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28.2.23

POESIA ÀS TERÇAS - CASIMIRO DE BRITO - POETA COMO TU, IRMÃO

 



Poeta como Tu, Irmão

Não sou mais poeta do que tu, irmão!
Tu cavas na terra a semente da vida,
eu cavo na vida a semente da libertação.

Somos partes perdidas dum só
que a razão de ser das coisas
separou. Não sou mais poeta do que tu, irmão.
A mãe que te gerou a mim me gerou —
não foi ela quem nos trocou
as mãos, a voz do coração.

Abandona um pouco a charrua, arranca
da terra os olhos cansados, e limpa
o sujo da cara ao sujo das mãos — onde
os calos são um só e as rugas da morte
caminhos cobertos de pó.

E olha
na direcção do meu braço cansado, sem
músculos quadrados
nem merda nas unhas, mas que te aponta
o mundo onde as raízes do dia, a luta, o trabalho
reclamam suor
mas não te roubam o pão.
Arranca os olhos da terra, irmão!

8.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XVIII

 


-O problema é que depois do vosso casamento e desta semana em que o vi todos os dias, dei-me conta de que este Fernando, não tem nada a ver com o rapazito que foi criado connosco, como um irmão.

-É normal, tu cresceste, ele também. Hoje são um homem e uma mulher que foram amigos em criança, se afastaram e hoje se encontram de novo. Sei que o teu irmão e os teus pais gostariam de te ver casada com ele, mas eu penso que deves interrogar o teu coração e descobrir que sentimentos tens por ele.

 E se para isso precisas de conviver mais com ele, talvez que trabalhando juntos seja uma boa maneira de o descobrires. Que ele é doido por ti, todos sabem, até eu que só o conheci há pouco tempo. 

Todavia se descobrires que não há química entre vós, que continuas a amá-lo como um irmão, diz-lho e segue em frente. Um casamento sem amor é uma tragédia. A história de que um pode amar pelos dois, é muito bonito em canção, mas na vida real não existe. Sabes que apesar de nos conhecermos há pouco tempo gosto muito de ti e só quero que sejas tão feliz como eu.

 – Eu também gosto muito de ti e lamento sinceramente a partida do destino que fez com que não nos tenhamos conhecido antes, - olhou o relógio e acrescentou. Meu Deus estamos a conversar há tanto tempo, o teu marido deve estar furioso comigo por te monopolizar. Não devia tê-lo feito, afinal sei bem o que é uma lua-de-mel.

Levantaram-se e regressaram à sala. Ao vê-las aparecer, Gonçalo levantou-se e dirigiu-se-lhes:

-Já estava para vos ir chamar. Desculpa maninha, mas está a fazer-se tarde, viemos apenas vê-los e buscar a Matilde, vamos seguir para Coimbra, a Lena quer ir conhecer o seu novo sobrinho.

Despediram-se e saíram os três, enquanto Laura e os pais, ficavam no alpendre, até que o carro entrou na estrada principal e desapareceu entre o tráfego. No dia seguinte também os pais seguiriam para Braga, deixando-a sozinha com os filhos. Laura sentiu que ia sentir saudades da animação dos últimos dias.

-Filha, - disse dona Teresa ao ver que Laura se dirigia para a cozinha para iniciar o jantar. - Como partimos amanhã, o teu pai e eu pensámos que gostaríamos que tu e as crianças fossem jantar fora connosco. O que dizes.

- Por mim tudo bem, vou tratar das crianças, toar um duche e vestir-me.

- Vai cuidar de ti, - disse-lhe a mãe. A Sara já se sabe arranjar sozinha, eu dou banho ao Miguel e visto-o. Afinal tenho tão poucas oportunidades de o fazer.

Laura dirigiu-se ao quarto, enquanto a mãe pegava no neto ao colo, mas antes de se afastar em direção à casa de banho murmurou ao marido.

“Faz o que combinámos”

 

11.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE VIII



Laura ficou na porta vendo o carro afastar-se, perguntando-se mentalmente porque tinha acedido ao convite que Fernando fizera a si próprio. Fechou a porta agradecendo a Deus que os pais iam chegar daqui a pouco e passar com ela a semana. Assim não teria de voltar a aceitar a visita diária do jovem.

 Não sabia o que se passava com ela, mas não se sentia bem na sua presença, ficava sempre inquieta, como se de algum modo a presença dele a incomodasse. E não devia ser assim, Fernando era o melhor amigo de Gonçalo, quase um irmão e durante toda a sua infância e adolescência, os três estavam sempre juntos, ora na casa deles ora na do Fernando, pois eram vizinhos e os seus respetivos pais amigos de longa data. Mas depois ela foi para a Universidade, conhecera Quim e afastara-se não só do vizinho, mas até da própria família. 

Foi como se os dois tivessem criado um mundo mágico, onde só existiam eles. Mais tarde após o casamento, com a ida para Lisboa essa separação foi ainda mais real.

 Apesar de Fernando continuar a ser um grande amigo de Gonçalo, Laura só o via ocasionalmente quando ia visitar o irmão, já que Fernando foi um grande apoio para Gonçalo após o grave acidente de mota, que quase lhe roubara a vida e o obrigara a longos meses de internamento hospitalar. 

Depois que o irmão recuperou, nunca mais o viu, até à morte repentina do marido.

Aí quando ela julgou endoidecer de dor, Fernando por vontade própria, ou a pedido de Gonçalo, esteve sempre lá, tentando apoiá-la com todo o seu conhecimento e amizade.

Esse apoio manteve-se na altura do parto e nos primeiros meses de vida do Miguel.

Mas um dia ela agradecera-lhe todo o apoio recebido até aí, disse-lhe que estava bem melhor e que desejava ficar sozinha com os filhos. Depois disso Fernando afastara-se e só voltaram a ver-se depois que o irmão encontrara Helena e a filha e começara a preparar o casamento.

Laura, não se lembrava bem de quando descobrira que Fernando tinha por ela um sentimento que nada tinha a ver com a amizade. Não que até à véspera, ele tivesse dito alguma coisa, mas se há coisa que não escapa a uma mulher é o desejo refletido no olhar masculino.

 A princípio ficou sem saber como proceder, o coração ainda cheio da imagem de Quim e da dor da sua ausência. Aceitara a companhia e ajuda de Fernando, como aceitara do irmão, ou dos pais. Nunca lhe passara pela cabeça que o amigo de infância pudesse ter por ela outro afeto que não fora uma amizade profunda de quem foi criado junto, quase como uma irmã.

 Tinha receio de magoá-lo, mas não podia fingir que desconhecia o que acabara de descobrir.  Por isso lhe pedira que não voltasse e ele afastara-se sem sequer tentar contestá-la. 

Talvez por perceber que não tinha qualquer hipótese de que ela viesse a corresponder ao seu sentimento.


28.4.21

CRISTINA

 baseado numa história real.



A década de sessenta, rinha começado há pouco, quando Cristina nasceu. Era a primeira e viria a ser a única de um casal que já não era muito jovem para a época. Hoje os tempos são diferentes, as mulheres são mães mais tarde, mas naquele tempo, raramente uma mulher, era mãe do primeiro filho depois dos vinte e cinco anos. Pouco tempo depois do seu nascimento, o pai perdeu o emprego, e passaram por um tempo de crise, já que naquela época, um homem com trinta e cinco anos, já era velho demais para a maioria dos empregos.
Enfim conseguiu um emprego e a situação estabilizou, mas o medo do futuro roubou a Cristina a felicidade de ter um irmão.
A menina cresceu assim, com todos os zelos, mimos e confortos que sempre têm os filhos únicos, mas que não compensam a alegria do abraço de um irmão ou irmã, com quem nos podemos zangar, até brigar, mas com quem sempre acabamos por dar um abraço, partilhar uma brincadeira, ou um segredo.
Muito inteligente, foi crescendo, sempre com boas notas, mas com pouca vontade de estudar. Quando completou o Ensino Secundário, deu os estudos por terminados e entrou no mercado de trabalho. Era uma jovem muito bonita, alta, morena, com grandes olhos escuros e farta cabeleira levemente ondulada, (com o que sempre embirrou pois gostava dos cabelos lisos). Pretendentes não lhe faltavam, mas nunca se entusiasmou com nenhum, vá-se lá saber porquê.
Aos vinte anos Cristina tinha tudo para ser uma mulher feliz. Era bonita, tinha um bom emprego e acabara de comprar um carro. Casamento, filhos, tudo isso estava muito distante, ela tinha uma vida inteira pela frente, tudo viria a seu tempo. Pouco depois de completar vinte e um anos, Cristina adoeceu. Fraqueza muscular, infeção urinária, visão dupla. Recorreu ao médico, fez análises, tomou antibióticos, a infeção cedeu e pouco depois estava bem. Retomou a vida normal, transformou um amigo em namorado, não gostou da transformação, mandou o namorado passear, e foi vivendo o melhor que podia e sabia, dentro dos cânones normais para uma jovem da sua idade, naquela época, com uns pais conservadores.
Dois dias antes dos vinte e três anos, Cristina voltou a adoecer. Novamente a fraqueza muscular, também tremores de movimentos, diminuição da acuidade visual unilateral. Mais uma vez recorreu ao médico que depois de repetidas muitas análises lhe disse que não encontrava nada de anormal, que provavelmente seriam nervos e lhe receitou uns “calmantes fraquinhos”
Duas semanas depois estava bem, e tudo parecia ter voltado ao normal, embora ela notasse que tinha menos força nas pernas. Os anos foram passando, Cristina ia tendo crises cada vez mais frequentes e cada vez mais intensas. Andava de médico para médico, ninguém descobria o que se passava, até que as crises, que inicialmente eram muito espaçadas, começaram a surgir de dois em dois meses, e só passavam com tratamento hospitalar.
Quando naquele dia de Março de mil novecentos e noventa e três, Cristina foi a uma consulta de oftalmologia, estava de novo com visão dupla. Tinha vinte e oito anos e há muito tempo, deixara de ter uma vida normal. O médico depois de a observar, disse-lhe que ela não tinha nada que ele pudesse tratar, mas que ia mandá-la a um neurologista amigo dele, a quem escreveu uma carta que fechou e lhe entregou.
Cristina assim fez. O neurologista depois de ler a carta, fez-lhe imensas perguntas e por fim mandou-lhe fazer uma tomografia, e uma ressonância ao cérebro.
Por essa altura, Cristina namorava já há uns dois anos, e o namorado acompanhou-a a fazer os exames.
Pouco tempo depois, os resultados ficaram prontos e Cristina foi de novo ao neurologista. Este examinou-os atentamente e depois deu o veredito. Cristina sofria de uma doença autoimune, a Esclerose Múltipla. 
Ela, nada sabia da doença mas imaginou que não seria nada bom. Pediu esclarecimentos ao médico que lhe disse tudo o que ele próprio sabia. Se hoje não se sabe muito sobre esta e outras doenças autoimunes, imagine-se naquela época.
Cristina chegou a casa, fechou-se no quarto e chorou. Chorou como nunca tinha chorado na vida. Chorou pelos sonhos, que morreram nesse dia, pela incerteza do seu futuro, pela tristeza de seus pais.
No dia seguinte, decidida acabou o namoro. Disse que nunca seria capaz de aceitar o amor de uma pessoa, sabendo que mais cedo ou mais tarde, ia fazer essa pessoa sofrer. Que não queria correr o risco de pôr no mundo um filho, que não sabia se poderia criar. E não houve quem a demovesse dessa decisão.
Durante alguns anos, Cristina manteve o emprego. Depois a empresa faliu e claro que ela não conseguiu novo emprego. Foi reformada por deficiência com trinta e oito anos.
Hoje Cristina, continua a viver com os seus velhos pais. Sofreu muito, cada vez que surgia um novo surto. Há uns anos que com a mudança de medicação, deixou de ter surtos, mas a doença continua a evoluir, embora de forma mais lenta. Apesar disso é ainda uma mulher muito bonita, apesar dos seus quase sessenta anos. Vive um dia de cada vez, como costuma dizer. Sorri com facilidade apesar de todas as provações que a vida lhe deu. De todos os sonhos que não realizou, de todas as alegrias que não viveu.


Fim


elvira carvalho


Nota: 
Em Portugal surgem 300 novos casos de EM por ano.
Na esclerose múltipla, o sistema imunológico do paciente provoca danos ou a destruição da mielina, uma substância que envolve e protege as fibras nervosas do cérebro, da medula espinal e do nervo ótico. Quando isso acontece, são formadas áreas de cicatrização (ou escleroses) e aparecem diferentes sintomas sensitivos, motores e psicológicos, que vão desde dormência nos membros até paralisia ou perda da visão.

Fui chamada para a vacina ontem, mas não ma deram.  Porque como já fiz um choque anafilático, disseram-me que só me dão a vacina com uma declaração por escrito do meu alergologista, em como a posso levar.

Para terminar o dia à beira de um ataque de nervos, uma cena de violência doméstica no terceira andar , que pareciam querer deitar o prédio abaixo e que obrigou à intervenção da polícia. Nem sei se vou conseguir dormir.

26.10.20

CILADAS DA VIDA -PARTE L




Nessa mesma tarde, com a preciosa e eficiente ajuda da Olga, João pode respirar de alívio. Teresa estivera na consulta, acompanhada da enfermeira Sandra, fizera análises, onde fora detetado um princípio de anemia, mas viera para casa depois da doutora Laura Aguilar se ter convencido que a doente teria o apoio constante de uma enfermeira que a faria seguir à risca, tudo o que ela lhe prescrevera. Ainda assim queria voltar a vê-la dentro de dez dias.

Olga conseguira não uma, mas três enfermeiras. Uma ficaria na empresa, a outra substituiria Sandra durante as noites, e a terceira faria as folgas das outras duas.

Dividira o quarto com dois biombos e mandara instalar uma cama, uma cadeira e uma pequena mesa, de modo a que a enfermeira pudesse descansar perto de Teresa sem, contudo, perderem a privacidade.

Também mandou retirar toda a roupa do patrão para outro quarto e se encarregara de comprar ela mesma todos os ingredientes necessários para as refeições de Teresa, que Sandra confecionaria nos próximos dias.

Apesar da sua vida ter dado uma grande volta com os acontecimentos das últimas quarenta e oito horas, João pensava que tinha razões para se sentir feliz. Ele que sempre se sentira solitário, ganhara um irmão, com quem lhe parecera fácil desenvolver um clima de amizade fraternal e tinha Teresa, onde sonhara tê-la, desde o primeiro momento que a vira e soubera que ela tinha dentro de si o seu filho. Na sua casa. E para mais em vez de um filho ia ter três, de uma só vez. Iriam ser uma família, ele tinha a certeza, embora não soubesse ainda como convencer Teresa, de que o lugar dela, era a seu lado, criando os filhos dos dois.

Acabou o jantar, e foi ao quarto saber como ela estava. Cruzou-se com a nova enfermeira que levava o tabuleiro em que servira o jantar para a cozinha. Disse-lhe:

-Tem o seu jantar no forno. Pode jantar sossegada, enquanto isso eu faço companhia à dona Teresa.

- Como te sentes? – perguntou sentando-se na beira do leito.

- Estou bem. Com os comprimidos do enjoo, quase não tenho náuseas, mas preocupa-me toda a confusão que estou a causar na tua vida. Achas mesmo necessário uma enfermeira durante a noite? Vai estar quase sempre a dormir.!

- Acho. Imagina que vais à casa de banho e tens uma tontura? A Sandra comprou uma arrastadeira quando foi aviar o ácido fólico. A enfermeira poderá pôr-te a arrastadeira durante a noite, como fazem nos hospitais. Promete-me que não te levantarás sem que seja absolutamente necessário, e sem que ela esteja contigo.

- Se achas necessário prometo. Embora ainda pense que não era necessário.

-Tens que te cuidar.  Não só pelos bebés mas também por ti. A vida dessas crianças é muito importante, mas não podem importar mais do que a tua. Acredita, nenhuma criança é feliz, crescendo sem mãe.

Havia tal amargura nas suas palavras, que Teresa teve a certeza de que ele se referia a si próprio.

Tentando desviar a conversa disse:

- Tens uma excelente assistente.

- Olga, está comigo desde que comecei a minha atividade, num velho armazém sem quaisquer condições. É muito mais que uma assistente, é o meu braço direito. Somos quase irmãos, já que nos primeiros anos da minha vida, foi a sua mãe quem me criou. De modo que tenho a certeza, ela já te estima por saber que estás a gerar os meus filhos e tenho a certeza, será de grande ajuda para ti se lhe deres hipótese.

- Já tinha reparado que havia uma grande ligação entre os dois.

- E o que achaste das enfermeiras?  A Sandra trabalha connosco há quatro anos, sei que é uma profissional competente. A Gabriela e a Rosa, espero que sejam igualmente boas profissionais pelo menos têm bons currículos, mas és tu quem vai avaliá-las. Qualquer coisa que não te agrade, dizes-me. Quero que te sintas o mais confortável possível, para que em breve deixes de estar nessa situação de risco. Pelos bebés e por ti, - disse acariciando a mão que repousava sobre a colcha.

- Porque puseste uma enfermeira nova no lugar da Sandra em vez de vir para aqui? Porque durante a maior parte do dia eu estarei lá em baixo a trabalhar, e sentir-me-ei muito mais descansado tendo aqui uma profissional que trabalha para mim há anos, e em quem tenho plena confiança. De noite é diferente, porque estarei no quarto ao lado disponível para qualquer eventualidade.

Nesse momento a enfermeira Gabriela regressou do jantar e João despediu-se desejando uma boa noite e saiu deixando atrás de si, uma Teresa preocupada com a sensação que uma simples carícia na mão lhe provocara. Decididamente as suas hormonas estavam doidas...

22.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXIX


- Estou…
- Menina Laura?
- Sim. Aconteceu alguma coisa, Celeste? – perguntou ao reconhecer a voz da governanta do seu irmão.
- Não sabemos, menina. O senhor telefonou ontem, pouco depois das dez da noite, a perguntar como estava a filha, disse que estava a caminho, mas até agora não apareceu, nem voltou a ligar. Estamos muito preocupadas, tanto mais que a menina Mariana se mostra muito nervosa esta manhã. Talvez estranhe a ausência do pai.
Laura olhou o relógio. Faltava um quarto para o meio dia. Ficou preocupada. O seu irmão não estaria tantas horas sem telefonar para casa.
- Obrigada por ter ligado, Celeste. Vou ver se entro em contacto com ele. Com esta tempestade, deve ter parado em algum hotel para dormir – disse sem grande convicção, tentando acalmar as empregadas.
 De seguida, marcou o número do telemóvel do irmão, que tocou durante muito tempo, sem que ninguém atendesse.
“Acalma-te, pode estar no banho, não ouvir o telemóvel” - murmurou para si mesma. Esperou cinco minutos e voltou a ligar com o mesmo resultado.  Cada vez mais nervosa, ligou para a loja do seu irmão Marco. Foi Isabel, a cunhada quem atendeu a chamada.
- Isabel, o Marco está aí? – perguntou. Preciso falar com ele.
- Está no armazém. Espera um momento que vou chamá-lo.
Pouco depois, Marco atendia a chamada.
- Estou…
-Marco sabes alguma coisa do Gil?
-Não porquê? Aconteceu alguma coisa? – perguntou em sobressalto.
-A verdade é que não sabemos. Sabias que ele ia estar ontem na Universidade do Minho, não é verdade?
- Sim, disse-me no domingo quando foi almoçar lá a casa.
- Recebi um telefonema da Celeste muito preocupada. Ele telefonou ontem à noite,depois das dez horas,  para saber como estava a Mariana e disse que estava a caminho. Não chegou, nem voltou a dar notícias, e não atende o telefone. Estou em pânico.
- Meu Deus, Estás em casa? Sim? Vou já para aí. Telefona ao Alcides, vê se ele pode ajudar-nos.
Laura, telefonou ao noivo, e contou-lhe o que se passava. Ele disse que estaria em sua casa dentro de dez minutos, e ela desligou o telemóvel e deixou-se cair no sofá em soluços. Tinha a certeza de que alguma coisa de muito grave tinha acontecido ao irmão. Gil era o homem mais responsável que ela conhecera em toda a vida, adorava a filha e mesmo quando viajava para o estrangeiro, estava sempre em contacto e fazia chamadas de vídeo para ver e falar com a filha.
Minutos depois a campainha tocava. Foi abrir. Era Marco. Abraçou-a carinhosamente e entrou. Ela ia fechar a porta quando Alcides saiu do elevador. Deu-lhe um beijo e entrou em casa. Cumprimentou o futuro cunhado e os três dirigiram-se à sala.
Laura, repetiu palavra por palavra, o que Celeste lhe dissera. Enquanto a ouvia, Marco marcava o número do irmão que chamou imenso tempo até ouvir a mensagem do gravador. Uns minutos depois voltava a ligar e ouviu de imediato a gravação de que o número não estava disponível. Repetiu a chamada e aconteceu o mesmo.


17.12.19

CONTOS DE NATAL - NÃO SOU AVARENTA ... ESTOU APENAS FALIDA




Dizem que não é possível ter muitos amigos. Contudo, com o Natal a uma semana de distância, ainda faltavam cinco pessoas da minha lista de presentes e só tinha três dólares. Como dizer à nossa mãe, irmão e três amigas que só podemos gastar sessenta cêntimos com cada um deles?


— Vamos estabelecer um limite de preço para as nossas prendas este ano — sugeri à minha melhor amiga, Joanie.
— É uma boa ideia — concordou a Joanie. — Que tal nada acima de cinco dólares?
— E que tal nada acima de sessenta cêntimos? — sugeri, sentindo-me a pessoa mais avarenta do mundo.
— Aposto que é aqui que eu devo dizer que não é a prenda, mas sim a intenção que conta — sorriu a Joanie, logo acrescentando:
— Mas depois não te queixes se só receberes uma barra de pastilha elástica!

É quase impossível comprar alguma coisa por menos de sessenta cêntimos, portanto iriam ter mesmo que ser prendinhas muito pequenas com intenções muito grandes. Nunca, na vida, tinha gasto tanto tempo ou esforço tentando arranjar a prenda certa para a pessoa certa.

Finalmente o dia de Natal chegou, e eu continuava preocupada com o que as pessoas iriam sentir ao receber as minhas prendas “baratuchas”.
Dei à minha mãe uma vela aromática com um cartãozinho que dizia, “És a luz mais brilhante da minha vida.” Ela quase chorou ao ler o cartão.

Dei ao meu irmão uma régua de madeira, na qual tinha pintado, “Nenhum outro irmão no mundo pode medir-se contigo.” Ele deu-me um pacote de açúcar onde tinha escrito, “És doce.” Nunca antes me tinha dito algo semelhante.

Para a Joanie, pintei um velho par de sapatos de dourado e meti-lhes dentro flores secas com um cartão que dizia, “Ninguém chega aos teus calcanhares.” Ela deu-me uma pena e um penso para curativos. Explicou que eu estava sempre a fazê-la rir até lhe doer a barriga, como se estivesse com um ataque de cócegas.
Quanto às minhas duas outras amigas, a uma dei um leque de papel e escrevi nele, “Sou a fã número um do teu leque de amigos” e à outra dei uma calculadora que custou um dólar. Na parte de trás da calculadora, pintei “Podes sempre contar comigo.” Elas deram-me uma ferradura enferrujada para me dar sorte e um molho de paus unidos por uma fita vermelha, porque “Os amigos mantêm-se unidos.”
Não me lembro dos outros presentes que recebi no Natal passado, mas lembro-me de cada um dos presentes “baratinhos”.

O meu irmão pensa que sou doce. A minha mãe sabe que é a pessoa mais importante da minha vida. A Joanie pensa que sou divertida e faço-a rir. O que é importante, porque o pai dela saiu de casa no ano passado e ela tem saudades dele, e por vezes fica triste.

Estava preocupada por não ter dinheiro suficiente para os presentes de Natal, mas dei prendas a cinco pessoas e ainda me tinham sobrado dez cêntimos. Ainda agora falamos nas nossas prendas “baratinhas” e de como foi divertido aparecer com presentes que custaram alguns cêntimos, mas diziam às pessoas o que realmente sentíamos por elas. Na minha estante, ainda conservo o pacote de açúcar, uma pena, uma ferradura e um molhinho de paus… e eles têm um valor incalculável.

Storm Stafford


15.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XIV






Duas semanas depois, os médicos decidiram que era chegada a hora de fazerem Mariana nascer.  Estava com trinta e duas semanas, tinha boas hipóteses de sobreviver sem qualquer sequela, e a situação no útero da mãe começava a tornar-se mais complicada à medida que a situação materna se ia deteriorando.
Gil fora avisado de véspera e por isso logo de manhã, dirigiu-se ao hospital com a mala de roupa que preparara com a ajuda da Celeste, pois a falar verdade não tinha a noção do que devia escolher entre a quantidade de roupinhas que enchiam as gavetas da cómoda, no quarto que seria o da filha.
No hospital, foi-lhe dada autorização para assistir à cesariana, e para isso teve de se despir e vestir a bata esterilizada bem como a touca e sapatos cirúrgicos que a enfermeira lhe deu.
E foi com enorme emoção e algum receio que segurou a filha quando uma enfermeira lhe desapertou a bata e lhe encostou o recém-nascido e minúsculo corpo da menina ao seu próprio peito nu. Nada nem ninguém podia ter preparado Gil para a intensa emoção que acelerou os seus batimentos cardíacos, e lhe pôs um nó na garganta que lhe impediu qualquer palavra. Limitou-se a segurá-la com carinho, e a tentar fazer-lhe sentir toda a força do seu amor, através do bater acelerado do seu coração.
Como se isso a tornasse mais forte e mais apta a sobreviver. Mas logo a enfermeira a levou, para a pesar, vestir, ser vista pelo médico e levada para a incubadora, até que lhe fosse dada alta.
 Mil anos que ele vivesse, jamais esqueceria a emoção que sentira no momento em que pegou na filha recém-nascida ao colo e sentiu o frágil bater do seu pequeno coração
Pouco depois, uma enfermeira fê-lo sair do bloco de partos, enquanto o informava que as máquinas que mantiveram Sara artificialmente viva, iam ser desligadas. O médico iria passar a certidão de óbito, e ele poderia iniciar com a agência funerária os trâmites para o funeral.
Um pouco mais tarde, já vestido abraçava o irmão, que chegara ao hospital, no momento em que ele ia para o bloco operatório, e aguardara na sala de espera, por notícias.
- Foi emocionante, Marco – disse Gil respondendo à muda interrogação dos olhos do irmão. – Segurar nos braços aquele pedacinho de carne, sentir o seu coraçãozinho bater no meu peito, nem consigo descrever o que senti.
- Ela está bem de saúde? E o que vai acontecer agora? – perguntou o irmão.
-É muito pequenina, mas fisicamente é perfeita e tem bons pulmões. Se visses como chorou enquanto a limpavam. Agora vai ser examinada por um pediatra e levada para a incubadora.
Uma enfermeira virá avisar quando a Mariana esteja na incubadora. Vais comigo, vê-la?
-Posso?
- Segundo me informaram, só  vamos vê-la através de um vidro. O médico acabou de me informar que vão desligar as máquinas que mantinham a Sara em vida artificial. Tenho que telefonar ao pai dela, e saber se a família vem 
despedir-se dela, e se assim for, conseguir passagens de avião para eles.
- Vamos tratar de tudo juntos, não te preocupes. Enquanto telefonas para o teu sogro eu vou ligar para a Laura. 








13.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XIII



Gil entrou na loja e dirigiu-se ao escritório, onde já encontrou o irmão, passeando de um lado para o outro com evidente nervosismo.
- Bom dia, Marco. Pareces preocupado.
-Bom dia mano. Estou nervoso. E se a Isabel não está minimamente interessada em mim?
Gil olhou o irmão com estranheza. Não estava habituado a vê-lo tão inseguro, fosse qual fosse a questão. Caramba, ele tinha trinta e dois anos e nessa idade, um homem sabe muito bem conhecer os sinais que uma mulher lhe dá. E ele tinha-lhe dito que tinha a certeza de que a jovem gostava dele, só não confiava nas suas intenções. Com todo aquele nervosismo, devia estar mesmo muito apaixonado.
Pôs a mão sobre o seu ombro num gesto de carinho, tentando acalmá-lo.
- Calma, se estás assim hoje, não quero ver-te no dia do casamento – disse sorrindo. Depois olhou o relógio e acrescentou:
- Dez horas. Estão a entrar. Não tarda estão a bater a esta porta. É melhor que nos sentemos.
- Senta-te tu. Eu não consigo, - retorquiu uns segundos antes de Isabel bater na porta para a abrir de seguida.
As três mulheres entraram na sala com o semblante carregado, preocupadas com aquela reunião repentina, e mais preocupadas ficaram com a presença de Gil. As três sabiam que raramente ele ia à firma, mesmo antes da tragédia que se abatera sobre a sua vida. E naquela semana era a segunda vez…
-Sentem-se – disse Gil. Chamámos-vos aqui para lhes dar conhecimento de algumas decisões que tomámos. Porque é o vosso local de trabalho, achamos que devem saber o que se passa. 
As três entreolharam-se preocupadas. Será que a empresa ia fechar? Iriam perder os seus empregos? Sem lhes dar tempo a grandes preocupações, Gil continuou:
-A partir de hoje, vou deixar de ser um dos sócios desta firma. Ela será pertença exclusiva do Marco, estamos à espera do doutor Alcides para assinar os documentos, mas a vossa situação na empresa não corre qualquer perigo. Da minha parte, quero agradecer-vos o grande empenho e rigor com que sempre desempenharam o vosso lugar. Dir-vos-ia que podiam ir abrir as portas, mas antes o Marco tem uma declaração a fazer e quer que sejamos todos testemunhas. Marco é contigo.
- Bom, sei que o que vou fazer,- disse aproximando-se do irmão, sem contudo se sentar -  pode não parecer muito ético, para este local, mas as circunstâncias a isso me obrigam. Teresa e Raquel, vocês são mulheres inteligentes, devem ter percebido como estou apaixonado pela Isabel. Mas também devem ter conversado entre vós e sabem que ela não acredita, que eu tenha intenções sérias a seu respeito. Pois bem Isabel, - disse aproximando-se e agarrando a mão da jovem – que vermelha de vergonha não sabia onde se meter – neste momento, reitero tudo o que te disse em particular, e perante estas testemunhas te suplico, que me dês a honra de casar comigo e juro fazer da tua felicidade o grande objetivo da minha vida.
Finalmente a jovem levantou o olhar brilhante pelas lágrimas e prendeu-o nos olhos masculinos, com uma resposta muda, mas plena de amor, que Marco entendeu perfeitamente.
- Então Isabel – disse Gil levantando-se. Posso ou não dar-vos um abraço e desejar-vos felicidades?
- Claro que sim, - disse o irmão desviando o olhar e sorrindo feliz. - Mas espera um pouco, ainda não acabei.
Meteu a mão no bolso, e tirando a caixinha com o anel, meteu-lho no dedo, e de seguida puxou-a para si, abraçou-a e beijou-a.
Ouviram-se palmas e depois Gil, Raquel e Teresa abraçaram os noivos.
Uns minutos mais tarde, Gil disse:
-Agora vão abrir a porta e voltem ao vosso trabalho. E hoje vão as três almoçar connosco. É a minha despedida.


4.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE IX








Estacionou o carro no único lugar vago perto da empresa, e dirigiu-se para a mesma.
Olhou o relógio antes de entrar na loja. Ainda faltava meia-hora para a abertura das portas ao público, embora ele soubesse que o seu irmão e as funcionárias já se encontravam lá dentro. Abriu a porta, entrou e voltou a fechá-la atrás de si.
Bons dias, - saudou.
Bons dias, - responderam as três pessoas que se encontravam
na loja nesse momento. O seu irmão e as duas empregadas que se afadigavam a marcar peças e a coloca-las nas prateleiras.
- Marco podes vir comigo ao escritório, ou ainda falta muito para acabarem?
- O que falta, não demora mais de cinco minutos, a Teresa e a Raquel acabam – respondeu o irmão largando a peça que tinha nas mãos, e seguindo-o. 
Uma vez no escritório, Marco colocou uma mão sobre o ombro do irmão ao mesmo tempo que perguntava:
-Há alguma novidade do hospital?
- Não. Se houver serei informado na hora, e ninguém me telefonou. Vem, vamos sentar-nos tenho que conversar contigo antes que o doutor Alcides chegue, -disse Gil sentando-se atrás da secretária e indicando ao irmão a cadeira ao seu lado.
- É assunto sério? – perguntou o irmão.
- É, se não fores capaz de levar a empresa com sucesso sozinho. Vou passar os meus sessenta por cento para ti. Uma prenda de aniversário, um pouco atrasada, mas ainda no mesmo mês.
- Mas isso representa muitos milhares de euros. Não posso aceitar, até porque na prática a empresa é tua, já que foi com dinheiro que me deste que a iniciei, e toda a sua expansão foi feita sempre exclusivamente por ti.
-E de que me serve o dinheiro, se não for para tornar felizes as pessoas que amo? Daqui a pouco quando chegar o advogado, vou tratar desse assunto e em breve, tudo passará para ti. Provavelmente terás que procurar um bom gestor, para te ajudar, principalmente se concretizares o projeto da nova loja em Faro. Bem sei que o gerente que temos no Porto é uma pessoa séria e competente, mas de qualquer modo não te poderás desligar completamente do seu funcionamento.Já conheces o ditado. "É o olho do dono que engorda o burro" O dr. Alcides, pode aconselhar-te na escolha. Ele tem bons conhecimentos, saberá decerto de algum bom gestor, que possas contratar.
- E a Laura? - perguntou o irmão
- O que é que tem a Laura? – admirou-se Gil
- Não vai ficar magoada em saber que passaste tudo para mim e a deixaste de fora?
- A Laura teve a Universidade paga assim como a sua especialização em Nova Iorque. Quando voltar a Portugal, vou montar-lhe a clínica dos seus sonhos. Não tem nada a ver com as lojas de desporto. É uma neurologista, lembras-te?
- Bom, só não queria mau ambiente entre nós, por causa dessa doação.
- Nunca haverá mau entendimento entre nós, Marco. Passamos por muitas dificuldades juntos e isso uniu-nos mais do que o sangue que nos corre nas veias.




28.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE VII





Fosse qual fosse o desfecho da tragédia que  Gil vivia no momento, ele  tinha tomado algumas decisões que iria pôr em prática a partir do dia seguinte.
Quando deixou o futebol, e embora se tivesse associado ao irmão, nunca pensou que o seu futuro passasse pelo empresariado, fizera-o apenas para fazer progredir o negócio, e a verdade é que o conseguiu, pois, três anos depois abriram uma filial no Porto e ultimamente já estudavam a hipótese de abrir outra em Faro. De facto, ele ia pouco à firma, dedicando-se de alma e coração ao curso que terminara à pouco, e à escrita. Era Marco quem a geria e a fazia crescer, embora nunca o tivesse conseguido se ele não se tivesse tornado sócio e não tivesse injetado na firma, uma boa quantia monetária.   
Agora ele ia doar os seus sessenta por cento da empresa ao irmão, de modo a torná-lo completamente independente. Por outro lado, esperava montar uma boa clínica à sua irmã, que se formara em medicina e que estava de momento a terminar a especialização em neurologia em Nova Iorque. Depois com as suas vidas estabilizadas, ele podia dedicar-se por completo, à escrita, e à sua filha, se Deus permitisse que ela chegasse a nascer. Teria que contratar uma boa ama para lhe ajudar com a menina, pois nada sabia de como cuidar de um bebé.
Pouco jantou. Estava física e emocionalmente cansado. E no dia seguinte teria uma reunião com o irmão e o advogado, a fim de iniciar o processo de doação das suas ações. Mais tarde, teria que entrar em contato com a agência de emprego a fim de lhe enviarem algumas amas. Teria que fazer várias entrevistas, a vida da filha era demasiado preciosa para a colocar nas mãos de uma ama mal qualificada. Calculava que tivesse algum tempo, embora a bebé pudesse nascer a qualquer momento se surgisse algum problema na mãe, que pudesse por em risco a sua vida. Todavia ainda assim ela teria que estar algum tempo na incubadora. Nem por um momento queria pensar, que a bebé poderia morrer antes de ver a luz do dia. A filha era uma guerreira ia nascer saudável, apesar do corpo que a estava a gerar estar apenas artificialmente vivo.
 Todavia como passava as tardes no hospital, ficava apenas com as manhãs para tratar dessas entrevistas.
Fazia-lhe tanta falta a irmã. Decerto ela seria não só um grande apoio moral, como uma ajuda nos primeiros meses de vida da sua filha. Apesar de já lhe faltar pouco mais de  um mês para o regresso, não podia pedir-lhe que interrompesse a sua vida e os seus sonhos por sua causa.
Abrira o portátil e como todos os dias, durante mais de uma hora pesquisou sobre bebés prematuros. Depois desligou-o e dirigiu-se ao quarto no piso superior.  Preparando-se para dormir, foi à casa de banho,  escovou os dentes, despiu-se e vestiu o pijama. Voltou ao quarto e deitou-se. Porém a madrugava já se aproximava quando conseguiu adormecer.

3.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXII





- Olha só quem voltou. Vai buscar um pedaço de broa e um naco de presunto  que o Pedro deve estar com fome. E o almoço ainda demora muito?
E voltando-se de novo para o sobrinho. 
- Mas afinal porque voltaste? E porque é que a tua mãe não me avisou que vinhas? -voltou a perguntar andando nervosa à sua volta.
Pedro colocou o braço à volta dos ombros da tia e disse:
- Acalme-se tia. Vamos entrar que já lhe conto tudo.
Entraram e depois que a empregada se dirigiu à cozinha,  o jovem começou a contar tudo o que se passara consigo nos últimos meses, à tia que o escutava com o maior interesse. Quando terminou a senhora disse:
-Como deves ter sofrido, rapaz. Graças a Deus não contaste nada à tua mãe. Nem sei se ela resistiria à ideia de que ia ficar sem ti. Lembro-me bem como ela  ficou quando morreu o meu irmão. Muitas vezes pensei que se não fosses tu, ela teria ido atrás dele. Mas e agora? Como vais encontrar a rapariga? Devias ter sido sincero com ela.
- Ainda tenho a esperança de que o outro empregado tenha algum recado. Afinal era ele que estava na portaria quando a Rita partiu. Mas ele só entra às quatro. Agora se não se importa vou ligar à mãe. Já deve estar já em cuidado.
Quando terminou o telefonema, a empregada anunciava que o almoço estava pronto e dirigiram-se para a mesa.
Depois do almoço o jovem informou que ia dar uma volta pelas margens do rio, depois ia ao hotel e seguiria nesse mesmo dia para casa, pelo que se despedia já das duas. A tia insistiu para passar por lá antes da partida, a empregada ia arranjar-lhe um farnel para a viagem, porém o jovem recusou e  agradecendo a gentileza despediu-se das duas, prometendo dar notícias à tia quando tivesse novidades.
- E convida-me para o casório, se tudo correr bem,  - disse-lhe a tia quando ele já ultrapassava o portão.
- Claro - respondeu acenando num último adeus.
Pouco depois embrenhava-se no parque junto ao rio, recordando cada dia, cada gesto,  cada palavra trocada com Rita nos passeios que por ali fizeram.



E hoje dia 3 volto a ir à consulta a Santa Maria. Já tenho os exames quase todos feitos, falta-me só um que está marcado para dia 11. Vamos ver o que me diz o médico. Estou tão saturada disto. E  porque estamos em Outubro, uma lembrança para todas as minhas amigas...