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19.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XL




A refeição decorrera em silêncio, e chegara ao fim, quando o telemóvel tocou.
- Desculpa-me - disse Luísa levantando-se e pegando no telemóvel. – É a dona Aurora, esposa do médico. Deve ser algo importante, vou atender.
-Estou…
- Boa tarde. Luísa, ligue a televisão e veja as notícias. É muito importante, penso que estão a falar do homem que a Luísa salvou naquela noite.
- Vou já ver. Muito obrigado por ter ligado. Mais tarde telefono.
Desligou o telemóvel e disse dirigindo-se para a sala:
- Vem. Parece que estão a falar de ti no noticiário.
Ligou a televisão. Estava no intervalo. Sentaram-se e esperaram que acabasse a publicidade.
Logo de seguida, apareceu no ecrã o rosto de um conhecido jornalista.
“E agora voltamos ao caso do escritor Gil Gaspar e ao seu misterioso desaparecimento, na noite da tempestade Júlia, quando se dirigia da Universidade do Minho, onde dera uma conferência, para a sua residência nos arredores de Lisboa.
Inicialmente a família e a polícia suspeitaram de rapto, Todavia essas suspeitas iniciais, foram postas de parte pela judiciária à medida que os dias passavam sem que surgisse um pedido de resgate. E embora a família dissesse que ele regressava pela A1, a operadora do seu telemóvel tinha o último  registo do sinal do seu telemóvel na IP3, a alguns quilómetros de Penacova. Não se sabe, se o escritor saiu da autoestrada, enganado pela quase total falta de visibilidade, ou se teria pensado pernoitar nesta vila até que a tempestade passasse. O que se sabe é que ele desapareceu algures antes de chegar a Penacova. 
Até hoje, as investigações da polícia encontravam-se num impasse, já que não havia registo de nenhum acidente naquela noite, nem na autoestrada, nem no IP3."
Luísa ouviu um gemido e ao voltar-se viu que Gil se dobrara para a frente apertando a cabeça nas mãos trementes.
- Que se passa? Meu Deus, estás a tremer. Sentes-te mal?
- É a minha cabeça. São milhares de imagens a passarem por mim tão rápidas que algumas nem consigo ver bem. E a dor de cabeça voltou. Horrível, como se alguma coisa esteja a explodir cá dentro.
-Vou buscar um Benuron. Queres que tire o som à televisão?
- Não. Temos que ouvir o resto. Meu Deus, o bebé que estava sempre a  aparecer na minha cabeça, é a minha filha Mariana.
Entretanto o locutor informava agora que a polícia recebera nessa manhã um telefonema de um homem que costumava pescar no Mondego, e que encontrara um carro Mercedes preto espatifado lá no fundo da ravina, bem perto do rio. A polícia já informara a família que o carro era o do escritor. Encontrava-se de porta aberta, e tinha no porta luvas a carteira com dinheiro e documentos, e caído junto aos pedais, encontrava-se o seu telemóvel, desligado e sem bateria. Do escritor não havia rasto, a polícia suspeitava que pudesse ter saído atordoado, ou ter sido projetado e caído no rio, pelo que no local já se encontrava uma equipa de mergulhadores.
"Um nosso repórter também já se encontra no local, e entraremos em contacto com ele após mais um breve intervalo de apenas trinta segundos." – disse o jornalista e logo a emissão deu lugar à publicidade.
Luísa foi à cozinha e trouxe um copo de água e um comprimido, que lhe estendeu em silêncio.
- Não é preciso, obrigado. Já vai passando. Meu Deus a minha família deve estar numa aflição. A quantos estamos hoje?



Nota: Para quem não leu ontem, chamo a atenção para o post informação publicado à tardinha.


17.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXIX




- Chegou a hora de me despedir!
Ela estremeceu e largou o pincel. 
Aquela frase, foi como uma faca rasgando-lhe o peito apesar de não ser de todo inesperada.
Desde a véspera, que Luísa sentia a luta que ele travava consigo mesmo, e intuía que a sua partida estava eminente. 
Uma semana se passara, desde aquela terrível noite de tempestade, em que ele chegara meio morto à sua porta. 
Sete dias de convívio diário que  mudaram  a sua vida para sempre. 
Inicialmente cuidara daquele homem, pois ele estava meio inconsciente e completamente vulnerável. Faria o mesmo com qualquer outro ser humano que necessitasse, fosse criança, ou idoso, ou até  mesmo por um animal, (afinal fora assim que ganhara a companhia de Tejo, quando o encontrara abandonado, maltratado e meio morto de fome).
Porém desde o primeiro momento em que ele recuperou a consciência, ela sentiu a forte atração que os uniu. Há muitos anos que se tinha imposto a si mesma uma vida de solidão e até então, nunca se tinha sentido infeliz com essa opção. Porém tudo mudou depois que ele chegou. Era  um homem muito atraente, mas era também educado, simpático, e adivinhava-se carinhoso, pela maneira com que a tratava. 
E embora sabendo que era uma loucura, o desejo de o ter mais tempo consigo, foi crescendo, hora a hora. Sabia que de um momento para o outro, ele podia recuperar a memória, e partir. E ela não era tão egoísta  que desejasse o contrário, mas sim, desejava que não partisse enquanto a atual situação se mantivesse.
  Por isso, para o reter, lhe tinha pedido para posar para ela, e tinha começado a pintar o seu retrato havia três dias. Era como se através do quadro, pudesse perpetuar a sua presença junto dela. Se acreditasse em amor à primeira vista, diria que se tinha apaixonado por ele desde o primeiro momento. Ou talvez fosse apenas atração sexual.  Afinal há mais de doze anos que não sentia o carinho de umas mãos de homem acariciando o seu corpo. Todavia  desde a véspera, ela sentia que a sua partida estava eminente.
- Mas para quê partir, se não sabes para onde? Ou já te lembraste de alguma coisa?
- Não, de vez em quando passam-me imagens rápidas pela cabeça, como se
 fossem flashes fotográficos. Há uma em especial que surge muitas vezes. É um bebé, e sinto que há uma relação forte comigo, mas não consigo lembrar de mais nada.
- Provavelmente, as tuas memórias a quererem voltar à superfície. Mas então porque não ficas mais um dia ou dois? Pode ser que, entretanto, te recordes de tudo.
-Não posso, Luísa. Somos ambos, adultos o suficiente, para nos darmos conta da atração que exercemos um sobre o outro. Por vezes a tensão sexual entre nós é tão grande que quase pega fogo ao espaço que nos rodeia. Ou pelo menos é o que eu sinto, e, creio não me enganar, ao pensar que tu sentes o mesmo. Agora mesmo leio no teu olhar, o mesmo desejo que me consome e não posso nem devo pagar dessa maneira a tua generosidade. Não esqueço que se estou vivo a ti to devo, e eu nem sequer sei se sou um homem livre.
-Compreendo, - disse ela voltando os olhos para a tela, o coração dividido entre a dor que a invadia, pela partida eminente e a alegria de saber que os seus sentimentos eram igualmente sentidos por ele. E sentiu uma enorme tristeza, ao  pensar que em qualquer parte do país, poderia haver outra mulher que estaria em sofrimento, sem saber o que lhe tinha acontecido. 
- E quando pensas partir? - perguntou com voz tremente. 
- Logo após o almoço. Quantos quilómetros são daqui à vila? – perguntou.
- Penacova, fica a pouco mais de três quilómetros. Mas o que vais fazer quando lá chegares?
- Ainda não sei. Mas suponho que se me dirigir ao posto policial, de algum modo a polícia me poderá ajudar.
- Bom, então será melhor que eu vá tratar do almoço. Deixa-me só lavar os pincéis.


31.1.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXIII


A tarde já ia a meio quando o clínico estacionou junto da cerca que rodeava a casa. Há mais de duas horas que parara de chover, e o vento acalmara bastante, soprando agora com pouca intensidade. A tempestade passara, mas demoraria ainda algum tempo até que os seus efeitos no rio, nas árvores arrancadas pela raiz e nas casas destelhadas desaparecessem.
-Boa tarde, doutor, - saudou Luísa ao abrir a porta ao médico.
-Boa tarde Luísa. Peço desculpa pela demora, mas tive que ver dois doentes de última hora. Onde está o doente?
-Por aqui doutor - disse encaminhando o médico para o quarto.
O homem agitava-se febril apesar do antipirético que tinha tomado ainda não havia quatro horas. Depois de um rápido olhar ao doente, o clínico perguntou:
-O que lhe aconteceu? Há quanto tempo está assim?
Não sei doutor. Era quase uma da manhã quando o Tejo começou a arranhar a porta e a ladrar aflitivamente. Fui ver o que se passava, e encontrei-o meio inconsciente à entrada da cerca.
-Não pensou chamar uma ambulância e mandá-lo para o hospital?
- Não me ocorreu, só pensei que precisava de um banho e uma bebida quente. Hoje disse-lhe que ia fazer isso e ele suplicou-me angustiado que não o mandasse para o hospital.
- Muito bem, vou examiná-lo.
- Obrigado. Aguardo lá fora, se for necessário alguma coisa basta chamar.
Saiu do quarto fechando a porta atrás de si. Não soube quanto tempo esperou até que o médico saiu, mas a espera pareceu-lhe interminável. Uma vez na sala, o médico disse:
- Parece tratar-se de um estado gripal, mas continuo a pensar que devia ir para o hospital. Lá lhe fariam exames para despistagem de outro tipo de problemas, coisa que eu não lhe posso fazer aqui.
-Será que a gripe foi causada pela tempestade de ontem? Quando o encontrei estava gelado e encharcado.
- Não Luísa, a gripe como deve saber é transmitida por um vírus. O que aconteceu ontem podia ter-lhe provocado hipotermia e matá-lo de frio, ou provocar-lhe um resfriado, mas não lhe causaria a gripe.  A chuva, o frio e mais do que isso, a exaustão, podem sim ter acelerado a progressão do vírus que ele já teria em incubação. E então minha amiga, chamo a ambulância?
- Não sei doutor, não podia medicá-lo e aguardávamos até amanhã, para ver se melhorava? Parece ter pavor do hospital, fez-me prometer que não o mandaria para lá.
- Muito bem, vou aviar a receita e  trago-a cá, já que não convém a Luísa, deixá-lo aqui sozinho. Quando eu voltar, vai seguir à riscas o que lhe digo, e amanhã volto a observá-lo. Se melhorar pode continuar o tratamento, aqui em casa, mas caso contrário eu mesmo chamo imediatamente a ambulância. Nunca se sabe quando não está uma pneumonia em desenvolvimento atrás de uma gripe. Também devo avisá-la de que o vírus da gripe é altamente contagioso. E pode já estar contagiada.
- Nunca tive gripe, nem quando há três anos o meu irmão, esteve aqui bastante mal e fui eu que cuidei dele, como o doutor decerto se lembrará.
- Já não me recordava dessa gripe do seu irmão. Mas não se deve fiar muito nisso. O organismo nem sempre tem as mesmas defesas. Então já sabe, siga à risca as instruções que lhe dei nessa altura. Vou à farmácia e volto já com os medicamentos.



24.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXX


- Já não chama. Ou ele desligou o telemóvel, ou ficou sem bateria – disse Marco.
- Nem uma coisa nem outra - disse Laura com voz trémula, esforçando-se para não chorar. - O Gil nunca faria isso. Ele mantinha-se sempre em contacto com a casa desde que a filha nasceu. Meu Deus deve ter tido algum acidente, esta maldita tempestade…
- Não nos precipitemos, o melhor que podemos fazer agora, é irmos à polícia - disse Alcides. Se ele teve algum acidente, eles têm o registo e podemos saber para que hospital foi levado. Posso ir sozinho, ou vamos todos.
- Vamos todos, claro – respondeu Marco.
- Esperem só dois minutos enquanto vou buscar um casaco e calçar uns sapatos – disse Laura dirigindo-se apressada para o quarto.
Meia hora depois estavam no posto de polícia onde um agente depois de os ter ouvido, verificava no computador, se havia algum registo de acidentes durante a noite na autoestrada do Norte.  A tempestade tinha fustigado a Península Ibérica, atingindo a maior intensidade entre a meia noite e as cinco da manhã desde a Galiza até Coimbra. Havia registos de muitas árvores arrancadas, casas destelhadas, rios que galgaram as margens inundando habitações ribeirinhas, mas não havia nenhum registo de acidente na estrada.
- Mas o meu irmão telefonou a dizer que vinha na autoestrada a caminho de casa e não chegou.
-Talvez se tenha apercebido que não podia continuar e tenha pernoitado em algum hotel, - disse o agente.
-Não há hotéis na autoestrada – insistiu Laura.
- Mas há saídas para as localidades.O mais natural é que tenha saído e esteja nalgum hotel, à espera de que passe a tempestade, que apesar de já ter tido, o seu pico máximo de intensidade, ainda está bastante forte lá para o Norte.
 Foi a vez de Marco afirmar:
-Teria telefonado.
-Se conseguisse. Há muitas localidades sem eletricidade, nem telefone. O telemóvel pode ter ficado sem bateria e não haver eletricidade para o carregar. De qualquer modo não posso ajudá-los mais. Aconselho-os a irem para casa e aguardarem, ele pode dar notícias a qualquer momento, - disse-lhes o polícia.
Alcides tirou da carteira um cartão e entregou-o ao agente dizendo:
- Por favor se chegar algum registo de acidente, telefone-me.
Saíram da esquadra e entraram no automóvel para regressarem a casa.
-Laura, porque não telefonas à Celeste? Pode ser que o Gil já tenha dado notícias – disse Alcides.
- Não acredito. A Celeste teria telefonado para mim, imediatamente. Sabe que fiquei muito preocupada.
- De qualquer modo não se perde nada em tentar - disse Marco ao mesmo tempo que marcava o número da casa do irmão
Ao terceiro toque Celeste atendeu:
- Residência do senhor Gil Gaspar, bom dia.
- Bom dia, Celeste, fala o Marco. O meu irmão já deu notícias?
- Não senhor. Não disse nada desde ontem à noite. Estamos todas muito preocupadas.
- Estivemos na polícia e não há registo de acidentes na autoestrada. O tempo está muito mau, talvez esteja à espera que melhore. Entretanto se ele telefonar ligue-nos logo.
-Fique descansado, senhor Marco.


22.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXIX


- Estou…
- Menina Laura?
- Sim. Aconteceu alguma coisa, Celeste? – perguntou ao reconhecer a voz da governanta do seu irmão.
- Não sabemos, menina. O senhor telefonou ontem, pouco depois das dez da noite, a perguntar como estava a filha, disse que estava a caminho, mas até agora não apareceu, nem voltou a ligar. Estamos muito preocupadas, tanto mais que a menina Mariana se mostra muito nervosa esta manhã. Talvez estranhe a ausência do pai.
Laura olhou o relógio. Faltava um quarto para o meio dia. Ficou preocupada. O seu irmão não estaria tantas horas sem telefonar para casa.
- Obrigada por ter ligado, Celeste. Vou ver se entro em contacto com ele. Com esta tempestade, deve ter parado em algum hotel para dormir – disse sem grande convicção, tentando acalmar as empregadas.
 De seguida, marcou o número do telemóvel do irmão, que tocou durante muito tempo, sem que ninguém atendesse.
“Acalma-te, pode estar no banho, não ouvir o telemóvel” - murmurou para si mesma. Esperou cinco minutos e voltou a ligar com o mesmo resultado.  Cada vez mais nervosa, ligou para a loja do seu irmão Marco. Foi Isabel, a cunhada quem atendeu a chamada.
- Isabel, o Marco está aí? – perguntou. Preciso falar com ele.
- Está no armazém. Espera um momento que vou chamá-lo.
Pouco depois, Marco atendia a chamada.
- Estou…
-Marco sabes alguma coisa do Gil?
-Não porquê? Aconteceu alguma coisa? – perguntou em sobressalto.
-A verdade é que não sabemos. Sabias que ele ia estar ontem na Universidade do Minho, não é verdade?
- Sim, disse-me no domingo quando foi almoçar lá a casa.
- Recebi um telefonema da Celeste muito preocupada. Ele telefonou ontem à noite,depois das dez horas,  para saber como estava a Mariana e disse que estava a caminho. Não chegou, nem voltou a dar notícias, e não atende o telefone. Estou em pânico.
- Meu Deus, Estás em casa? Sim? Vou já para aí. Telefona ao Alcides, vê se ele pode ajudar-nos.
Laura, telefonou ao noivo, e contou-lhe o que se passava. Ele disse que estaria em sua casa dentro de dez minutos, e ela desligou o telemóvel e deixou-se cair no sofá em soluços. Tinha a certeza de que alguma coisa de muito grave tinha acontecido ao irmão. Gil era o homem mais responsável que ela conhecera em toda a vida, adorava a filha e mesmo quando viajava para o estrangeiro, estava sempre em contacto e fazia chamadas de vídeo para ver e falar com a filha.
Minutos depois a campainha tocava. Foi abrir. Era Marco. Abraçou-a carinhosamente e entrou. Ela ia fechar a porta quando Alcides saiu do elevador. Deu-lhe um beijo e entrou em casa. Cumprimentou o futuro cunhado e os três dirigiram-se à sala.
Laura, repetiu palavra por palavra, o que Celeste lhe dissera. Enquanto a ouvia, Marco marcava o número do irmão que chamou imenso tempo até ouvir a mensagem do gravador. Uns minutos depois voltava a ligar e ouviu de imediato a gravação de que o número não estava disponível. Repetiu a chamada e aconteceu o mesmo.


15.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXVI



Apesar da hora tardia a que se deitara, Luísa acordou cedo. Estava preocupada com o desconhecido. Será que ainda dormia? Tinha chegado tão exausto e ferido.
 Foi até à janela e correu a persiana. Lá fora a tempestade continuava. Se o vento já não soprava em rajadas tão intensas, a chuva continuava diluviana, e o caudal do rio tinha subido bastante. Felizmente embora a sua casa estivesse no vale, estava suficientemente afastada para não ser afetada. Abriu o armário e retirou umas calças de fazenda bege e uma camisola de gola alta branca. Com as peças na mão, abriu a gaveta da cómoda para retirar um conjunto de roupa interior, quando a porta do quarto se abriu, e o desconhecido falou:
- Desculpe... procuro a casa de banho…
- Segunda porta à esquerda.
Ele murmurou um obrigado e fechou a porta. Luísa foi até lá e correu o fecho interior. Deu graças porque o seu quarto tinha casa de banho e assim não precisaria esperar para tomar o seu duche.
Depois do banho e já vestida olhou-se ao espelho. Era uma mulher alta e magra, cabelos e olhos castanhos, testa alta, pele morena e boca pequena. Não era uma mulher bonita, sabia-o desde menina, mas isso não impediu que se tivesse apaixonado perdidamente por um cafajeste, que lhe ensinou a arte do amor.
Recordou Jorge Silveira, o único homem que amou na vida. Ela tinha terminado os estudos e fora de férias para casa de uma amiga em Albufeira. Era verão, tempo de calor, sol, praia e namoricos. Ela era uma jovem ingénua e sonhadora, ansiosa por conhecer e experimentar as delícias do amor.  A mãe morrera de cancro quando ela mal começara a andar e dois anos depois o pai casara-se de novo. A madrasta era uma boa pessoa, mas não era uma mulher muito carinhosa, ou talvez não o fosse só com ela, porque era a prova viva de que o marido, tinha amado outra mulher antes dela. Quando Luísa fizera dez anos a madrasta soube enfim que ia ser mãe. Ela lembrava-se da ansiedade com que esperou aquele bebé. Mas quando ele nasceu, a madrasta tornou-se ainda mais indiferente com ela, e o pai só tinha olhos para o menino que sempre desejara, e que a primeira mulher não lhe soubera dar. Luísa, podia ter odiado o irmão, que lhe usurpara o pouco carinho que até ali recebera, mas em vez disso, amou o irmão com toda a intensidade do seu pequeno e carente coração. Dedicava-lhe todo o tempo que não estava na escola, e foi ela que lhe ensinou as primeiras palavras.
Faminta de carinho, Luísa foi presa fácil das bonitas e enganadoras juras de amor de Jorge. Findas as férias, e como ambos viviam em Lisboa, o romance continuou e pelo Natal, Jorge chegara mesmo ao desplante de a pedir em casamento, esquecendo-se claro de lhe dizer, que tinha outra namorada e que até já tinha um filho de dois anos. Quando a outra moça a procurara desesperada, Luísa ficara sem chão, a vida deixara de lhe importar, perdera a vontade de viver. Fora nessa altura, que recebera uma carta de um advogado. A sua madrinha morrera Luísa nem sequer  a conhecera, mas que segundo a carta que o causídico lhe entregara, quando respondendo à sua convocatória, Luísa se apresentara no seu escritório, tinha sido grande amiga da sua mãe,  e deixara-lhe aquela casa e um bom dinheiro. O pai aconselhou-lhe a vender a casa, ela era uma menina da cidade, não se habituaria a viver naquele sítio tão isolado. Não o fez. Aquela era a grande oportunidade de se afastar, e esquecer uma vida em que nunca fora feliz. A única coisa que lhe doía, era separar-se de António, o irmão que amava de todo o coração, mas prometera que viria buscá-lo para passarem juntos as férias da Páscoa e parte das férias do Verão.


4.12.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR. - PARTE XXII




Estava-se de novo em Dezembro, o ano tinha passado a correr, dentro de dias Mariana comemorava o seu primeiro aniversário.
Gil tinha sido convidado para dar uma conferência na Universidade do Minho, evento que acontecia naquela tarde de Sexta-feira, dia quatro de Dezembro. E que como todas as que já dera estava a ser muito participativa, apesar da tempestade que assolava o país.
Mais tarde foi rodeado pelos alunos que queriam autógrafos e saber qual era a sua opinião em relação às novas tecnologias na escrita. Acreditava ou não que os livros em papel iam desaparecer no futuro. E não seria isso bom para o planeta sabendo-se que muitas árvores precisam ser arrancadas para escrever os livros. Gil não acreditava no fim do livro em papel por duas razões. Embora considerando que é muito mais prático transportar para qualquer lado uma biblioteca no Smartphone, do que andar com os livros atrás, não dá o mesmo prazer sentar-se num sofá a ler um livro em papel do que no telemóvel. Além de ser muito mais cómodo, para o corpo e para os olhos. Depois as baterias dos Smartphones, Tablets, e afins, causam muito maior impacto ambiental, do que o abate de algumas árvores, que podem ser substituídas em poucos anos. Sem falar que haverá sempre sítios no mundo onde muito dificilmente chegará algum dia a Internet.
Mais tarde foi convidado para o jantar e já passava das dez quando entrou no carro disposto a fazer a viagem de regresso ainda nesse dia.
O temporal continuava sem dar tréguas, o vento soprava forte, fazendo perigar a estabilidade do veículo e a chuva era tão forte que formava uma espécie de nevoeiro que cortava toda a visibilidade. Gil tinha os olhos a arder do esforço que fazia na tentativa de ver alguma coisa, e arrependia-se de não ter passado a noite num hotel, em vez de estar a viajar naquelas condições.
Ele não sabia se havia algum carro à sua frente ou atrás de si tão intensa era a chuva e tão fraca a visibilidade. Por isso o receio de acelerar e provocar um acidente, era o igual ao de diminuir a marcha. Não podia fazer nada mais do que manter-se assim e esperar que à medida que os quilómetros fossem percorridos a tempestade não fosse tão intensa.
De súbito, um relâmpago iluminou tudo à sua volta e Gil apercebeu-se de uma árvore caída para a estrada uns metros mais à frente, tentou travar, mas o carro derrapou, e ele perdeu o controle do mesmo. O automóvel deu umas duas voltas na estrada como se fora um pião e de súbito as rodas da frente deixaram de ter apoio e o carro mergulhou no vazio. Gil mal teve tempo de desapertar o cinto de segurança, abrir a porta e saltar. O corpo rolou entre pedras e ramos de árvores, enquanto ouvia um enorme estrondo que lhe deu a certeza de que o carro tinha embatido em qualquer coisa, talvez uma rocha.
A noite estava escura como breu, a chuva e o vento fustigavam-no.
Pôs-se de pé. Tinha que chegar à estrada, talvez algum carro o conseguisse ver. Mesmo que assim não fosse não podia ficar parado. Tinha que se movimentar. Porém dera apenas dois passos quando perdeu o equilíbrio. Sentiu-se a rolar pelo declive, entre pedras e ramos que lhe rasgavam a carne. De súbito, o corpo parou, a cabeça embatendo numa pedra maior provocando-lhe uma insuportável explosão de dor. Teve um último pensamento para a sua filhinha, e, mergulhou na escuridão.



Fim da 1ª parte



Bom amigos, aqui termina esta história, ou não. Ou seja, eu posso escrever ali apenas a palavra fim, e, cada um imagina e decide se o Gil morreu, ou se alguém se apercebeu do acidente e chamou socorro. Ou posso escrever, fim da primeira parte, e, continuar a história em Janeiro. Vocês decidem. O resto deste mês terão aqui todos os dias histórias de Natal.

30.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XIX

Apertou fortemente a mão que o médico lhe estendia, e dirigiu-se à porta. Subitamente, a imagem daquele jovem alto e magro, de uma palidez extrema, que encontrara na primeira consulta, surgiu na sua memória. Voltou-se e perguntou:
- Diga-me Doutor, o doente era um jovem alto, magro, de grandes olheiras, e mãos trementes?
- Como o sabe? - interrogou o médico por sua vez.
Não respondeu. Fez um gesto indefinido com a mão, voltou-se e saiu. Na rua, dirigiu-se para casa, e enquanto uma ligeira brisa lhe acariciava o rosto, deixou que as lágrimas lhe aflorassem aos olhos, sem qualquer espécie de preconceito.

Depois de algumas voltas pela rua, para se acalmar, Pedro entrou em casa. A figura franzina da mãe, saiu da cozinha, e veio ao seu encontro.
- Até que enfim, filho. O jantar está pronto há mais de uma hora
Agarrou na mão do filho e perguntou alarmada:
- Que se passa? Estás a tremer.
Levando-a pela mão, conduziu-a à sala, fazendo com que se sentasse no sofá.
 – Deixe lá o jantar, minha mãe. Preciso contar-lhe tudo o que me atormentou nos últimos meses. Mas antes quero que me prometa, que não vai ficar aflita. Com a Graça de Deus, já tudo passou - disse sentando-se ao seu lado e segurando a mão da mãe entre as suas.
- Filho...
Havia um tal temor na voz da progenitora, que ele acrescentou:
- Não fique assim. Ou então não lhe conto nada. Não há nada a temer, agora tudo está bem.

E então o jovem falou. Contou tudo, desde a primeira consulta, as análises e do diagnóstico  médico, falou da sua dor, da raiva e da revolta contra o seu destino, do medo de a deixar sozinha, de se ter despedido do emprego, da viagem para casa da tia, pensando que assim ela não assistiria ao seu sofrimento, da chegada às Termas,  de como conhecera Rita, de quanto a amava, da maneira como fugira da casa da tia, para não ter que contar à jovem que não podia assumir um compromisso porque podia morrer de um momento para o outro. Falou-lhe do desespero que sentia, até porque cada dia se sentia melhor, e da sua decisão de voltar ao médico para fazer novos exames, coisa que fizera nessa mesma tarde. Por fim contou a conversa com o médico, as análises trocadas, e de como se sentia feliz, apesar de sentir pena daquele jovem que só vira uma vez e que morrera tão novo.   A mãe ouvia-o, e as lágrimas corriam silenciosas pelas suas faces enrugadas, enquanto os pensamentos se lhe atropelavam no cérebro. Pobre filho, quanto sofrimento, e ela, que raio de mãe era ela, que não fora capaz de descobrir nada de grave na sua súbita decisão de mudar de ares? Por fim a voz do filho silenciou. Ela abraçou-o com força, e o soluço que estivera preso no seu peito irrompeu, sonoro como trovão em tempestade de Verão.
- Então, mãe acalme-se. Compreende agora que eu tenha de viajar amanhã cedinho para as Termas? A Rita vai-se embora no Domingo. E eu amo-a mãe. Não quero perdê-la.
E depositando um beijo na testa da mãe, acrescentou:
-Tenho a sensação dona Maria, que a senhora vai ter a nora que há tanto tempo me pede.



9.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE LI


Encostou-se mais a ele, o corpo tremendo, mais de ansiedade que de medo. Insistiu
- Não te atormentes mais, nem me tortures. Deixa de lutar contra fantasmas que só existem na tua cabeça.  Eu sou real, e o meu amor por ti, é tão real, quanto esta tempestade.
 Segurou-lhe o rosto entre as mãos, e aproximou o seu do rosto dele, até quase se tocarem. Insistiu:
- Beija-me. Agora. Ou não te perdoarei nunca.
Incapaz de resistir, por mais tempo, ele obedeceu.
E, tal como um rio, que no auge da tempestade, galga  margens e arrasta tudo à sua passagem, assim o beijo que os uniu, despoletou tal paixão, que destruiu  medos e inseguranças, deixando apenas um homem e uma mulher que se amavam, e se entregavam às primícias desse amor.
Lá fora chovia torrencialmente. Aos poucos a tempestade afastava-se, e a trovoada, ficava cada vez mais distante.
Mais tarde, quando a luz voltou, ela sussurrou:
Tens fome?
-Só de ti, - respondeu ele com paixão
Ela riu baixinho. E de novo as bocas se procuraram ansiosas, as mãos  se perderam nervosas, em carícias  delirantes,  e os corpos se envolveram na ancestral dança do amor.





************************************** - EPÍLOGO -******************************** 



Já se passaram mais de quatro anos, desde aquela noite de Dezembro.   Tempo em que muita coisa aconteceu na vida dos dois protagonistas desta história. 
Mariana recuperou os seus documentos, bem como a chave da sua casa.Continuou com as sessões de psicoterapia, durante algum tempo, até interiorizar que o sentimento de culpa, que quase a endoidecera, não tinha razão de ser.
 Casaram numa manhã de sol,no início da primavera. Numa cerimónia, simples e íntima, na presença de Luísa, da filha e do namorado desta, e de alguns amigos do noivo.
 Mariana, voltou à universidade e terminou o curso. Por seu lado, Miguel era cada dia mais respeitado por público, e críticos. O seu quadro,  " Folha em branco"., que retratava Mariana, naquele dia, entre a vegetação da falésia, tal como ele a vira, fizera o maior sucesso, e fora alvo de vários estudos, e muitas ofertas, mas Miguel não o vendeu. Tinha lugar de destaque na sua sala.  
Tinham vivido na casa dela, enquanto remodelavam aquele apartamento, e quando as 
acabaram voltaram para ali, e venderam a outra casa.
Mantinham Luísa como empregada. E Maria continuava a ser, a  sua melhor amiga, embora ela tivesse recuperado a antiga amizade de algumas colegas da Universidade.
Mariana estava cada dia mais bela, mais mulher, mais madura.
Irradiava felicidade.
Por vezes, ao olhá-la, voltava a insegurança de Miguel, o temor de a perder, o medo de que a jovem o trocasse por alguém da sua idade. Tinha esse medo enraizado no peito, muito embora lutasse contra isso todos os dias. Mas às vezes, era maior que as suas forças. Ensombrava-se-lhe o rosto, entristecia-se-lhe o olhar.
Atenta, Mariana afastava essa dúvida, com todo o amor que sentia pelo marido.
Ela sabe, que essa, é uma nuvem,  que ainda vai demorar a sair do horizonte de Miguel.
Mas  hoje é um dia especial. Miguel faz cinquenta e um anos. Daqui a pouco descerá do estúdio, sairão para jantar, e festejar com alguns amigos.  
Mariana acaba de se arranjar e espera ansiosa pelo marido. Ela tem uma prenda especial para ele.
Quando ele desce, ela enlaça-o e murmura-lhe  algo ao ouvido.
 -Verdade?- pergunta ansioso, mergulhando o olhar, naqueles olhos castanhos que tanto ama.
Acena afirmativamente  com a cabeça.
 Sentindo um nó na garganta, o coração batendo desenfreado no peito, ele aperta-a contra si, e murmura emocionado:
-Bendita sejas, Mulher!


FIM


 Elvira Carvalho.




24.7.18

O DIREITO À VERDADE - XLVII




As duas amigas encontravam-se num recanto de uma pastelaria, na Avenida Almirante Reis, onde se tinham encontrado para lanchar e para porem em dia a conversa, sobre os últimos acontecimentos
-E é tudo Paula.
-Meu Deus, Lena! E eu preocupada contigo, sem saber o que te teria acontecido. Até fui duas vezes tocar a campainha da tua casa. Eras tão ligada à tua mãe, que temia tivesses feito uma asneira com o desgosto, e afinal… quer dizer que conheceste o Cláudio em Coimbra, se apaixonaram, foste em busca do teu pai, e o Cláudio é enteado dele? E agora estás noiva? É inacreditável. Parece um daqueles romances cor-de-rosa, com que alguns escritores que não conhecem a realidade da vida se entretêm.
- Nestes últimos tempos, cheguei à conclusão que a vida é o maior dos autores, Paula. Ela pode ser mãe, ou madrasta, mas é sempre intensa em tudo o que nos dá, seja amor ou ódio, paz, ou guerra, calma ou tempestade. Não adianta lutar contra moinhos de vento. Já sofri muito, chorei noites a fio, mas hoje estou feliz com  o que ela me dá.
-E sendo assim vais viver com o teu pai? E o curso? Não vais acabar?
-Claro que sim. Vou pedir a transferência para Viseu.
- Vou ter muitas saudades tuas, amiga.
-Eu também. Mas agora é lá que está a minha vida. Vou casar em breve, logo que os documentos estejam prontos. Queria que tu fosses a minha madrinha. Sempre foste a minha melhor amiga, a irmã que a vida não me deu. E nada me faria mais feliz do que ter-te a meu lado nesse dia. Aceitas?
- Gostava muito, Lena. De verdade. Mas não sei se será possível. Sabes, o meu pai foi reformado devido a problemas de saúde. Com a reforma, baixou substancialmente a receita que entrava todos os meses em casa. Sabes como são as reformas neste país. Já é um sufoco continuar com os meus estudos, mas apesar de eu estar disposta a abandonar a faculdade eles fazem questão de que termine o curso. Ser madrinha de um casamento implica muita despesa.
- Não tens que fazer despesa nenhuma. O tio Alberto vai ser o meu padrinho e vai pagar o que eu precisar. Isto se o pai deixar, já que discutiam há dias, cada um querendo e dizendo que lhe pertencia a ele pagar a despesa. Só quero mesmo, é que estejas a meu lado nesse dia. E o Sandro? O vosso namoro, como vai?
- Cada dia estamos mais apaixonados. Como sabes, ele acabou o curso o ano passado, e já está a trabalhar . Pensamos casar quando eu terminar o curso, e me empregar.  Vamos ficar a viver com os meus pais. É bom para eles e para nós, pois partilhamos despesas e não temos que alugar casa. Menina, tu não fazes ideia do preço das rendas atualmente.
- E os teus pais estão de acordo?
-Claro. Eles gostam do Sandro, quase tanto, quanto eu.
- Não é preciso dizer-te que o convite é também para ele. E então? Posso contar contigo?
- Já te disse que gostava, mas deixa-me falar com o Sandro e os meus pais. Depois dou-te a resposta.  
- De acordo. Posso fazer-te uma pergunta um tanto íntima?
- Nunca tivemos segredos, Lena.
- Tu e o Sandro… já dormiram juntos? – Perguntou baixando a voz



Ora bem, parece que bem posso pôr os capítulos restantes todos de uma vez. Desde que o Cláudio se explicou, a novela perdeu interesse para vós, não foi? Bom então amanhã, preparem o modelito para a cerimónia. Estão todos convidados para o casamento.

25.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE IV



- Catarina, era  quase uma menina. Apaixonou-se pelo Pedro, e esse amor foi-lhe fatal. Um dia, sem que nada o fizesse prever, ele desapareceu e nunca mais deu notícias. A minha irmã, ficou inconsolável. Perdeu a vontade de viver, só o filho fez com que sobrevivesse os últimos seis meses de gravidez.
- E o que a senhora pretende agora?
-Fazer com que o Pedro dê o seu nome ao menino. Mesmo que depois não queira saber dele, eu me arranjarei para que ele tenha uma vida o mais feliz possível.
Pedro sentiu vontade de acabar com aquela conversa ridícula.
-Bom; vamos acabar com isto. Não sei o que lhe deu na cabeça para me vir importunar com esta conversa sem pés nem cabeça. Nunca conheci a sua irmã e nunca desapareceria assim da vida de uma mulher que carregasse no ventre um filho meu, De modo que se era sua intenção extorquir-me dinheiro, com essa conversa, dê graças porque não chamo a polícia e a denuncio.
A jovem levantou-se. Tirou os óculos e encarrou-o de olhos faiscantes e rosto lívido.
- Compreendo que não tenha tempo a perder, mas isso não lhe dá o direito de ser agressivo e mal-educado comigo. Nunca quis tomar o seu tempo, apenas pedi à sua secretária que avisasse o senhor Pedro Mesquita de que precisava falar com ele. Nem sequer entendo porque veio importunar o diretor, presidente, ou lá o que o senhor é.
- Acontece que eu sou o único Pedro Mesquita que existe nesta firma, e provavelmente em toda a cidade.
O rosto da jovem, passou do pálido ao vermelho vivo em fração de segundos. As pernas tremiam-lhe, cambaleou e acabou por se deixar cai pesadamente na cadeira. 
Como se o bebé sentisse a tempestade que o rodeava, começou a chorar. Ela deu-lhe a chupeta, embalando-o suavemente e quando ele se calou falou enfim com voz cansada:
- Não entendo. O pai do menino, sempre se apresentou como sendo Pedro Mesquita, e disse-nos que trabalhava nesta firma. Se não trabalha aqui… ou foi despedido, ou nos enganou. Sendo assim, não faço aqui nada. Peço-lhe desculpa, pelo tempo que lhe roubei.
Tinha voltado a por os óculos. Os seus olhos castanhos estavam demasiado brilhantes, como se estivessem a ponto de chorar, mas o rosto estava calmo, e sereno, apesar de ter voltado a perder a cor. Poucas coisas nesta vida, conseguiam impressionar o frio homem de negócios, mas naquele momento, aquela mulher de ombros caídos e ar derrotado, conseguira-o.
De súbito ocorreu-lhe algo e sentiu um aperto no peito. Seria possível? Suavizou-se a sua expressão.
-Sente-se mais um pouco. – Ligou o interfone e pediu: - Rita, traga-nos um chá, por favor.
Voltou de novo a sua atenção para a jovem. A sensação inicial, de que se tratava de uma vigarista, que lhe queria aplicar um golpe, desaparecera ao ver a reação da jovem,  mas continuava intrigado com aquela insólita situação.
Rita entrou com a travessa e duas chávenas de chá, que pousou sobre a mesa.
- Pode retirar-se,- disse-lhe ele, sem deixar de olhar a mulher que tinha na sua frente.


Gente, acabei de chegar. Tivemos um dia de chuva intensa, venho cheia de dores, cansada mas aprendi imenso, sobre a nossa história. Vou jantar, tomar um comprimido para as dores, e depois passo pelos vossos cantinhos.

14.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XIX

Apertou fortemente a mão que o médico lhe estendia, e dirigiu-se à porta. Subitamente, a imagem de um jovem alto, magro, de uma palidez extrema, surgiu na sua memória. Voltou-se de novo:
- Diga-me Doutor, o doente era um jovem alto, magro, de grandes olheiras, e mãos trementes?
- Como o sabe? - Interrogou o médico por sua vez.
Não respondeu. Fez um gesto indefinido com a mão, voltou-se e saiu. Na rua, dirigiu-se para casa, e enquanto uma ligeira brisa lhe acariciava o rosto, deixou que as lágrimas aflorassem os olhos, sem qualquer espécie de preconceito.

Depois de algumas voltas pela rua, para se acalmar, Pedro entrou em casa. A figura franzina da mãe, saiu da cozinha, e veio ao seu encontro.
- Até que enfim, filho. O jantar está pronto há mais de uma hora
Agarrou na mão do filho e perguntou alarmada:
- Que se passa? Estás a tremer.
Levando-a pela mão, conduziu-a ao sofá.
 – Deixe lá o jantar, minha mãe. Preciso contar-lhe tudo o que me atormentou nos últimos meses. Mas antes quero que me prometa, que não vai ficar aflita. Com a Graça de Deus, já tudo passou.
- Filho...
Havia um tal temor na voz da mãe, que ele acrescentou:
- Não fique assim. Ou então não lhe conto nada. Não há nada a temer, agora tudo está bem.

E então o jovem falou. Contou tudo, desde o primeiro momento, falou da sua dor, da raiva e da revolta contra o seu destino, do medo de a deixar sozinha, de se ter despedido do emprego, da viagem para casa da tia, de como conhecera Rita, de quanto a amava, da maneira como fugira da casa da tia, para que ela não soubesse o que se passava, da sua ida ao médico naquela mesma tarde, das análises trocadas, de tudo enfim que o atormentara nos últimos três meses. A mãe ouvia-o, e as lágrimas corriam silenciosas pelas suas faces enrugadas, enquanto os pensamentos se lhe atropelavam no cérebro. Pobre filho, quanto sofrimento, e ela, que raio de mãe era ela, que não fora capaz de descobrir nada de grave na sua súbita decisão de mudar de ares? Por fim a voz do filho silenciou. Ela abraçou-o com força, e o soluço que estivera preso no seu peito irrompeu, sonoro como trovão em tempestade de Verão.
- Então, mãe acalme-se. Compreende agora que eu viaje amanhã cedinho para as termas? A Rita vai-se embora no Domingo. E eu amo-a mãe. Não quero perdê-la.
E depositando um beijo na testa da mãe, acrescentou:
-Tenho a sensação D. Maria, que a senhora vai ter a nora que há tanto tempo pede.