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23.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE IX


A certa altura, Óscar aproximou-se e meteu conversa com um dos jovens do grupo de Anabela, que tendo já bebido mais do que devia, o convidou a juntar-se à festa.

Ele aproveitou para se aproximar da jovem, e não mais a deixou, enredando-a na sua teia de sedutor.

Quando Maria Rosa e o namorado lhe fizeram saber que eram horas de regressar a casa e Óscar perguntou se podia acompanhá-los, Anabela não viu inconveniente. Afinal ele tinha-se mostrado muito gentil, coisa a que a jovem não estava muito habituada.

Muito tempo depois, Anabela perguntava-se onde tinha a cabeça para ter confiado num desconhecido tão rapidamente, mas a verdade é que ela parecia ter ficado completamente cega e surda a todas as advertências que os amigos mais chegados lhe faziam, sobre um namoro tão rápido e um casamento relâmpago, mal tinha começado a trabalhar no Serviço de Medicina Física e de Recuperação no Hospital de Santa Maria.

Todavia o casamento foi a maior deceção da sua vida. Em vez do lar e da família com que sonhava, Anabela teve quase três anos de inferno. 

Quando pouco tempo depois do casamento, Anabela começou a notar as alterações bruscas de humor do marido, chegou a pensar se ele não seria bipolar. Chegou até a tentar convencê-lo a procurar ajuda médica.

Viria a descobrir que o problema era outro, acidentalmente através de um pequeno caderno de apontamentos que ele deixara cair sem se aperceber e ela encontrara entre a mesa de cabeceira e a cama, enquanto limpava o quarto. Ele era um viciado no jogo.

  Cedo ela aprendeu a saber quando ele perdia ou ganhava pela maneira como se comportava.

Inicialmente eram apenas as alterações de humor, com o tempo começaram as agressões psicológicas. Depois, o dinheiro que guardava na cómoda para o governo mensal que desaparecia. Verdade que quando ganhava, ele repunha a quantia, às vezes até mais do que levara, mas a incerteza em que vivia, e os maus humores do marido roubaram-lhe a alegria, e faziam com que vivesse com o coração e a alma repletos de tristeza. Os únicos momentos de alegria que tinha, eram os que passava em casa da amiga Paula, com a sua filhinha Patrícia, de quem ela era madrinha.

Estava casada há dois anos quando ficou grávida. Não fora uma gravidez desejada, ela tomava a pilula, mas uma inflamação gástrica e a medicação que fizera, tinham anulado o efeito da pílula.

 Profissionalmente era considerada pelos médicos e colegas como uma excelente profissional. Mas como pessoa continuava a ser uma jovem ingénua. Tanto assim que que se encheu de esperança, julgando que a gravidez ia mudar o marido e fazer dele um homem responsável.

Foi mais um choque a juntar ao que tivera quando descobrira a verdade sobre o marido porque quando lhe contou, ele gritou com ela, disse que não queria filhos, que não tinha paciência para aturar pirralhos, e mandou que ela se livrasse da criança.

 Discutiram e ele deu-lhe um encontrão que a derrubou no chão da cozinha. Quando depois dele sair de casa, telefonou a Paula, ela e o marido imediatamente a foram buscar para sua casa e a aconselharam a pedir o divórcio.

17.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XX

 



Tinham chegado ao restaurante. Fernando estacionou o carro no parque, saiu e dava a volta ao carro, todavia Laura saiu sem esperar que ele se aproximasse para lhe abrir a porta.

- Vamos entrar? - perguntou pegando-lhe no braço pelo cotovelo. Já estão todos à nossa espera.

Não era difícil saber porquê. Afinal ele tomara o caminho mais longo a fim de prolongar o tempo a sós com a jovem.

Durante o jantar, Aníbal, o pai de Laura; e Fernando fizeram as honras da conversa, enquanto a jovem se mantinha atenta ao jantar do pequeno Miguel e  Sara contava à sua avó o quanto tinha gostado de passar aquela semana com a prima e de como Matilde se sentia feliz por ter enfim o pai e a mãe juntos.

- Sabes, avó, eu tenho muitas saudades do meu pai, mas sei que ele foi para o céu, não voltará. Mas eu e a Matilde estivemos a conversar. Ela diz que o tio Fernando gosta da mãe, e que se eles se casassem, podíamos voltar a ser uma família completa.

- E tu não te importavas se a mãe casasse com o tio Fernando? - perguntou a avó

- Claro que não. Eu gosto muito dele. Mas parece que a mãe não.

- Não te preocupes. A tua mãe também gosta dele. Só que ainda se lembra do teu pai. E isso faz com que não se dê conta do que sente pelo tio Fernando.

- Sabes o que eu penso, avó? Os adultos são muito complicados. Não sei se algum dia  vou querer ser adulta.

Perante a risada da avó, todos os olhares se viraram para ela.

-A minha neta acaba de me dizer que não vai querer ser adulta, pois os adultos são muito complicados, - disse Teresa perante os olhares surpresos dos restantes.

 Naquele momento o empregado trouxe as sobremesas.

Pouco depois, pediam os cafés e a conta, entretanto Miguel já cabeceava os olhitos fechados, morto de sono. Laura levantou-se e pegou-lhe ao colo, mas logo Aníbal estendeu os braços e retirou o neto do colo da mãe, dizendo:

-Nós deitamos as crianças não te preocupes. É melhor que vás com o Fernando, amanhã é o teu primeiro dia de trabalho, podem ter alguma coisa a conversar sobre isso.

Laura não disse nada, embora no seu rosto fosse bem visível o quanto as palavras do pai a contrariavam, enquanto Fernando dizia sorrindo.

-Bom, então despedimo-nos aqui, para que vocês também se possam recolher e descansar.

Abraçou o casal com o mesmo carinho com que um filho o faria, deu um beijo no bebé adormecido, e depois baixou-se para ficar ao nível de Sara, e abraçou a menina dizendo:

- Até outro dia, princesa. Dorme bem. Prometo que levo a tua mãe para casa, sã e salva, daqui a pouquinho.

Esperou até que entraram no carro, e só então se dirigiu ao seu automóvel, seguido pela jovem. Não lhe tocou, pois sabia que ela reagiria mal, zangada como estava com os pais.

Ligou o motor mas em vez de pôr o carro a trabalhar, virou-se para ela e disse:

-Vamos, desabafa essa raiva que sentes. Embora não tenha tido culpa nenhuma na situação, eu aguento.

- Parece que sou um traste de quem eles se quem livrar, - disse ela magoada. E tu também tens culpa. Podias dizer que tinhas um compromisso inadiável, e eu teria ido com eles.

- Mas não tinha e não me agradam as mentiras. E tu sabes tão bem como eu, que eles te querem muito, que não lhes agrada a solidão em que vives e se estão sempre a tentar juntar-nos é porque me conhecem de toda a vida, sabem que nunca amei outra mulher que não fosses tu, e que serei um bom pai para os teus filhos. 

Sei que não te sou indiferente, senti o teu coração bater em uníssono com o meu, senti o teu corpo tremer nos meus braços, quando dançámos juntos no casamento do teu irmão e sinto-o sempre que te toco. Se assim não fosse já te tinha deixado em paz, como o fiz quando me mandaste embora, há quase dois anos.

Também sei que ainda não estás preparada para te entregares a um novo amor, mas eu sou paciente.  E quero que saibas que enquanto estiveres na clínica, podes estar descansada, que não terei nenhuma atitude diferente daquela que teria com qualquer outra assistente.

 Pôs o carro em movimento e dirigiu-se para a residência da jovem.

13.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XVIII

 




Os dias na aldeia passavam rapidamente. Os pais de Helena simpatizaram com Fernando, que também parecia à-vontade com eles. Os dois homens, e o menino,  tinham enfeitado a casa, enquanto ela e a mãe se dedicavam a juntar todos os ingredientes para uma ceia de Natal, repleta de boas iguarias.

E chegou enfim a noite santa. A família ia cear mais ou menos na hora do costume, queriam estar despachados quando chegasse a hora de irem à missa do galo. Depois da missa abririam os presentes.

António, o pai de Helena, tinha ligado a televisão a fim de ver o telejornal. De súbito, uma notícia, chamou-lhes a atenção. A Orquestra Nova do Porto, que se encontrava em digressão pelos Estados Unidos, apresentara às autoridades de Nova Iorque uma denúncia por desaparecimento do seu pianista, o jovem Fernando Corte-Real, que ali faria a sua estreia como solista, na primeira parte de um concerto. 

O jovem que por motivos pessoais, não viajara com os restantes membros da orquestra, fizera-o no dia seguinte.
Havia o registo da chegada dele, ao hotel em Los Angeles, cidade onde a orquestra deu o seu primeiro concerto, no passado dia quinze, mas ele não foi visto depois do registo, nem apareceu nos ensaios nem na hora da atuação.

E  também não apareceu para o concerto em Nova Iorque que se realizara nas vésperas. O pianista que é tido pelos colegas como um homem muito talentoso e responsável, não aparece nem dá notícias, desde o seu registo no hotel de Los Angeles, no passado dia cinco de Dezembro.
 No fim da notícia, a foto do pianista, tirou todas as dúvidas aos dois jovens.

-Meu Deus – disse Helena apertando a mão de Fernando cujo rosto estava extremamente pálido. Como é possível, teres feito o registo no hotel em Los Angeles, se nessa data estavas hospitalizado em Lisboa?
Felizmente os pais dela, estavam distraídos com as gracinhas do neto e não se aperceberam de nada.
- Desculpem-nos, - disse Helena. O Fernando não está bem, tenho que lhe dar um analgésico. Sequelas do acidente que teve no princípio do mês.

- Mas não comeram quase nada!- protestou a mãe dela.
- Já comemos quando voltarmos. Ou depois mais tarde. Não se preocupem. Porta-te bem com os avós, Diogo.
Ele dirigiu-se ao quarto que lhe tinham destinado, e ela seguiu-o




Nota:

Amigos, os pais da Margarida vão entrar de férias, e nós vamos aproveitar para tentar espairecer e recarregar baterias. Os recentes problemas de saúde, meus e do marido, aliado aos meus problemas de visão e ao resultado da biopsia do marido que nunca mais chega, têm-nos deixado de rastos. E depois há esta princesinha que adoramos, mas que como é normal está cada dia mais traquina e cansa mais. Como sabem tentamos ir de férias quando os pais tiveram  os primeiros quinze dias de férias em Agosto, mas problemas de saúde obrigaram-nos a regressar. Esperamos melhor sorte desta vez. Os posts estão programados até ao fim do mês, porque lá não tenho internet.



27.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XI

 



-Porquê, doutora? Porque me trazes para tua casa, e me tratas como se fora alguém da tua família?
- Não sei, - disse sustentando-lhe o olhar. -Talvez porque me sinta responsável por ti, desde que te vi meio morto na estrada, ou porque a época é de fraternidade e me aflige, que não saibas quem és, nem para onde hás de ir. Ou porque sempre me senti, um pouco a Joana D'Arc, e nunca tive oportunidade de o demonstrar. Ou simplesmente,  porque gostaria que alguém me ajudasse se fosse comigo. Mas isso que importa? 

Agora tenho que ir lá acima ao quarto andar, buscar o meu filho, a festa do amigo já terá terminado. Depois acabo de preparar o jantar que na verdade já está feito, é só ligar o forno para o aquecer. Enquanto isso, podes ir para o teu quarto descansar, ou para a sala, tens lá vários livros, ou  se te apetecer, liga a Televisão.

Com os olhos brilhantes de emoção, ele beijou-lhes as mãos e disse:
-És uma mulher incrível, doutora. Oxalá a tua generosidade possa ser recompensada.

 Soltou-a e virou-se para a janela, para esconder dela o desespero que a sua situação lhe provocava.

- Não fiques assim. Tenta relaxar. Quanto mais te esforças, mais frustrado ficas. A tua RM não acusou nenhuma sequela que seja a causa da amnésia. Deves ter tido um choque grande e o teu subconsciente recusa-se a recordar. É como se ele receasse alguma coisa. Quando deixar de recear, recordarás tudo. Agora, vou buscar o Diogo. Deveríamos arranjar-te um nome. Não pudemos dizer-lhe que não te lembras e como te chamas, porque isso iria fazer uma grande confusão, na sua cabeça. Tens predileção por algum?
- Fernando – disse sem pensar, e acrescentou. Foi o primeiro que me ocorreu. Será que é o meu nome?
- Quem sabe? Pode ser. Até já – disse saindo e deixando-o a sós com os fantasmas  que o atormentavam.

Fernando, foi até à sala. Acendeu a luz, e dirigiu-se à estante que ocupava toda uma parede. Muitos livros relacionados com a medicina, diziam bem do interesse da dona da casa. Mas também havia muitos outros. Clássicos da literatura mundial, como Goethe, Balzac, Shakespeare, Dostoiévski, Homero, Dante, Camus, Victor Hugo, Sartre, Ionesco, Steinbeck, entre muitos outros. Mas também os de língua portuguesa, como Camões, Pessoa, Machado de Assis, Jorge Amado, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Virgílio Ferreira, entre um numeroso grupo de bons autores. Escolheu “O Náufrago” de Thomas Bernhard, porque no fundo era assim que ele se sentia. Um náufrago da própria vida.
Sentou-se no sofá e abriu o livro. Mas não teve tempo para iniciar a leitura, porque nesse momento, a porta abriu-se e Helena voltou com o filho.
  



2.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXVI

 


-O que sei eu do presente, Helena? A minha cabeça está num caos. Procurei-te com desespero, não porque me recordasse de ti, do amor que sentimos no passado, mas porque me falaram de ti. E porque dentro do meu coração eu sabia que tinha de te encontrar. Passaram catorze anos de luta para recordar aquela fase da minha vida e confesso que começava a perder a esperança. Quando tropeçaste e te segurei. O meu corpo estremeceu e excitou-se, mas o meu cérebro não teve nenhuma reação e não fora a surpresa e o pânico que li no teu olhar, nada me levaria a pensar que a minha busca tinha terminado, que tu eras a pessoa que procurava, há tantos anos.  Mas foi no hospital, ao ver a Matilde, que eu tive a certeza de que a minha busca tinha terminado. Meu Deus ela é uma fotocópia da minha irmã, na idade dela, como pudeste comprovar na foto. Quero que a nossa filha saiba quem sou, quero dar-lhe o meu nome e todo o amor que não lhe dei até agora. E casar contigo, formar a família que o destino me roubou.

- Mas…

- Por favor deixa-me continuar. És uma mulher muito bonita, e há uma grande química entre nós. Sinto-o quando me tocas e tenho a certeza que tu sentes o mesmo. E esse é o presente que te posso oferecer. Não posso jurar que te amo, como certamente o terei feito no passado, pois na minha cabeça, eu conheci-te há dias. Entendes?  Talvez seja presunção da minha parte querer que aceites casar comigo quando nem sequer sei se algum dia vou recuperar a memória daquele pedaço de tempo, todavia acredito que podemos começar de novo, uma história de amor que pode ser muito bonita.  Mas enquanto isso não acontece podemos ter um casamento baseado no respeito, companheirismo e atração física. Pelo bem da nossa filha.

- Desculpa Gonçalo, acredito que tenhas o desejo de viver com a nossa filha, mas de momento o que temos de fazer, é falar com as nossas famílias, e principalmente com a Matilde. Não vamos por os bois à frente da carroça.

Olhou o relógio.

-Meu Deus, são quase oito horas. Tenho que telefonar para casa, saber como está a Matilde e avisar que vou chegar tarde.

- Fica longe a aldeia?

-Perto do Fundão. Quase duas horas e meia de carro.

- Se a Matilde estiver bem, porque não ficas em Lisboa? Afinal ela está com os avós, e decerto eles adoram-na. Ias amanhã, logo de manhã, e não tinha de conduzir de noite.  Podíamos jantar juntos em qualquer lugar sossegado e falavas-me da nossa filha, de como nasceu, dos seus tempos de bebé e da infância. Perdi tudo isso!  

Helena hesitou. Por um lado, ela compreendia o desejo dele de saber mais sobre a filha, e também não gostava muito de conduzir durante a noite, por outro ela tinha saído depois do almoço, dizendo que ia tratar de uns assuntos inadiáveis na agência, mas que estaria de volta à noite. Não poderia dizer aos pais que ia encontrar-se com o pai da sua filha, sem saber se o que Gonçalo lhe ia dizer merecia ou não que confiasse nele. Também não tinha dito nada a Rita e temia que ela telefonasse para saber da sobrinha e de algum modo mostrasse à sua mãe que não tinha conhecimento desses tais documentos.

Por fim decidiu-se.


 TERESA, não tinha saltado nenhum número no último capitulo. Tinha sim publicado anteriormente dois capítulos com o número XXIII. Agora já está tudo correto

4.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XV

 


Às vinte horas, Helena despediu-se da filha que dormia, com um beijo na testa e saiu, depois da enfermeira lhe ter entregue um cartão de Pessoa Significativa que lhe permitiria visitar a filha a partir das treze horas, do dia seguinte e não ter que esperar pela hora normal das visitas que era bem mais tarde.

Ao  entregar-lhe o cartão a enfermeira disse-lhe:

-É melhor ligar para cá antes de vir, o tempo de internamento nos casos de apendicectomias laparoscópicas, quando não surge qualquer complicação é de vinte e quatro horas. A ronda médica é por volta do meio dia, e se tudo estiver como se espera, ela terá alta, e sairá na hora das visitas. Se telefonar antes já saberá se deve ou não trazer a roupa dela, mas não ligue antes da uma.

 -Deixei-lhe o telemóvel. Vou ligar de manhã para saber como passou a noite e como não sei a que horas o médico a observará, venho às treze e trago-lhe uma muda de roupa.

Dirigiu-se ao parque de estacionamento, onde deixara o carro, lançou o saco com a roupa da filha para o banco traseiro e sentou—se ao volante. Pôs o veículo em movimento, e dirigiu-se a casa. Sentiu uma pontada no estômago e só então se lembrou de que não comera nada desde o pequeno almoço.

Comprou uma piza a caminho de casa. Sabia que tinha de comer, mas não tinha vontade de cozinhar. Sentia-se muito cansada, física e psicologicamente. Não lhe saía da cabeça a conversa do Gonçalo.  Por muito estranho que lhe parecesse, podia jurar que ele não só, não a reconhecera, como não tinha qualquer lembrança dela.

Por outro lado, agora sabia onde a filha fora buscar o seu tom de pele, e a cor dos seus olhos. A semelhança com a tia era assombrosa. No seu breve e intenso namoro, Gonçalo tinha-lhe falado dos pais, e da irmã, porém ou porque não tinha com ele qualquer fotografia ou por outro qualquer motivo, ela nunca imaginou que a família dele, não fosse morena como ele.

Acabava de jantar quando o telemóvel tocou. Atendeu. Era a mãe. 

- Estou, mãe, não esperava a tua chamada hoje. Aconteceu alguma coisa?

- Não, filha. Acabei de falar com o teu irmão e deu-me saudades vossas. Depois de amanhã é Domingo de Ramos, temos a procissão e como dissestes que vêm passar a semana da Páscoa, lembrei-me que podiam vir amanhã e íamos juntas à procissão.

-Não mãe, provavelmente só poderemos ir na segunda feira. Para que a agência fique fechada uma semana, precisamos dar andamento a alguns assuntos que não podem ser adiados.

Estava a mentir, mas não ia dizer aos pais que a neta estava no hospital para que ficassem preocupados.

- E a Matilde? Hoje não quer falar com a avó?

- Não está, mãe. Hoje foi passar a noite com a Madrinha. Amanhã eu digo-lhe que telefonaste, não te preocupes. Beijos.

Desligou e de seguida ligou para Rita.

- Desculpa, -disse assim que a amiga atendeu – vi que estavas a ligar, mas estava ao telefone com a minha mãe.

- Contaste-lhe da Matilde? - perguntou Rita.

- Não queria que ficassem preocupados. Disse—lhe que ela estava em tua casa.

- Já me disseste que a cirurgia correu bem, mas como estava a Matilde quando saíste?

- A dormir tranquilamente. Em princípio deve ter alta amanhã. Olha Rita aconteceu uma coisa estranhíssima, que preciso de te contar. Queres vir amanhã tomar o pequeno almoço comigo? Sei que é sábado, o Inácio está em casa, mas eu preciso mesmo de desabafar. Se ele quiser podem vir os dois.

- A que horas? – perguntou Rita

- Não sei. Decide tu. Eu só vou para o hospital perto da uma.

- Às dez. Se estiver bem para ti, para mim é boa hora.

-OK! Às dez então.

28.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE XII

 


Cinco dias depois, na agência sem clientes à vista, Rita e Lena conversavam.

- O Inácio está doido de alegria, e os meus pais nem se fala. – dizia Rita passando a mão pela negra cabeleira.

--E tu não? – perguntou a amiga

-- Também estou feliz, claro que sim – disse sem muita convicção

- Mas não pareces muito entusiasmada. Que se passa? - perguntou Lena

- Depois de seis anos de tentativas infrutíferas, penso que já me tinha mentalizado que nunca engravidaria. E agora que o consegui, o medo não me deixa saborear a felicidade.

- Medo? De quê? – perguntou espantada, pois a amiga sempre fora a imagem personificada de uma mulher forte, com nervos de aço.

- Faltam-me poucos meses para fazer quarenta anos. E sabes o que se diz sobre ter o primeiro filho depois dos trinta e cinco.

- Por amor de Deus, Rita! Isso era antigamente. Hoje em dia, as mulheres trabalham fora de casa, têm as suas carreiras e são mães cada vez mais tarde. Por um lado, a ciência evoluiu muito, por outro o próprio corpo humano vai-se adaptando às novas condições.

Nesse momento o seu telemóvel deu sinal de mensagem, E Helena apressou-se a lê-la.

É da Matilde? - perguntou Rita.

-- É. Diz que chegaram bem, que já montaram as tendas, e que vai ter de desligar, pois só podem ter os telemóveis ligados de manhã e à noite.

-Pronto, já podes ficar calma. Há mais de seis anos que a Matilde está nos escuteiros e vai acampar três ou quatro vezes por ano, e tu ficas sempre nessa ansiedade. Nem sei porque a deixas ir.

- Penso que a vida nos escuteiros, é um aprendizado importante para ela. Mas isso não impede que nos dois, três dias em que está ausente, a preocupação e a saudade não tomem conta de mim. Quando fores mãe, saberás o que sinto.

- Talvez tenhas razão. Bom mudando de assunto, como vamos fechar a agência para a semana, vais passar a Páscoa à aldeia?

-Vou. Desde o Natal que não vejo os meus pais. Tenho muitas saudades deles. O meu irmão também vai. Conheces-nos, sabes como somos uma família unida. É verdade, sabes que a Sofia está outra vez grávida?

- O quê? – Mas o teu irmão não tinha dito que ficavam por ali quando o Mário nasceu?

-Segundo o meu irmão me disse, a Sofia queria tentar de novo a menina. E ele resolveu fazer—lhe a vontade. Espero que não venha outro rapaz.

- Mas porque esperaram tantos anos? O Maurício daqui a pouco já namora…

-Ainda só fez quinze anos! E o Mário fez há dias 12 doze. Estou desejando de os rever.

-A tua cunhada é uma mulher corajosa. Eu acho que no lugar dela não me atrevia a uma nova gravidez. Compreendo o desejo de uma menina, mas que hipóteses tem de que isso aconteça? E se vem outro menino?

- Seja menina ou menino toda a família, vai acolher o bebé com muito amor.

-Isso é certo. Mas ela vai passar um mau bocado. Não me consigo imaginar a conviver diariamente com um bebé, noites sem dormir ou mal dormidas e dias com um adolescente e um pré-adolescente. Dava em doida.

-A Sofia é uma mulher calma e paciente. Mas voltando à Páscoa. E vocês? Passam—na com os teus pais ou com os pais do Inácio?

-Estamos a pensar ir também para a aldeia.  Parece que o meu avô tem estado doente, e o pai quer passar com ele algum tempo. E nós também não o vemos desde que ele veio ao casamento há seis anos. Está velhinho e pode partir a qualquer altura. Por isso vamos todos, incluindo os meus sogros.

- E não se esqueçam de ir visitar os meus pais. Para além da amizade que liga os nossos pais, sabes que os meus te adoram, como se fosses parte da nossa família.

- Claro que iremos. Eu também os adoro.

 

14.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXI

Ficou triste. Mais do que isso, sentia-se irritada. Gostava do emprego, tinha-se esforçado por ser uma boa empregada e não tinha tido culpa de ter adoecido.
- Não fiques triste. Não é nada pessoal, acontece a qualquer um. E é melhor assim, precisas pôr-te boa e ainda vai levar um tempinho até que voltes a sentir-te como antes, - animou-a Quim.

-Eu sei. Mas não consigo evitar. Gostava do trabalho e as colegas eram uma simpatia. Também estou preocupada contigo, passas os dias comigo, não tens ido trabalhar…
-Não te preocupes. Nesta época a afluência ao restaurante baixa sempre de forma drástica. Por isso costumamos fechar oito dias antes do Natal, e reabrimos dois dias antes da passagem de ano. Natal é tempo de recolhimento, de família, mas no ano novo é diferente, é sempre dia de muito movimento. 

Faltam poucos dias para o Natal. Gostaria de cear com os tios. Achas que estarás bem até lá?
- Espero que sim. Estou cansada desta imobilidade.
Uma sombra de tristeza ensombrou o seu rosto. Ele reparou. Estava sempre atento.

- É a proximidade do Natal? Sentes saudades? - perguntou
- Sim. É o primeiro Natal que passo longe dos meus pais. Da nossa terra.
Sentia vontade de chorar, mas não o queria fazer na frente dele. Já lhe bastava o sentir-se feita um trapo velho, o rosto macilento, o cabelo sem brilho, o corpo sem forças pela doença. 

O carinho com que Quim a tratava, fazia com que cada dia gostasse mais dele. Mas com aquele aspeto, era impossível provocar algum sentimento nele que não fosse compaixão. 
Será que ele ainda pensava na Joana-Boneca? Ela sempre pensava na outra, como uma boneca, não conseguia imaginá-la como uma mulher a sério.
No dia seguinte, escreveu uma longa carta para a mãe. Falou da cidade, da casa, do marido. Disse-lhe que não estivesse preocupada, que ela era muito feliz. Mas não disse que estava doente, nem falou das saudades que tinha de casa.


Desculpem a ausência. O dia 13 foi complicado. O marido foi extrair um dente, e teve uma hemorragia que nos obrigou a ir ao hospital para levar uma injeção hemostática. Isto aconteceu porque como já teve um AVC, faz medicação anticoagulante que não pode parar.    

28.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LI

 



No seu escritório, João serviu-se de um uísque e com o copo na mão sentou-se, abriu a gaveta e retirou a foto da sua mãe com ele ao colo, e o envelope ainda fechado. Durante alguns segundos rodou-o entre os dedos. Depois decidido pegou num estilete, abriu-o  e leu.

 

“Meu querido e nunca esquecido filho.

Quando leres esta missiva, eu já terei partido para a minha última viagem.

Não sei o que tu saberás sobre mim, nem o que teu pai te terá dito, mas acredita que te amo muito, sempre te amei e que foi com o coração sangrando que te deixei, todavia não tinha forças para continuar a viver como vivia. Receava endoidecer, e não podia levar-te comigo, pois não tinha meios de poder satisfazer as tuas necessidades mais básicas. Não tinha dinheiro, nem emprego, nem família a quem recorrer pois talvez não saibas, mas nunca conheci meus pais, fui criada num orfanato. Quando três anos depois a minha vida estabilizou, procurei o teu pai, a fim de um entendimento que me permitisse partilhar a tua guarda, porém ele disse-me que ou voltava para ele ou nunca mais te via, e se insistisse na guarda partilhada, antes disso, ele te mandaria para um internato onde nunca te iria descobrir. Conhecia o teu pai, sei que era capaz de cumprir essa ameaça, e para que não o fizesse eu prometi-lhe que nunca mais te procuraria.  Todavia embora longe, através de uma amiga dos meus tempos do orfanato, fui sabendo notícias de ti e recebendo fotografias que me iam mostrando como crescias, e ias aos poucos caminhando para a idade adulta.

Não vou falar-te das minhas razões para fugir, não quero falar mal do teu pai, ele já terá prestado contas à justiça divina.

Talvez eu devesse ter-te procurado quando ele morreu, mas nessa altura tu já eras um homem de sucesso, não irias decerto acreditar no meu amor, pensarias que te procurava por saber que estavas bem na vida; e eu não ia conseguir viver com a tua rejeição.

Quero que saibas, que o ter-te abandonado, foi a maior dor que sofri em toda a vida, foi como se me amputasse a mim mesma.

Um dia conheci um bom homem, e com ele vivi cinco anos, que só não foram de felicidade absoluta, porque tu não estavas lá. Com ele tive o David, mas é bem verdade, que um filho não faz esquecer o outro.

Se estás a ler esta carta, significa que já conheceste o teu irmão. Gostaria que se dessem bem, ele também foi uma criança sofrida, não só porque o seu pai morreu quando tinha apenas dois anos, mas porque a mãe, sempre foi uma mulher triste, por carregar no peito, uma mágoa maior que ela.

 Não te peço perdão, peço-te que compreendas a mulher que te deu o ser e que acredites que a maior dor que me acompanhará até ao último suspiro é sem dúvida o não poder abraçar-te uma vez que seja.

Termino desejando que sejas muito feliz.

Olinda Braizinha.”

 

Leu e releu a carta várias vezes, as letras dançando nos olhos rasos de água. Sem vergonha, João chorou amargamente. Chorou a sua dor de criança solitária, criada sem amor, chorou a dor da sua mãe, separada do filho que amava, chorou pela maldade do pai, que lhe fez acreditar que a mãe era pouco menos que uma prostituta, sem sentimentos. Levantou-se foi ao bar e trouxe a garrafa de uísque para cima da mesa. Precisava beber. Beber até anestesiar o cérebro de modo que esquecesse tudo o que o seu pai fizera com a sua vida,  a da mulher e do filho. Porém quando ia levar o copo aos lábios, lembrou-se de Teresa e das crianças que ela esperava. Sacudiu a cabeça, para afastar os maus pensamentos, e foi guardar a garrafa no sítio. Depois lentamente as costas fletidas como quem carrega um pesado fardo, saiu e foi para o seu quarto onde se jogou em cima da cama sem sequer se despir.

 

 

26.10.20

CILADAS DA VIDA -PARTE L




Nessa mesma tarde, com a preciosa e eficiente ajuda da Olga, João pode respirar de alívio. Teresa estivera na consulta, acompanhada da enfermeira Sandra, fizera análises, onde fora detetado um princípio de anemia, mas viera para casa depois da doutora Laura Aguilar se ter convencido que a doente teria o apoio constante de uma enfermeira que a faria seguir à risca, tudo o que ela lhe prescrevera. Ainda assim queria voltar a vê-la dentro de dez dias.

Olga conseguira não uma, mas três enfermeiras. Uma ficaria na empresa, a outra substituiria Sandra durante as noites, e a terceira faria as folgas das outras duas.

Dividira o quarto com dois biombos e mandara instalar uma cama, uma cadeira e uma pequena mesa, de modo a que a enfermeira pudesse descansar perto de Teresa sem, contudo, perderem a privacidade.

Também mandou retirar toda a roupa do patrão para outro quarto e se encarregara de comprar ela mesma todos os ingredientes necessários para as refeições de Teresa, que Sandra confecionaria nos próximos dias.

Apesar da sua vida ter dado uma grande volta com os acontecimentos das últimas quarenta e oito horas, João pensava que tinha razões para se sentir feliz. Ele que sempre se sentira solitário, ganhara um irmão, com quem lhe parecera fácil desenvolver um clima de amizade fraternal e tinha Teresa, onde sonhara tê-la, desde o primeiro momento que a vira e soubera que ela tinha dentro de si o seu filho. Na sua casa. E para mais em vez de um filho ia ter três, de uma só vez. Iriam ser uma família, ele tinha a certeza, embora não soubesse ainda como convencer Teresa, de que o lugar dela, era a seu lado, criando os filhos dos dois.

Acabou o jantar, e foi ao quarto saber como ela estava. Cruzou-se com a nova enfermeira que levava o tabuleiro em que servira o jantar para a cozinha. Disse-lhe:

-Tem o seu jantar no forno. Pode jantar sossegada, enquanto isso eu faço companhia à dona Teresa.

- Como te sentes? – perguntou sentando-se na beira do leito.

- Estou bem. Com os comprimidos do enjoo, quase não tenho náuseas, mas preocupa-me toda a confusão que estou a causar na tua vida. Achas mesmo necessário uma enfermeira durante a noite? Vai estar quase sempre a dormir.!

- Acho. Imagina que vais à casa de banho e tens uma tontura? A Sandra comprou uma arrastadeira quando foi aviar o ácido fólico. A enfermeira poderá pôr-te a arrastadeira durante a noite, como fazem nos hospitais. Promete-me que não te levantarás sem que seja absolutamente necessário, e sem que ela esteja contigo.

- Se achas necessário prometo. Embora ainda pense que não era necessário.

-Tens que te cuidar.  Não só pelos bebés mas também por ti. A vida dessas crianças é muito importante, mas não podem importar mais do que a tua. Acredita, nenhuma criança é feliz, crescendo sem mãe.

Havia tal amargura nas suas palavras, que Teresa teve a certeza de que ele se referia a si próprio.

Tentando desviar a conversa disse:

- Tens uma excelente assistente.

- Olga, está comigo desde que comecei a minha atividade, num velho armazém sem quaisquer condições. É muito mais que uma assistente, é o meu braço direito. Somos quase irmãos, já que nos primeiros anos da minha vida, foi a sua mãe quem me criou. De modo que tenho a certeza, ela já te estima por saber que estás a gerar os meus filhos e tenho a certeza, será de grande ajuda para ti se lhe deres hipótese.

- Já tinha reparado que havia uma grande ligação entre os dois.

- E o que achaste das enfermeiras?  A Sandra trabalha connosco há quatro anos, sei que é uma profissional competente. A Gabriela e a Rosa, espero que sejam igualmente boas profissionais pelo menos têm bons currículos, mas és tu quem vai avaliá-las. Qualquer coisa que não te agrade, dizes-me. Quero que te sintas o mais confortável possível, para que em breve deixes de estar nessa situação de risco. Pelos bebés e por ti, - disse acariciando a mão que repousava sobre a colcha.

- Porque puseste uma enfermeira nova no lugar da Sandra em vez de vir para aqui? Porque durante a maior parte do dia eu estarei lá em baixo a trabalhar, e sentir-me-ei muito mais descansado tendo aqui uma profissional que trabalha para mim há anos, e em quem tenho plena confiança. De noite é diferente, porque estarei no quarto ao lado disponível para qualquer eventualidade.

Nesse momento a enfermeira Gabriela regressou do jantar e João despediu-se desejando uma boa noite e saiu deixando atrás de si, uma Teresa preocupada com a sensação que uma simples carícia na mão lhe provocara. Decididamente as suas hormonas estavam doidas...

17.6.20

ISABEL - PARTE XXVI



 Apesar disso, o livro foi um grande êxito, já ia na décima edição, e toda a gente andava meio doida, para saber quem era o escritor mistério. 
 E tinha já agendado a data de lançamento do segundo livro, para o fim do mês. Pelo meio ficava o projecto de reunir em livro algumas das suas reportagens, como documento histórico. E, no momento encontrava-se às voltas com uma telenovela, que o seu editor lhe fizera chegar, encomenda de um canal de TV. 
 Esses projectos e a idade avançada dos pais, tinham-no levado a comprar casa em Lisboa e a estacionar por tempo indeterminado a autocaravana, sua companheira e seu refugio nos últimos anos, pensando que desta vez, talvez ficasse mais tempo do que habitualmente. Ou até quem sabe aquele fosse o tempo de acabar com a vida de aventureiro, e criar raízes.
Começava a pesar-lhe a solidão. Como agora. Não é que estivesse a pensar em casamento ou constituir família. Não. Não era isso. O seu desespero ainda não tinha chegado a esse ponto. 
O que ele queria, era  ter dois ou três amigos com quem sair, beber um copo, trocar ideias. Apenas isso. Era muito jovem quando partira de Portugal, e depois disso, sempre que vinha era de passagem, apenas para ver e abraçar os pais. 
Dos amigos da faculdade, que não via há quase vinte anos, nem sabia se estavam no país, se tinham emigrado, ou mesmo se ainda se lembravam dele. E dos miúdos da sua rua, os seus companheiros de brincadeiras na infância, todos tinham casado, e partido para outros pontos da cidade, alguns até para o estrangeiro, atraídos por uma perspectiva de vida melhor. Parecia impossível, mas era a realidade. Tinha amigos espalhados por meio mundo, mas ali, na cidade onde nascera, não tinha um único amigo. E era disso, que ele sentia falta naquele momento. Alguém com quem assistir a um jogo de futebol, ou trocar dois dedos de conversa durante um jantar.
Deu uma volta pela Praça do Comércio, totalmente diferente da última vez que ali estivera, foi até ao cais das colunas, admirou o manto de águas serenas, que a lua cheia beijava descarada, a ponte 25 de Abril, o Cristo-Rei, do outro lado do Tejo,  e murmurou:
- Tanta beleza meu Deus!
Olhou o relógio. Era quase meia-noite. Lançou um último olhar para o Tejo, e regressou ao hotel, fechando a gaveta das memórias, e interrogando-se sobre
quem era e onde viveria, aquela Isabel Mendes que tanto o impressionara.


Peço desculpa pelas ausências, vou comentando sempre que possa. Como sabem cuido de duas netas a mais nova com 10 meses. Elas deixam-me sem tempo nenhum senão à noite, e nessa altura os olhos não me dão muitas hipóteses. Actualizarei os comentários ao fim de semana pois nessa altura tenho os dias livres.


2.4.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XXII





Entraram no hotel de mãos dadas, e André dirigiu-se imediatamente para os sofás da sala de recepção, onde se encontravam algumas pessoas que se levantaram com a sua chegada.
- Eva, apresento-te a minha família. Mãe, pai, irmã e sobrinhas. O resto chega no próximo fim-de-semana, a tempo para o casamento. Família, esta é Eva a minha noiva.
Viu-se submergida num mar de abraços e beijos. Toda a família, a acarinhando como se fosse parte integrante dela. A ela que nunca soubera o que era ter família. Não conseguiu conter as lágrimas.
- Então querida, o tempo é de risos, não de lágrimas - disse Sofia a mãe de André.
- Estou espantada. O André não me disse nada. Pensei que íamos jantar sozinhos!
- Não sabia se me ias perdoar. Trouxe a cavalaria, para te convencer, se eu não conseguisse – disse rindo.
- A julgar pelo que vemos, foste convincente, - disse a irmã, provocando o riso geral.
- É melhor irmos para a sala, ou ficamos sem jantar, - lembrou o pai. 
Eva, nunca iria esquecer, o jantar maravilhoso, e a simpatia de toda a família. A determinada altura, Giovanna, a futura cunhada, perguntou:
-Já pensaram onde vão fazer o casamento?
- Eva confiou em mim, e eu quero que seja um dia de sonho para ela. Conto convosco para tratarem das roupas e adereços. Do resto cuido eu. E o papá, se me quiser ajudar.
- Ficaria zangado se me excluísses.
- Então amanhã vamos às compras, - animou-se Isabella.
- A Eva está empregada. Tem que ir à clínica para apresentar a demissão. Depois podem começar.
- Não é tão simples assim. Tenho que dar um mês à empresa para arranjar substituta, - disse Eva
- Um mês? Nem penses nisso! Se for necessário, pagas a indemnização à empresa.
Depois de conversar com ela, André escolheu o momento do regresso a casa, perto da meia-noite, para anunciar à família a gravidez da noiva. E a alegria foi geral.



31.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XX






Vim para Portugal, porque havia informações de que podiam estar a atuar aqui, alguns desses criminosos. O meu trabalho, era identificá-los e denunciá-los à polícia para que fossem presos. Porém quando o meu trabalho foi feito aqui, recebi ordens para avisar a polícia de que devia mantê-los sob discreta vigilância, mas não os podiam prender, pois os cabecilhas estariam em Londres. Se estes fossem presos, os outros deixariam de atuar durante uns tempos, ou iriam para algum casino menos conhecido em algum país noutro continente, o que inutilizaria meses de investigação. Recebi ordens para viajar com urgência para Londres, verificar se a notícia era real, e identificá-los a fim da detenção se fazer em simultâneo nos dois países. Levei três meses para o conseguir. Temos ordens rigorosas de que absolutamente ninguém pode saber a que nos dedicamos. A minha própria família, nunca soube qual era minha verdadeira profissão e nem queiras saber os sermões que me davam quando os visitava. 
- Mas como é que se descobrem esses criminosos?
- Precisamos observar todos os jogadores que perdem grandes quantias, e os que ganham grandes quantias. Temos que descartar os que perdem e ganham em simultâneo. Esses normalmente, são jogadores profissionais, que jogam pelo prazer de o fazer, e não têm interesse. Também descartamos os viciados como o teu marido.  Agora os que perdem todos os dias grandes importâncias sem preocupações, e nunca ganham, são suspeitos, a investigar, especialmente se no mesmo casino, houver outros a ganhar todos os dias grandes quantias. É esse o esquema de lavagem de dinheiro. Só temos que provar, a ligação entre quem perde, e quem ganha.
Tomou-lhe o rosto nas mãos e beijou-a suavemente com carinho. Depois continuou
- Foi o meu último trabalho. Apresentei a minha demissão. Nunca mais me quero separar de ti. Foram três meses horríveis. Tive saudades do teu sorriso, dos teus beijos, do teu cheiro.
- Nós também tivemos saudades tuas, - disse ela pegando-lhe na mão, e pousando-a sobre o seu ventre.
Levantou-se de um salto.
- Queres dizer... que vamos ter um filho? Vou ser pai? – Perguntou redopiando com ela pela sala.
- Pára por favor! Pões-me tonta.
 - Casas comigo? - Perguntou beijando-a com toda a paixão contida naqueles meses de ausência. 

28.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XLIV






EPÍLOGO


Um ano e dois dias depois…
A elegante e sofisticada mulher que se encontrava no salão, tinha tantas semelhanças com aquela outra Luísa, que ela fora até há um ano atrás, como uma lagarta com uma borboleta.
Estava tão diferente, que às vezes ela mesma tinha dificuldade em se reconhecer. Mas se a aparência mudara e muito, ela sentia que a maior transformação ocorrera dentro de si mesma. Agora é uma mulher confiante, que conhece bem o seu valor e isso fez-se notar também na sua arte, agora mais madura e mais forte, de acordo com a opinião dos críticos sobre a sua última exposição realizada no mês anterior. E tudo isso ela deve ao amor e incentivo de Gil, o seu marido, que desde o primeiro momento descobriu nela a beleza e talento, que ela desconhecia possuir. 

Parabéns a você  
nesta data querida  
muitas felicidades  
muitos anos de vida.

Hoje é dia de festa 
cantam as nossas almas 
para a menina Mariana  
Uma salva de palmas.

Gil pegou a filha ao colo e aproximou-a do seu bolo de aniversário para que a menina soprasse as duas velinhas. Depois voltou a sentá-la, na sua cadeirinha no topo da grande mesa, e, enquanto Inês pegava na faca e começava a partir o bolo que Celeste distribuía pelos convidados, Gil deu a mão à mulher que estava a seu lado, e disse:
- Telefonou a dona Aurora, para dar os parabéns à Mariana. Diz que tem ido uma vez por semana lá a casa abrir as janelas, que está tudo em ordem e que tem muitas saudades das vossas conversas. (Após o casamento, tinham  decidido manter a casa, o sítio idílico, era ideal para alguns dias de férias no Verão, não só para o casal como para os familiares.) Convidei-os para virem passar o Natal connosco. Afinal são os nossos padrinhos de casamento, e não têm mais família.
- Obrigado – disse ela pegando um bocado de bolo e levando-lho à boca. Depois perguntou baixinho:
-Estás feliz?
Ele inclinou-se e respondeu no mesmo tom
-Duvidas? Tenho a meu lado a mulher que amo, que realizou todos os meus sonhos de homem apaixonado, que é uma excelente mãe, e em breve me vai dar um novo filho. E olha à tua volta. Que vês? Laura e o seu marido Alcides, recém-casados, alegres e felizes, Marco com Isabel, sua esposa, e o filho Manuel de dez meses. Inês, a ama e o seu filho Luís, que ama a nossa menina e a considera como uma irmã mais nova, a quem satisfaz todos os caprichos. E as empregadas? Da cozinheira à governanta, estão
alegres e felizes.  Até Luna, a minha agente, irradia felicidade. Todos estão  em festa e isso, deve-mo-lo a ti, que me salvaste a vida e me devolveste para eles - disse enlaçando-a com carinho.
-Não, amor, não – protestou ela. Se alguém aqui deve algo, sou eu.
O teu amor, fez daquela Luísa provinciana e sem graça a mulher que hoje sou. Graças a ti, e ao poder do teu amor, hoje sou uma nova mulher e uma pintora muito melhor. Repara, o meu irmão e a sua noiva olham-me com carinho e orgulho. Até o meu pai e a sua mulher, deixaram de me ignorar.
Gil apertou a mulher ao peito e acariciou-lhe os cabelos enquanto olhava à sua volta. Inês tirava Mariana da cadeirinha e punha-a no chão. Luís deu-lhe a mão e iniciaram uma brincadeira num canto da sala onde estava uma manta com vários brinquedos. “Para o ano, irá para o infantário, precisa conviver com outras crianças” - pensa.
Inês é uma mulher jovem. Um dia voltará a apaixonar-se, quererá casar, ter a sua casa, a sua família e ele irá ajudá-los, porque ela e o filho, já são como família. Mas enquanto isso não acontece, ela será a ama do pequeno Luís que está para nascer, e cujo nome ele escolheu em homenagem a Luísa.
Respira fundo e sorri. Pensa que apesar de todos os seus esforços, o mundo não mudou muito, mas tem consciência de que fez a sua parte para torná-lo um pouco melhor. Agora a sua tarefa vai ser, criar nos filhos que tiver, a mesma consciência que sempre o regeu. Cada um deve olhar à sua volta e dentro das suas possibilidades, trabalhar para um mundo mais justo.
-Alô, alô, daqui planeta terra, chamando Gil Gaspar! - disse Luísa, vendo o ar sonhador do marido.
Ele sorri, inclina-se e beija a esposa pensando: "Quando se tem o mundo nos braços, não há lugar para os sonhos"!


FIM


NOTA FINAL: Espero que tenham gostado deste final cor-de-rosa, escrito a vosso pedido, pois como sabem, eu tinha terminado a história com o acidente do Gil e cada um de vós imaginaria a seu gosto o que tinha acontecido.
devido ao estado dos meus olhos tenho cada vez mais dificuldade em escrever, pelo que a seguir vão entrar reedições que servirão para os leitores novos e para os antigos que queiram recordar.
continua á espera de ser chamada para o transplante, que quando lerem este final até já pode ter acontecido, e como não sei quando poderei voltar,, após a cirurgia, estou a programar posts a longo prazo.
de qualquer modo quando isso acontecer, eu,  ou o meu filho, daremos notícias