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6.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XV


O cheiro a café acabado de fazer, acordou Helena. Ficou uns momentos em silêncio, tentando situar-se no dia exato, como quando alguém acorda antes de tempo. Ouviu a voz do filho. A empregada já teria chegado? Não. Era domingo ela tinha o dia livre. 

Logo de seguida ouviu a voz de Fernando. Saltou da cama, e olhou o relógio. Nove horas? Como era possível que tivesse dormido tanto? Vestiu o robe, e foi à casa de banho. Lavou a cara, os dentes, escovou o cabelo, e dirigiu-se à cozinha. 

Sentado à mesa com uma taça de cereais na frente, Diogo, tagarelava com Fernando enquanto ia comendo. Ele escutava a criança com ar divertido, tendo na sua frente um prato vazio e na mão, uma chávena de café. O cabelo húmido e a roupa da véspera, mostravam que já tinha tomado banho.

- Bom dia.
- Bom dia, - responderam em coro. Logo, Fernando  pôs-se de pé e disse:
-Senta-te. Faço-te já umas torradas. O Diogo queria ir acordar-te, mas consegui convencê-lo a ficar comigo. Bebes café, leite, ou as duas coisas?

- Por favor, Fernando, eu trato do meu pequeno-almoço.
- Porquê? Achas que não sei fazer torradas? Devias ter provado uma das que acabei de comer. Deliciosas. Vá lá, senta-te e desfruta das minhas capacidades de cozinheiro. Mas ainda não me respondeste. Café ou leite?
- Café, por favor.
- Mamã, vamos passear hoje? – Interrogou o menino.
-Se comeres tudo, vamos às compras ao Centro Comercial.
- Já estou a acabar. E olha que o tio Fernando, encheu-me a taça. Tu nunca a enches tanto.
- Estás a crescer, campeão. Precisas comer bem, - disse enquanto colocava um prato com duas torradas na frente dela, bem como o recipiente da manteiga e a faca. Virou-se para apanhar a chávena com o café, e por fim sentou-se.

A criança acabou de comer e saiu da mesa. Foi junto dele e perguntou:
- Queres brincar comigo?
Ele estendeu a mão e acariciou-lhe a cabeça. Mas Helena reparou que estava distante.
- Não é a esta hora, que dá aqueles desenhos animados de que gostas tanto, Diogo?
- Vou ver mamã, - disse correndo para a sala, a fim de ligar a televisão.


11.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE V





Chegou a casa já bastante tarde, cansada de carregar ao colo o filho adormecido. E no dia seguinte estava de banco, pelo que não se adivinhava um dia nada fácil. Acordou muito cedo, depois de uma noite de sobressalto em que dormiu pouco e mal.
A mãe telefonou logo pela manhã. Ela tinha ficado de ligar quando chegasse a casa, e com toda a confusão da viagem e no hospital, esquecera completamente, o que fez com que a mãe tivesse passado a noite insone com a preocupação.
Quando a empregada chegou, ela já tinha o filho levantado a tomar o pequeno-almoço, para ir para a creche.
O dia decorreu lento e atribulado, com três urgências. Quase ao fim do dia recebeu uma chamada para se apresentar na esquadra, a fim de assinar o boletim de ocorrência que o polícia em serviço no hospital fizera no dia anterior.
E ainda queria passar no outro hospital para ver o sinistrado, ou pelo menos saber como ele estava.
Teve que telefonar à empregada, a avisar que chegaria mais tarde, e pedir para ela ficar um pouco mais com o filho.
Na esquadra assinou o documento, e tentou saber alguma coisa mais sobre o acidente, mas segundo o agente a polícia estava a investigar, mas enquanto o homem não estivesse capaz de fazer declarações, era difícil saber o que se passara, já que como ela e os bombeiros declararam,  no local não foram encontrados,  nenhum sinal de acidente, nem nenhum veículo, e o sinistrado não tinha absolutamente nada nos bolsos. Era quase como se ele tivesse sido "despejado" naquele local, para morrer.
Depois foi ao hospital, falou com a doutora Sandra, a chefe da equipa que atendera a vitima,  soube que a cirurgia de remoção do baço, que lhe estava a provocar a hemorragia interna, correra bem, mas o doente era um politraumatizado, a nível das costelas, do rim, do fémur e da cabeça, e ainda estava em coma. 
Pediu à colega para a manter ao corrente do seu estado e a avisar quando ele recuperasse a consciência.
Tinha pensado ir vê-lo mas à última hora decidiu deixar para quando ele estivesse consciente. Já era tarde e a empregada devia estar desejando que ela chegasse.


Nota: Estas publicações estavam agendadas,  e como tal vão continuar a sair. Esta nota serve para informar que passei o dia em repouso e que a tensão se manteve estável, e que amanhã dia 11 vou tentar marcar a consulta que o médico mandou. Logo que possível volto, aos vossos cantinhos. Sinto saudades vossas.






16.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XX

 


Gonçalo quase não dormira naquela noite. Levantou cedo, tomou banho vestiu umas calças de ganga e uma camisa branca e saiu. Parou no quiosque e comprou o jornal do dia, dirigindo-se em seguida para o café-pastelaria do bairro, onde diariamente tomava o pequeno-almoço.

-Bom dia, António, - saudou ao entrar no estabelecimento quase vazio aquela hora, porque era sábado. Aos outros dias começava a encher a partir das seis da manhã.

- Bom dia doutor – respondeu o jovem por trás do balcão.

Sentou--se numa mesa perto do balcão, e abriu o jornal, a fim de se pôr a par das notícias do dia.

--Bom dia, doutor. Então o que vai ser hoje?

Levantou os olhos do jornal e fixou-os na jovem grávida à sua frente. Tinha um ar cansado.

-Bom dia, Idália. Está com um ar cansado. Deve estar quase no fim do tempo, não devia levar tantas horas de pé. Não é bom para si nem para o bebé.

- Eu sei, doutor. Mas o António sozinho não consegue fazer tudo e de momento não podemos manter uma empregada. Precisamos pagar logo a hipoteca ao banco.

Gonçalo, olhou a jovem com pena. Com uma gravidez quase no fim do tempo, devia ser muito difícil para ela continuar a atender os clientes, praticamente todo o dia de pé, com os dias de calor fora de época que se tinham instalado há quase uma semana.

-Traga—me então o mesmo de sempre.

Ela afastou-se e ele ficou a pensar como podia ajudar os dois jovens, sem que eles se sentissem humilhados. Desde que viera para Lisboa que habitualmente tomava ali o dejejum antes de ir para o hospital.

Gostava do casal, eram educados e trabalhadores e de algum modo gostaria de ajudá-los, mas ainda não lhe ocorrera uma maneira de o fazer. Talvez se falasse com a irmã ela tivesse uma ideia. Era isso. No dia seguinte, falaria com a irmã. Desde que ela enviuvara e desde que ele não estivesse de serviço no hospital, sempre passava os domingos com a irmã. Enquanto pensava numa possível solução, Idália voltou e colocou na sua frente a sandes mista e o copo de café com leite que constituíam o seu habitual pequeno almoço.

Agradeceu à jovem, enquanto dobrava o jornal e o colocava de lado para iniciar a refeição.  Olhou o relógio. Oito horas e trinta e cinco. Era cedo ainda. Ele não chegaria ao hospital antes das dez, pois sabia que as manhãs eram complicadas para as enfermeiras e auxiliares com a higiene dos doentes, os pequenos almoços, as trocas de roupas de cama e limpeza do espaço.

Antes das dez e meia, ele não poderia ter um bocadinho de tempo com a menina. E ele queria vê-la, conversar um pouco com ela, embora não soubesse muito bem o que esperaria encontrar nessa visita.

Contrariamente ao que o amigo lhe aconselhara na véspera, não iria fazer qualquer recolha de saliva ou mesmo procurar algum cabelo caído na almofada para pedir um exame de ADN. Apesar de não lhe ter passado pela cabeça que a criança fosse sua filha até que Fernando o tivesse dito, agora essa possibilidade não lhe saía da cabeça. Mas apesar disso ele não era capaz de pedir um exame de ADN sem falar com a mãe dela primeiro.

 

16.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXII

 



E chegou a véspera de Natal. Estavam na casa dos tios de Quim. Sofia e a tia Délia estavam na sala, os homens na cozinha preparando as iguarias para a ceia. A empregada, punha a mesa. Desde que adoecera, Sofia não voltara aquela casa, e preocupou-se com o ar da tia Délia. Estava cada vez mais débil. Mas continuava conversadora e simpática.

- Pareces muito bem, para quem esteve tão doente. É uma vantagem da juventude. A recuperação é sempre fácil e total. E como vai o teu casamento? O Quim tem-se portado bem contigo?
Sem saber bem o que a velha senhora queria dizer, e não querendo falar da sua vida intima, apressou-se a responder.

- Ó sim. Vai tudo muito bem.
- Folgo em saber isso, minha filha. Confesso que já senti remorsos da forma como o obrigamos a casar. Mas ele andava todo enrabichado com aquela serigaita da Joana e se não tomássemos uma atitude, acabava por fazer uma asneira que lhe ia dar cabo da vida.

Era a primeira vez que a senhora falava do assunto. Fez de conta que não sabia de nada. A senhora continuou:
- Sabes que já depois de casado ela ainda o andava a rondar? Apareceu algumas vezes no restaurante. E pedia sempre para cumprimentar o chefe. Para o obrigar a ir à sua mesa. Na última vez ficou frustrada quando o meu marido se apresentou na sua frente. E não voltou a aparecer.

Aquilo, Sofia não sabia. Porque é que ele não lhe dissera? Não se proclamara um homem sincero? Não lhe pedira paciência para se livrar dos fantasmas?
- Ai filha que já falei demais! Desculpa, não queria preocupar-te. O Quim é um homem responsável. Tem sólidos princípios morais. Nunca te trairá. Mas aquela mulher é um demónio com cara de anjo. Que o diga o seu ex-marido a quem ela arruinou.
Ela acreditava nos princípios do marido. E na sua sinceridade.

Tinha provas disso. Também do seu sentido de responsabilidade.
Só que isso não lhe bastava. Ela desejava dele o que uma mulher apaixonada deseja do homem que ama.
- Não se preocupe tia. O Quim tem sido um excelente marido, - afirmou desejando tranquilizar a velha senhora.

Nesse momento os homens entraram na sala.
- Vamos jantar? Está tudo pronto.
Quim ajudou a tia a levantar-se e deu-lhe o braço para a ajudar a chegar à sala. Ela e o tio seguiram-nos. Junto à mesa, Idalina a empregada aguardava-os. A mesa estava posta para cinco pessoas.
-Hoje a Idalina janta connosco. Desde que ficou viúva, vive connosco, já é quase da família, - explicou o tio.

                                               *********

Correu tudo bem com a consulta e a vacina do marido ele está muito mais calmo e eu também. Não fora as dores de cabeça que os olhos me estão a provocar e estaria tudo bem. 
Bom fim de semana e obrigado pelo vosso apoio e compreensão.

30.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE VIII




Levantou-se cedo no dia seguinte. Tomou o duche, vestiu um fato azul-escuro com uma camisola de malha de gola alta, e dirigiu-se à cozinha, onde a empregada já se aprestava para lhe fazer o pequeno-almoço.
-Bom-dia Celeste.
-Bom dia, senhor.
- Só vou beber um café. Quando volta a Maria?
- As férias dela terminam hoje. Amanhã já cá estará.
-Muito bem. Suponho que estes dias tem trabalhado além do desejado. Tenho andado tão preocupado que me esqueci de que está sozinha com todo o trabalho da casa.
- Não me queixei senhor.
- Eu sei que não. Mas hoje mesmo vou pedir à agência que me arranje uma substituta para a Fátima. E a Celeste telefone à Odete. Se ela ainda estiver sem trabalho e quiser voltar, diga-lhe que venha falar comigo.
- Assim farei. Mas se o senhor me permite, e uma vez que infelizmente dona Sara não voltará, se a Odete voltar, nós três damos perfeitamente conta do recado. A Fátima estava ao serviço exclusivo da sua esposa, como sabe, não será necessário substituí-la.
Das quatro empregadas que anteriormente tinha em casa, uma estava de férias, outra tinha casado e abandonara o trabalho. E Odete, que além de cozinheira, era uma espécie de governanta, fora despedida num dos ataques de mau humor que Sara vinha tendo nos últimos dias antes da tragédia. A casa, com os dois pisos e os seus múltiplos cómodos, era demasiado grande para uma única empregada, a pobre da Celeste devia andar derreada.
Gil acabou de beber o café, poisou a chávena em cima da mesa, pegou na pasta com o portátil e dirigiu-se à porta. Porém antes de sair, voltou-se e disse:
- Não venho almoçar, mas janto em casa.
Saiu. No ar frio que o envolveu, havia um agradável cheiro a terra molhada, fruto da chuva que caíra toda a noite.
Entrou no carro, pôs o motor a trabalhar e saindo da sua propriedade, seguiu em direção aquela que fora até agora uma das suas empresas em sociedade com o seu irmão, e que ia agora passar totalmente para ele.
Apesar da sua fortuna, Gil não esquecia as suas origens, nem os deserdados da fortuna que continuavam a existir no seu país, e especialmente no bairro onde viveu. Um dos seus grandes sonhos,  era criar uma fundação, que se dedicasse, a fazer com que essas crianças pudessem vir a ter as mesmas condições de futuro, de todas as outras. Que pudessem estudar, ou fazer uma formação profissional, que lhes permitisse terem um futuro melhor, do que aquele que os seus pais tiveram. Ele sabia que muitas dessas crianças iriam perder-se nos caminhos da droga e prostituição, se ninguém fizesse nada por elas. Algumas não chegariam sequer à idade adulta.
Anos atrás, quando ainda era um jogador de seleção, tivera conhecimento de uma fundação que se dedicava a construir escolas, abrir poços, montar pequenos hospitais, em locais remotos de África. Gil não sabia quem era o fundador dessa fundação, nem sequer sabia se era obra de um ou vários homens. Só sabia que o homem que estava à frente da mesma, mantinha um anonimato completo, e que era muito rigoroso com a admissão de colaboradores dessa obra.  Inicialmente pensara candidatar-se a colaborador nessa obra, mas depois pensou que era mais lógico que fizesse uma coisa parecida pelas crianças carentes do seu país. Não precisaria construir escolas nem hospitais, bastava dar-lhes meios para que frequentassem as que havia.
E projetara utilizar uma boa parte da sua fortuna, para realizar esse sonho. Atualmente com o êxito dos seus livros, e o excelente trabalho do seu diretor financeiro, que estudava o mercado e lhe investia parte do dinheiro sempre com excelentes resultados, a sua fortuna aumentava todos os dias. Por isso Gil achava que tinha chegado a hora de transformar esse sonho em realidade.


18.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR PARTE III



Uma chuva miudinha, recebeu-o ao chegar à rua. O mês de Novembro estava a chegar ao fim. Apesar do dia desagradável, as ruas fervilhavam de gente que se afadigava, com a aproximação do Natal. Ele não estava preocupado com isso. O seu Natal, seria no dia em que a filha nascesse, se tudo corresse bem com ela e viesse perfeita e de boa saúde. Chegou junto do seu carro estacionado no parque do hospital, abriu a porta, sentou-se ao volante e dando a volta à chave fez com que o veículo arrancasse suavemente. Dirigiu-se para os arredores da cidade. Vinte minutos depois acionava o comando que lhe abria o portão de acesso à sua casa, uma bela moradia de dois pisos rodeada por um extenso e bem cuidado jardim. Estacionou junto à porta. Desde que Sara estava no hospital nunca mais guardara o carro na garagem. Ficava à porta para que não perdesse tempo se houvesse alguma chamada urgente do hospital.
Boa tarde Celeste – disse saudando a empregada. – Algum recado?
-Boa tarde, senhor. Telefonou o seu irmão.  Disse que não conseguia entrar em contacto com o senhor e pediu para lhe ligar logo que chegasse.
- Obrigado, - disse retirando o telemóvel do bolso e verificando que ainda estava desligado. Desligava-o quando entrava no hospital e voltava a liga-lo quando saía, mas naquele dia, acabara esquecendo-se. Subiu as escadas e entrou no quarto, fechando a porta atrás de si.  Despiu o casaco e colocou-o nas costas da cadeira, desapertou e tirou a gravata que atirou para cima do casaco. Sentou-se na beira da cama e ligou ao irmão. Marco atendeu ao quinto toque.
- Estou…
- Aconteceu alguma coisa? A Celeste disse que querias falar comigo.
-Nada a não ser que estou a precisar de ti aqui. Há negócios que estão pendentes do teu aval. Desde que aconteceu aquela tragédia, não vens à empresa.
- Vou aí amanhã. Convoca o advogado para as onze horas. Eu estou aí pelas dez. Precisamos falar, sobre uma decisão que tomei antes da reunião com o advogado. De tarde vou para o hospital.
- Passas demasiadas horas no hospital. Não podes fazer nada pela Sara, e estás a dar cabo de ti.
- Não te esforces, os médicos deixaram isso bem claro. Por muito que me digam que ela está morta, a minha filha está viva, e se de algum modo ela sentir alguma coisa, quero que sinta que estou lá, e que a espero com todo o amor.
Marco não teve coragem para rebater as palavras do irmão. Suspirou, e disse:
- Bom, então espero-te amanhã. Entretanto vou telefonar ao advogado e marcar a hora para a reunião. Ah! Já me esquecia, chegou a encomenda da Adidas.
-Ok.  Nestes dias, tomei uma série de decisões que vou começar a por em prática. Até amanhã.
- Até amanhã, Gil. Cuida-te, mano.

3.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXII





- Olha só quem voltou. Vai buscar um pedaço de broa e um naco de presunto  que o Pedro deve estar com fome. E o almoço ainda demora muito?
E voltando-se de novo para o sobrinho. 
- Mas afinal porque voltaste? E porque é que a tua mãe não me avisou que vinhas? -voltou a perguntar andando nervosa à sua volta.
Pedro colocou o braço à volta dos ombros da tia e disse:
- Acalme-se tia. Vamos entrar que já lhe conto tudo.
Entraram e depois que a empregada se dirigiu à cozinha,  o jovem começou a contar tudo o que se passara consigo nos últimos meses, à tia que o escutava com o maior interesse. Quando terminou a senhora disse:
-Como deves ter sofrido, rapaz. Graças a Deus não contaste nada à tua mãe. Nem sei se ela resistiria à ideia de que ia ficar sem ti. Lembro-me bem como ela  ficou quando morreu o meu irmão. Muitas vezes pensei que se não fosses tu, ela teria ido atrás dele. Mas e agora? Como vais encontrar a rapariga? Devias ter sido sincero com ela.
- Ainda tenho a esperança de que o outro empregado tenha algum recado. Afinal era ele que estava na portaria quando a Rita partiu. Mas ele só entra às quatro. Agora se não se importa vou ligar à mãe. Já deve estar já em cuidado.
Quando terminou o telefonema, a empregada anunciava que o almoço estava pronto e dirigiram-se para a mesa.
Depois do almoço o jovem informou que ia dar uma volta pelas margens do rio, depois ia ao hotel e seguiria nesse mesmo dia para casa, pelo que se despedia já das duas. A tia insistiu para passar por lá antes da partida, a empregada ia arranjar-lhe um farnel para a viagem, porém o jovem recusou e  agradecendo a gentileza despediu-se das duas, prometendo dar notícias à tia quando tivesse novidades.
- E convida-me para o casório, se tudo correr bem,  - disse-lhe a tia quando ele já ultrapassava o portão.
- Claro - respondeu acenando num último adeus.
Pouco depois embrenhava-se no parque junto ao rio, recordando cada dia, cada gesto,  cada palavra trocada com Rita nos passeios que por ali fizeram.



E hoje dia 3 volto a ir à consulta a Santa Maria. Já tenho os exames quase todos feitos, falta-me só um que está marcado para dia 11. Vamos ver o que me diz o médico. Estou tão saturada disto. E  porque estamos em Outubro, uma lembrança para todas as minhas amigas...




26.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVI


– Não tia. Graças a Deus não. Foi do emprego. Dizem que se não estiver lá amanhã, escuso de ir mais. Já estou ausente há muito tempo, as férias acabaram, não tenho licença, nem atestado médico, - disse pedindo mentalmente perdão pela mentira, mas não podia dizer a verdade à tia.
- Bom, se é isso tudo bem. Mas podias ter dito quando entraste. Fiquei assustada. E sair assim de corrida, vais chegar de noite...
 – Talvez não, tia. Os dias são grandes e escurece tarde, não se preocupe.
- Então vamos mulher, vamos preparar um farnel para a viagem.
E dizendo isto Palmira, empurrava a empregada na sua frente.
- Não se preocupe tia, eu como alguma coisa pelo caminho.
- Era o que mais faltava! - Zangou-se ela – Da minha casa, nunca ninguém saiu sem farnel.
Quando Pedro saiu com as malas para o carro, já as duas mulheres tinham preparado uma cesta, onde não faltava a broa, o presunto, um belo salpicão, várias frutas, e uma garrafa de água.
Na verdade a tia tinha-se cansado durante todo o tempo que ele estivera em sua casa, para que bebesse vinho, mas Pedro sempre fora abstémio.
Abraçou as duas mulheres e saiu. Tinha pressa de viajar. Não queria correr o risco de se encontrar Rita, nem queria que ela o visse partir.

Chegou a casa ao anoitecer. Abriu a porta e sentiu o peso da solidão. A primeira coisa a fazer, era telefonar à mãe e pedir para ela regressar no dia seguinte. Teria que dar uma desculpa convincente, para aquele regresso inesperado pois nessa mesma manhã, quando lhe telefonara, não dissera que tencionava regressar e ele conhecia bem a mãe. Se desconfiasse que alguma coisa não estava bem era capaz de abalar de noite a caminho de casa.
Mais tarde ligaria à tia, para que as duas mulheres dormissem descansadas. Depois das chamadas, estendeu-se em cima da cama e deixou-se dormir.

10.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXI





Estacionou o automóvel junto à porta e saiu. Percorreu com o olhar o vasto jardim, e franziu a testa, pensando se a jovem já se teria ido embora, porém logo deparou com o carro cinza estacionado junto à porta da garagem e um sorriso distendeu os seus bem desenhados lábios. Subiu os três degraus até ao alpendre e abriu a porta. Ouviu vozes na cozinha e encaminhou-se para lá. Paula e a governanta conversavam animadamente sentadas à mesa, com uma chávena de chá e um pires de biscoitos na frente.
- Bom dia, – saudou.
- Bom dia, senhor. Não o ouvimos chegar, - disse a empregada levantando-se  apressada.
Paula também se levantou. Vestia um fato de calças e casaco de seda azul, com decote em bico, e calçava sandálias de salto. Elegante e muito feminina.
- O que achas do jardim? -perguntou o recém chegado.
- Muito bonito mas não serve para o evento.
- Não? – Admirou-se ele
- Se vieres comigo explico-te.
Saíram e caminharam até ao lago circundado de bonitas flores.
- Bom, supõe que ponho o altar entre aquelas duas árvores, lá ao fundo junto ao muro. Teríamos que por duas filas de cadeiras para os convidados que segundo a lista que me enviaste é de oitenta pessoas. Duas filas de quarenta cadeiras que poderíamos por naquela parte, ali há poucas flores, podem ser transplantadas para outro local e tapar os estragos com pedaços de relva natural. Até aqui tudo bem, mas onde vou colocar as mesas para a festa? Usando mesas redondas precisaríamos de dez mesas grandes, para os convidados mais duas para apoio. Tinha que destruir todo o jardim.
- Já viste a parte de trás da casa? Tem um espaço bastante grande todo relvado até à piscina, que delimita a área entre o lazer e quinta propriamente dita. Não podíamos fazer a cerimónia aqui e a festa lá?
- Vamos ver.
Caminhando lado a lado contornaram a bonita moradia, um belo edifício de dois pisos.
- É uma bela casa- disse a jovem.
-Gostas? Comprei-a há dois anos. Inicialmente porque era um bom negócio, pensava voltar a vendê-la, mas depois decidi ficar com ela. É um local sossegado, tem bons ares, muito espaço para as crianças, é o ideal para uma família, não achas?
Não respondeu de imediato. Não sabia o que se passava com ela em relação ao empresário. Começara por sentir um sentimento de raiva quando soube o que ele fizera ao pai, exacerbado quando o pai lhe pediu para casar com ele. Entretanto a raiva fora sendo substituída primeiro pela curiosidade, depois pela admiração, e mais tarde por uma inquietação, quando falava ou pensava nele. E pensava nele vezes demais para o seu gosto, tanto mais que quase esquecera, Adolfo, o médico com quem mantivera uma relação de quatro anos e cuja traição a levara a querer distância de todos os homens.
De súbito, António agarrou-lhe no braço e parou, obrigando-a a fazer o mesmo.
- Que aconteceu? – Perguntou abrindo os olhos de espanto sem saber se era por ele ter interrompido os seus pensamentos, se pelo choque elétrico que percorria o seu corpo, com a sensação que a mão dele provocara no seu corpo.
- Diz-me tu, - respondeu. -Porque de repente fiquei com a sensação que te ausentaste e me deixaste a falar sozinho.

4.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XVII



Três dias depois, uma Paula furiosa, irrompeu no escritório de António, seguida de perto pela secretária que se desculpava por não ter conseguido impedi-la, e perguntava  se chamava o segurança.
-Não é necessário chamar o segurança. Pode voltar ao seu lugar. Se precisar de si chamo.
A empregada saiu fechando a porta atrás de si.
- Senta-te e diz-me ao que vieste. Mas antes deixa-me perguntar-te uma coisa. És sempre assim tão impetuosa?
- Disseste que podia confiar em ti. Que ias salvar o meu pai em troca da festa da tua irmã. E a Cidália acaba de me dizer que resgataste a hipoteca e ficaste com todos os documentos da “Casa Nova”.
- Quem é a Cidália?
- A mulher do meu pai. Mas isso não importa. Só vim para te dizer que não prestas. Não tens palavra.
- Antes que o teu génio te faça dizer alguma coisa de que tenhas que te arrepender, respira fundo, tenta acalmar-te e diz-me como é essa mulher? É tua amiga?
- Minha amiga? Muito mais que isso. Cidália foi para mim a melhor das mães.
- Muito bem. E ela não te disse que pedi ao teu pai para não despedir ninguém, e continuar à frente da empresa até ao final do mês? Que só nessa altura legalizaríamos a transação em cartório?
- E depois, o que quer isso dizer? Que queres prolongar a agonia dele? Que diabo pode ele ter-te feito para o odiares assim?
Irritado ele pôs-se de pé. Contornou a mesa e chegou junto dela.
- Diz-me que não pensaste a sério no que acabas de dizer. Não me faças pensar que és igual ao teu pai.
O seu rosto estava tenso, o olhar brilhava de raiva, os punhos crispados.
Paula, teve a certeza de que a suas palavras o tinham magoado. E de súbito percebeu porque ele não tinha querido que o pai despedisse o pessoal, fechasse a empresa ou fizesse qualquer alteração até ao fim do mês, porque era a data da festa da irmã. Ele ia restituir ao pai os documentos, nessa altura, mas por alguma razão, que ela não conhecia, queria fazê-lo sofrer durante o tempo que faltava. Levantou-se e ergueu para ele um olhar suplicante.
- Desculpa. Já percebi que fiz asneira. Disseste para confiar em ti, mas é tão difícil confiar em alguém que não conhecemos, especialmente…
Voltou a sentar-se, sem terminar a frase.
Satisfeito com o pedido de desculpas, ele voltou para o seu lugar, dizendo:
- Especialmente quando fomos traídos por aqueles que amamos, não é verdade?
-O que queres dizer com isso? Que sabes, da minha vida?
- Refiro-me ao pouco-caso que o teu pai te ligava depois da morte da tua mãe. Pelo que disseste da tua madrasta, acredito que o seu casamento foi a melhor coisa que te podia ter acontecido. Não me olhes espantada. Eu lembro-me da menina triste e solitária que eras, embora tu não te lembres de mim. E agora, em que ficamos? Conto ou não contigo para proporcionar à minha irmã uma festa de sonho?


Porque amanhã é um dia especial esta história continua no sábado.


26.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XIII







Chegou uns minutos depois.
- Desculpem. Atrasei-me um pouco. Vou só lavar as mãos, volto já.
O almoço decorreu animado. Matilde, queria saber tudo, fazia muitas perguntas.
Simão respondia brincando com a irmã. Os pais sorriam felizes, e Ana comia calada. Sentia-se marginalizada. Porque é que o irmão, não tinha sido assim simpático com ela, como o estava sendo com Matilde?
Acabado o almoço, o pai voltou para o escritório. A irmã, que tinha combinado ir ver uma casa com o noivo, despediu-se dizendo que iria à noite ao aeroporto.
Simão, também se aprestava para sair, quando ela disse:
-Espera. Quero falar contigo.
A empregada, levantava a mesa, e a mãe que se dirigia para a sala, disse.
- Porque não vão para o escritório do pai? Lá podem conversar à vontade.
Nenhum dos dois respondeu, mas Ana encaminhou-se para o escritório, e ele seguiu-a.
Ela entrou e aproximou-se da janela. Ele fechou a porta e apoiou nela as costas.
Semicerrou os olhos. Como era linda. Assim, vista na contraluz da janela, era como uma aparição.
Decorreram uns momentos de espera até que ela se voltou. Estava zangada. Ele sabia. Conhecia-a, como se conhecia a si mesmo. Escondeu as mãos nos bolsos, para que ela não se desse conta dos punhos cerrados, quando se aproximou.
- Vais ficar aí especado sem dizer nada? A porta não cai.
- Eu? – Procurou parecer indiferente. - Estou à espera. Afinal foste tu que quiseste falar comigo.
- Vais-te embora hoje e não me dizias nada. Soube pelo pai. -  queixou-se ela.
- Não tinha que te dizer, Ana. Sabias que ia estar poucos dias, tenho uma exposição na próxima semana. Tens a tua vida, a tua casa, que nem sei onde fica, não ia ao escritório para to comunicar. Além disso, supus que o pai o fizesse.
- Não é desculpa, Simão. Os telefones também servem para as pessoas se comunicarem. E não me venhas dizer que não sabias o número. Qualquer pessoa desta casa, to daria.
Era verdade. Ele sabia que lho devia ter comunicado. Porém preferia partir sem se despedir dela. Era menos doloroso. E só ele sabia o quanto lhe doía.  

reedição

Amanhã vou estar fora em visita de estudo. Desculpem a ausência

17.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXX








Passadas as festas do Natal e Ano Novo, as crianças voltaram à escola e Clara retomou a rotina de as levar e ir buscar várias vezes, ao dia, já que não ficava descansada se eles almoçassem na escola.
E veio Janeiro, e com ele, as constipações e a tosse, que fez com que por duas vezes, Clara os levasse ao médico. E a seguir veio Fevereiro com o Carnaval. O tema do desfile escolar eram as profissões, e os dois irmãos foram vestidos de palhaços. Mas também escolheram outras máscaras para usarem fora do desfile escolar. Bernardo quis vestir-se de militar, com um camuflado como costumava ver o pai. Soraia escolheu uma bata branca e um estetoscópio de acordo com o que sempre dizia :"Quando for grande vou ser médica, doutora"
E o Carnaval também passou. Ricardo estava quase de regresso. Partira a vinte e oito de Agosto, e os seis meses cumpriam-se no fim do mês. Clara não sabia a data certa do seu regresso, coisa que Ricardo também parecia não saber, pelo menos nas mensagens apenas lhe dissera que tinham terminado no dia vinte a missão para a qual estiveram a trabalhar, e que no dia seguinte, deveriam chegar, outro tipo de militares. Médicos e enfermeiros.
As crianças sabiam que o pai estava quase de regresso e andavam ansiosas perguntando todos os dias. “ Mãe é hoje que o pai volta?”
Naquela manhã do primeiro dia de Março, Clara regressara a casa depois de ter deixado os filhos na escola, e encontrava-se na cozinha, conversando com Antónia, quando Ricardo apareceu à porta, provocando uma reação de alegria e surpresa nas duas.
Estava mais magro e tinha um ar cansado que o fazia parecer mais velho. Pousou a mala no chão, abriu os braços, e abraçou-as.
- Deveríamos ter chegado ontem à noite, mas tudo se complicou, no aeroporto, por causa do mau tempo, e o avião saiu cinco horas mais tarde do que o previsto. Não consegui chegar a tempo de ver as crianças antes de irem para a escola.
- Vão ficar doidas de alegria quando vierem para almoçar e te virem, - disse Clara.
- Preciso tomar um banho e despir este camuflado. Meu Deus, não acredito que estou em casa.
- Vai tomar o teu banho, e já conversamos – disse Clara. Estás com ar cansado.
-E tem que comer alguma coisa. Está tão magro. Tinham a comida racionada, ou não sabiam cozinhar? – Perguntou Antónia.
Ele largou-as dizendo.
- Ninguém no mundo cozinha como tu. Mas já tomei o pequeno-almoço. Vou pôr-me apresentável.
Voltou-lhes as costas, agarrou na mala e dirigiu-se à escada.
Meia hora mais tarde, vestindo umas calças de ganga e um camisolão de malha azul, recém-barbeado e com o cabelo ainda húmido, Ricardo entrou na biblioteca, onde Clara se encontrava a ler.
Olharam-se. E como se fosse uma cena de um filme mudo, ele caminhou até ao sofá e estendeu-lhe a mão. Ela pousou o livro e pousou a sua pequena mão na mão forte do homem.  Ele puxou –a fazendo com que se levantasse e com o impulso o seu corpo colou-se ao dele. E então ele apertou-a ao peito e beijou-a com intensidade. Tão intenso e sôfrego como um marido apaixonado beijaria a sua esposa depois de uma longa ausência.
Clara retribuiu o beijo. Primeiro tímida, depois apaixonada, os seus braços enlaçando o pescoço masculino. Aquilo era um sonho. Talvez mais tarde chorasse de arrependimento, quando ambos se posicionassem nos seus devidos lugares, ele o patrão e ela a empregada. Mas naquele momento, ela não conseguia pensar em nada. Limitava-se a sentir. E sentia que as suas pernas tremiam tanto que já teria caído se os fortes braços dele a não segurassem.
Finalmente as suas bocas separaram-se, mas não os corpos nem os olhos.
-Meu Deus o que mais desejava neste momento era levar-te para a cama.
Ela disse quase sem voz, porém sincera.
-Eu também gostaria de fazer amor contigo.
Então ele largou-a e virando-lhe as costas, aproximou-se da janela.






15.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXVII





Aquela foi a primeira de muitas mensagens trocadas a partir daquele dia. Mais ou menos de quinze em quinze dias, Ricardo via e falava com os filhos, via Skype. Nessas alturas, Clara mantinha-se um pouco à margem, deixando que pai e filhos conversassem sobre tudo o que se lembrassem. Os dois só trocavam uma ou outra frase, quase sempre em resposta a uma pergunta concreta. Mas todos os dias trocavam correio eletrónico. E aí sim, eles trocavam ideias, falavam de vivências do dia-a-dia, e até de sonhos. Os dias foram passando, o mês de Setembro chegou ao fim, seguiu-lhe Outubro, sem que as rotinas se alterassem. Com a chegada de Novembro chegaram os primeiros frios, e também os dias de chuva.
Na grande casa da quinta, havia agora, uma nova empregada. Adelaide era uma mulher dos seus quarenta anos, que ficara viúva há pouco tempo com dois filhos pré-adolescentes para criar. Fora casada com um primo de Antónia, e sabendo por esta, da urgente necessidade de Adelaide em arranjar trabalho que lhe permitisse criar os filhos, Clara resolvera contratá-la.   
E foi num dia chuvoso de Novembro, quase nas vésperas de S. Martinho que, pela primeira vez, ela ouviu as crianças chamarem-lhe mãe. Aconteceu duma forma natural, quando Soraia falava da festa, que ia haver na escola no dia S. Martinho.
Ela ficou tão emocionada, que deixou cair o livro que tinha nas mãos.
Sem dizer uma palavra abriu os braços e a menina refugiou-se neles tão confiante como qualquer criança quando a mãe a abraça. Não querendo ficar de fora, Bernardo correu para elas e lançou os seus bracitos ao pescoço de Clara.
Foi um momento de grande emoção. A jovem sabia que a partir daquele momento as suas vidas nunca mais seriam as mesmas. Para o bem ou para o mal, desde aquele dia ela era, no coração das crianças, a sua mãe. Não as podia dececionar.
Também em Novembro, mas já quase a terminar o mês, ela passou pela primeira aflição quando, primeiro Bernardo e depois Soraia, foram atacados pelo surto de varicela que obrigou ao encerramento da escola.  Clara sabia que a varicela era uma doença comum nas crianças, ela lembrava-se bem de quando Tiago a tivera. E além disso, o médico sossegara-a. O principal era evitar que as crianças se coçassem demasiado, pois podiam fazer feridas que deixassem marcas para o resto da vida, além do perigo de uma infeção que isso pudesse provocar.
Para evitá-lo ela dava-lhes banho com frequência, espalhando depois a loção calmante que o médico receitara sobre as lesões.
Apesar do correio eletrónico trocado quase diariamente com Ricardo, Clara não lhe falou do que estava a acontecer com os filhos. Não queria preocupá-lo, pois sabia que para os homens qualquer coisa que se relacione com a saúde é sempre um problema de difícil solução e uma preocupação acrescida.
Felizmente quando ele fez a chamada de vídeo para ver os filhos a cinco de Dezembro, a doença já tinha sido debelada embora ainda tivessem no rosto e corpo algumas pequenas lesões, que levariam mais uns dias a desaparecer.  
Claro que as crianças rivalizaram entre si para contarem ao pai, o que tinha acontecido, e como a mãe cuidara deles. 
Ricardo, ficou duplamente surpreendido, pois era a primeira vez que ouvia os filhos tratarem Clara como mãe. Porém quando falou com ela foi apenas para perguntar, se os filhos já não corriam perigo, e quando voltavam para a escola.
Depois de obter resposta, despediu-se. Clara esperaria com ansiedade, a nova mensagem. Numa delas ele tinha-lhe dito, que as chamadas eram efetuadas numa sala, com vários militares a falarem ao telefone ou a fazer as video-chamadas em mesas quase coladas e sem qualquer privacidade.
E os dias foram passando, o primeiro período terminou, com as férias de Natal, cujo dia se aproximava a passos largos.