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17.7.24

O CONVITE

 




                                                  O CONVITE


Dezembro avançava frio, alternando por entre dias de chuva e nevoeiro. Estávamos a poucos dias do Natal e o sol que tanto amamos, andava arredio há duas semanas. Terminei o dia de trabalho, encerrei o computador, vesti o casaco e saí. Apesar do tempo frio, havia muita gente nas ruas, cujas montras muito iluminadas, mostravam os mais diversos artigos alusivos à época.

Morando perto do escritório onde trabalhava, em menos de dez minutos estava em casa.

 Despi e pendurei o casaco no bengaleiro, descalcei os sapatos de salto, que me faziam as pernas, mais esbeltas e bonitas, enquanto me atormentavam os pés com dores. Estendi-me no sofá tentando relaxar, mas logo a campainha tocou.

Descalça, aproximei-me da porta e espreitei pelo óculo.  Espantei-me ao ver o Pedro. Não era para menos, pois o julgava ainda em Londres. Abri a porta e ele entrou carregando uma mala que pousou no chão a seu lado e então abraçou-me com força e estalou dois ruidosos beijos no meu rosto.

 Não estranhei, éramos amigos desde criança, ambos filhos únicos, encontrámos um no outro os irmãos que nunca tivemos.  Sentámo-nos no sofá e então ele disse:

-Desculpa, ter aparecido assim de repente, mas a nossa amizade deu-me a confiança necessária para fazê-lo.

Segurou-me as mãos, os olhos brilhantes de felicidade e então contou-me como conheceu a Isabel, a sua fantástica história de amor, terminando com o convite para sua madrinha de casamento.

 

 

31.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXV

 



O último dia daquele mês de agosto, amanhecera quente e com o céu ameaçando a continuação da chuva que se mantinha há vários dias, pois estava-se na época das chuvas, que rapidamente transformara a estrada de terra batida num lodaçal. 

Tiago, saíra do pavilhão que lhes servia de residência com Peter, o amigo inglês de clínica geral, Paco o anestesista espanhol, e as duas enfermeiras religiosas, bolivianas, que substituiriam as outras duas que ficaram assistindo os doentes internados, durante a noite. Percorriam com dificuldade os  poucos metros que os separavam do pavilhão hospital, dado o estado do caminho transformado num verdadeiro pântano. No país poucas são as estradas de alcatrão.  

Os três homens comentavam entre si, que não se compreendia a extrema pobreza dum país, que sendo rico em diamantes e urânio e não chegando aos cinco milhões de habitantes, estivesse entre os mais pobres do mundo. Certo que o facto de não ter saída para o mar, e as suas exportações só poderem navegar pelo rio ate Brazzaville e depois terem que seguir de comboio até Pointe-Noire no Congo, dificulta e encarece as exportações.

Mas esse não é o principal problema. O maior problema do país são os mais de oitenta grupos étnicos, com outros tantos dialetos, e o seu desejo de cada um se impor e governar os outros o que leva a constantes guerras tribais.

“Digamos -dizia Paco, - que aqui se encontra a base da famosa Torre de Babel”

O grupo encontrava-se a uns dez metros do hospital, quando de súbito se ouviu um som pavoroso, como se um trovão tivesse rebentado ali mesmo e Tiago sentiu-se projetado no espaço, enquanto sentia como se o rasgassem de alto a baixo. E de súbito havia apenas um poço negro e Tiago mergulhou nele.

Acordou banhado em suor. Estendeu a mão e acendeu o cadeeiro. Carregou no botão que elevava a cabeceira da cama. Tinha os músculos contraídos e parte do corpo em fogo como se tivesse sido ferido naquele momento.

 Pegou no copo e no jarro de água, mas as mãos tremiam-lhe tanto que entornou sobre a cana uma boa parte. Da gaveta da mesa-de-cabeceira tirou dois comprimidos de paracetamol que engoliu.

No início depois que recuperou a consciência no hospital, revivia todas as noites o acidente, tendo de tomar soporíferos para conseguir dormir. Aos poucos a situação foi melhorando. Agora havia mais de uma semana que o pesadelo não vinha atormenta-lo.

Chegara a pensar que enfim se teria livrado dele, e daí que apesar do seu estado físico, não ter melhorado nada, em relação ao que ele ansiava, tinha-se sentido mais calmo mais confiante. Mas agora o pesadelo voltara, e cada vez que isso acontecia, era como se Tiago estivesse a ter o acidente naquele momento. Ele sentia as mesmas dores, a mesma sensação que o seu corpo iria arder até ao fim e o mesmo pensamento de que tinha chegado ao fim, não voltaria a ver os pais nem a noiva.

Encheu de novo o copo de água que bebeu de um trago, como se acreditasse que a água apagaria o fogo doloroso que o consumia.

Olhou o relógio. Três e meia da manhã. Não dormiria mais. Sabia disso, tinha meses de experiência. Puxou a almofada para trás da cabeça, fechou os olhos e assim aguardou o nascer do dia.


Esta história volta depois da Páscoa

22.5.20

ISABEL - PARTE VIII

                                         Estátua do rei D. Sebastião
                                                    Foto minha


Nessa mesma tarde, perto das seis, Isabel saiu de casa com intenção de dar um último passeio pela baixa da cidade. O dia, que de manhã ameaçara chuva, apresentava agora um céu limpo, onde reinava um sol intenso.
Vestia uma saia calção, de algodão azul-marinho e uma blusa branca do mesmo tecido, com um decote na diagonal que deixava a descoberto um dos  ombros. O cabelo castanho apanhado mostrava a forma longilínea do pescoço.
Óculos escuros, escondiam-lhe os olhos sem tirar encanto a um rosto onde se destacava a boca pequena e bem desenhada. Desceu a rua Cândido dos Reis em direção ao centro histórico, passou pela Praça Gil Eanes, onde um turista se deixava fotografar junto à polémica estátua do rei D. Sebastião da autoria do escultor João Cutileiro, lançou um breve olhar à estátua humana, que do outro lado, aguardava que alguém deitasse na caixa uma moeda, para esboçar um breve agradecimento e aliviar ainda que momentaneamente o corpo da incomoda imobilidade.
Seguiu por entre esplanadas até ao mercado municipal, e aí atravessou a Avenida dos Descobrimentos e foi sentar-se num banco sob a sombra de uma frondosa palmeira, junto ao canal. Encantava-se com aquela enorme avenida que corria desde o início da cidade, ao longo da ribeira de Bensafrim, até ao forte Pau da Bandeira, onde se juntava ao mar. 
Pela ribeira, que naquele sitio mais parecia um canal, passavam constantemente barcos, dos mais variados tamanhos e origens.
Grandes e luxuosos iates, que pertenciam aos turistas e se dirigiam à marina, barcos de turismo que fazem a ligação Lagos – Sagres - Lagos, traineiras que saíam ou chegavam da pesca, e os pequenos barcos a motor, sempre cheios de turistas para uma curta viagem até à Ponta da Piedade, cujas grutas marinhas e formações rochosas, são o orgulho da cidade.
Isabel retirou da bolsa um livro e tentou concentrar-se na leitura. O livro "Tsunami!" de Richard Martin Stern, contava a história de um oceanógrafo que descobriu, uma plataforma rochosa abaixo da superfície do oceano Pacífico que está prestes a desmoronar-se o que provocará uma onda aterradora e de dimensão  gigantesca  capaz de destruir por completo a cidade de Encino Beach, no sul da Califórnia. O problema é que tudo parece demasiado calmo e ninguém quer acreditar no cientista, que luta com todas as forças para convencer as pessoas a abandonar a cidade antes do desastre, sabendo que a cada hora que passa o tempo encurta e a tragédia aproxima-se.
 A leitura era interessante, mas a atenção de Isabel aos poucos foi-se afastando,  até que a memória mergulhou de novo no passado. Ultimamente recordava demasiadas vezes o passado. Não sabia porquê, mas que acontecia era um facto.
Lembrou aquela tarde em que disse aos pais que queria trabalhar. E pouco tempo depois estava a trabalhar numa papelaria. Mas o trabalho, não chegava para apagar na memória e no coração a angústia pelo que tinha acontecido. Decidiu estudar. Matriculou-se num curso nocturno. Era uma boa aluna. Terminou o Secundário. Seguiu-se a faculdade. Ela sempre gostara muito de publicidade e era muito criativa. Na hora da escolha decidiu-se pelo curso de Marketing, Publicidade e Relações Públicas. O fim do Curso foi o último dia em que teve os pais junto de si.
Fechou o livro. Olhou à volta e reparou no homem que um pouco mais à frente observava qualquer coisa na água. Encontrava-se de frente para a ribeira, com um pé em cima da muralha e a mão apoiada no joelho. Vestia calça de ganga e uma camisa branca. 
Isabel não conseguiu ver-lhe o rosto voltado para a marina, mas qualquer coisa nele lhe despertou a atenção e pensou que a figura não lhe era totalmente estranha.          

27.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXI


Entraram na cozinha
-Sente-se. Vou preparar umas torradas, ou prefere outra coisa? – perguntou Luísa enquanto abria o saco do pão.
- Não se incomode, não tenho fome.
Ela voltou-se e olhou-o. Tinha o rosto entre as mãos e parecia não se encontrar bem. Aproximou-se.
- Não se está a sentir bem? -perguntou
- Parece que a cabeça me vai explodir a qualquer momento.
- Se está assim, não devia ter-se levantado. Deve ter apanhado demasiado frio, ontem pode estar a ficar com gripe. Volte para a cama, eu vou preparar um chá e já lho levo. Entretanto na casa de banho há um termómetro. É melhor ver se tem febre.
Ele não respondeu. Levantou-se e saiu da cozinha.
“Devia levá-lo ao hospital. Pode estar com uma pneumonia, ou quem sabe um traumatismo. Deve ter batido com a cabeça, para ter aquela ferida no rosto. Oxalá não me esteja a meter em problemas.” - pensou Luísa enquanto preparava o chá.
Lá fora a chuva continuava a cair sem dar tréguas, embora a tempestade já não se fizesse sentir como na noite anterior. Pelo menos o vento parecia ter amainado.
Pôs o chá num tabuleiro com umas bolachas e dirigiu-se ao quarto.
A porta estava aberta e o homem estava em cima da cama, completamente vestido e a tremer de frio.
- Pôs o termómetro? – perguntou poisando o tabuleiro sobre a mesa de cabeceira.
-Ele meteu a mão dentro da camisa e retirou-o. Estendeu-lho.
- Não admira que esteja com frio, está com quase quarenta graus.  Vamos despir e meter debaixo da roupa, disse baixando-se e tirando-lhe os sapatos e as meias.
 Depois ajudou-o a sentar-se na cama e tirou-lhe o casaco que colocou nas costas da cadeira.
-Veja se consegue despir o resto, enquanto eu vou buscar um antipirético a ver se baixamos essa febre – disse saindo do quarto.
Demorou um pouco mais do que o necessário, esperando que ele se conseguisse despir sozinho. Não se sentia à vontade para ter de o despir.
Quando voltou ao quarto, as calças e a camisa estavam em cima da cama e ele estava debaixo das mantas.
- Muito bem, agora vamos beber o chá que já está quase frio e tomar estes dois comprimidos. Se até ao final da manhã não melhorar, chamo a ambulância e vai para o hospital – disse enquanto o ajudava a sentar e lhe chegava aos lábios a chávena de chá.
- Por favor, senhora, hospital não – disse agarrando-lhe o pulso com força fazendo com que quase entornasse o chá.
- Porque não? Não compreende que pode estar mal? Ter feito um traumatismo craniano, ou estar com uma pneumonia. Por muito boa vontade que tenha, não sou médica, nem enfermeira, não tenho conhecimentos para saber a gravidade do seu estado. Além disso diz que não sabe quem é não se lembra de nada. Precisa de cuidados médicos.
-Não. Isto vai passar. Não quero ir para o hospital. Por favor, prometa que não me manda para lá…
-Não posso prometer-lhe isso. Se melhorar e a febre passar tudo bem, caso contrário não quero arcar com a responsabilidade do que lhe possa acontecer – disse saindo do quarto antes que ele voltasse a protestar.



15.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXVI



Apesar da hora tardia a que se deitara, Luísa acordou cedo. Estava preocupada com o desconhecido. Será que ainda dormia? Tinha chegado tão exausto e ferido.
 Foi até à janela e correu a persiana. Lá fora a tempestade continuava. Se o vento já não soprava em rajadas tão intensas, a chuva continuava diluviana, e o caudal do rio tinha subido bastante. Felizmente embora a sua casa estivesse no vale, estava suficientemente afastada para não ser afetada. Abriu o armário e retirou umas calças de fazenda bege e uma camisola de gola alta branca. Com as peças na mão, abriu a gaveta da cómoda para retirar um conjunto de roupa interior, quando a porta do quarto se abriu, e o desconhecido falou:
- Desculpe... procuro a casa de banho…
- Segunda porta à esquerda.
Ele murmurou um obrigado e fechou a porta. Luísa foi até lá e correu o fecho interior. Deu graças porque o seu quarto tinha casa de banho e assim não precisaria esperar para tomar o seu duche.
Depois do banho e já vestida olhou-se ao espelho. Era uma mulher alta e magra, cabelos e olhos castanhos, testa alta, pele morena e boca pequena. Não era uma mulher bonita, sabia-o desde menina, mas isso não impediu que se tivesse apaixonado perdidamente por um cafajeste, que lhe ensinou a arte do amor.
Recordou Jorge Silveira, o único homem que amou na vida. Ela tinha terminado os estudos e fora de férias para casa de uma amiga em Albufeira. Era verão, tempo de calor, sol, praia e namoricos. Ela era uma jovem ingénua e sonhadora, ansiosa por conhecer e experimentar as delícias do amor.  A mãe morrera de cancro quando ela mal começara a andar e dois anos depois o pai casara-se de novo. A madrasta era uma boa pessoa, mas não era uma mulher muito carinhosa, ou talvez não o fosse só com ela, porque era a prova viva de que o marido, tinha amado outra mulher antes dela. Quando Luísa fizera dez anos a madrasta soube enfim que ia ser mãe. Ela lembrava-se da ansiedade com que esperou aquele bebé. Mas quando ele nasceu, a madrasta tornou-se ainda mais indiferente com ela, e o pai só tinha olhos para o menino que sempre desejara, e que a primeira mulher não lhe soubera dar. Luísa, podia ter odiado o irmão, que lhe usurpara o pouco carinho que até ali recebera, mas em vez disso, amou o irmão com toda a intensidade do seu pequeno e carente coração. Dedicava-lhe todo o tempo que não estava na escola, e foi ela que lhe ensinou as primeiras palavras.
Faminta de carinho, Luísa foi presa fácil das bonitas e enganadoras juras de amor de Jorge. Findas as férias, e como ambos viviam em Lisboa, o romance continuou e pelo Natal, Jorge chegara mesmo ao desplante de a pedir em casamento, esquecendo-se claro de lhe dizer, que tinha outra namorada e que até já tinha um filho de dois anos. Quando a outra moça a procurara desesperada, Luísa ficara sem chão, a vida deixara de lhe importar, perdera a vontade de viver. Fora nessa altura, que recebera uma carta de um advogado. A sua madrinha morrera Luísa nem sequer  a conhecera, mas que segundo a carta que o causídico lhe entregara, quando respondendo à sua convocatória, Luísa se apresentara no seu escritório, tinha sido grande amiga da sua mãe,  e deixara-lhe aquela casa e um bom dinheiro. O pai aconselhou-lhe a vender a casa, ela era uma menina da cidade, não se habituaria a viver naquele sítio tão isolado. Não o fez. Aquela era a grande oportunidade de se afastar, e esquecer uma vida em que nunca fora feliz. A única coisa que lhe doía, era separar-se de António, o irmão que amava de todo o coração, mas prometera que viria buscá-lo para passarem juntos as férias da Páscoa e parte das férias do Verão.


30.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE VIII




Levantou-se cedo no dia seguinte. Tomou o duche, vestiu um fato azul-escuro com uma camisola de malha de gola alta, e dirigiu-se à cozinha, onde a empregada já se aprestava para lhe fazer o pequeno-almoço.
-Bom-dia Celeste.
-Bom dia, senhor.
- Só vou beber um café. Quando volta a Maria?
- As férias dela terminam hoje. Amanhã já cá estará.
-Muito bem. Suponho que estes dias tem trabalhado além do desejado. Tenho andado tão preocupado que me esqueci de que está sozinha com todo o trabalho da casa.
- Não me queixei senhor.
- Eu sei que não. Mas hoje mesmo vou pedir à agência que me arranje uma substituta para a Fátima. E a Celeste telefone à Odete. Se ela ainda estiver sem trabalho e quiser voltar, diga-lhe que venha falar comigo.
- Assim farei. Mas se o senhor me permite, e uma vez que infelizmente dona Sara não voltará, se a Odete voltar, nós três damos perfeitamente conta do recado. A Fátima estava ao serviço exclusivo da sua esposa, como sabe, não será necessário substituí-la.
Das quatro empregadas que anteriormente tinha em casa, uma estava de férias, outra tinha casado e abandonara o trabalho. E Odete, que além de cozinheira, era uma espécie de governanta, fora despedida num dos ataques de mau humor que Sara vinha tendo nos últimos dias antes da tragédia. A casa, com os dois pisos e os seus múltiplos cómodos, era demasiado grande para uma única empregada, a pobre da Celeste devia andar derreada.
Gil acabou de beber o café, poisou a chávena em cima da mesa, pegou na pasta com o portátil e dirigiu-se à porta. Porém antes de sair, voltou-se e disse:
- Não venho almoçar, mas janto em casa.
Saiu. No ar frio que o envolveu, havia um agradável cheiro a terra molhada, fruto da chuva que caíra toda a noite.
Entrou no carro, pôs o motor a trabalhar e saindo da sua propriedade, seguiu em direção aquela que fora até agora uma das suas empresas em sociedade com o seu irmão, e que ia agora passar totalmente para ele.
Apesar da sua fortuna, Gil não esquecia as suas origens, nem os deserdados da fortuna que continuavam a existir no seu país, e especialmente no bairro onde viveu. Um dos seus grandes sonhos,  era criar uma fundação, que se dedicasse, a fazer com que essas crianças pudessem vir a ter as mesmas condições de futuro, de todas as outras. Que pudessem estudar, ou fazer uma formação profissional, que lhes permitisse terem um futuro melhor, do que aquele que os seus pais tiveram. Ele sabia que muitas dessas crianças iriam perder-se nos caminhos da droga e prostituição, se ninguém fizesse nada por elas. Algumas não chegariam sequer à idade adulta.
Anos atrás, quando ainda era um jogador de seleção, tivera conhecimento de uma fundação que se dedicava a construir escolas, abrir poços, montar pequenos hospitais, em locais remotos de África. Gil não sabia quem era o fundador dessa fundação, nem sequer sabia se era obra de um ou vários homens. Só sabia que o homem que estava à frente da mesma, mantinha um anonimato completo, e que era muito rigoroso com a admissão de colaboradores dessa obra.  Inicialmente pensara candidatar-se a colaborador nessa obra, mas depois pensou que era mais lógico que fizesse uma coisa parecida pelas crianças carentes do seu país. Não precisaria construir escolas nem hospitais, bastava dar-lhes meios para que frequentassem as que havia.
E projetara utilizar uma boa parte da sua fortuna, para realizar esse sonho. Atualmente com o êxito dos seus livros, e o excelente trabalho do seu diretor financeiro, que estudava o mercado e lhe investia parte do dinheiro sempre com excelentes resultados, a sua fortuna aumentava todos os dias. Por isso Gil achava que tinha chegado a hora de transformar esse sonho em realidade.


8.9.18

FOLHA EM BRANCO PARTE L





Dizem que o tempo voa, mas para Mariana, os dias decorriam numa lentidão exasperante. Miguel passava os dias no estúdio, apenas descia para almoçar, sabendo que Luísa e a filha estavam em casa. À noite, não descia para jantar, e quando vinha dormir era já madrugada. Mariana, passava os dias com a amiga, que devido à época de festas que atravessavam, não tinha aulas. 
Ora saíam, ora se fechavam no quarto, ouvindo música, ou perdendo-se em longas conversas. Não era de estranhar que se tivessem tornado inseparáveis. Para Mariana, a amiga, era a única pessoa, mais ou menos da sua idade, com quem convivia desde há largos meses. Maria, admirava a amiga, pelo que ela sofrera, e pelo carinho com que sempre a tratara.
E assim se chegou ao último dia do ano, um invernoso dia de vento e chuva. Luísa e a filha, saíram a meio da tarde, em dias assim era mais difícil apanhar transportes e elas moravam no outro lado da cidade.
-Deixei o jantar preparado, menina. É só aquecê-lo no Micro-ondas, - disse antes de partir.
- Não se preocupe Luísa. Aproveitem, sair agora, parece que a chuva e o vento amainaram um pouco.
Pouco depois a chuva voltava em força.
Sete e meia da tarde, ouviu-se o primeiro trovão.
“Só cá faltava a trovoada” murmurou contrariada.
Correu os cortinados, apagou a luz e dirigiu-se à sala.
Abriu um livro, mas não conseguiu ler. A trovoada estava cada vez mais próxima, e  ela cada vez mais nervosa.
Miguel descia as escadas, quando um relâmpago, fez da noite dia, e o trovão soou ameaçador por sobre as suas cabeças, ao mesmo tempo que a luz se apagava, mergulhando a casa na escuridão.
Ela gritou assustada, e rapidamente ele estava a seu lado abraçando-lhe o corpo tremente.
Tens medo? – Perguntou baixinho
Contigo não.- Respondeu no mesmo tom.
Novo relâmpago, novo trovão, desta vez ainda mais assustador, como se a tempestade que eles traziam no peito, se tivesse  materializado lá fora, no espaço.

Ela apertou o cerco dos seu braços e pediu num sussurro:
-Beija-me, Miguel!
Ele afastou-a ligeiramente
- Não me tentes, Mariana, não me tentes!





26.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XL





O último utente acabara de sair. Diana foi até à porta e fechou-a. A chuva continuava a cair, embora agora com menos intensidade. As duas jovens, fecharam o computador e juntaram requisições e dinheiro numa pequena caixa que o chefe haveria de recolher antes delas saírem. Anete olhou o relógio. Faltavam cinco minutos para a saída.
- Continua a chover. E com este vento, vamos chegar a casa, encharcadas. - Disse Diana.
Ouviu-se o sinal de mensagens no telemóvel de Anete.
“Vim buscar-te. Estou à porta. Salvador.”
Sorriu
- Ai meu Deus que sorriso feliz. Não me digas que chegou o teu príncipe. Espero que tenha trocado o cavalo por um automóvel.
- Não sejas tonta, Diana. É apenas o Salvador.
- Sei. O cunhado da tua irmã. Já me contaste essa história. Mas a julgar pelo teu sorriso, diria que não tem nada de “apenas”.
Nesse momento, o gerente chegou à receção. 
Diana, vestiu o casaco que tinha nas costas da cadeira, pôs a mala ao ombro. Anete fez o mesmo.
- Boa noite, meninas.Toca a sair, que a noite não está para demoras, - disse o gerente, agarrando na caixa que estava em cima do balcão.
As duas jovens encaminharam-se para a porta, pegaram os guarda-chuvas que aí se encontravam e abriram a porta.
- Até segunda. Bom fim-de-semana.
-Igualmente. – Respondeu-lhes o chefe, fechando a porta atrás delas.
As duas ficaram por momentos sob a placa de cimento que protegia a porta da clínica. Salvador estava mesmo em frente à porta. Anete disse:
- Não saias daqui. Vou pedir ao Salvador para te levar à paragem.
Deu uma corrida, e meteu-se no carro
- Boa noite, - disse saudando-o com um breve beijo na face. – Importas-te de levar a Diana até à paragem do autocarro?
- Claro que não.
Ela abriu a janela e fez sinal à jovem que imediatamente correu para o carro e se introduziu nele pela porta de trás.
- Obrigada. Está um tempo horrível, - disse. A minha paragem é já ali à frente.
- Salvador, esta é Diana, a minha colega. Uma amiga que me tem facilitado muito a vida, no emprego.
Salvador virou-se para trás e estendeu-lhe a mão com um sorriso
- Encantado. - Logo se voltou para a frente e pôs o veículo a trabalhar. É melhor avançar. O trânsito está uma loucura.
Rodou devagar até que a uns cem metros, parou junto à paragem.
- Obrigado Salvador. Até segunda, Anete. Bom fim-de-semana.
E sem esperar resposta, Diana saiu a correr para debaixo da proteção da paragem.
- Mora longe a tua amiga?
- Odivelas. O que lhe vale é que tem a paragem do autocarro mesmo à porta.  – E mudando de assunto,- não te esperava. Não disseste nada em toda a semana.
- Tive uma semana complicada. E tu?
- As minhas, há muito tempo, deixaram de ser complicadas. A grande revolução na minha vida, foi mesmo a descoberta da minha verdadeira identidade.
- E o divórcio não? Perguntou sem desviar os olhos da estrada, tentando não parecer interessado.
- Convido-te para jantar. Gostas de bifes com natas e cogumelos?
-Gosto de bifes de qualquer maneira, - disse enquanto pensava que ela tinha uma habilidade especial em fugir do assunto, quando se tratava de falar no divórcio.



25.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXIX



Chovia intensamente. Como sempre que chovia, o trânsito na cidade ficava ainda mais caótico. De pé, junto à janela do seu escritório, Salvador, observava as poucas pessoas que passavam na rua, chapéus-de-chuva vergados à chuva e ao vento. Tinha acabado de elaborar um contrato social, para abertura de uma nova empresa. Depois de verificar se tinha inserido todas as cláusulas que os dois sócios tinham acordado na reunião que tinham tido, dois dias atrás, passou o documento para Raquel fotocopiar. 
Era sexta-feira, a sua semana de trabalho chegara ao fim. Finalmente um dia em que não precisara de ficar a trabalhar até mais tarde. Estava a chegar ao fim do mês, tinha que dar uma resposta a Santiago. E já tinha decidido. Ele sempre trabalhara sozinho. Nunca tivera um estagiário, que lhe ajudasse. Na sociedade iam tê-los. Ia ser melhor para ele. Também os próprios advogados da sociedade, podiam intercalar ajudas. Precisava com urgência de acalmar o ritmo de trabalho. Só precisava resolver com Santiago, a situação laboral de Raquel. Estava na firma, há quase trinta anos, sabia de olhos fechados tudo o que dizia respeito à sua profissão. Tinha que continuar como sua secretária, era uma mais-valia de que não podia abdicar.
Olhou o relógio. Quatro horas da tarde, mas o tempo escuro e chuvoso antecipara a noite que naqueles dias pequenos de aproximação ao inverno, já chega cedo. Pensou em Anete, e na distância que ela tinha que percorrer até casa. De súbito sentiu uma vontade enorme de a ver. Não tinha sabido nada dela em toda a semana. Mas sentira saudades. Algumas vezes chegou a pegar no telemóvel para lhe ligar. Acabou  desistindo. Não gostava de utilizar o telefone nos seus contactos pessoais. Ele gostava de falar com as pessoas cara-a-cara, observando as suas reações.
Podia ir buscá-la. Da clínica até à paragem do metro era um bom bocado. Com aquele tempo ficaria encharcada. A menos que tivesse levado o carro, mas ela dissera-lhe que não se atreveria a conduzir em Lisboa, pelo menos por enquanto. Estava decidido. Ia buscá-la e talvez ela quisesse jantar com ele. A noite estava desagradável, mas podiam jantar em casa. Conversar.
Ele gostava de falar com ela. Era uma boa ouvinte, coisa rara nas mulheres que conhecera nos últimos anos. Recolheu alguns documentos da secretária e meteu-os no cofre. Desligou o computador, vestiu o casaco, apagou a luz e saiu.
- Já acabaste, Raquel?
- Ainda não.
-Vou sair. Quando acabares fecha tudo e podes ir. Até segunda.
- Até segunda, Salvador. Bom fim-de-semana.
Conduziu com cuidado. Os carros rodavam numa marcha lenta no piso molhado. Em algumas ruas a água era tanta que não se via a estrada. Ainda assim conseguiu chegar à porta da clínica faltavam cinco minutos para a saída da jovem.
Pegou no telemóvel...

19.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE X


                                                       O Argus

Nos primeiros dias de Janeiro, Piedade regressa à terra. Na bagagem levava a lembrança da cidade grande, e do imenso mar, que a rodeava.
A safra do bacalhau termina a 23 de Fevereiro, e o pessoal volta à terra, nesse ano com menos dinheiro, que o Inverno foi chuvoso, e quando chovia, não se trabalhava. Naquele tempo as estufas ou seca artificial, ainda não funcionavam, e se chovia não se podia estender o bacalhau na rua. Então o pessoal ficava nas "maltas" sem trabalhar e sem ganhar, mas como é evidente tinham que comer, e lá se iam as migalhas amealhadas. Quando os navios vinham carregados, o trabalho estendia-se por todo o mês de Março e às vezes princípio de Abril.
Quando os navios chegavam, o primeiro trabalho, era fazer a descarga, trazendo o bacalhau para terra. Os navios precisavam ficar vazios, para se proceder à limpeza, e reparação quando necessária.
 Depois eram vistoriados e reparados os dóris, pequenos barcos a remos que na seca, chamávamos de botes, pois naquele tempo, a pesca era feita à linha, do seguinte modo. Quando o navio mãe, chegava aos bancos de bacalhau da Terra Nova ou Gronelândia, fundeava, desciam-se os pequenos botes para o mar, já com um homem dentro, pois a pesca era feita assim, cada bote um homem. E cada homem começava a pescar no seu pequeno bote, com uma linha cheia de anzóis e iscas. Quando o bote ficava cheio, ele remava até ao barco para descarregar e voltava à pesca. Horas e horas seguidas, sem descanso, que havia que aproveitar o tempo quando ele dava, pois de um momento para o outro se levantava a "borrasca" e tinham que regressar ao navio, sob pena de o bote ser engolido pelas ondas que a "borrasca " levantava
Um bote em más condições, era a diferença entre a vida e a morte, nos mares gélidos do norte.
Por isso o trabalho de descarga do navio, era essencial, quanto mais rápido melhor. E a Seca tinha naquela altura quatro navios. O Crioula, que muitos anos mais tarde foi transformado em navio escola, e pertence à Marinha Portuguesa. O Argus, um escuna de quatro mastros, que na década de cinquenta, seria imortalizado por Alan Viliers, o grande escritor e navegador australiano, que fez nele, uma viagem aos bancos de bacalhau,  o Hortense, um lugre de três mastros, e o Gazela, um lugre-patacho de três mastros, por muitos considerado o mais belo barco bacalhoeiro de sempre. A descarga era feita navio, a navio. Só depois que um ficava completamente vazio se passava para outro. E era feita assim.
De manhã uma lancha com algumas mulheres ia para bordo do navio. Lá, se dividiam, umas desciam ao porão, para apanharem o bacalhau, e o mandarem para o convés, onde outras o apanhavam e atiravam para a lancha que o levava até à ponte de madeira, onde outras mulheres o tiravam da lancha e o passavam de mão em mão pelos degraus, até uma "zorra" (1) que quando cheia, era empurrada por carris para terra. Aí era pesada, e de novo empurrada até às grandes câmaras frigoríficas onde era empilhado.
Por vezes este trabalho era feito debaixo de chuva intensa.



1) Zorra, era o nome que dávamos a uma grande caixa metálica com rodas semelhantes às dos comboios, que se deslocava em carris metálicos, empurrada pela força de duas mulheres.