé, estará com mais de um ano e poderás voltar a assumir a gerência.
- Por mim encantada, mas o Gustavo estará de acordo?
- Tenho a certeza que sim. Já tinha comentado com ele sobre a hipótese meter o Martim na creche e procurar uma agência de trabalho. Não se trata de necessidade, monetária.  Nem sequer estou a pensar numa carreira laboral pelo menos, até ter um segundo filho com uns dois anos. Mas estou há três anos em casa. Como uma máquina sempre a repetir as mesmas tarefas, sem ver nem falar com ninguém a não ser o marido e filho. Um leva grande parte do dia a dormir, o outro está todo o dia fora.
- Então se os dois estão de acordo, o lugar é teu podes começar quando quiseres. Penso que precisarás de algum tempo para procurar uma creche, mas eu preciso que ocupes o lugar o mais breve possível.
-Não te preocupes, já fiz essa pesquisa, e até já fiz a inscrição. Vai começar no princípio do mês, faltam dez dias, mas até lá posso deixá-lo com a minha mãe. Ela vai adorar. Posso começar amanhã mesmo, se tu puderes ir lá amanhã, para me pores a par de tudo.
- Sendo assim, tenho esse problema resolvido. Amanhã faremos o contrato.
Nesse momento, o choro de Martim invadiu a sala através do intercomunicador e Inês pôs-se em pé e dirigiu-se ao quarto do filho seguida pela amiga. No resto da manhã entretida com o bebé, quase que Teresa esqueceu, o grave problema que a afligia. Se Gustavo se admirou de a ver em sua casa quando chegou para almoçar, depois do desejo que a amiga manifestara no dia anterior para voltar à pastelaria, não o manifestou. Cumprimentou-a, beijou a esposa, que acabara de dar a papa ao filho e fez uma festa ao menino, que reagiu mostrando um sorriso de apenas quatro dentes.
- Deixa-o comigo. Eu adormeço-o, - disse Teresa tirando o bebé dos braços da mãe e dirigindo-se com ele para o quarto. Pretendia com isso dar tempo à amiga para contar ao marido, não só que se passava com ela, mas também a sua proposta de emprego.
Cansado das brincadeiras anteriores ao almoço, Martim não levou muito tempo a adormecer. A jovem saiu do quarto fechando a porta com cuidado, e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou os amigos à sua espera para darem início ao almoço.
-A Inês já me contou o que se passa contigo, vamos almoçar e no fim analisaremos o caso. Entretanto também me disse que a contrataste como gerente da pastelaria. Tens a certeza que é uma boa ideia?
- Bom, eu não sei como vai ser a minha gravidez. Pode ser calma e não me dar muitos problemas, mas se for semelhante à dela, vão haver muitos dias em que mal me vou aguentar de pé. Por outro lado, com todo este problema, não sei se teria cabeça para tratar de negócios. Sei que a Inês não tem experiência, mal deixou a Universidade, começou a tratar do casamento, e engravidou poucos meses depois, mas é inteligente, de confiança e está lá o pai. Quando fiquei com o negócio eu sabia tanto do assunto como uma criança. Foi o Mário quem me ensinou, e tem sido o meu braço direito ao longo destes anos. Ele ajudará a filha.  A não ser, que não estejas de acordo, não quero de modo algum, criar problemas na vossa relação.
- Bom, é verdade que já tínhamos inscrito o Martim numa creche e que ela pretendia trabalhar uns dois anos antes de termos outro filho. É a sua vontade e eu nunca me oporia aos seus desejos, se isso a faz feliz. A felicidade dela é a minha felicidade.



27.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVIII



Três semanas se passaram.
 Eva,  perdeu o sorriso que ultimamente voltara a iluminar o seu rosto.  Saía de casa, para o trabalho e deste para casa. Ainda não tinha tido coragem de ir ao orfanato, e naquele sábado tinha que o fazer, pois a Irmã Madalena, telefonara-lhe na véspera preocupada com o seu desaparecimento. Ficaria decerto mais preocupada quando a visse. 
A jovem, perdera o apetite, emagrecera, e nos últimos dias, todas as manhãs tinha enjoos. Fez as contas, e verificou alarmada que o período já lhe devia ter aparecido há doze dias atrás. Doze dias de atraso, ela que era mais certa que um relógio suíço? Uma gravidez, era só o que lhe faltava agora, para agravar a sua situação. Foi à farmácia e comprou dois testes. Fez o primeiro e o resultado positivo repetiu-se no segundo. Como fora possível ter sido tão inconsciente? Como não se lembrara de que interrompera a tomada da pílula depois de ter ficado viúva? Logo ela que sempre se atormentara com o facto de não conhecer os pais, ia trazer ao mundo um filho sem pai. Sim porque apesar de tudo, nem por um momento pensou em abortar.
Embora sem vontade, obrigou-se a almoçar, pensando no pequeno ser que tinha no ventre. E depois do almoço, meteu-se no carro e dirigiu-se ao orfanato. Estava tão necessitada de colo.
A Irmã Madalena, percebeu isso mesmo, mal a viu. Talvez por isso o abraço com que a recebeu foi mais carinhoso que nunca. Depois no seu gabinete, esperou paciente, que a jovem desabafasse.
- E quando cheguei para almoçar, tinha desaparecido, deixando-me esta carta e os documentos de doação da casa, - terminou ela estendendo à freira a missiva que André lhe deixara.
A freira, leu-a em silêncio e devolveu-lha.
- Isso foi há três semanas, e desde aí, nem uma palavra. Que lhe parece Irmã?
- Sinceramente não sei que te diga, Eva. Ao contrário do que aconteceu quando me apresentaste Alfredo, eu gostei do André quando o conheci. Senti que era de confiança, e descansei pensando que não faria nada que te magoasse. O que fez, devolvendo-te a casa, não é de uma pessoa sem escrúpulos. Na carta diz claramente que te ama. Mas quem ama confia, não abandona sem uma explicação. É nestas alturas que eu gostava de ter uma bola de cristal, que me permitisse ver o futuro. Confia em Deus filha. ELE fará o que é melhor para ti. Se te serve de consolo,  pensa no que podia ter acontecido com a atitude maluca do teu marido. Podias ter caído nas mãos de um crápula, ficares sem a casa, teres desaparecido num qualquer antro pecaminoso. E com a Graça de Deus, nada de grave aconteceu. És jovem, tens a tua casa, e o teu emprego, és livre...
- O pior Irmã, - interrompeu-a a jovem soluçando -  é que… estou grávida.
- Valha-nos Deus! - disse a freira abrindo os braços, onde a jovem se refugiou. 



9.10.19

LUÍSA




O som estridente duma campainha sobressaltou a jovem enfermeira, arrancando-as das suas recordações. Pousou a caneta sobre o mapa que tinha na sua frente, levantou-se, alisou a bata branca e depois de um breve olhar ao quadro, onde uma luz assinalava o quarto numero 9 dirigiu-se para lá.
Uma mulher precocemente envelhecida debatia-se na cama com imaginários inimigos, gritando e puxando a ligadura que a prendia à cama, para que na sua loucura não se magoasse.
Luísa tentou acalmar a mulher enquanto a fazia engolir um calmante. Movimentou a cama para deixar a doente mais confortável, e ajeitou-lhe a almofada. Aos poucos a mulher acalmou e Luísa voltou para a sala das enfermeiras.
O relógio aproximava-se das três horas da madrugada, a colega de turno, dormitava, e o hospital mergulhara de novo no silêncio.
Luísa passou a mão pela testa inquieta. E deixou que aflorassem à memória as recordações que a atormentavam.
 João fora o seu primeiro e único amor. Começaram a namorar nos bancos da escola, e cresceu a sonhar que um dia ia ser sua mulher. Sempre pensara que ele a amava do mesmo jeito. A química entre os dois era perfeita, a paixão muito grande, e quando assim é perde-se a noção do perigo, esquecem-se precauções, e um dia, Luísa teve a desagradável surpresa de se saber grávida. Foi um choque. Não que ela não quisesse ser mãe. Esse era um dos sonhos da sua vida. Mas não agora nesta altura da vida, quando ainda tentava consolidar a sua carreira de enfermeira. Um filho vinha estragar todos os seus planos atuais, mas nem por isso pensou uma única vez que fosse, em livrar-se da criança. Todavia João reagiu de modo diferente do que ela esperava. Ele não queria a criança, e insistia para que ela fizesse um aborto. Recordou a última discussão, na tarde do dia anterior.
“-  Mas Luísa,- insistira ele - não podemos ter um filho nesta altura, minha querida. Não podemos casar já, acabei o curso agora, nem sequer tenho trabalho. E tu acabaste de conseguir emprego. Ainda estás no período experimental. Se descobrem que vais ter um filho, são capazes de te despedir…
- Um filho que é teu, não esqueças - argumentara  ela. - E porque é que não podemos casar já? Não podemos comprar tudo o que precisamos? De acordo. Compramos o indispensável. E depois tenho a certeza que os nossos pais nos ajudarão nos primeiros tempos, até que consigas empregar-te.
-Mas Luísa, somos tão novos! Um filho em princípio de vida vai ser uma prisão. Ouve o que te digo...
- Não João, não me venhas com propostas imorais. Não somos tão jovens que não tenhamos idade para tomar a responsabilidade dos nossos atos.
- Pensa bem, Luísa…
- Não, não e não. Não há o que pensar. Já te disse que não posso, nem quero, fazer o que me pedes. Se não queres o teu filho, vai-te embora de vez. Eu arrostarei com as consequências da minha leviandade. Mas não me digas mais nada. O meu filho não pediu para nascer, mas tem esse direito.” 
Luísa saíra batendo a porta da casa, onde sonhara viver um dia, com a certeza de que estava acabado um capítulo da sua vida. Mas essa era a única certeza, porque de resto tudo em si eram dúvidas.
  Se João a amava, porque reagira assim quando ela descobrira que estava grávida? Porque lhe queria impor um aborto, que ela não desejava? 
Como poderia João ser um ser tão imaturo e egoísta? E como é que ela nunca se apercebera disso? Sentia-se perdida. Ela nunca desejara aquela gravidez. Não sabia mesmo como fora possível pois sempre tomara a pílula. Mas alguma coisa anulara o efeito desta. Seria um sinal Divino para lhe mostrar o verdadeiro carácter de João? De uma coisa ela tinha a certeza. Nunca faria o aborto. Ainda que perdesse o namorado. E o emprego. Acabara de enterrar as suas mais caras ilusões. A sua decisão estava tomada, mas não podia deixar de se questionar. Claro que lá bem escondido num recanto do coração, morava a esperança de que João  reconsiderasse. Mas, e ela?  Poderia olhar para ele com o mesmo amor, depois daquela desilusão? Até onde iria a sua capacidade de perdoar? E de apanhar os cacos e reconstruir o encantamento que fora a sua vida até à descoberta da gravidez?
A noite de plantão, decorrera na maior normalidade, todavia Luísa acabou deixando o trabalho às oito horas da manhã, completamente extenuada. Mas quando alcançou o portão e João surgiu na sua frente com um pedido de perdão no olhar, e umas minúsculas botinhas de lã na mão, dissiparam-se todas as dúvidas, e o rosto cansado, abriu-se num sorriso radioso.

Fim




21.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXIX


Iam passar o Natal em casa de Tiago e Luísa. Teresa apresentara-os dois dias antes, quando foram buscar Martim. Claro que Rui conhecia perfeitamente Luísa, uma vez que era a sua secretária, o que não sabia é que ela e o marido, eram os padrinhos do seu filho, e que fora o casal que acolhera Teresa durante toda a gravidez, e nos primeiros anos de vida do seu filho, para que ela pudesse continuar a estudar. Tinham-na amado e protegido como se fosse uma irmã mais nova.
Emocionado, ele agradeceu-lhes, e ofereceu os seus préstimos para tudo o que o casal precisasse. E terminou dizendo:
-Só não vos ofereço a minha amizade, porque não sei se a amizade de um traste como eu, vos interessa.
A resposta foi um forte abraço de Tiago e o convite do casal, para fazer parte da sua ceia de Natal, já que Teresa e o filho, costumavam passá-la com eles todos os anos. Aceitou, com o coração cheio de gratidão.
Depois jantaram em casa de Teresa, com Martim a falar pelos cotovelos, e a fazer inúmeras perguntas ao pai. E ele emocionado, abraçando-o e brincando com ele. Quando foi para a cama, Martim fez questão de ser o pai a ir com ele, e a contar-lhe uma história.
 Para a noite ser perfeita, faltou pernoitar lá em casa, mas compreendia que Teresa precisasse de algum tempo para assimilar a nova vida. Percebeu que se queria reconquistá-la, não podia nem devia forçá-la.
No dia seguinte, foram os três às compras. Presentes de Natal, e não só. Para eles e para Luísa, o marido e o filho. Depois foram para casa de Rui. Tê e o filho conheceram então a grande e luxuosa casa. Na sala de entrada, Rui pegou o filho ao colo e mostrou-lhe o retrato da mulher, que dominava o espaço, dizendo:
- Martim, esta era a tua avó. Uma grande mulher.
A criança olhava tudo com espanto. E com a curiosidade própria da idade, queria ver tudo. Na sala, em cima da mesinha estava o saco preto com os desenhos cinzentos, que guardava os ténis. Rui perguntou:
- Achas que servem ao Martim? Gostaria que ele os usasse se lhe servirem. Se ele os usar, é como se finalmente, eu os pudesse calçar.
- Sim. São muito bonitos, e ele nunca teve nada parecido. Vamos ver se lhe servem.
Serviam. A criança ficou encantada, e não parava quieta, só para ver as luzinhas nos ténis. Rui sorria feliz. Depois, pegando na mão de Teresa, perguntou.
-Gostas da casa? Se gostares, podemos ficar a morar aqui. Claro que poderás mudar a decoração, certamente haverá coisas de que não gostes. E quero que saibas que nunca trouxe nenhuma outra mulher a esta casa, - acrescentou fitando-a muito sério.
- Eu sei. Soube-o quando apresentaste a tua mãe ao Martim. Gosto da casa. Deveríamos mudar os sofás, ou forrá-los de novo. O branco é incompatível com crianças. Também não gosto dos reposteiros, são demasiado pesados. O resto está perfeito. Ah! E temos que fazer umas alterações num dos quartos. Decorá-lo mais de acordo com a idade do Martim.


12.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLVII

Boa noite, amigos.
Hoje falei com o neurologista que acompanha o meu marido. Disse-me que o registo do holter estava normalíssimo. Que amanhã fará a RM, na Segunda feira fará o dopler das carótidas e começará a ir ao ginásio a fim de fazer fisioterapia pelo menos uma semana. no dia 19 fará um ecocardiograma e se continuar tudo bem, virá para casa. Entretanto eu estou com uma tendinite no braço direito. Que mais nos acontecerá neste ano que tem sido tão aziago.






Sentiu que uma garra gelada lhe penetrava no peito e o rasgava de cima, abaixo.
- Perguntou quase num sussurro:
- Queres o divórcio? Estás apaixonada por alguém?
“ Meu Deus! Como pode ser tão inteligente para os negócios e tão burro para as coisas do coração?”- pensou Isabel, sentindo que tinha chegado a hora de abrir o seu coração, e deixar que ele visse o que a trazia atormentada.
-É claro que não quero o divórcio. Mas não sei onde arranjar forças para continuar a aguentar este arremedo de casamento. Perguntaste se estou apaixonada por alguém. É óbvio que estou. Estou apaixonada por um homem que me quer dar segurança material, mas não me dá o seu coração. Estou apaixonada por um homem, a quem dei tudo o que tinha, o meu corpo, o meu coração, os meus pensamentos, os meus sonhos. E o que me deu esse homem, em troca? Sexo. O sexo é bom, tão bom que me deixei deslumbrar e pensei poder viver do prazer que ele me dava. Mas depressa verifiquei que era uma triste imitação daquilo que o meu coração ansiava. O homem por quem me apaixonei, nunca me falou da sua vida passada, dos seus sonhos para o futuro, nada. Eu amo tanto esse homem, que o maior sonho da minha vida, é ter um filho seu. Mas em momento algum, ele mostrou desejo de ter esse filho, e assim tomo a pílula todos os dias, não vá ter uma gravidez que ele não deseje, e acabar com a pouca esperança que me resta, de que um dia sinta por mim, o mesmo amor que sinto por ele.
Estava descontrolada. Chorava copiosamente, mas nem por um momento pensou em se calar. As palavras saíam em catadupa, cheias de amargura.
Ricardo levantou-se. O seu rosto estava tão pálido quanto o de um defunto. As mãos trémulas, ansiavam por acariciar a mulher. Mas de algum modo, sabia que se o fizesse naquele momento, ela rejeitá-lo-ia. Virou-lhe as costas e caminhou até à janela, deixando que ela chorasse até se acalmar. Quando percebeu que o choro tinha perdido intensidade, ele retomou a conversa, sem se voltar para ela, o olhar perdido no Tejo.
Aquele homem de quem te falei, apaixonou-se uma vez quando era ainda estudante, um miúdo que acabara de completar vinte anos. Nessa idade, o mundo é demasiado pequeno para os nossos sonhos, e fazemos tudo em demasia. Comemos demais, bebemos demais, amamos demais. Ele apaixonou-se loucamente, por uma mulher um pouco mais velha, e sentiu-se o homem mais feliz do universo quando num momento, que ele pensava ser de paixão retribuída, fez amor sem tomar precauções. Pouco tempo depois ela disse-lhe que estava grávida. Ele ficou aflito, ainda estava na faculdade, não tinha como sustentar uma casa, mas nem por um segundo, pensou livrar-se dela ou do bebé, que amou desde o primeiro momento. Falou com os pais, e eles assumiram as despesas do casamento, em troca dele transferir a matrícula para a noite, e ir trabalhar com o pai para a oficina, pois nessa altura já era um bom mecânico.
Sem se voltar uma única vez, Ricardo contou tudo o que passou com aquele casamento, o que sofreu, quando tomou conhecimento de como aquela mulher e o tinha enganado, da dor que foi descobrir que aquele pequeno ser que tanto amava e que nunca iria conhecer, por quem aguentou aqueles seis meses de martírio, não era nada seu. 




10.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XVIII





Na semana que se seguiu, Isabel conseguiu enfim um emprego, ia começar na segunda-feira a trabalhar como secretária,numa empresa de transportes. Certo que era temporário, pois ia substituir a secretária, que se encontrava de baixa, com uma gravidez de risco. Seriam apenas onze meses, entre o tempo de gravidez que faltava e os meses de licença pós parto, mas pelo menos durante esse tempo podia respirar descansada, não fora o facto de Ricardo ter deixado uma espada suspensa sobre a sua cabeça. As últimas palavras do empresário soaram-lhe como uma ameaça. Se arrependimento matasse ela estaria morta. Porque havia de ter feito o que a irmã pediu? Porque havia de o ter procurado? Bem, na verdade, ela sabia porque o tinha feito. A irmã sempre sentira a falta do pai. E ela não queria que Matilde fosse uma reedição de Susana. Mas que seria dela, se ele resolvesse pedir a guarda da menina em tribunal? Certo que ele dissera que não o faria. Mas poderia ela confiar na sua palavra? A irmã tinha-se apaixonado e confiado no namorado. E onde é que isso a levara? Entretanto passara-se aquele fim-de-semana, a semana seguinte, e chegara-se de novo a sábado, sem que ele voltasse a dar notícias.
Naquela tarde, Isabel aproveitava o facto de Natália ter levado a menina ao parque, para fazer uma limpeza à casa. Vestia umas velhas calças de ganga, e um camiseiro que em tempos teria sido vermelho, mas que agora se apresentava bastante desbotado. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, coberto por um lenço florido atado na nuca. Nos pés, uns chinelos já meio gastos.
Acabou de aspirar a sala, puxou o aspirador para o corredor e preparava-se para o desligar da tomada a fim de ir aspirar o quarto, quando a campainha tocou. Pensando que era Natália que voltava do parque, abriu a porta e corou ao ver Ricardo, que se encontrava do outro lado.
- Devia ter avisado, vejo que não venho em boa altura.
- De facto, costumo aproveitar a ida da Matilde ao parque para fazer estas limpezas, pois ela tem medo do barulho do aspirador.
- Precisamos falar mas posso voltar mais tarde. Porque não vem jantar comigo? Posso apanhá-la às oito horas. A ama pode ficar com a Matilde.
-Não é ama. É uma vizinha de há muitos anos que gosta muito dela e me ajuda. Se não se importa, realmente a mim dá-me jeito acabar a limpeza antes que elas voltem.
-Combinado. Volto às oito horas.
Deu a volta e foi-se embora.


10.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXVI




Naquele dia, Pedro chegou mais cedo a casa. No bolso trazia uma jóia para Joana. Além do anel de noivado e da aliança, ela não usava qualquer outra jóia.
Por ocasião do primeiro aniversário de casamento, ele oferecera-lhe um bonito conjunto de colar e brincos em ouro com esmeraldas incrustadas, que ela usara uma única vez, na festa de aniversário de casamento do casal Araújo. Agora para lembrar aquele ano e meio que estavam juntos, ele comprara um fio de ouro bem fininho, com um rubi em forma de coração. Se bem conhecia a mulher ela iria adorar, pois Joana era a simplicidade em forma de gente. Pretendia levá-la a jantar fora e depois, talvez dançar a qualquer lado, mas Joana ainda estava no andar de baixo, pelo que ele desceu as escadas, e foi até lá.
Foi a tia que lhe abriu a porta e logo que ouviu a sua voz, o filho veio a correr lançar-se nos seus braços.
Com o menino ao colo, entrou na cozinha, onde encontrou mãe e filha a guardarem mousses e pudins no enorme frigorífico.
Beijou a mulher, depois a sogra, e disse.
-Será que o Pedro pode ficar convosco esta noite? Pensei que era uma boa ideia, sairmos hoje, - disse olhando a esposa.
- Claro que sim, - responderam as duas senhoras em coro.
Joana não disse nada. Acabou de arrumar a última taça, beijou o filho, e despediu-se da mãe e da tia, com algumas recomendações sobre o filho.
- Vai descansada, - disse-lhe a mãe. Até parece que eu nunca fui mãe.
Os dois saíram e seguiram para casa em silêncio.
Mal fechou a porta, Pedro perguntou:
-Que se passa Joana? Não te apetece sair?
- Que interessa se me apetece ou não, -retorquiu amarga. Não decidiste que íamos? Por acaso não te ocorreu que eu podia estar cansada, ou simplesmente não me apetecer sair?
-Não.Temos tido tão pouco tempo para nós dois, que pensei que ias ficar feliz se fossemos jantar fora e talvez dançar.
Com a gravidez, o sistema nervoso, de Joana estava muito instável. Ela não conseguia controlar as emoções. Sem responder, virou-lhe as costas e dirigiu-se para o quarto, enquanto ele ficava na sala, a mão no bolso apertando a caixa com a jóia, e o coração atormentado.
Uns minutos mais tarde, um pouco mais calmo, dirigiu-se também ao quarto.
Deitada de bruços na cama, Joana chorava silenciosamente. Lembrou-se da única vez que vira a mulher chorar e pensou que algo de muito grave se passava com ela.
Por momentos ficou paralisado, olhando o corpo sobre a cama, indeciso entre ir até  ela, ou voltar para a sala. 



25.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE IV



- Catarina, era  quase uma menina. Apaixonou-se pelo Pedro, e esse amor foi-lhe fatal. Um dia, sem que nada o fizesse prever, ele desapareceu e nunca mais deu notícias. A minha irmã, ficou inconsolável. Perdeu a vontade de viver, só o filho fez com que sobrevivesse os últimos seis meses de gravidez.
- E o que a senhora pretende agora?
-Fazer com que o Pedro dê o seu nome ao menino. Mesmo que depois não queira saber dele, eu me arranjarei para que ele tenha uma vida o mais feliz possível.
Pedro sentiu vontade de acabar com aquela conversa ridícula.
-Bom; vamos acabar com isto. Não sei o que lhe deu na cabeça para me vir importunar com esta conversa sem pés nem cabeça. Nunca conheci a sua irmã e nunca desapareceria assim da vida de uma mulher que carregasse no ventre um filho meu, De modo que se era sua intenção extorquir-me dinheiro, com essa conversa, dê graças porque não chamo a polícia e a denuncio.
A jovem levantou-se. Tirou os óculos e encarrou-o de olhos faiscantes e rosto lívido.
- Compreendo que não tenha tempo a perder, mas isso não lhe dá o direito de ser agressivo e mal-educado comigo. Nunca quis tomar o seu tempo, apenas pedi à sua secretária que avisasse o senhor Pedro Mesquita de que precisava falar com ele. Nem sequer entendo porque veio importunar o diretor, presidente, ou lá o que o senhor é.
- Acontece que eu sou o único Pedro Mesquita que existe nesta firma, e provavelmente em toda a cidade.
O rosto da jovem, passou do pálido ao vermelho vivo em fração de segundos. As pernas tremiam-lhe, cambaleou e acabou por se deixar cai pesadamente na cadeira. 
Como se o bebé sentisse a tempestade que o rodeava, começou a chorar. Ela deu-lhe a chupeta, embalando-o suavemente e quando ele se calou falou enfim com voz cansada:
- Não entendo. O pai do menino, sempre se apresentou como sendo Pedro Mesquita, e disse-nos que trabalhava nesta firma. Se não trabalha aqui… ou foi despedido, ou nos enganou. Sendo assim, não faço aqui nada. Peço-lhe desculpa, pelo tempo que lhe roubei.
Tinha voltado a por os óculos. Os seus olhos castanhos estavam demasiado brilhantes, como se estivessem a ponto de chorar, mas o rosto estava calmo, e sereno, apesar de ter voltado a perder a cor. Poucas coisas nesta vida, conseguiam impressionar o frio homem de negócios, mas naquele momento, aquela mulher de ombros caídos e ar derrotado, conseguira-o.
De súbito ocorreu-lhe algo e sentiu um aperto no peito. Seria possível? Suavizou-se a sua expressão.
-Sente-se mais um pouco. – Ligou o interfone e pediu: - Rita, traga-nos um chá, por favor.
Voltou de novo a sua atenção para a jovem. A sensação inicial, de que se tratava de uma vigarista, que lhe queria aplicar um golpe, desaparecera ao ver a reação da jovem,  mas continuava intrigado com aquela insólita situação.
Rita entrou com a travessa e duas chávenas de chá, que pousou sobre a mesa.
- Pode retirar-se,- disse-lhe ele, sem deixar de olhar a mulher que tinha na sua frente.


Gente, acabei de chegar. Tivemos um dia de chuva intensa, venho cheia de dores, cansada mas aprendi imenso, sobre a nossa história. Vou jantar, tomar um comprimido para as dores, e depois passo pelos vossos cantinhos.

26.2.18

CARLOTA - PARTE III

Foto da rua onde Carlota trabalhava. Edição de António Passaporte.

A irmã bem tentou saber o que se passava, mas Carlota não se abria. Morria de vergonha que alguém descobrisse o que acontecera, como se fosse a culpada. Infelizmente para ela, não pôde ficar calada por muito tempo, pois “as regras” não vieram e o corpo começou a apresentar sinais evidentes de que estava em transformação. Com a experiência que lhe davam os anos de casada e os três filhos que já tivera, a irmã, cedo se apercebeu do que se passava, e Carlota viu-se obrigada a contar o que se passara.
Revoltado e irritado, o cunhado praguejou, e pensou ir à aldeia tirar satisfações, mas foi demovido pelas duas mulheres. Afinal, naqueles tempos, aquela situação, era mais corrente do que aquilo que se desejava, e aos senhores nunca acontecia nada. Eles tinham dinheiro para comprar o que queriam, até a justiça, que ainda culpava a mulher, e a considerava destruidora de lares. Depois, quem sabe, o malandro não cumpria a ameaça e se vingava no pai da jovem, ou noutro membro da família.
Assim, resolveram até, não contar nada aos pais da jovem, pelo menos por enquanto, que quando o pessoal da aldeia, viesse para a safra, iria ver a jovem prenhe, e no regresso à aldeia, toda a gente iria saber que a jovem “se perdera” e esperava um filho sem pai. Mas até lá, muita água havia de correr debaixo da ponte, quem sabe a gravidez não ia adiante?
Porém isso não aconteceu e em Março, a parteira chamada às pressas pelo cunhado, trouxe ao mundo um belo rapazinho. O cunhado escreveu aos sogros, contando que a jovem, tinha acreditado na conversa de um malandro, que a abandonara quando soubera que estava esperando uma criança. Ele nada pudera fazer, já que o malandro em questão, tinha desaparecido sem deixar rasto. Não podia contar a verdade. Tinha medo do que podia acontecer.
De volta recebeu uma carta da sogra, dizendo que o marido estava furioso, dizia que a filha “era a vergonha da sua cara, que nunca mais queria vê-la, que para ele ela tinha morrido.”
Apesar de saber de antemão, que essa seria a reacção do pai, Carlota sentiu-se destroçada.
Felizmente para ela, a irmã e o cunhado, tratavam-na com muito amor, e davam-lhe todo o apoio material que os seus fracos recursos materiais permitiam, até a cuidar do filho, pois ele era tão pequenino, que ela até tinha medo de lhe pegar.
“Mal de quem morre, os vivos, pontapé daqui, pontapé dali, tudo se cria”, - dizia o povo na época, e até que era verdade. O menino foi crescendo saudável, sempre rodeado dos primos, mais velhos, e a mãe empregou-se como criada de servir na casa de um senhor doutor,(1) em Lisboa. Tinha comida e dormida, o que recebia, entregava à irmã, para o sustento do filho. Os anos foram passando, Carlota estava cada dia mais bonita, não lhe faltavam pretendentes, mas ela não queria saber de namoricos. Naquela época, havia o culto da virgindade, dizia-se que esse era o verdadeiro tesouro das raparigas, e aquela que fosse “desonrada” já não servia para esposa.  Apenas era procurada para diversão, uns minutos de prazer, com que os homens temperavam o corpo e a vida. Carlota sabia disso, via o que acontecia com outras colegas, também criadas de servir. E o que não via, ouvia em comentários, quando se encontravam na praça, ou nas folgas.





1)  Naquela época era comum chamar doutor a qualquer um que fosse rico, mesmo que ele não tivesse qualquer curso superior.

4.12.17

MARIA - PARTE VIII

RE-EDIÇÃO

A segunda gravidez


Os anos seguintes, foram sem dúvida, os mais felizes da vida de Maria. Era jovem,  amava intensamente o marido e sentia-se igualmente amada. Compraram casa, com recurso ao crédito é certo, mas não é assim que quase todos fazemos? Compraram carro, em segunda mão, que o dinheiro, que a madrinha do marido, lhes dera pelo casamento, não chegou para um carro novo. Maria tinha enfim a sua casa , não vivia com a mãe, sempre aturando as reprimendas,  nem tão pouco com a sogra, como acontecera com o primeiro casamento.
Sentia-se tão feliz, que nem "os carinhos" que a mãe dispensava ao genro, sempre que eles a visitavam lhe faziam mossa.
Elisa nunca fora uma mulher de demonstrar carinho,  de um afago. Mas com a doença, e a idade, o seu feitio seco acentuara-se. E a pouco e pouco, Maria ia espaçando as visitas à mãe.
Oito anos após o casamento, a cunhada de Maria ficou grávida, e simultaneamente a sua colega de trabalho também. A alegria das duas, o entusiasmo e o carinho, com que preparavam o enxoval dos bebés, foi-se a pouco e pouco entranhando-lhe no corpo e no espírito, e a sua vontade de ser mãe reapareceu, com tanta força que Maria não soube, ou não quis resistir-lhe. O marido feliz, apoiou  mas aconselhou irem primeiro ao médico, dado os antecedentes. Assim fizeram e Maria submeteu-se a todos os exames, que o médico de família e o seu ginecologista exigiram. A opinião dos médicos, era de que estava tudo bem e nada impedia Maria, de vir a ser mãe.
Quando seis meses mais tarde, Maria contou à mãe que estava grávida, a reação de Elisa foi muito pior do que ela imaginava.
Disse que a filha era uma irresponsável, que bem sabia que não podia ter filhos e que "o retornado lhe dera a volta à cabeça. "Só ele será responsável, pelo que acontecer, vai tornar-se num assassino."
Maria não se conteve. Gritou que a mãe estava doida e que nunca mais queria vê-la e saiu disposta a não voltar a casa da mãe.
Os meses passaram,  a gravidez decorria normalmente, a primeira ecografia mostrou uma menina, e o casal estava muito feliz.
Pouco antes dos sete meses, Maria sentiu-se mal e foi para o Hospital. Feitos os exames, descobriram que o bebé tinha desenvolvido uma hidrocefalia, não aguentou a pressão craniana e estava a morrer.
Foi feita uma cesariana de urgência, mas nada puderam fazer pelo bebé.
Primeiro Maria ficou em choque. Todos os seus sonhos, a esperança de vir a ser mãe, o desejo de dar ao marido o filho que ele nunca lhe pediu, mas que ela lhe queria dar, como complemento do seu amor, foram por água abaixo. E depois do choque inicial veio a depressão.
Na cabecinha doente de Maria,  uma ideia tornou-se obsessão. A sua mãe, fora a culpada pelo que lhe aconteceu. Fora praga da mãe, que nunca quisera que ela tivesse um filho. A relação amor-ódio que sempre tivera pela mãe, transformou-se num ódio feroz. Convenceu o marido a vender a casa e a comprar outra longe da mãe. E jurou que nunca mais ia ver a mãe.
Um dia a empregada doméstica da Elisa, chegou às oito da manhã como costume e estranhou ouvir a televisão da sala. Dirigiu-se lá, e encontrou Elisa sentada no sofá a dormir. Pelo menos era o que parecia. Dirigiu-se à cozinha preparou o pequeno-almoço e só quando foi dizer-lhe que estava pronto, é que se apercebeu de que Elisa estava morta.
Foi a sepultar num chuvoso dia de Dezembro. Sem a presença da filha, que ninguém sabia onde encontrar.


continua