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9.7.24

CAROLINA

 Reedição



A mulher que sentada na beira da cama se  entregava à tarefa de entrançar a sua farta e negra cabeleira, não teria mais de trinta  anos, embora pequenas rugas, a fizessem parecer mais velha.
Era muito bonita, talvez um pouco alta demais para o comum das mulheres portuguesas, mas muito bem proporcionada. Muito morena de cabelos e olhos negros. Na aldeia quando era menina, e as outras crianças por qualquer razão se zangavam, chamavam-lhe farrusca por causa do seu tom de pele. Ela crescera com esse desgosto, mas agora aquela cor começava a estar na moda e não raras vezes ela notava os olhares de inveja que lhe lançavam.
Lançou um breve olhar sobre o berço onde um bebé dormia tranquilamente. Hoje era um dia especial. O menino ia ser batizado. Não haveria festa, o dinheiro era escasso, a vida era muito difícil a meio do século XX. Mas para ela, o dia em que o seu menino ia ser apresentado ao altar e purificado com o sacramento do batismo, seria sempre um dia especial.
Acabou de entrançar o cabelo e enrolou a trança no alto da cabeça prendendo-a com alguns ganchos.
Alisou a saia rodada que lhe chegava a meio da perna, dobrou um velho pedaço de lençol impecavelmente limpo em triângulo como se fosse um lenço, dobrou outro pedaço igual de modo a ficar como uma tira que colocou por cima do anterior, ficando assim com as fraldas preparadas para mudar o menino quando ele acordasse. Debaixo da cama retirou uma caixa que colocou em cima da mesma. Lá dentro repousava o vestidinho de crepe azul que a madrinha entregara na véspera para o batizado.
 Foi até à cozinha, pegou as malgas do pequeno-almoço que tinham ficado a escorrer e guardou no armário. A cafeteira de alumínio foi pendurada na grade de madeira na parede.
A casa era pequena, apenas o quarto e a cozinha, mas apresentava-se limpa. No quintal, separada da casa alguns passos, uma pequena divisão, com uma sanita e um chuveiro. Claro que era aborrecido que não estivesse ligada à casa, especialmente de noite e de inverno, mas ainda assim Carolina achava que tinha muita sorte pois tinha água canalizada, coisa, que na maioria das casas, daquele pátio não existia. Não tinha eletricidade, mas nunca faltara o petróleo para o candeeiro.
Sentou-se de novo na beira da cama, junto ao berço do filho e enquanto aguardava o marido que fora ao barbeiro à Telha, deixou que as lembranças saltassem da gaveta das memórias, onde ela as trancara.
Carolina era a sexta filha de um casal já entrado na idade e que já tinha cinco rapazes entre os vinte e os nove anos. Fruto de um descuido do pai,(1)a mãe que julgava estar na menopausa só se apercebeu da gravidez quando já era demasiado tarde para a “pôr a estudar”.(2)
A mãe falecera poucos meses após o seu nascimento, vítima de complicações surgidas pós parto e o pai culpava-a pela morte dela. Os irmãos não sabiam o que fazer com ela e não fora uma vizinha tomar conta dela, talvez não tivesse sobrevivido. Até porque os tempos eram muito difíceis, a segunda guerra mundial  ainda não tinha acabado e muitos dos bens essenciais eram racionados. Não fora por isso, uma criança desejada e muito menos amada.
Mas como diziam na aldeia, “mal de quem vai, quem cá fica, trambolhão daqui, trambolhão dali, tudo se cria”
Quando Carolina entrou na adolescência mostrava já que iria ser uma bela mulher, e aí começou nova luta, já que os irmãos, diziam que ela estava uma bela "franguinha" e o mundo estava cheio de gaviões. E não a deixavam pôr o pé fora de casa, e ela tinha ânsias de liberdade. Entretanto o pai faleceu, os dois irmãos mais velhos casaram e foram viver para a cidade grande, o terceiro casara e fora viver com o sogro na aldeia vizinha. Na velha casa de família restava ela e um dos irmãos, já que o mais novo emigrara para o Brasil, na esperança de um futuro mais risonho. Farta da vida na pequena aldeia, escrevera aos dois irmãos, pedindo para ir viver com eles na cidade, mas não recebeu resposta.
Então começou a juntar algum dinheirito, do que o irmão lhe dava para as compras da casa, e um belo dia de Verão fugiu de casa rumo a Lisboa. Acabara de fazer dezasseis anos mas o seu corpo era já o de uma mulher.


CONTINUA


Como vêm esta história é uma reedição. Foi publicada em 2014. É uma história de outros tempos,  pequenina só dois posts. Espero que gostem.

(1) Naquela época o único meio que os casais conheciam de evitar uma gravidez era o coito interrompido. Milhares de crianças nasciam porque o homem não era muito hábil na hora, e quando isso acontecia as mulheres diziam que a gravidez era um descuido do marido.

(2) "pôr a estudar" era a maneira como diziam de quando uma mulher provocava a si mesma um aborto, utilizando algumas mezinhas caseiras cujo preparo, passava de mãe para filha. 

20.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE VIII

 



Aquela semana, foi muito complicada para Helena. Desde logo porque não conseguia afastar da cabeça, o homem que socorrera, e que fisicamente melhorava de dia para dia, estando prestes a ter alta.

 Helena já tinha conversado com Sandra, a colega que chefiava a equipa de médicos que o tinha a seu cargo, e sabia que no final da semana lhe iam dar alta. Faltava uma semana para o Natal e por essa época todos os doentes que estejam em fase de recuperação, têm alta a fim de passarem a quadra com a família. É todos os anos assim.

 A equipa médica até tinha feito uma “vaquinha” para lhe comprarem alguma roupa, uma vez que aquela com que tinha entrado no hospital, estava imprestável e tinha sido incinerada. Também sabia que a polícia não descobrira nada sobre ele, que continuava com amnésia. 

Não conseguia deixar de pensar nele, o seu rosto povoava-lhe os sonhos. Tentava encontrar desculpa para o seu interesse nos sentimentos humanitários, que no fundo, talvez não  tivesse, se o paciente fosse outro, fosse mais velho, ou menos atraente. 

A verdade, é que tinha quase trinta e dois anos, estava no máximo da sua plenitude sexual e excetuando o caso breve com o pai do filho, não tinha tido outro relacionamento com homem algum. E o que estava a acontecer, é que se estava a apaixonar por aquele desconhecido misterioso e muito atraente.

Sabia que a polícia estava a tentar arranjar um sítio onde o acolher até ver se conseguiam descobrir a sua identidade, mas pretendia levá-lo para sua casa, pelo menos naquela quadra. Tinha dez dias de férias para desfrutar, a partir da próxima semana, esperava passá-los na aldeia com os pais, e podia perfeitamente levá-lo como se fosse um amigo. Pelo menos passaria o Natal em ambiente familiar, e depois se veria. Talvez até, quem sabe, ele recuperasse a memória, nesse espaço de tempo.

 De modo que estava resolvida a falar com a polícia e ficar responsável por ele. Não era uma decisão muito sensata, podia até ser perigosa, pensava.  É que ele tanto podia ser um cavalheiro como um psicopata, mas ela confiava nos seus instintos e eles diziam-lhe que não se tratava de um facínora. E demais se o fosse, a polícia  com todas as fotos que lhe tirara, não o teria já identificado? 

Preparou o quarto de hóspedes, já que ele teria alta no sábado e ela só seguia para a aldeia na segunda-feira, e depois conversou com o filho, para que o menino,  não estranhasse a situação. E assim naquela tarde de sábado, dirigiu-se ao hospital, a fim de o ver e convidá-lo a acompanhá-la.



 



28.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE XII

 


Cinco dias depois, na agência sem clientes à vista, Rita e Lena conversavam.

- O Inácio está doido de alegria, e os meus pais nem se fala. – dizia Rita passando a mão pela negra cabeleira.

--E tu não? – perguntou a amiga

-- Também estou feliz, claro que sim – disse sem muita convicção

- Mas não pareces muito entusiasmada. Que se passa? - perguntou Lena

- Depois de seis anos de tentativas infrutíferas, penso que já me tinha mentalizado que nunca engravidaria. E agora que o consegui, o medo não me deixa saborear a felicidade.

- Medo? De quê? – perguntou espantada, pois a amiga sempre fora a imagem personificada de uma mulher forte, com nervos de aço.

- Faltam-me poucos meses para fazer quarenta anos. E sabes o que se diz sobre ter o primeiro filho depois dos trinta e cinco.

- Por amor de Deus, Rita! Isso era antigamente. Hoje em dia, as mulheres trabalham fora de casa, têm as suas carreiras e são mães cada vez mais tarde. Por um lado, a ciência evoluiu muito, por outro o próprio corpo humano vai-se adaptando às novas condições.

Nesse momento o seu telemóvel deu sinal de mensagem, E Helena apressou-se a lê-la.

É da Matilde? - perguntou Rita.

-- É. Diz que chegaram bem, que já montaram as tendas, e que vai ter de desligar, pois só podem ter os telemóveis ligados de manhã e à noite.

-Pronto, já podes ficar calma. Há mais de seis anos que a Matilde está nos escuteiros e vai acampar três ou quatro vezes por ano, e tu ficas sempre nessa ansiedade. Nem sei porque a deixas ir.

- Penso que a vida nos escuteiros, é um aprendizado importante para ela. Mas isso não impede que nos dois, três dias em que está ausente, a preocupação e a saudade não tomem conta de mim. Quando fores mãe, saberás o que sinto.

- Talvez tenhas razão. Bom mudando de assunto, como vamos fechar a agência para a semana, vais passar a Páscoa à aldeia?

-Vou. Desde o Natal que não vejo os meus pais. Tenho muitas saudades deles. O meu irmão também vai. Conheces-nos, sabes como somos uma família unida. É verdade, sabes que a Sofia está outra vez grávida?

- O quê? – Mas o teu irmão não tinha dito que ficavam por ali quando o Mário nasceu?

-Segundo o meu irmão me disse, a Sofia queria tentar de novo a menina. E ele resolveu fazer—lhe a vontade. Espero que não venha outro rapaz.

- Mas porque esperaram tantos anos? O Maurício daqui a pouco já namora…

-Ainda só fez quinze anos! E o Mário fez há dias 12 doze. Estou desejando de os rever.

-A tua cunhada é uma mulher corajosa. Eu acho que no lugar dela não me atrevia a uma nova gravidez. Compreendo o desejo de uma menina, mas que hipóteses tem de que isso aconteça? E se vem outro menino?

- Seja menina ou menino toda a família, vai acolher o bebé com muito amor.

-Isso é certo. Mas ela vai passar um mau bocado. Não me consigo imaginar a conviver diariamente com um bebé, noites sem dormir ou mal dormidas e dias com um adolescente e um pré-adolescente. Dava em doida.

-A Sofia é uma mulher calma e paciente. Mas voltando à Páscoa. E vocês? Passam—na com os teus pais ou com os pais do Inácio?

-Estamos a pensar ir também para a aldeia.  Parece que o meu avô tem estado doente, e o pai quer passar com ele algum tempo. E nós também não o vemos desde que ele veio ao casamento há seis anos. Está velhinho e pode partir a qualquer altura. Por isso vamos todos, incluindo os meus sogros.

- E não se esqueçam de ir visitar os meus pais. Para além da amizade que liga os nossos pais, sabes que os meus te adoram, como se fosses parte da nossa família.

- Claro que iremos. Eu também os adoro.

 

7.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XVIII

 



Eles continuaram o passeio, mas a alegria que Sofia sentira até aí, já não era a mesma. Era como se uma sombra negra pairasse entre eles.
Decorridos uns minutos, ela perguntou suavemente:
-Dói muito?
Ele olhou-a surpreendido. Encolheu os ombros e respondeu.
- Já foi pior.

A resposta deixou-a cheia de esperança.
Talvez ela ainda tivesse hipótese de conquistar o marido.

Aos poucos Sofia ia conhecendo uma realidade muito diferente daquela que conhecera em Portugal. Não só porque fora de uma pequena aldeia para uma cidade enorme, como pela mentalidade das pessoas, e até pela posição privilegiada de que gozava. Mas o que mais a admirava, era mesmo a diferença de mentalidades. 

Na sua aldeia, as pessoas não tinham presente, viviam presas ao passado, buscando nele, a conformação para os seus problemas diários. Diziam que apesar das dificuldades, que passavam, não se podiam queixar, porque os seus pais tinham vivido muito pior. Não fora o medo da guerra, ou da prisão, e a escassez de trabalho, talvez nem houvesse tanta gente a procurar na emigração a solução para as suas vidas. 

Em França, as pessoas viviam o presente, pensando no futuro. Não queriam pensar no passado, nem encontrar nele,  desculpas para não lutarem por aquilo  que desejavam. Talvez fosse influência da guerra recente. Excetuando os mais jovens, os outros tinham-na ainda bem presente. Ou talvez consequências do movimento grevista, iniciado em Maio do ano anterior. Os salários tinham aumentado consideravelmente, havia mais gente a estudar, e as minorias ganhavam novas regalias.

Num dos seus passeios no dia de folga, foram até à gare de Austerlitz, e Sofia ficou espantada com a quantidade de portugueses que chegavam de comboio. Sabia que era grande o afluxo de conterrâneos, mas nunca imaginou que fossem tantos. Segundo Quim, havia três fatores importantes, que levavam a que a França fosse o país de eleição dos emigrantes portugueses.

 Primeiro, o país aceitava a emigração clandestina, segundo facilitava a legalização e terceiro, não exigia qualificação na mão-de-obra.
Entretanto o frio chegara. Aproximava-se o Inverno, a neve caía com frequência.
Em casa tudo estava na mesma. O "casal" falava de tudo, menos de si próprios.

 Quim era gentil, preocupava-se com o seu bem-estar, mas não demonstrava outro sentimento que não fosse atribuído a uma boa amizade. Ele era um homem vivido, já tinha tido namoradas, talvez amantes. Sofia, era uma menina ingénua que desde que terminara o curso aos quinze anos, praticamente vivera enclausurada em casa.


Notícia
Como a carta do Hospital de Santa Maria nunca mais chega, para ir tirar os pontos que deveria ter tirado a 17/2 e que foi cancelada, na segunda feira mandei um email para saber quando seria a consulta. A resposta foi esta "Exma. senhora dona Elvira Carvalho, o pedido de consulta encontra-se registado a aguardar vagas de marcação, assim que a médica agendar a consulta vai receber a marcação por correio."
E pronto! O remédio é aguentar.

9.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE VII

 



- Aqui é a sala comum. É a maior divisão da casa. Daquele lado é a casa de jantar, deste como vês uma sala de estar. Estás muito calada. Que se passa Sofia? Se não tivesses falado no aeroporto diria que és muda.
- Desculpa. É que é tudo muito novo para mim. O medo do avião, o ver-me numa terra estranha, a falta dos meus pais, são muitas emoções juntas. Sinto-me cansada.
- Tem paciência só mais um pouco, já te deixo descansar, - disse sorrindo.

A sala, na parte onde se encontravam, tinha duas janelas com cortinas estampadas, um sofá em tons de azul, também estampado, coberto de almofadas coloridas, e um cadeirão estofado em cor-de-vinho. No chão uma carpete, muito parecida com as que a tia Ilda tecia com trapos, lá na aldeia. E em cima da carpete uma pequena mesa com tampo de vidro.

No outro lado da sala, a chamada casa de jantar com outra janela que iluminava a mesa retangular com cadeiras estufadas de amarelo.
Por todo o lado as cores vivas estavam presentes, como se os franceses quisessem celebrar a vida, depois do término da guerra que ocorrera há pouco mais de vinte anos.

Passaram depois à cozinha, decorada em tons de branco e verde água.
- Não sei se o meu pai te informou, eu trabalho no restaurante do meu tio, - informou Quim. Ele era o cozinheiro quando cheguei. Comecei a seu lado como aprendiz. Agora sou eu o cozinheiro e ele dirige o restaurante. Todavia hoje, para que  eu possa estar aqui, teve que voltar à cozinha. Quer isto dizer, que excetuando o dia de folga, em que o restaurante fecha, eu faço as refeições lá. Mas deixemos as explicações para mais tarde, como disseste estás muito cansada, é melhor que vás descansar, anda vamos ver os quartos.

Os quartos eram dois. Um mais pequeno, com uma cama de solteiro, e outro maior com cama de casal.
Quim foi buscar a mala dela para o quarto de casal, e disse:
- Fica à vontade. Podes trocar de roupa, e descansar. Eu vou até ao restaurante, dar uma ajuda ao tio na elaboração do jantar, e mais tarde venho buscar-te. Jantamos lá. Outra coisa, não sei se reparaste, na sala há um telefone, e ao lado num caderno está o número do telefone do restaurante. E o número do café da aldeia. Podes ligar e pedires para informar os teus pais que chegaste bem. Devem estar em cuidado.

Deu-lhe um breve beijo na face e saiu, deixando-a só, com os seus receios e o seu cansaço.



Relembro que esta não é apenas uma história de amor, mas uma história que fala da vida em Portugal, da falta de empregos, do analfabetismo, das ideias retrógradas, dos costumes, antes da revolução, da emigração, enfim de como viviam os portugueses cá e lá. Os mais velhos sabem que era assim.

28.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXVIII



 Teresa encontrava-se sentada à mesa na cozinha. Tinha vestido um leve robe de cor salmão, que deixava ver por baixo uma fina camisa de dormir branca. Tinha na sua frente um copo de leite quase vazio, única coisa que tinha conseguido segurar no estômago,  desde há quase quinze minutos. Toda a manhã tivera vómitos constantes, sentia-se extremamente cansada, sem forças, nem vontade de fazer o almoço. Sabia que algumas mulheres se queixavam daqueles sintomas, o livro também falava neles, mas ninguém a alertara para a violência que vinha sofrendo há quatro dias.

Não sabia se devia recorrer ao médico no Centro Clínico, não desejava fazê-lo, mas telefonara nessa manhã para o consultório da sua ginecologista, e informaram-na que estava de férias só regressaria na semana seguinte, e a continuar assim ela não acreditava que conseguisse resistir até lá. Tinha já emagrecido, pois ao pesar-se nessa manhã, a balança marcava menos quilo e meio do que na semana anterior. As grávidas devem ganhar peso, não perdê-lo.  

Terminou de beber o resto do leite e a custo levantou-se. Levou o copo para o lava loiça e encaminhou-se para a casa de banho. Precisava tomar um duche, tinha transpirado imenso, sentia-se imunda. Depois do banho, apenas tinha vontade de se deitar e dormir, mas obrigou-se a reagir. Vestiu-se, escovou os cabelos que prendeu num rabo-de-cavalo evitando olhar para o espelho, por recear o seu próprio aspeto.

Já na cozinha, ficou indecisa sem saber que fazer para o almoço. “Não há nada pior do que ter que cozinhar quando nada apetece comer” pensou.

Pôs a cozer dois ovos, e água a ferver para cozer esparguete, salteou em azeite e alho, espinafres, tomates, e rodelas de curgete. Com todos os ingredientes fez uma salada, e sentou-se à mesa. Pensando no bebé, forçou-se a comer mesmo sem ter vontade.

Porém pouco comeu, pois logo começaram as náuseas, pelo que guardou a comida no frigorífico, passou a loiça por água e meteu-a na máquina, seguindo depois para a sala, a fim de se estender no sofá.

Sobre a pequena mesa da sala uma jarra com rosas brancas, trouxe-lhe à memória o dia de sábado passado na companhia do empresário.

Passou a mão sobre as pétalas aveludadas das rosas, pegou no comando da televisão, ligou o aparelho e estendeu-se no sofá a ouvir as notícias. Cinco minutos mais tarde, a campainha da porta tocou. Levantou-se e foi atá à porta que abriu depois de ver que se tratava da sua amiga Inês. Cumprimentaram-se com um beijo, e seguiram para a sala.

Inês estava impressionada com o aspeto da amiga, e comadre. Disse assim que se sentaram:

-Aproveitei a hora do almoço para te vir ver. Todos estamos muito preocupados contigo, já que nunca mais apareceste na pastelaria. Por outro lado, sempre que te convido para ires almoçar ou jantar lá a casa, como ontem dás sempre uma desculpa. Agora olhando para ti, vejo que deves estar a passar mal e estás aqui fechada sozinha. Porque não me disseste?

- Não estive assim até à semana passada. Levei um mês praticamente a comer e a  dormir.

-Não me digas, por isso estás tão gorda – disse com ironia.

- É que os últimos dias têm sido muito difíceis. Não aguento nada no estômago. Agora mesmo não sei se conseguirei aguentar o pouco que comi ao almoço. 

Vómitos matinais após o primeiro mês, são normais em muitas grávidas,  mas se acontece após almoço e jantar deves ir ao médico. Vais começar a perder peso e não é bom para o bebé. Se quiseres vou contigo.

- O problema é que só tenho consulta no Centro Clínico dentro de duas semanas. Telefonei para o consultório da minha ginecologista e informaram-me que está de férias. E não acho que seja coisa para ir ao hospital.

-Mas não podes estar assim. Quando chegar à pastelaria, vou telefonar à minha ginecologista. Tenho a certeza de que se não hoje, amanhã ela atende-te. Não te preocupes eu levo-te lá, não te quero a conduzir como estás. Agora vou-me embora. Daqui a pouco já te telefono.  O pessoal manda-te um abraço e diz que tem saudades tuas. E os clientes perguntam por ti todos os dias. Estranham que de um momento para o outro tivesses deixado de aparecer, perguntam-me se comprei a pastelaria.

-Não lhes digas o que se passa. Diz que estou de férias, que fui para a aldeia, qualquer coisa, mas não lhes digas nada da gravidez, até que passem os três meses.

Inês levantou-se, deu-lhe um beijo, e disse:

- Não te levantes, eu sei o caminho.

 


5.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XV



Depois de se ter despedido dos amigos Teresa, foi à pastelaria, onde conversou com Mário, informando-o que durante a gravidez se ia afastar do negócio, e tinha acabado de contratar Inês para gerir o mesmo.
-Escusado será dizer que espero que lhe dês o mesmo apoio, que me tens dado. Sei que às vezes os pais tendem a exigir demais dos filhos, mas lembra-te que é o seu primeiro emprego e que é natural, que precise da tua ajuda nos primeiros tempos.
- Mas tu gostas tanto do que fazes! Estás a passar mal?
-Não. Mas sabes como é, daqui a pouco começam os enjoos, e este não é o melhor local para se trabalhar nessa situação. Depois a tua filha está farta de estar em casa, ia procurar um trabalho em breve, e onde poderá estar melhor do que aqui, para desenvolver as suas capacidades?
Despediu-se com um beijo e um até amanhã e dirigiu-se a casa. Abriu o guarda-fato e foi passando a mão pela roupa, pensando no que devia vestir, já que queria uma roupa o mais formal possível, mas leve porque o dia estava muito quente. Acabou por escolher um conjunto de calças e túnica sem mangas, em seda verde água, que estendeu sobre a cama. Abriu a gaveta e escolheu entre a roupa íntima, um conjunto de fino algodão branco, e com ele na mão foi para a casa de banho, colocou uma touca na cabeça para não molhar o cabelo, e meteu-se debaixo  do duche. Voltou ao quarto só em cuecas e sutiã, e vestiu-se.
Regressou à casa de banho, escovou o cabelo e apanhou-o num coque no alto da cabeça. Não era adepta de muita maquilhagem pelo que passou apenas um pouco de brilho nos lábios e uma leve sombra nos olhos. Olhou-se no espelho e deu-se por satisfeita. Abriu a sapateira e olhou os pares de sapatos. Apenas dois pares de saltos altos, ainda por estrear, os restantes tipo ténis, e alguns sapatos e sandálias rasos, ou com um salto de três, quatro centímetros. Com um metro e setenta e cinco, Teresa era mais alta que a generalidade das mulheres,  por essa razão nunca usava saltos. Ficava enorme e isso parecia amedrontar e afastar dela as pessoas.
Escolheu umas sandálias rasas de tiras brancas e uma carteira igualmente branca. Pegou no telemóvel, procurou a morada da “TecnInformática” agarrou nas chaves do carro e saiu. Desde menina Teresa nunca aparentou ter medo de nada. Fora criada na aldeia, possuía o espírito forte e talvez um pouco ingénuo, que leva os aldeões a encarar as maiores adversidades, com coragem. Depois de pensar nas várias hipóteses, e de saber através de Gustavo o que podia esperar da lei, decidira que tinham que resolver o assunto entre os dois sem toda a exposição mediática,  que resultaria da ida para os tribunais, e que ela acreditava não seria bom para nenhum dos dois e especialmente para a criança que trazia no ventre. Não queria levar muito tempo a magicar no que podia acontecer, não fora que o sistema nervoso lhe pregasse alguma partida, e acabasse por perder o bebé.
A TecnInformática ocupava um enorme edifício de cinco andares. Estacionou o automóvel, no único lugar vago no parque e parou por momentos observando admirada o tamanho da empresa. Procurou a porta principal e dirigiu-se ao porteiro.
-Boa tarde! Tenho uma entrevista marcada com o senhor João Teixeira para as dezasseis horas, - disse aparentando uma naturalidade que estava longe de sentir, pois temia que o porteiro se informasse sobre a dita entrevista e não a deixasse entrar. - Pode informar-me qual o andar?
Relaxou um pouco com a resposta
- É no quinto andar, menina. Mas tem que me mostrar a identificação e assinar o livro de entrada.


6.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE II


- Bom dia! É verdade, embora só por dois dias, vim arejar a casa. E o ti’ Joaquim, já a apanhar as cebolas?
-Tem que ser. É uma pena teres esse terreno aí abandonado. Sabes o que devias fazer? Arranjar um marido, e voltares de vez. Tenho a certeza de que tanto a tua mãe como a tua avó, lá onde se encontram, ficariam muito mais descansadas se te vissem aqui a cuidar daquilo que tanto lhes custou a ganhar.
-Eu gosto disto, mas não sei se me habituaria a viver aqui de forma permanente. Habituei-me a viver na cidade, é lá que tenho a minha vida. Talvez um dia venda o terreno e fique apenas com a casa para passar uns dias quando me sentir mais cansada.
- De certa forma compreendo-vos. A aldeia não evoluiu, e o ser humano nunca está satisfeito com o que tem, então os nossos filhos partiram para a cidade em busca de melhor vida, e os filhos deles, que sempre tiveram muito mais do que os seus pais e avós, emigraram para o estrangeiro, porque a vida na cidade já não lhes chegava. E um dia vão dar-se conta de que lá, também é pouco para eles. E trabalham toda a vida cada vez mais, e nunca estão felizes, porque não sabem que a felicidade está dentro de nós e não nas coisas que nos rodeiam.
- O Ti’ Joaquim é um filósofo – disse Teresa sorrindo.
- Já pareces o meu neto, com essa conversa.
- O Alberto? Não o vejo há mais de cinco anos. O que é feito dele?
- Acabou o curso, casou com uma colega e estão os dois a trabalhar num hospital no Porto. É o único que ficou cá e que vou vendo de vez em quando; os mais velhos foram para a Austrália, nunca mais os vou ver.
- Não perca a esperança, qualquer dia vêm de férias.
- Não. A Austrália, fica muito longe, as viagens saem demasiado caras. Depois partiram sós, lá arranjaram companheira, fizeram os seus ninhos, já têm filhos. Essa, é agora a família deles e aquele o seu país. Do resto não reza a história. Bom tenho que ir levar as cebolas à mulher que daqui a pouco ela pensa que me perdi. Gostei de ver-te. Se pensares em vender o terreno fala comigo. O meu cunhado que está na França está a pensar voltar. Quer comprar um terreno aqui, para construir uma casa, mas ninguém quer vender.
-Fique descansado se pensar em vender, vou ter consigo, - disse a jovem e acrescentou em voz baixa quando o homem virou costas. - Se calhar mais depressa do que aquilo que pensa.
Pouco depois levantou-se e empreendeu o caminho do regresso a casa. Teresa era uma mulher morena, alta e esguia, de cabelos e olhos castanhos.
Na aldeia, conhecia toda a gente, e todos a conheciam já que ali nascera, na casa da avó Rosário, onde também nascera Ana, a sua mãe, vinte e cinco anos antes dela. Teresa, não acreditava no amor, nem nos homens. O seu avô largara a sua avó grávida de cinco meses para se juntar com outra mulher. O seu pai, bom esse, nem sequer chegara a casar com a sua mãe. Quando soube que a tinha engravidado, simplesmente desaparecera.
Desde bem pequenina, Teresa habitou-se a ouvir a mãe e a avó dizerem que os homens não prestavam, não consideravam as mulheres como suas iguais. Serviam-se delas quando delas podiam tirar algum proveito e descartavam-nas quando já não lhes eram úteis. De modo que bem cedo, jurou a si mesma, que nunca ia querer saber de homem algum e assim se manteve até à atualidade.



Gente, alguém me explica uma coisa? O primeiro capitulo desta história na Sexta-feira teve 19 comentários e 14 visualizações. É possível alguém comentar sem ver?

15.12.19

CONTOS DE NATAL - O AVÔ








Estava frio, daquele frio que trespassa  a roupa e penetra nos ossos. É tempo dele, pensava. No Inverno, arranjar clientes é mais difícil. Os homens estão mais dedicados à família, pensam nos presentes para os filhos, por amor e convicção de que o devem fazer, pois que nada é mais magnânimo do que amar um filho. É tempo de desviar a máscara que trazem durante o resto do ano, a esposa merece isso, merece alguma atenção e algumas manifestações de carinho. Se os prazeres da cama se tornam mais esporádicos, se o rosto cansado dela, ao fim do dia, lhes tira o desejo de a procurar como no início, enfim compreende-se. Na verdade,até é bom para ela, que precisa de descansar, e o sexo já não tem o mesmo encanto. Se ele a deixa dormir, ela agradece.Dirá, até, que o marido é uma pessoa compreensiva, que respeita o seu ritmo de afetos, que não lhe faz a vida negra como tantos outros de que tem conhecimento pelas confidências das colegas de trabalho.

Enquanto anda pelas ruas da cidade, Vai pensando assim Carolina transida de frio. A saia curta, os saltos altos, os joelhos gelados, os pés doridos, a cabeça a latejar trazem-lhe uma palidez ao rosto capaz de levar qualquer homem a desprezá-la. Carolina tem vontade de chorar e de desistir, de ir para casa. Casa? - pensa. Casa?, um quartinho alugado nas traseiras de um velho prédio de Alfama. O que ganhava não dava para mais. A maior fatia era para pagar a ama do menino e a percentagem ao Quincas. Tinha logo de se afeiçoar ao Quincas, o proxeneta que diz protegê-la. Ela acha que precisa mesmo dessa proteção.  Servir homens é perigoso, vêm cheios de taras, têm exigências que não lembram ao diabo, são sádicos - esta palavra arrepia-a, ela sabe do que fala. Quincas anda por perto, vai rondando os seus passos, e, assim, ela sente-se mais segura. O pior vem depois, a percentagem, como ele lhe chama. E neste pé, Quincas é intransigente. "Carol querida, mostra lá o que rendeu hoje, mostra, não te atrevas a enganar-me!Vê lá se queres que te deixe por aí entregue à vida! Olha que estão muitas à porta, resmas delas, à espera. Vamos lá a contas!" Quando lhe chamava "Carol querida" ela estremecia de medo, não podia enervá-lo, zangado era uma fera, perdia a compostura, era bem capaz de lhe dar umas bofetadas. E isso era tudo o que não queria,  ao fim de um dia de 'trabalho' que a deixava extenuada. Lembrava-se do seu menino e escorria-lhe pela alma e pelo corpo uma tristeza e um remorso sem fim. Pensava que não poderia aguentar esa vida por muito mais tempo, mas não via saída,  quem lhe daria um trabalho honesto? Era lixo social, era assim que se sentia: lixo social. Mas, no dia seguinte, tudo recomeçava e o tempo impiedoso pedia-lhe mais e mais. E ela labutava mais e mais, mais e mais. Aquela noite parecia a pior de todas; as luzes davam um ar de honestidade festiva às ruas, as senhoras sérias passavam com os últimos embrulhos adornados de laços e brilhos, e ninguém a convidá-la para aquilo, nenhum carro a parar e a perguntar por quanto ia. Ninguém. E o Quincas, logo, a pedir-lhe contas. E ela não tinha nada guardado no seio. Ele era gajo para lhe meter a mão na blusa e de a rasgar, para a intimidar. Raio de vida! Merda de vida! Encostou-se ao poste de iluminação, na Avenida.Ali, na penumbra, às vezes, conseguia clientes. Oxalá tenha sorte, nem que seja um coxo, um sem-abrigo, um bêbado. Já está por tudo. Era só suster um pouco a respiração, fechar os olhos e deixar as coisas acontecerem.  Rápido, que seja rápido. Rápido, até podia fazer um abatimento... Era urgente um homem com necessidade do seu corpo, que tivesse pressa e que não regateasse o preço da tabela imposta por Quincas. Pensava na mãe: se ela soubesse a vida que a filha levava em Lisboa... quando deixou a aldeia, vinha com a mochila carregadinha de sonhos, Ia ganhar dinheiro, ia ter um emprego de cabeleireira, talvez com sorte pudesse abrir em breve o seu próprio salão.  Então, casaria e teria dois filhos, o primeiro dos quais se chamaria Afonso Henriques, em honra do primeiro rei de Portugal. Na escola, gostava tanto de História! Interessava-se sobretudo pelas vidas dos heróis. O professor tinha um jeito especial para compor as histórias que narrava: os casamentos, as intrigas, os sofrimentos das rainhas, as traições, os adultérios... Registava tudo. Pensava que,  se não fosse cabeleireira e se a mãe tivesse meios, seria professora de História. Tudo tão distante no tempo e na vida! Dantes, ainda ia passar o Natal à terra (como se diz em Lisboa); levava presentes e inventava sucessos e alegrias. Construía um mundo à semelhança da sua capacidade de criar mundos, tomando como modelo o seu antigo professor de História. E a mãe acreditava e ficava muito feliz por ver a filha tão feliz e tão bem sucedida. Agora, invoca o muito trabalho, que não lhe dá tréguas e não a deixa ter férias. E nisso não mentia, era a mais pura das verdades.  E a noite a avançar e nada de clientes. Bolas! Estarão os homens de Lisboa tão apaziguados, tão assexuados que não vêm cá fora à procura de uma pequena aventura ou de uma facadinha no casamento? E ela não dispunha da noite toda, tinha de ir buscar o Afonsinho, a ama avisara que queria estar livre para a consoada com a família.  Que noite de consoada tão azarenta! Parece que estava tudo a seu desfavor.  Estariam a moral e os bons costumes a castigá-la por ousar desafiá-los? De repente, alguém para, Uma sombra, um avozinho, que dá uma escapadela para comprar as últimas prendas para os netos, pensa.
"Quer vir comigo? Está livre? Tenho um espaço reservado. Venha" E foi, num misto de alegria e curiosidade, estranhando o tratamento diferente do dos outros clientes. A sala era enorme,  de um conforto requintado. O 'avozinho´tira-lhe delicadamente o casaco e manda-a sentar. Acende a lareira e vai buscar uma bandeja com chá e rabanadas. Estranho: geralmente oferecem-lhe vinho, e tratam-na por tu, o que é mais consentâneo com o seu estatuto social. Este não a tratava assim, chamava-lhe "senhora dona Carolina" e servia-lhe o chá numa chávena Limoges. De repente pensou que seria bom viver naquela casa, usufruir daquele conforto doce e morno, que sossega os corpos. Carolina pensava: "quando tiro a roupa? O homem não ata nem desata; e o tempo a passar, e nada" Mas o senhor começa a falar, calmamente, respeitosamente: " Carolina, desculpe, sei que deve estar a pensar que nunca mais me decido, não é? Mas, olhe, eu tenho-a visto algumas vezes na Avenida, tenho observado a sua ansiedade e a sua repulsa por aquilo que faz. Teci algumas conjeturas a seu respeito: esta mulher não é lisboeta, detesta a prostituição, deve ter filhos, é infeliz, coitada..." E hoje atrevi-me a aproximar-me. Sou viúvo há dez anos: a minha mulher também se chamava Carolina e era um anjo. Nunca a traí. Mas estou só. Tenho tudo o que o dinheiro pode comprar, mas estou só, e a solidão é algo demolidor para o ser humano. Então tenho uma coisa a propor-lhe: passe o Natal comigo como se pertencêssemos à mesma família. Tem um filho? Não há problema: vamos buscá-lo. Vai ser bom para todos. Se gostar, quem sabe se deixará de procurar clientes e poderá passar a gestora da minha casa?".
Carolina chora lágrimas quentes que não consegue estancar do seu rosto macerado e precocemente envelhecido. Afonsinho acabara de ganhar um avô.  Haverá milagres em véspera de Natal?


Albertina Fernandes

in  lugares e Palavras de Natal

Editora  Lugar de palavras

13.1.19

ELISA II

reedição
Elisa viu-se nessa altura obrigada a contar a verdade aos pais. Tinha que deixar o filho com alguém para ganhar-lhe o sustento. E quem melhor que os pais? O pai só lhe disse que devia ter contado antes. E que tomaria conta do neto, como se fora um filho. Elisa deixou o filho lá na aldeia e veio para Lisboa ser criada de servir. Não pensava em namorados. Tudo o que juntava mandava para os pais, para o sustento do filho. Mas um dia conheceu o António. António era moço de Lisboa, com muito mais experiência de vida, e não foi difícil dar a volta à cabeça da jovem. Prometeu-lhe casamento, criar-lhe o filho, dar-lhe até o seu nome. Elisa ia viver com ele, e logo que acabasse a tropa, tratavam do casório. E mandavam vir o filho. Elisa acreditou. E um tempo depois deu-se conta que estava outra vez grávida. Quando António soube da gravidez, os seus modos alteraram-se. Começou a chegar cada dia mais tarde, com a desculpa de que tinha serviço no quartel. E um dia deixou de aparecer. Elisa foi ao quartel. Queria saber o que se passava. Mas lá disseram-lhe que ele tinha pedido para ser transferido. E começou novo calvário para Elisa. Quando o adiantado estado de gravidez não a deixava já trabalhar, recorreu à instituição de Santa Zita, que a ajudou até que a menina nasceu, bem como nos primeiros tempos, até que ela conseguiu com a ajuda da instituição arranjar trabalho.
A vida de Elisa foi uma vida de escravidão ao trabalho para criar os filhos. Porque depois da morte da mãe, teve que ir buscar o filho mais velho, para junto de si. Foi pai e mãe dos filhos.
Nunca mais quis ouvir falar de homens na sua vida.
Quando os filhos cresceram, Portugal tornou-se pequeno para os seus sonhos. Só pensavam em emigrar para o Brasil. O sonho duma vida melhor fez com que juntassem todos os tostões para a viagem. E lá foram deixando a promessa de mandarem ir a mãe tão logo tivessem casa e trabalho.
A principio as cartas do Brasil chegavam todas as semanas. Eram cartas cheias de novidades e promessas. Depois passaram a ser de mês a mês. A vida corria bem, a filha tinha até casado, e só estavam esperando mudar de casa para mandar a passagem. É que a casa era pequena. Mais tarde nascera a neta, a despesa era maior. Depois o filho casou, tinha mais despesas. Aos poucos Elisa apercebeu-se que tinha perdido os filhos quando se despediu deles em Alcântara.
Por fim as cartas deixaram de chegar. O olhar perdeu-se no horizonte, o corpo foi-se vergando ao desgosto e ao peso dos anos.
Elisa foi hoje a sepultar...
Nunca vi um funeral tão triste. Meia dúzia de vizinhos, ninguém de família. E enquanto a terra caía sobre a urna, eu pensava se os filhos iriam  algum dia  arrepender-se do abandono a que votaram a mãe.
Elisa foi hoje a sepultar... 
E enquanto jogo uma flor sobre a sepultura murmuro uma prece:
Senhor, se é verdade que existe o paraíso, tem piedade desta tua serva, que já teve o seu inferno...

 Elvira Carvalho


Este conto foi mais uma reedição, pois a minha saúde continua muito periclitante. O olho está melhor, mas a constipação trouxe uma tosse que não me deixa ir à cama há três noites.
Peço-vos desculpa.







27.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XII





Ricardo contara tudo isto, de pé junto à janela, de costas para ela.
Sentia uma mistura de vergonha e raiva, por se ter deixado enganar, duma maneira tão infantil. Tinha sido um idiota.
Clara era uma mulher muito sensível. Teve a noção exata de quanto ele devia estar a sofrer, e resolveu interrompê-lo.
- Fala-me de Soraia. Costuma ter pesadelos com o desta noite?
- Durante uns meses teve-os diariamente. Agora já não são tão frequentes- respondeu voltando-se por fim
-Que aconteceu com ela?
-A aldeia onde nasceu foi palco de um bárbaro assalto. Como já te disse tenho estado quase sempre em missões no estrangeiro pois já por duas vezes fui destacado para o quadro da NATO e também já estive ao serviço da ONU. Há dezoito meses numa missão no Mali, encontramos uma aldeia em cinzas. Todos os habitantes da aldeia tinham sido chacinados. Quando íamos embora, um dos meus homens disse ter ouvido um choro. Não acreditei que alguém pudesse ter escapado com vida daquele inferno, mas podia ser algum animal que caísse nalguma armadilha. Ordenei-lhes que se separassem em dois grupos, e fizessem uma batida pelos arredores.
 Eu mesmo parti à frente de um dos grupos, o capitão Santos comandava o outro.
 Foi um dos meus homens que me chamou a atenção para o ruído que se ouvia por trás de uns arbustos ali perto.  Ela estava aí num buraco encoberta pelos arbustos.  Não sei a idade exata que teria na altura, mas calculamos que devia andar pelos dois anos. Também não  sabemos como fora parar naquele buraco, se alguém a escondera ali, ou se ela própria se afastara e caíra no buraco. O facto é que isso lhe salvou a vida. Quando a encontramos estava suja, faminta e desidratada. Quando lhe peguei, ela agarrou-se ao meu pescoço, como quem se agarra à própria vida. Penso que deve ter tentado sair do buraco, mas aterrorizada pelas chamas, acabou escondendo-se de novo. Isto porque ela ficava aterrorizada cada vez que via uma chama, mesmo que fosse de um fósforo, quando algum dos rapazes acendia um cigarro. 
Levei-a para o hospital onde esteve quase um mês. Ia vê-la todos os dias, e era tal a sua alegria, quando eu chegava que até o pessoal do hospital ficava impressionado. Deixei-me encantar por ela. Deves ter reparado que é praticamente da mesma idade do Bernardo. Um dia o pediatra disse-me que ela ia ter alta e iriam entregá-la às autoridades, a fim de ir para algum orfanato. Fiquei de rastos. Tinha criado com ela um vínculo de amor, não podia deixá-la para trás, abandonada à sua sorte. Perguntei ao médico, o que podia fazer para a tirar do país. "Nada - respondeu-me ele.- Só poderia fazer alguma coisa se fosse sua filha".  " E que tenho de fazer para declarar que é minha filha - perguntei".  "Com uma boa maquia, pode-se arranjar um registo de nascimento falso - respondeu-me". 
Dinheiro nunca foi problema para mim.  Não serei um multimilionário, mas tenho uma fortuna considerável. Disse-lhe que pagaria o que fosse preciso e ele mesmo me apresentou ao funcionário que arranjou o documento, inventando um nome e uma data de nascimento para ela, bem como um nome de mãe, falecida e claro o meu nome como pai. 
Portugal não tem embaixada no Mali. É o embaixador de Portugal no Senegal, que a partir da embaixada em Dakar resolve os casos de diplomacia no Mali. De posse do documento, recorri a ele, solicitando a sua mediação, para a trazer comigo. E assim  a menina foi-me entregue, e quando a missão terminou, trouxe-a comigo sem problemas já que toda a documentação dela diz que é minha filha e que a mãe já faleceu. 
- Está contigo há muito tempo?
-Como disse encontrei-a há ano e meio, e desde então estive sempre por perto, mas aqui, nesta casa, está há catorze meses. Por causa deles, estou há mais de um ano em Portugal, arranjando desculpas várias, movendo influências, para não sair  em nenhuma missão. Não podia ausentar-me e deixá-los com a Antónia. Mesmo sabendo que ela os adora. 
Tanto ela como o marido, têm uma certa idade e nenhum laço de parentesco com eles. A Segurança Social cair-me-ia em cima, e poderia perdê-los. 
Então Francisco, o meu advogado, deu-me a ideia do casamento,  para lhes dar uma mãe, que os protegesse quando eu me ausentar.

Respondendo à pergunta:
O que ando a ler? "A soma dos dias" de Isabel Allende. A seguir vou ler o último livro de Carlos Correia,  "Momentos para inventar o amor"
Filmes não vejo há bastante tempo.

27.2.18

CARLOTA - PARTE IV


Duas vezes por mês Carlota tinha o dia de folga. Eram os dias para passar com o filho que continuava a ser criado pela irmã. À medida que os anos iam passando, e o garoto crescendo, tornava-se cada dia mais parecido com o pai. Essa parecença, já fora notada pelo pessoal da aldeia que vinha fazer a safra para a Seca. Tanto Carlota, quanto a irmã, Fernanda, tinham a certeza que já toda a gente sabia de quem o garoto era filho. Esta semelhança, era um espinho cravado no peito de Carlota que não conseguia olhar o filho sem reviver a violência de que fora alvo, e se culpava por não conseguir demonstrar ao filho, todo o amor que realmente sentia por ele.
Quantas vezes, levantava a mão, para fazer uma carícia ao filho, e ao olhá-lo, se lembrava do pai , e a deixava cair inerte. João foi crescendo assim, sentindo mais amor pela tia, do que pela mãe, que via esporadicamente e que não lhe demonstrava grande afeto.  Ele não podia saber, o amor que a mãe sentia por ele, nem os sacrifícios que fazia para que não lhe faltasse o necessário, já que a irmã e o cunhado, tinham um ordenado de miséria e três filhos para criar. Prestes a fazer vinte e nove anos, Carlota conheceu Francisco que se apaixonou por ela e lhe propôs casamento.
 Francisco era um homem alto, bem-parecido, que dizia ter um futuro estável, pois era funcionário público. 
Sentindo-se tentada a mudar de vida, especialmente por causa do filho, a quem podia dar um melhor futuro se casasse, Carlota contou-lhe que tinha um filho de dez anos, e que só aceitaria casar se ele aceitasse esse facto e a autorizasse a trazer o filho para a sua companhia. Francisco aceitou, e combinado o futuro casamento, Carlota fez-se acompanhar por ele, quando na folga seguinte foi visitar o filho a casa da irmã.
Contrariamente ao que esperava, nem a irmã nem o marido se mostraram entusiasmados com o  casamento.  Mas ela era maior de idade, sabia o que fazer, e eles só desejavam que fosse feliz.
Quatro meses passados, Carlota e Francisco, uniam o seu destino na Igreja de Santa Cruz no Barreiro, numa cerimónia simples mas bonita.
Depois do casamento ficaram a viver no Barreiro. Carlota deixou o seu trabalho de “criada interna” em Lisboa e começou a procurar um trabalho de limpezas perto de casa. Não sabia ler nem escrever, mas sabia como ninguém tratar de uma casa, lavar, cozinhar ou engomar.
A sua casa não era grande, apenas dois quartos e uma pequena sala, mas Carlota estava feliz por ter o filho consigo. Depois,Francisco tinha prometido, que havia de perfilhar o garoto e dar-lhe o seu nome. Mas nem tudo eram rosas na sua vida.
Primeiro porque o filho queria voltar para casa da tia, sentia a falta das brincadeiras com os primos e sentia que a mãe e o “tio” lhe eram pessoas estranhas.  Segundo, Carlota, não amava o marido. Estava-lhe grata, respeitava-o, mas não se entregava. Não se fazia rogada, não inventava desculpas, para evitar as relações sexuais, mas o fazia como alguém que cumpre uma obrigação, dolorosa, mas que não se pode evitar.



Estou sem internet. Com visita do técnico agendada para amanhã à tarde. Pelo Smartphone tenho dificuldade em vos visitar. Peço desculpa.


Voltou a Internet. Já ando a ficar farta.  O ano passado foi uma desgraça. Três vezes me mudaram o modem, Cinco vezes estiveram aqui os técnicos. Este ano é a terceira vez. 
Fico sem net sem que haja avaria na zona. Telefono e sigo todas as instruções e nada. Agendam uma visita porque a box não responde, e passadas 4 ou 5 horas  a net  volta sem que ninguém faça nada. E lá tenho que telefonar de novo a desmarcar a visita do técnico.

24.2.18

CARLOTA



Carlota nasceu num bonito dia do final de maio, uns anos antes do início da segunda grande guerra.
Décima terceira filha de um casal pobre, de uma aldeia esquecida, neste país, governado na época, pela mão de ferro de Salazar, Carlota viveu os primeiros anos da sua vida, sempre com a sensação de que precisava comer. Pequena, franzina, sempre com um sorriso gaiato no rosto, aparentando ter menos idade do que realmente tinha. Tal como os seus irmãos, não foi à escola, que isso era coisa de ricos, e depois para que precisava uma mulher de estudar?
Uma mulher precisava saber cuidar da casa, do marido, cerzir a roupa dos filhos, enfim ser a fada do lar.
Nunca teve uma boneca, até ao dia que resolveu cortar o vestido de uma das irmãs mais velhas para costurar uma boneca de trapo, conhecida na altura por matrafona, o que lhe valeu uma valente tareia da mãe.
Como era pequena e franzina, na aldeia, ninguém lhe dava trabalho, pois achavam que não teria forças para o executar, pelo que foi ficando em casa até quase aos dez anos, altura em que o senhor João, um dos homens ricos da aldeia, lhe deu trabalho a apascentar o seu rebanho no monte.
Os primeiros dias, foi com muito medo, dizia-se que de vez em quando um lobo esfaimado, atacava o rebanho. Com o tempo foi perdendo o medo. Um dia porém deixou fugir as ovelhas, para uma propriedade vizinha, e o dono deu-lhe uma tareia tão grande,que a atirou para uma cama de hospital. Foi a primeira sova, das muitas que a vida, lhe reservava.
Quando saiu do hospital, já havia outra criança da aldeia a apascentar o rebanho do senhor João, pelo que Carlota regressou à casa paterna. Pouco depois, uma das irmãs mais velhas, já casada e com filhos, pediu aos pais se a deixavam ir lá para casa, era uma ajuda para cuidar das crianças. Para os pais, era uma boca a menos, para repartir a comida que raramente chegava, pelo que acederam prontamente. Foi assim que Carlota chegou à Seca do Bacalhau, na Azinheira, uma pequena localidade, na margem do rio Coina, perto do Barreiro.
Na casa da irmã, não haviam luxos, mas tinha uma cama só para si , e na mesa, sempre um prato de sopa, e um pedaço de pão.
Aí esteve três anos, cuidando dos sobrinhos, até que completou catorze anos, idade com que podia legalmente trabalhar na Seca. Podia ter o seu dinheirinho, coisa que até aí não soubera o que era.  
A irmã e o cunhado, mal ganhavam para o sustento da casa, roupas e calçado, só quando a filha do capitão, ou a mulher do empregado de escritório lhes dava, as roupas que deixaram de servir aos filhos, ou de que elas próprias deixaram de gostar. Aí era uma festa, para ela e para as crianças. Com muito jeito para a costura, ela acertava-as ao corpo, e até pareciam novas.





30.6.17

ROSA - PARTE I

Porque têm sido muitos os amigos que me têm manifestado o desejo de conhecerem esta história,  a única publicada em livro até agora, e esgotada, e de momento não ter hipótese de fazer uma nova edição, eis aqui a ROSA




Obra licenciada pelo IGAC nº  1283 e publicada em livro


(esgotado)



Olhou-se uma vez mais no velho espelho do desconjuntado armário. Não se reconhecia naquela estranha de grandes olhos negros que a olhavam com um misto de pena e desespero, na imagem que o espelho lhe devolvia. Sentia-se cansada e sem vontade de nada. Era como se dentro daquele corpo não habitasse ninguém. E se habitava não era ela. Ela ficara lá longe, na sua aldeia, muitos anos atrás. Quem sabe, andava lá pelo monte da Landeira, pastoreando as ovelhas.
Como era feliz nessa altura! Por que é que estamos sempre desejando mais do que aquilo que temos e lastimando a nossa infelicidade, para depois chegarmos à conclusão que aquela era afinal a felicidade?
Ela fora uma miúda normal numa aldeia do interior, maioritariamente povoada por gente pobre. Tivera uma infância exatamente igual à das outras meninas na aldeia. Só com a diferença que nunca conheceu o pai. Mas nem nisso era muito original, já que havia na aldeia, mais duas ou três meninas que ela pensava que eram suas irmãs, porque eram filhas do mesmo pai. Sim porque ela sabia que o seu pai se chamava “pai incógnito” e o pai dessas meninas também se chamava assim. Um dia, a avó explicou-lhe que “pai incógnito” significava que ninguém sabia quem era o seu pai. Não era nome de gente. Rosa ficou espantada. Como era possível? Não sabiam quem era o pai? Não era da aldeia? Então e as outras meninas? Também não sabiam quem era o pai? Então se calhar eram mesmo irmãs. Que não, tornou a avó. Eram filhas de outro pai. Ela não percebia. Então se não sabiam quem era como é que sabiam que não era o mesmo? Mais tarde, quando fora para a escola, atreveu-se a perguntar à professora e esta fizera-lhe entender o mistério. Ela gostava da escola. Como gostava! Os livros contavam cada história! Infelizmente, quando tinha oito anos, a mãe morreu e ela ficou sozinha com a velha avó. A vida que lá em casa já não era fácil, piorou drasticamente. Teve que deixar a escola.
O Sr. António era o homem mais rico da aldeia. Tinha terras, bois, vacas, cabras e ovelhas. Vivia numa casa grande, feita de grandes blocos de granito, e diziam os que já lá tinham entrado, por dentro parecia um palácio. A avó conseguiu que ela fosse trabalhar para lá como guardadora do rebanho. Foi um pedido feito à Ti'Zefa, a criada do Sr. António. Ganhava um dinheirito, pouco, no fim do mês, mas tinha a barriga cheia, pois segundo se dizia era casa farta. E assim a avó sempre ficava mais descansada. Ela, a avó, sempre conseguia um prato de sopa a troco de algum trabalho. Era exímia a cerzir e as vizinhas tinham sempre o bibe dum filho ou a camisa do marido com um rasgão a pedir a sua intervenção.




Continua amanhã