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15.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE IV



Depois do jantar, como já era tarde, e a avó se deitava cedo, Isabel arrumou as suas roupas e como a noite estava quente resolveu dar um passeio. Enquanto o fazia, pensava no que a avó lhe tinha contado. Hélder estava cego. Como era possível? O que teria acontecido? E era escritor? Ela nunca ouvira o seu nome ligado à literatura, nem vira nenhum livro dele. Decerto usaria um pseudônimo. Mas qual? 

De súbito viu-o no passeio do outro lado da rua, e agora sim, reconheceu o cão guia. Ficou parada no passeio, vendo como o cão parava junto do portão do jardim, que ele abria, e entrava, fechando-o atrás de si.

Sentiu uma pena enorme dele, e dela que em dez anos não esquecera um único dia, a vergonha da rejeição que sofrera, e o amor que desde menina lhe devotava.

Lentamente tomou o caminho de casa, uma ideia martelando na sua cabeça. A avó dissera que ele andava à procura de uma secretária. E se ela fosse essa secretária? Tinha aquele mês de férias, e depois podia pedir férias sem vencimento. Afinal nunca lhe davam casos importantes para defender pois no escritório, todos sabiam que mais cedo ou mais tarde sairia, para ir viver com a avó e montar um escritório passando a exercer lá a sua profissão.

 Mas enquanto montava ou não o escritório, enquanto arranjava clientes, podia ser secretária dele. A questão era que ainda não tivesse preenchido a vaga, e que não soubesse quem ela era. Para isso teria que pedir segredo à avó.

No dia seguinte, falaria com ela. Depois iria, vê-lo e tentar ganhar o lugar de secretária. Talvez quem sabe, ficasse a saber a razão daqueles dez anos de ausência,  do que tinha feito entretanto, e do seu pseudônimo literário. 

Será que ele se lembrava dela? Que guardaria uma boa recordação daqueles tempos, ou ficara tão zangado que a eliminara das suas lembranças?
A noite estava bastante quente. Isabel, tomou banho, enfiou um curto pijama de Verão, e finalmente adormeceu.
 
Acordou cedo. Lavou o rosto, escovou os dentes e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou a avó a fazer as torradas.
Deu-lhe um beijo e disse:
- Senta-te avó, eu faço o pequeno-almoço. 

26.5.20

ISABEL - PARTE X



Apesar da saúde da mãe que se ia degradando cada vez mais, foi uma alegria quando conseguiu o primeiro contrato. Uma campanha publicitária para uma grande superfície. Fez sucesso e logo veio uma outra para um telemóvel. E essa campanha mudou o conceito publicitário no país. Foi um sucesso tão grande, que em breve não conseguia dar conta de tantos contratos sozinha, e teve que arranjar uma assistente para a ajudar, até porque nos fins-de-semana tinha que cuidar da mãe e andava muito cansada. Foi nessa época que contratou Amélia,  que se veio a revelar ser de grande valia, uma assistente competente e confiável, que se tornou mais tarde,  também numa grande amiga.
Menos de dois anos depois a mãe partiu. O pai ficou muito abalado e a sua saúde, já débil, ressentiu-se ainda mais. Isabel desdobrava-se para conseguir cumprir datas no trabalho e cuidar do pai que uma noite caiu da cama e ficou ainda mais dependente. Ermelinda continuava cuidando de tudo de dia, mas de noite e nos fins-de-semana era sempre ela quem cuidava do pai. Lembrou-se da primeira vez que lhe deu banho. O pai chorou o tempo inteiro de vergonha.
Foram três anos muito cansativos. Um certo dia Isabel teve conhecimento de um concurso internacional de marketing  que ia decorrer na Alemanha, e decidiu concorrer. O seu trabalho foi premiado e teve que viajar para lá.
O pai estava cada dia pior e ela viu-se obrigada a procurar um lar onde o pôr. Não podia viajar de outro modo.
Depois desse trabalho Isabel teve outros trabalhos para a Europa e outras viagens. Sempre que estava no país passava todas as tarde duas horas com o pai. No escritório, agora apenas dela, já que Irene se casara e fora viver para Coimbra,  além de Amélia, sua assistente, tinha uma jovem estagiária, que acabou ficando a trabalhar com ela durante mais de quatro anos, até que decidiu trabalhar por conta própria A vida profissional de Isabel progredia a olhos vistos mas a vida pessoal praticamente não existia.
No início de 2007, o pai partiu. Morreu serenamente enquanto dormia.
Depois do funeral Isabel pôs à venda a casa dos pais e foi viver para um moderno apartamento perto do escritório. Talvez para compensar a sua solidão embrenhou-se ainda mais no trabalho.
Claro que muitas vezes se sentia sozinha. Por vezes ao olhar os casais de namorados que se cruzavam com ela na rua, sentia uma certa nostalgia, e até porque não um pouco de inveja.
Ela queria ter um homem a seu lado, a quem amasse, e que a fizesse sentir-se  amada. Que, como um rio, penetrasse nos recônditos da sua alma sequiosa de amor, transformando a aridez da sua vida, num oceano de novas sensações e emoções.
Era normal. Afinal era uma mulher na plenitude da vida, a quem já fora dado a conhecer, os prazeres de uma vida de amor e paixão. Não era freira, e naqueles vinte anos que passaram desde a morte de Fernando, teve alguns relacionamentos. Breves, sem mais intimidade que a troca de um ou outro beijo, mas logo terminadas, por não conseguirem despertar-lhe qualquer emoção.
“Por esse andar, um dia vais acordar velha e sozinha” costumava dizer-lhe Amélia sua assistente, amiga e confidente,  sempre a seu lado quase desde o primeiro trabalho.
Aquele era um cenário, que não lhe agradava nada. Mas que fazer, se ela ainda não esquecera Fernando? Ela nunca conseguiria partilhar a sua vida com um homem a pensar noutro. Nem acreditava que uma união assim fosse feliz, para qualquer dos dois.  
Veio-lhe à memória a imagem do marido, mas pela primeira vez em quase duas décadas, o seu rosto aparecia esbatido, como que envolto em neblina.
Deu mais uma volta na cama, ajeitou a almofada e por fim adormeceu.



 

13.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLVIII




Calou-se por uns segundos, como se passados todos aqueles anos, as recordações continuassem a ser muito dolorosas.
Ela sentiu vontade de se levantar, e de o abraçar fortemente, para mitigar aquela dor. Mas quando se aprestava para o fazer, ele retomou a palavra.
-Há coisas de que um homem não consegue falar, porque a dor lhe trespassa  o coração e a vergonha lhe rasga as entranhas.
Calou-se de novo por alguns segundos, passou a mão pelo cabelo e retomou a palavra.
 E então contou  como após o divórcio, se sentia motivo de troça de todo o bairro, de como isso destruíra a confiança em si próprio e nas mulheres, e dos cinco anos que passou em Luanda, trabalhando que nem um doido, tentando não só esquecer o passado, mas também juntar o máximo de dinheiro que lhe permitisse montar a sua empresa. 
Falou-lhe do seu primeiro carro que tinha de conduzir de dia, enquanto terminava o curso que abandonara quando casara. Falou dos pais, do irmão, da morte dos progenitores, enfim de tudo o que acontecera com ele até ao momento em que recebera no escritório a carta dela.
Mergulhado no mar tenebroso das lembranças, não deu pela aproximação da mulher, senão quando os braços dela o enlaçaram pelas costas e lhe disse:
- Perdoa, não queria fazer-te sofrer.
Voltou-se e segurando-lhe o rosto entre as mãos, disse:
- Não há nada para perdoar, Isabel. Tens razão, sempre a tiveste. Não podemos querer, que alguém retribua o nosso amor, se não deixamos que essa pessoa o descubra e nós próprios fazemos tudo para não acreditar nele .
- O que queres dizer com isso? - perguntou trémula.
-Vem, vamos sentar-nos e esclarecer tudo o que há para esclarecer de uma vez - disse pegando-lhe na mão e reconduzindo-a ao sofá.
Sentaram-se ambos lado a lado, mas não abraçados. Ricardo não queria perder a cabeça, antes de ter mostrado tudo o que lhe ia na alma, para que nunca mais houvesse uma dúvida a separá-los.
- Impus a mim mesmo duas regras de ouro. Nunca mais fazer sexo com ninguém sem proteção, e nunca mais entregar o coração a mulher alguma. Aproveitaria da vida as oportunidades que ela me desse e era tudo. Por isso eu nunca poderia ter-me envolvido com a Susana. Ela estava na idade em que eu fora enganado, e sei melhor que ninguém a marca que um desengano nessa idade pode deixar.
Quando fiz o teste do ADN, e descobri que a Matilde era minha sobrinha, decidi que ela tinha que ser minha. De um modo que não sei explicar, amei-a imediatamente. Era como se aquela outra criança que tanto amei e nem cheguei a conhecer, viesse agora para os meus braços. Porém eu não queria tirar-ta, e tu não te separarias dela. Estava num impasse quando o Artur me aconselhou a pedir-te em casamento. Hesitei. Tinha medo do que esse casamento me podia trazer. Tentei manter o coração à margem e guiar-me apenas pelo desejo que despertaste em mim. Mas ainda assim prometi a mim mesmo que tudo faria para que a nossa relação fosse agradável. Mas tu não ajudaste muito. Não aceitavas nada do que te oferecia, e aos poucos ias-te afastando de mim. Do modo que amavas a Matilde, sempre pensei que querias ter filhos e esperava que um dia me viesses dizer que estavas grávida.
 Eu não sabia que tomavas a pílula, e fazíamos amor praticamente todos os dias, mas nunca engravidaste. Comecei a pensar que era estéril, e mais dia, menos dia, ias descobri-lo. Cheguei a pensar que já o sabias e era por isso que ias perdendo a alegria e a naturalidade. E foi nessa altura que me dei conta de como te amava e de que ficaria destruído se te perdesse. 
  

9.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLIV

Boa noite, amigos. O estado do meu marido, continua estável e ele continua a fazer exames. Hoje está a fazer registo de Holter, fez vários testes neurológicos e falei com o neurologista que me disse que continuam à procura do que pode ter causado o AVC. Disse que vai continuar a fazer exames esta semana e dia 12 vai fazer uma ressonância a Lisboa. Também me disse que amanhã vão tentar levantá-lo e que vai ser visto por um colega de fisioterapia.
É tudo por hoje. A minha eterna gratidão para vós.


Artur já a esperava junto à porta quando saiu. Cumprimentou o amigo, e sentou-se a seu lado, apertando o cinto de segurança.
-Os meus parabéns – disse ele
- Obrigado. O Artur conhece o Ricardo há muito tempo? – perguntou
- Quase desde sempre. Morei durante quinze anos no mesmo andar que os seus pais. Quando fui para lá viver ele devia ter uns três ou quatro anos. E depois disso sempre estive mais ou menos em contacto com ele, exceto os anos que esteve em Angola.
-Então conheceu a primeira mulher dele?
-Claro!
- Estiveram casados muito tempo? Eram muito apaixonados? Como era ela?
- Porquê todas essas perguntas agora?
- Curiosidade. Ele nunca fala do seu passado. Não sei nada dele, até ao dia que me apareceu em casa.
- E isso é mau?
-É como se eu não tivesse qualquer importância para ele.
- Posso garantir-lhe que isso não é verdade. Às vezes há coisas que por muito dolorosas, ou estúpidas, um homem tem vergonha de contar. Isso, nada tem a ver com os sentimentos dele por si.
- E esse é o caso dele!
Não era uma pergunta, mas uma constatação.
- É. O que aconteceu com ele foi cruel e doloroso. Cabe-lhe a si fazê-lo esquecer, se é que já não esqueceu.
Tinham chegado à porta do prédio onde vivera até há meia dúzia de meses.
- Pode descer Isabel, eu vou ver se arranjo lugar para estacionar o carro.
A jovem desceu, abriu a porta do prédio e como tantas vezes fizera ao longo dos anos, bateu com os nós dos dedos na porta da amiga. Natália abriu a porta, e Matilde estendeu os braços para ela, feliz com a surpresa.
-Já comeu quase há uma hora, mas como ouviu que a Isabel vinha almoçar, cismou que a mãe ia deitá-la e não consegui fazê-lo.
Isabel pegou-lhe ao colo e depois de a beijar, ralhou:
- Sua marota! Vamos lá fazer ó-ó, senão logo os avós não a levam ao parque. Mas primeiro tens que fazer xixi!
Colocou-a no chão, e a menina encaminhou-se para o bacio atravessado na entrada de casa de banho. Puxou para baixo os calções e sentou-se.
- Muito bem! - aprovou a mãe.  
Esperou que ela urinasse, limpou-a e levou-a para o quarto. Deitou-a, deu-lhe um beijo e colocou o lençol por cima dela.
- Agora a Matilde vai fazer um soninho muito bom e depois do lanche vai ao parque. A mãe vai almoçar e depois vai trabalhar outra vez
 Fechou a porta suavemente e encontrou os amigos a conversar na cozinha.
- Vamos almoçar? – perguntou Natália. – O tempo passa a correr daqui a pouco já passou a sua hora de almoço.
- Vou só lavar as mãos e já volto!




1.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XI



 Porém o namorado tinha regressado dois meses depois do casamento e não pretendia desistir dela nem do filho. E ela só se mantivera em casa durante aqueles meses, enquanto arranjavam casa e a preparavam para se mudar. Terminava pedindo-lhe que a perdoasse e que não lhe dificultasse o divórcio.
Perdoar? Como é que um homem podia perdoar a mulher, que fez dele motivo de chacota para o bairro inteiro? Um misto de sentimentos tomou conta dele. Raiva, vergonha, humilhação. Como era possível ter sido tão trouxa? Mais uma vez, valeu-lhe a compreensão dos pais, que o ajudaram e apoiaram até ao divórcio. Depois ele sentiu que tinha de partir por uns tempos. Queria afastar-se de amigos e conhecidos, que disfarçavam sorrisinhos de gozo quando o viam. Assim, quando soube que uma firma estava a pedir mecânicos para Angola, foi lá e não lhe foi difícil conseguir um bom contrato por cinco anos. Partiu pois numa manhã de Março, poucos dias antes de fazer vinte e dois anos, deixando a mãe lavada em lágrimas. Porém o pai compreendeu e apoiou-o. Apesar da sua pouca idade Ricardo era um excelente mecânico. Desde menino sempre gostara de mexer nos carros e quando saía da escola, em vez de ir jogar à bola com os outros miúdos do bairro, ia para a oficina do pai, ver como ele trabalhava, aprendendo a conhecer o canto do motor, e o significado de cada uma das suas desafinações. Depois já adolescente, trabalhou durante as férias escolares na oficina, e mais tarde todo o tempo que durou o seu casamento. Tinha por isso um bom conhecimento do trabalho, era aplicado, e simpático e em breve ganhou a simpatia do patrão, e dos colegas. Apesar do fascínio que África exercia sobre ele, Ricardo fazia uma vida recatada, gastando apenas a pequena parte do ordenado necessário à sua sobrevivência e transferindo para Portugal tudo o que a firma lhe permitia. Já nessa altura tinha o sonho de criar uma firma de aluguer de carros de luxo.
Terminado o contrato, regressou a Lisboa, apesar do vantajoso prolongamento do contrato, que a empresa lhe propunha  . Tinha quase vinte e sete anos, a cabeça cheia de sonhos, mas nenhum de amor.
Alugou uma pequena garagem, comprou o seu primeiro carro que lhe levou grande parte do seu pecúlio, e anunciou na Internet o aluguer do mesmo. Começou sozinho, com um único carro, sendo mecânico e motorista. Foi um êxito, as encomendas eram superiores ao que ele pensava, e assim ao fim de um ano, comprou o segundo, e contratou o seu primeiro motorista, Sérgio, que mais que um empregado era um verdadeiro amigo. Os anos foram passando, o negócio prosperando cada vez mais, e agora doze anos depois, ele tinha uma dúzia de carros de luxo, e dez motoristas-mecânicos que podiam conduzir os clientes a qualquer parte, mas estavam aptos a reparar de imediato o carro se surgisse alguma anomalia. 
De súbito voltou-lhe à memória aquela criança e o imbróglio em que o tinham metido. Mas ele iria exigir a retirada do seu nome do registo dela, logo que tivesse em mãos o resultado do teste de ADN. E só não exigiria uma indemnização, porque pelo que viu daquela casa, a mãe, ou tia da criança não teria como a pagar.
Estava desejoso, que o seu amigo Artur lhe trouxesse o relatório da investigação que estava a fazer.

10.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLVIII



A tensão acumulada durante aquelas duas semanas, a conversa com o pai e o irmão, a solidão dos seus quase trinta anos, tudo isso tinha fragilizado a jovem e a tinha feito chorar. Talvez fosse o seu relógio biológico que estivesse a dar sinais de envelhecimento. Ela não sabia. O que sabia é que sentia um aperto no peito e uma enorme vontade de chorar.
Ele não disse mais nada. Limitou-se a mantê-la apertada ao peito e aguardar que ela exteriorizasse toda a dor que a acompanhara durante tantos anos. Gradualmente os soluços foram diminuindo e finalmente cessaram. Por fim ela levantou o rosto para ele e murmurou.
-Desculpa, não sei o que me deu. Deves estar a pensar que sou doida.
Tentou levantar-se, mas ele segurou-a com firmeza.
- Não tenhas medo, nem vergonha dos teus sentimentos. Não pudemos viver uma vida inteira, carregando sentimentos que nos vão destruindo aos poucos, sejam eles desejos de vingança, frustração, ou carência afetiva. Descobri isso há pouco tempo.  
-Pensei que estavas zangado comigo. Não permitiste que me aproximasse de ti, nem sequer para me despedir, - queixou-se.
-E isso incomodou-te? Queres dizer que eu te importo um pouquinho?- perguntou ansioso.
Escondendo de novo o rosto no peito masculino ela confessou com uma única palavra.
-Sim
Ele levantou-lhe o queixo, e durante uns segundos procurou ler nos  olhos dela, a verdade daquela declaração. Depois a sua boca procurou a dela que se abriu para ele como o botão de rosa se abre para o raio de sol que a acaricia. O desejo tomou conta deles e o beijo inocente e tímido, tornou-se gradualmente mais intenso, exigente e possessivo, depois a sua boca percorreu-lhe o pescoço, a língua acariciando o lóbulo da orelha, as mãos infiltrando-se debaixo do top e recriando-se com o toque suave do corpo feminino, em carícias que a enlouqueciam, e a faziam soltar suaves gemidos de prazer.
 Trémula de paixão, Paula devolvia as carícias, as mãos acariciando-lhe a nuca, para descerem depois e se entregarem à tarefa de lhe desabotoar os botões da camisa, na ânsia de sentir sob as suas mãos, o calor do torso masculino. De súbito porém, ele parou e afastando-a um pouco disse com a voz enrouquecida pela paixão:
- Querida, estou louco de amor. Quero tanto fazer amor contigo, que me sinto enlouquecer de desejo. Porém se tu não o desejas, se queres parar, tem que ser agora. Mais um pouco e não vou ser capaz de me controlar.
Como resposta, ela levantou-se, pegou-lhe na mão e disse simplesmente:
-Vem
E de mão dada, guiou-o até ao seu quarto.  


O último capitulo sairá hoje ao meio-dia.

27.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XII





Ricardo contara tudo isto, de pé junto à janela, de costas para ela.
Sentia uma mistura de vergonha e raiva, por se ter deixado enganar, duma maneira tão infantil. Tinha sido um idiota.
Clara era uma mulher muito sensível. Teve a noção exata de quanto ele devia estar a sofrer, e resolveu interrompê-lo.
- Fala-me de Soraia. Costuma ter pesadelos com o desta noite?
- Durante uns meses teve-os diariamente. Agora já não são tão frequentes- respondeu voltando-se por fim
-Que aconteceu com ela?
-A aldeia onde nasceu foi palco de um bárbaro assalto. Como já te disse tenho estado quase sempre em missões no estrangeiro pois já por duas vezes fui destacado para o quadro da NATO e também já estive ao serviço da ONU. Há dezoito meses numa missão no Mali, encontramos uma aldeia em cinzas. Todos os habitantes da aldeia tinham sido chacinados. Quando íamos embora, um dos meus homens disse ter ouvido um choro. Não acreditei que alguém pudesse ter escapado com vida daquele inferno, mas podia ser algum animal que caísse nalguma armadilha. Ordenei-lhes que se separassem em dois grupos, e fizessem uma batida pelos arredores.
 Eu mesmo parti à frente de um dos grupos, o capitão Santos comandava o outro.
 Foi um dos meus homens que me chamou a atenção para o ruído que se ouvia por trás de uns arbustos ali perto.  Ela estava aí num buraco encoberta pelos arbustos.  Não sei a idade exata que teria na altura, mas calculamos que devia andar pelos dois anos. Também não  sabemos como fora parar naquele buraco, se alguém a escondera ali, ou se ela própria se afastara e caíra no buraco. O facto é que isso lhe salvou a vida. Quando a encontramos estava suja, faminta e desidratada. Quando lhe peguei, ela agarrou-se ao meu pescoço, como quem se agarra à própria vida. Penso que deve ter tentado sair do buraco, mas aterrorizada pelas chamas, acabou escondendo-se de novo. Isto porque ela ficava aterrorizada cada vez que via uma chama, mesmo que fosse de um fósforo, quando algum dos rapazes acendia um cigarro. 
Levei-a para o hospital onde esteve quase um mês. Ia vê-la todos os dias, e era tal a sua alegria, quando eu chegava que até o pessoal do hospital ficava impressionado. Deixei-me encantar por ela. Deves ter reparado que é praticamente da mesma idade do Bernardo. Um dia o pediatra disse-me que ela ia ter alta e iriam entregá-la às autoridades, a fim de ir para algum orfanato. Fiquei de rastos. Tinha criado com ela um vínculo de amor, não podia deixá-la para trás, abandonada à sua sorte. Perguntei ao médico, o que podia fazer para a tirar do país. "Nada - respondeu-me ele.- Só poderia fazer alguma coisa se fosse sua filha".  " E que tenho de fazer para declarar que é minha filha - perguntei".  "Com uma boa maquia, pode-se arranjar um registo de nascimento falso - respondeu-me". 
Dinheiro nunca foi problema para mim.  Não serei um multimilionário, mas tenho uma fortuna considerável. Disse-lhe que pagaria o que fosse preciso e ele mesmo me apresentou ao funcionário que arranjou o documento, inventando um nome e uma data de nascimento para ela, bem como um nome de mãe, falecida e claro o meu nome como pai. 
Portugal não tem embaixada no Mali. É o embaixador de Portugal no Senegal, que a partir da embaixada em Dakar resolve os casos de diplomacia no Mali. De posse do documento, recorri a ele, solicitando a sua mediação, para a trazer comigo. E assim  a menina foi-me entregue, e quando a missão terminou, trouxe-a comigo sem problemas já que toda a documentação dela diz que é minha filha e que a mãe já faleceu. 
- Está contigo há muito tempo?
-Como disse encontrei-a há ano e meio, e desde então estive sempre por perto, mas aqui, nesta casa, está há catorze meses. Por causa deles, estou há mais de um ano em Portugal, arranjando desculpas várias, movendo influências, para não sair  em nenhuma missão. Não podia ausentar-me e deixá-los com a Antónia. Mesmo sabendo que ela os adora. 
Tanto ela como o marido, têm uma certa idade e nenhum laço de parentesco com eles. A Segurança Social cair-me-ia em cima, e poderia perdê-los. 
Então Francisco, o meu advogado, deu-me a ideia do casamento,  para lhes dar uma mãe, que os protegesse quando eu me ausentar.

Respondendo à pergunta:
O que ando a ler? "A soma dos dias" de Isabel Allende. A seguir vou ler o último livro de Carlos Correia,  "Momentos para inventar o amor"
Filmes não vejo há bastante tempo.

26.7.18

O DIREITO À VERDADE - FIM




Mais tarde, ela descansava a cabeça no peito forte do marido, enquanto ele, lhe contornava o rosto numa terna carícia. Ela suspirou. Preocupado ele perguntou:
-Estás bem? 
-Sim, - murmurou
-Foi incrível! Nunca experimentei nada assim, senão em sonhos.
Ela levantou a cabeça e olhou-o.
-Sonhavas que eu estava contigo, neste quarto e fazíamos amor.- Não era uma pergunta, era mais uma afirmação, como se ela soubesse
- Muitas vezes, Mas... como sabes? Não me digas que também sonhavas o mesmo, - disse rindo
- Quem julgas, que me ensinou a ser assim tão desinibida? Acreditas que a primeira vez que tive esse sonho, ainda nem sabia quem eras, e vi nele, este quarto tal qual é, sem nunca ter estado na quinta?
- Mais uma razão para nunca duvidares do amor que nos une. Somos almas gémeas, minha querida. Percebi-o desde o primeiro momento que nos vimos. Mas agora é tempo de nos levantar e vestir, já anoiteceu.
-Meu Deus! - Exclamou ela saltando da cama. Daqui a pouco chegam os nossos pais. Que vergonha.
Ele seguiu-a para a casa de banho rindo.
-Querida; estamos casados, lembras-te? E os nossos pais sabem o que é ser recém-casado.
Meia hora mais tarde entravam no carro e dirigiam-se para Coimbra.


Epílogo

Vinte e três de Abril do ano dois mil e dezoito. Cláudio e Helena, estão casados, há quase trinta meses. Durante aquele tempo muitas coisas tinham acontecido nas suas vidas. A casa deles ficara pronta, Cláudio conseguira enfim aquele tal vinho especial que tentava criar há anos, e que acabara de lançar no mercado com o nome de Quinta dos Milagres. Carmo recuperara a saúde e o seu vigor, e até o tio Alberto, estava de novo apaixonado, depois de doze anos de viuvez.
Helena terminara o Curso de História Contemporânea, e já estava a lecionar no Colégio da Imaculada Conceição em Viseu. A sua vida era agora muito diferente daquela que tinha tido em Lisboa. E a maior diferença operara-se nela. A Helena de hoje, era uma mulher feliz e segura de si, do seu amor e das suas capacidades como mulher. Daquela mulher, triste, insegura, que fugia de qualquer relacionamento. por não acreditar ser merecedora, de viver um grande amor, não ficara nem resquício.
Hoje o casal está em Lisboa. Para apadrinharem o casamento de Paula, a amiga de Helena, que foi sua madrinha de casamento, e Sandro o jovem  namorado de há mais de quatro anos.
Tal como a amiga fizera com ela, Helena ajudou Paula a aprontar-se para a cerimónia. E acabava de lhe prender nos cabelos a tiara com o véu, quando a mãe da amiga, entrou no quarto.
- Filha o carro para te levar, acaba de chegar. A noiva deve chegar um pouco atrasada, mas não tanto que desespere o noivo. Lena é melhor vocês irem andando. Os padrinhos já devem estar no altar quando a noiva entrar na igreja.
Helena deu um beijo na amiga, e saiu do quarto. Encontrou o marido na sala com o dono da casa, que parecia mais nervoso do que a filha.
-Vamos, amor? Temos que chegar à igreja antes da noiva.
Cláudio despediu-se do anfitrião, e saíram em direção ao carro. O trajeto até à Igreja de S. Paulo onde se ia realizar a cerimónia era curto.
Quando chegaram ao altar, a igreja já se encontrava cheia. Cumprimentaram o noivo, que se mostrava bastante nervoso, e os padrinhos dele e ocuparam o seu lugar no lado esquerdo do altar. Ouviu-se a marcha nupcial e a noiva entrou no templo, sendo conduzida ao altar pelo braço do pai.
Na hora em que os noivos fizeram os seus votos de amor e fidelidade, Cláudio apertou a mão da esposa entre as suas e olhando-a nos olhos, repetiu num murmúrio, os votos que fizera quando casara, deixando-a emocionada.
E enquanto o padre declarava os nubentes, marido e mulher, e eles se beijavam, Helena inclinou-se e murmurou:
- Eu e o nosso filho, amamos-te hoje e vamos amar-te para toda a vida.
Surpreso, ele olhou-a interrogativo. Ela limitou-se a acenar com a cabeça afirmativamente, enquanto o sacerdote derramava sobre os nubentes, a bênção final.
Cláudio estava por demais emocionado. Apenas teve tempo para lhe segredar, enquanto os noivos se beijavam de novo, antes de serem submersos, por familiares e amigos, num mar de abraços e felicitações.
-Mulher, tu sabes quando dar uma notícia! Prepara-te, a minha vingança vai ser terrível.
Ela riu com malícia, e apressou-se a ir abraçar a amiga.


FIM




22.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXXII




Como era esperado, aquele dia foi complicado para o doutor João Santos. Toda a sua atenção esteve virada para os problemas que o hospital que dirigia enfrentava. Por isso foi com alívio que viu o dia chegar ao fim. Desejava acima de tudo, deixar as funções de diretor. A sua vocação eram os doentes, não resolver problemas burocráticos ou laborais. Estava decidido a pedir a demissão das suas funções como diretor.
A caminho de casa, relembrou os acontecimentos da véspera, e pela primeira vez, perguntou-se se não teria sido demasiado duro com a esposa. Certo que ele estava muito magoado, mas não era razão para a mandar embora. E se ela levasse à letra as suas palavras e voltasse a partir?
Aquele pensamento foi tão doloroso, que de forma inconsciente, carregou no acelerador.
Entrou em casa, e percorreu uma a uma as divisões da casa para constatar com tristeza que tinha sido de novo abandonado. Sentou-se num cadeirão e escondeu o rosto entre as mãos. Abandonado? De modo algum. Não podia queixar-se disso quando fora ele que a mandara embora.
Mas desta vez ela não fugiria para longe, não enquanto a mãe não estivesse totalmente restabelecida. Iria tomar um banho, mudaria de roupa e depois iria a casa dos sogros, pedir-lhe-ia desculpa por ter sido tão radical. Afinal não lhe dera ela na véspera, prova de que o amava? 
Decidido levantou-se e encaminhou-se para o quarto.
Foi então que viu a carta em cima da cómoda e pegou-lhe com mãos trémulas.
Era uma carta de hotel. Isso queria dizer que ela não tinha ido para casa dos pais. Talvez porque não quisesse dar um desgosto à mãe, ou talvez porque ainda tinha esperança de voltar para casa.
Sentou-se na cama, abriu o envelope e retirou as duas folhas de papel. Emocionou-se com a confissão da mulher e revoltou-se ao ler a missiva de Inês. Imaginou o sofrimento da esposa, e sem embargo nem vergonha, chorou. Chorou por ela, por ele, pelo sofrimento dos dois, pelos quase quatro anos de vida perdida.
Que Deus não permitisse que ele encontrasse Inês nos tempos mais próximos, era tanta a sua raiva que era bem capaz de cometer um disparate.
Deixou as cartas em cima da cama e foi tomar banho. Não só porque estava muito calor, mas porque simbolicamente queria livrar-se da sujeira moral, que Inês trouxera para a sua vida.
Minutos mais tarde saía de casa em direção ao hotel.

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E como hoje é dia de poesia, realizou-se na Biblioteca José Esteves, no Convento Madre Deus da Verderena, um evento que constou de três partes distintas. A primeira de Cante Alentejano, a segunda, crianças do 3º e 4º ano, disseram poemas da sua autoria subordinadas ao tema Moinhos, e terceiras, poetas da terra, leram poemas seus ou de poetas que admiram. 

Na foto abaixo, o momento em que lia um dos meus poemas.





27.2.18

CARLOTA - PARTE V


O comportamento de Francisco começou a mudar seis meses depois. Primeiro foram as saídas à noite. Depois o dinheiro que lhe dava para a casa que foi encurtando até deixar por completo de lhe entregar dinheiro. Carlota fazia limpezas em duas lojas, mas o ordenado não chegava para as despesas da casa. Começou a questionar o marido, e ele tornou-se agressivo. 
A poucos dias de comemorarem um ano de casados, levou a primeira sova. 
Ficou com um olho negro, e várias equimoses espalhadas pelo corpo. Tudo porque ela queria dinheiro para pagar, a conta no talho e na mercearia.  
Por vergonha escondeu de todos o que se passava.  Até mesmo quando questionada pela irmã, ela disse que tinha caído na rua. Dias depois, o marido chegou a casa com um ramo de flores, pediu-lhe desculpa, jurou que nunca mais lhe fazia mal, deu-lhe dinheiro, e durante algum tempo tratou-a com carinho, parecendo o homem dos primeiros tempos de casado.
Para mal dela, essas alterações, tornaram-se rotina. Ora lhe batia, ora lhe suplicava perdão e jurava mudar de comportamento. Ora lhe dava dinheiro, ora lho tirava e a deixava sem um tostão em casa. Carlota contou à irmã o que se passava, e disse-lhe que se queria separar do marido. A irmã disse-lhe que era uma vergonha, nunca ninguém na família se separara, o povo ia dizer que ela era uma perdida, e depois ela sabia que “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”. Carlota chorou, mas resignou-se, especialmente depois que descobriu que estava grávida.
Infelizmente não teve tempo para contar ao marido o que se passava. Naquela noite, ele disse-lhe que ia sair e pediu-lhe o dinheiro, que dias antes, entregara para a casa. Ela negou, e depois de duas violentas bofetadas, o marido dirigiu-se à gaveta onde ela guardava o dinheiro.
Com as notas na mão encaminhou-se para a porta. Carlota tentou impedi-lo e ele deu-lhe um encontrão que a derrubou na sua frente. Como se não chegasse ainda lhe deu um pontapé, que a apanhou em cheio na barriga.
Depois abriu a porta e saiu. A jovem ficou no chão contorcendo-se com dores. O filho, aflito, sem forças para a levantar, chamou uma vizinha.
A mulher ajudou-a a erguer-se e ao fazê-lo, Carlota deu-se conta que estava com uma hemorragia. A vizinha ofereceu-se para ir ao café chamar uma ambulância, (naquele tempo poucas pessoas tinham telefone em casa).
No hospital Carlota soube que acabara de perder o filho que esperava.  Ficou internada, pois surgiram complicações, foi operada e informada de que não mais podia engravidar.
O marido ia vê-la todos os dias. Chorava, pedia perdão, fazia promessas. Ela já não acreditava nele. Pensava que ele tinha uma amante. E se assim era, pois que fosse para junto dela. Soube depois que não havia tal amante. O marido era viciado no jogo. Contou-lhe a vizinha quando a visitou no hospital. Fora um sobrinho que lhe contara, “ele está empregado num desses sítios onde se joga,  e diz que já o viu perder muito dinheiro” dissera ela.
De qualquer modo ela estava decidida. Não voltaria para casa. Só precisava falar com, a irmã, e  pedir se lhe cuidava do filho. Ela não tinha dinheiro para alugar uma casa, para  viver com ele. Nessa altura, dava graças a Deus, por Francisco nunca ter cumprido a promessa de perfilhar o garoto.
Assim, não podia exercer qualquer chantagem por causa dos direitos sobre o filho.
Depois, ela havia de se arranjar. O trabalho nunca lhe metera medo.



26.2.18

CARLOTA - PARTE III

Foto da rua onde Carlota trabalhava. Edição de António Passaporte.

A irmã bem tentou saber o que se passava, mas Carlota não se abria. Morria de vergonha que alguém descobrisse o que acontecera, como se fosse a culpada. Infelizmente para ela, não pôde ficar calada por muito tempo, pois “as regras” não vieram e o corpo começou a apresentar sinais evidentes de que estava em transformação. Com a experiência que lhe davam os anos de casada e os três filhos que já tivera, a irmã, cedo se apercebeu do que se passava, e Carlota viu-se obrigada a contar o que se passara.
Revoltado e irritado, o cunhado praguejou, e pensou ir à aldeia tirar satisfações, mas foi demovido pelas duas mulheres. Afinal, naqueles tempos, aquela situação, era mais corrente do que aquilo que se desejava, e aos senhores nunca acontecia nada. Eles tinham dinheiro para comprar o que queriam, até a justiça, que ainda culpava a mulher, e a considerava destruidora de lares. Depois, quem sabe, o malandro não cumpria a ameaça e se vingava no pai da jovem, ou noutro membro da família.
Assim, resolveram até, não contar nada aos pais da jovem, pelo menos por enquanto, que quando o pessoal da aldeia, viesse para a safra, iria ver a jovem prenhe, e no regresso à aldeia, toda a gente iria saber que a jovem “se perdera” e esperava um filho sem pai. Mas até lá, muita água havia de correr debaixo da ponte, quem sabe a gravidez não ia adiante?
Porém isso não aconteceu e em Março, a parteira chamada às pressas pelo cunhado, trouxe ao mundo um belo rapazinho. O cunhado escreveu aos sogros, contando que a jovem, tinha acreditado na conversa de um malandro, que a abandonara quando soubera que estava esperando uma criança. Ele nada pudera fazer, já que o malandro em questão, tinha desaparecido sem deixar rasto. Não podia contar a verdade. Tinha medo do que podia acontecer.
De volta recebeu uma carta da sogra, dizendo que o marido estava furioso, dizia que a filha “era a vergonha da sua cara, que nunca mais queria vê-la, que para ele ela tinha morrido.”
Apesar de saber de antemão, que essa seria a reacção do pai, Carlota sentiu-se destroçada.
Felizmente para ela, a irmã e o cunhado, tratavam-na com muito amor, e davam-lhe todo o apoio material que os seus fracos recursos materiais permitiam, até a cuidar do filho, pois ele era tão pequenino, que ela até tinha medo de lhe pegar.
“Mal de quem morre, os vivos, pontapé daqui, pontapé dali, tudo se cria”, - dizia o povo na época, e até que era verdade. O menino foi crescendo saudável, sempre rodeado dos primos, mais velhos, e a mãe empregou-se como criada de servir na casa de um senhor doutor,(1) em Lisboa. Tinha comida e dormida, o que recebia, entregava à irmã, para o sustento do filho. Os anos foram passando, Carlota estava cada dia mais bonita, não lhe faltavam pretendentes, mas ela não queria saber de namoricos. Naquela época, havia o culto da virgindade, dizia-se que esse era o verdadeiro tesouro das raparigas, e aquela que fosse “desonrada” já não servia para esposa.  Apenas era procurada para diversão, uns minutos de prazer, com que os homens temperavam o corpo e a vida. Carlota sabia disso, via o que acontecia com outras colegas, também criadas de servir. E o que não via, ouvia em comentários, quando se encontravam na praça, ou nas folgas.





1)  Naquela época era comum chamar doutor a qualquer um que fosse rico, mesmo que ele não tivesse qualquer curso superior.

8.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO. - PARTE XXXII



Tal como Paulo dissera, seguiu-os até casa da avó Maria. A noite estava estrelada, a temperatura agradável, e a avó, esperava-os no alpendre.
Os três entraram em casa, e Martim após cumprimentar a bisavó despediu-se afirmando que estava cansado e com sono. Paulo cumprimentou a idosa e aceitou o convite para passarem à sala, onde contou os planos que tinham feito para o casamento. A velha senhora não podia estar mais contente, pois sempre desejou ver a neta casada e feliz. E ela estava convencida que desta vez, Amélia ia ser feliz. Conversaram um pouco e depois a senhora informou que se ia retirar, pois já passava bastante da sua hora habitual de ir dormir.
Os jovens ficaram assim sozinhos na sala. Era a primeira vez que tal acontecia, desde aquele dia junto ao rio.
- Queres tomar alguma coisa? – Perguntou Amélia.
- Não. Vem, senta-te aqui ao pé de mim, - disse ele ajeitando as almofadas do sofá.
Ela obedeceu.
Ele meteu mão no bolso e tirou uma pequena caixa de veludo. Abriu-o, e mostrou um aro de ouro como uma esplêndida esmeralda.
- Escolhi uma esmeralda por ser a cor dos teus olhos, - disse enfiando-lhe o anel no dedo. Depois virou-lhe a mão e depositou um beijo na palma da mão, perguntando em seguida. Gostas?
- É lindo, - disse ela esticando a mão e mirando a joia, encantada. 
- Já to devia ter dado, mas queria fazê-lo num momento em que estivéssemos a sós, - disse ele atraindo-a para si e depositando-lhe um beijo no lóbulo da orelha, descendo depois pelo rosto até aprisionar a sua boca.
Como sempre que ele lhe tocava, Amélia sentia que todo o seu corpo tremia de antecipação. Levantou as mãos e acariciou a base da nuca masculina. Ele aprofundou o beijo, enquanto as mãos se perdiam no corpo dela em carícias cada vez mais ousadas, que a faziam gemer de prazer. De súbito, afastou-a e levantou-se. Os seus olhos escuros, pareciam dois pedaços de carvão incandescente, tal a paixão que manifestava.
- Compreendes agora a minha pressa no casamento?  - Perguntou. Pões-me louco. Quero fazer amor contigo, mas não aqui nem agora. Não seria correto com a tua avó e com o Martim. Entendes?
Ela abanou a cabeça de olhos baixos e rosto ruborizado, envergonhada por sentir que desejara fazer amor com ele sem pensar onde estava. Ele, levantou-lhe o rosto com um dedo e disse.
- Olha para mim. Não tens porque ter vergonha do teu desejo por mim. É absolutamente normal. Agora é melhor ir-me embora. Venho buscar-vos amanhã de manhã. 
Deu-lhe um leve beijo na testa e saiu




2.7.16

PORQUE HOJE É SÁBADO...

                         Foto DAQUI





Louca Perigosa


Deixem-me ir para a rua
quero gritar
chorar
cantar.
Quero levantar bem alto
a bandeira
do desespero.

Quero rir-me de ti
de mim
de todos nós.
Quero que os bandidos
chorem
a dor
e a vergonha
de o serem.

Quero dar pão
A quem tem fome
e dar água aos sedentos.
Quero dar amor
carinho
ternura
a quem vive só.

Quero sofrer com o presidiário
e sorrir feliz com os noivos.
Quero dar um lar aos órfãos
E trabalho a quem o procura.
Quero que todos os políticos
unam esforços
numa aliança firme
por um mundo melhor.

Quero acabar com o terrorismo
e as penas de morte.
Quero acabar com a fome
a poluição,
e a guerra.

Deixem-me ir para a rua
Deixem-me erguer bem alto
a minha bandeira.
E escrevam depois nos jornais
Que anda por aí à solta
Uma louca perigosa.

Elvira Carvalho 

De férias a partir de hoje, espero que tenham um mês excelente. Até à minha volta.

16.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXXIX


                                            Um dos cartazes eleitorais de 1986

Desta vez a recidiva foi mais leve, a Gravelina não chegou a ficar em coma. É medicada, e fica em observação durante 72 horas, findas as quais lhe dão alta. Segundo os médicos terá sido mais a aflição e a emoção do que via na TV, do desastre, que a fez piorar e não propriamente uma recidiva do AVC. É-lhe mudado o anticoagulante e corrigida a medicação e é dada à filha a recomendação de que ela não deve ver certos programas, que a emocionem, ou a enervem. 
Dado o carácter forte dela, e a sua teimosia, será difícil evitá-lo, mas a família tem que tentar.
Em Outubro há eleições que o PSD ganha com maioria relativa, dando origem ao X governo constitucional, liderado por Cavaco Silva, que toma posse a 6 de Novembro. E nas autárquicas de Dezembro, o PSD reforça a sua liderança do país, agora também a nível local, nas autárquicas.
No Natal, o Manuel juntou na sua ceia, não só filhos e netos, como  a cunhada. Nesta altura a Gravelina, já consegue controlar o corpo e manter-se sentada. Também já consegue comer pela sua própria mão, mas não vai à mesa. Não controla ainda o maxilar, por vezes deixa cair a comida na roupa e tem vergonha de comer junto da família. Não há quem a demova. Ela come na sala, num carrinho mesa que o filho lhe fez, para ela comer mais confortável sentada na cama ou no sofá. Para lhe fazer companhia, o marido decide comer com ela na sala.
Dias depois, no início de 86, Portugal e Espanha entram para a Comunidade Europeia. 
Quase no final do mês houve eleições Presidenciais, que pela primeira vez na história recente da democracia, obrigaram a uma segunda  volta. Excluídos Salgado Zenha, e Maria de Lurdes Pintassilgo, o embate final é entre Mário Soares e Freitas do Amaral. 
A segunda volta, será marcada para 16 de Fevereiro,  e Freitas do Amaral leva uma grande vantagem sobre Mário Soares que nas sondagens não ultrapassa os 8% das intenções de voto.  Porém durante a campanha, Mário Soares é agredido na Marinha Grande, e isso criou uma tal indignação ao país que mudou o rumo da história.
Em casa do Manuel, a mulher começa a controlar a urina e pode assim largar as fraldas. Porém ela ainda não consegue andar, é na cadeira de rodas que vai para a sala, ou para a casa de banho, e não o consegue fazer sozinha. A filha compra um bacio alto, mas ela não tem estabilidade para o usar e o mais certo será cair.  Engenhoso como sempre foi, Manuel pega numa cadeira de madeira antiga, pesada e estável, arranca-lhe o assento, colocando-lhe no lugar, uma tampa de de assento sanitário, ficando a parte de baixo, tipo caixa, onde encaixou o bacio. Com esta cadeira ao lado da cama, a Gravelina podia largar as fraldas, o que era muito bom não só para a pele, como para o orçamento da casa, já que as fraldas representavam um gasto considerável. 
Para que ela não corresse o risco de cair, o filho fez uma barra de ferro que colocou ao pé da cama, a fim de que com o braço direito ela compensasse nesse apoio a força e o movimento que não tinha na perna esquerda.

18.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXV




Iniciava-se a década de 60, a gloriosa década de 60, o mundo inteiro está em mudança, mas em Portugal, a politica de isolamento, castrava à nascença, qualquer indício de modernidade vindo do estrangeiro. Por outro lado a maioria do povo seguia uma vida de miséria, provações e medo.  E na seca, a vida continuava absolutamente igual ao que sempre fora.  A mulher do Manuel, era simultaneamente porteira,e trabalhadora da Seca,  já que era ela quem abria o portão, para o pessoal que vindo do Barreiro, encurtava caminho, passando pela caldeira do Alemão, e seguindo junto ao rio, até ao portão de entrada na Seca, que lhe ficava à porta. Quando passavam as últimas pessoas, fechava o portão à chave, e seguia com elas para o trabalho de lavar, salgar, banhar, estender ou enfardar o bacalhau. À tarde saía um pouco mais cedo para ir abrir o portão, por onde o pessoal passava de regresso a casa. Cabia-lhe ainda, a ingrata tarefa de revistar os cabazes que o pessoal trouxera com o almoço, não fora alguém esconder nele algum bacalhau. Na Seca havia outro portão, que servia para os trabalhadores que moravam na Telha, ou vinham de Palhais, ou Santo António. Era a entrada principal por onde passavam os carros.
Além dos três filhos com pequena diferença de idade, o casal cuidava ainda dum sobrinho, que tinha quase a idade do filho deles, e tinha escrito aos tios, logo que terminou a primária, a pedir para vir morar com eles, pois queria fugir da miséria na aldeia.
No casarão vivia ainda o cunhado mais novo  do Manuel, que entretanto saíra da tropa e fora trabalhar para a Siderurgia no Seixal. Namorava uma rapariga de Palhais, que trabalhava na Seca, queria juntar uns tostões para o casamento e vivendo com a irmã não pagava renda, era mais fácil.
A filha mais velha já trabalhava na Seca, sempre ajudava o orçamento.  Ficou assim a trabalhar na seca durante a safra. O pior eram os meses em que o trabalho na seca estava parado. A miúda já se inscrevera em lojas, mas sempre queriam alguém com experiência e ninguém tem experiência antes do primeiro trabalho.
O pequeno terreno que desbravara ao mato, ajudava com os legumes, e a mercearia ele mandava pôr no rol, que pagava religiosamente quando a próxima safra começava.
A filha do meio estudava na Escola Industrial e Comercial Alfredo  da Silva no Barreiro, porque depois de muito pensar, de pesar os prós e os contras, Manuel decidiu que ia dar à filha a oportunidade de estudar. Pelo menos naquele ano, depois se veria se ela sabia ou não aproveitar a oportunidade. O filho, que finalmente começara a falar como gente, recuperara o tempo perdido, e está agora na 4ª classe no Barreiro.