Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta caminho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta caminho. Mostrar todas as mensagens

24.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE X





Ela olhou-o muito séria.
- Mas tem que haver alguém, que ficou com  esse dinheiro. Porque o meu pai não foi.
- Sabes que a polícia descobriu que a contabilidade da firma foi adulterada, não sabes?
- Sei. O meu pai, diz que não sabe por quem, mas acredita que quem o fez, foi a mesma pessoa que ficou com o dinheiro.
- E o teu pai, não desconfia de ninguém? Ou também está convencido que fui eu? Foi dele a ideia de me espiares?
- Não! Ele nem sequer sabe que deixei o meu emprego anterior, e que sou agora a sua secretária. E ele não desconfia de ninguém em particular. Fui eu que desconfiei do senhor, quando soube que tinha comprado a parte do seu sócio, pouco tempo depois, e era agora o único dono da empresa.
-Parece que tenho que te agradecer a boa imagem que tens de mim - concluiu   sarcástico. Depois de uns momentos de silêncio acrescentou: 
-Bom, Sandra, deves estar muito cansada. Faz um chá e tenta dormir. Preciso pensar seriamente em tudo o que aconteceu hoje. Se não for antes, na segunda-feira, conversamos.
Dirigiu-se à porta e disse ao ver que ela o seguia. 
-Não é preciso. Sei o caminho.
Saiu fechando a porta atrás de si.
Sandra, foi até à cozinha, acendeu o fogão e pôs a chaleira com água ao lume para o chá. Sentia-se arrasada. Quase quatro anos a lutar contra aquela dor. Anos em que se deitava e se levantava a pensar em como estaria o pai. No dia seguinte era dia de o visitar. Esperava duas semanas por aquele dia  e quando ele se aproximava ficava à beira de um ataque de nervos, por não saber como ia encontrá-lo. Era deprimente e desanimador. E o pior, era ter que fingir que estava tudo bem para que o pai não ficasse ainda mais abatido.
 Por outro lado, ter sido descoberta era como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Não ter que fingir ser outra pessoa, não viver sempre no medo de ser apanhada, dava-lhe uma sensação de liberdade e bem-estar, que só não era total, pela preocupação constante com o pai.
Mas agora tinha outra preocupação. E se Gabriel a despedisse? Atualmente havia tanta dificuldade em encontrar um bom emprego. Se fosse despedida,- e nem podia recriminá-lo se o fizesse, depois de lhe ter dito que desconfiava dele e andara a vasculhar no seu escritório – como ia pagar as suas contas?  
Bebeu o chá, depois foi à casa de banho e tomou um duche. Precisava relaxar, ou não conseguiria dormir. Ao olhar-se ao espelho reparou nas manchas violáceas que tinha nos ombros, fruto da pressão das mãos de Gabriel. Procurou no armário uma bisnaga de Trombocid, e passou um pouco  sobre as manchas. Vestiu o pijama, escovou os dentes e finalmente deitou-se.
O cansaço era tanto que não tardou a adormecer.



22.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXIX


- Estou…
- Menina Laura?
- Sim. Aconteceu alguma coisa, Celeste? – perguntou ao reconhecer a voz da governanta do seu irmão.
- Não sabemos, menina. O senhor telefonou ontem, pouco depois das dez da noite, a perguntar como estava a filha, disse que estava a caminho, mas até agora não apareceu, nem voltou a ligar. Estamos muito preocupadas, tanto mais que a menina Mariana se mostra muito nervosa esta manhã. Talvez estranhe a ausência do pai.
Laura olhou o relógio. Faltava um quarto para o meio dia. Ficou preocupada. O seu irmão não estaria tantas horas sem telefonar para casa.
- Obrigada por ter ligado, Celeste. Vou ver se entro em contacto com ele. Com esta tempestade, deve ter parado em algum hotel para dormir – disse sem grande convicção, tentando acalmar as empregadas.
 De seguida, marcou o número do telemóvel do irmão, que tocou durante muito tempo, sem que ninguém atendesse.
“Acalma-te, pode estar no banho, não ouvir o telemóvel” - murmurou para si mesma. Esperou cinco minutos e voltou a ligar com o mesmo resultado.  Cada vez mais nervosa, ligou para a loja do seu irmão Marco. Foi Isabel, a cunhada quem atendeu a chamada.
- Isabel, o Marco está aí? – perguntou. Preciso falar com ele.
- Está no armazém. Espera um momento que vou chamá-lo.
Pouco depois, Marco atendia a chamada.
- Estou…
-Marco sabes alguma coisa do Gil?
-Não porquê? Aconteceu alguma coisa? – perguntou em sobressalto.
-A verdade é que não sabemos. Sabias que ele ia estar ontem na Universidade do Minho, não é verdade?
- Sim, disse-me no domingo quando foi almoçar lá a casa.
- Recebi um telefonema da Celeste muito preocupada. Ele telefonou ontem à noite,depois das dez horas,  para saber como estava a Mariana e disse que estava a caminho. Não chegou, nem voltou a dar notícias, e não atende o telefone. Estou em pânico.
- Meu Deus, Estás em casa? Sim? Vou já para aí. Telefona ao Alcides, vê se ele pode ajudar-nos.
Laura, telefonou ao noivo, e contou-lhe o que se passava. Ele disse que estaria em sua casa dentro de dez minutos, e ela desligou o telemóvel e deixou-se cair no sofá em soluços. Tinha a certeza de que alguma coisa de muito grave tinha acontecido ao irmão. Gil era o homem mais responsável que ela conhecera em toda a vida, adorava a filha e mesmo quando viajava para o estrangeiro, estava sempre em contacto e fazia chamadas de vídeo para ver e falar com a filha.
Minutos depois a campainha tocava. Foi abrir. Era Marco. Abraçou-a carinhosamente e entrou. Ela ia fechar a porta quando Alcides saiu do elevador. Deu-lhe um beijo e entrou em casa. Cumprimentou o futuro cunhado e os três dirigiram-se à sala.
Laura, repetiu palavra por palavra, o que Celeste lhe dissera. Enquanto a ouvia, Marco marcava o número do irmão que chamou imenso tempo até ouvir a mensagem do gravador. Uns minutos depois voltava a ligar e ouviu de imediato a gravação de que o número não estava disponível. Repetiu a chamada e aconteceu o mesmo.


10.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXI


As duas amigas acabaram o almoço, e dirigiam-se para o carro quando Mário lhes saiu ao caminho.
- Peço-lhe desculpa, D. Luísa, mas preciso de um minuto com a sua amiga. Tenho de esclarecer uma dúvida, sobre um dos vossos colegas.
Fulminou-o com o olhar. Voltou-se para a amiga.
- Esperas por mim no carro?Não me demoro
-Claro. Até já. Boas Festas, senhor
Teresa caminhou na sua frente, sentindo o olhar do homem sobre o seu corpo. Entrou no gabinete e voltou-se para o interrogar, mas antes de ter tido tempo, de articular uma palavra, viu-se aprisionada pelos seus braços fortes, e antes que pudesse protestar, sentiu-se beijada com paixão. Tentou lutar, mas o corpo não lhe obedeceu. Pelo contrário, como se tivessem vida própria, os seus braços ergueram-se e enlaçaram o pescoço masculino, os dedos mergulharam na sua cabeça numa carícia apaixonada.
Quando finalmente a largou, os seus olhos brilhavam de paixão.
- Sabes que posso processar-te por assédio sexual, não sabes?- Ela estava furiosa. Mais consigo própria, por se ter entregado daquele modo, do que com ele.
-Sei. Mas não o farás – disse sorrindo com carinho.
A segurança dele irritou-a ainda mais. 
- Eu não estaria tão segura.
- Escuta e se dissesses à tua amiga para se ir embora? Não achas que é tempo de esquecer o passado e pensar no futuro?
- Não. Não basta que me enlouqueças com os teus beijos, ou os teus arrependimentos tardios. Para me teres de novo, terás que ganhar a minha confiança, e garanto-te que não é coisa fácil. Graças a Deus, tenho boa memória.
Saiu batendo com a porta, e deixando o homem num mar de agitadas emoções.
 Entrou no carro, e desatou a chorar. Luísa pôs o automóvel em marcha e conduziu em silêncio, esperando que se acalmasse.
Quando por fim ela se calou, perguntou-lhe com suavidade:
- Estás melhor? Queres falar?
- Beijou-me
- E ficaste assim? Beija assim tão mal?
Teve que rir.
- És impossível. Mas és a melhor amiga do mundo, sabias?
- Pois, nunca mo disseste,- disse rindo. E mudando de tom – e agora? Que vais fazer? Porque até um cego vê que estás perdidinha por ele. E se ele quer uma oportunidade, porque não arriscas? Além do mais é o pai do Martim, e a presença de uma figura masculina faz muita falta a uma criança.
- Estás a empurrar-me para ele?
 Não tonta, é que dava-me jeito, uma amiga milionária, - disse Luísa rindo.



                                                

30.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XIX


Acabara de fazer a mala. Pegou no telemóvel e fez uma chamada.
- Mãe vou a caminho do aeroporto. Parto dentro de duas horas, com destino a Barcelona. Sabes que há muito tempo desejava visitar esta cidade.
Escutou por momentos:
-A Paris? Para já não. Ainda não me sinto preparada. Quando o fizer digo-te. Vou dando notícias. Dá um beijo a todos por mim.
Desligou, e chamou um táxi.
No dia seguinte, estava em Barcelona, mas deu-se conta que não conseguia elaborar um programa cultural de visitas, pois não conseguia deixar de pensar em Simão.
É como dizia Horácio. "A negra preocupação monta sempre à garupa do cavaleiro".
Percebeu que não lhe adiantava fugir. Precisava descobrir o que se passava com ela. Que sentimentos albergava no seu peito.
 A visita a Barcelona seria de novo adiada. E nessa mesma tarde viajou para Paris. Mas contrariamente ao que tinha dito à mãe, não a avisou.
Tinha a morada de Simão, há dois anos. Tinha-lha dado o seu irmão João, numa altura em que pensava ir a Paris. Depois acabara por desistir da viagem. Não sabia se ainda morava no mesmo sítio, mas não tinha ouvido qualquer comentário sobre mudança. De qualquer modo, havia de encontrá-lo. Em último caso iria à galeria de arte, onde costumava expor as suas obras, e pediria a morada. Decidida, apanhou um táxi no aeroporto, para a morada que tinha.
A porta do prédio, estava aberta, e subiu as escadas até às águas furtadas. Uma tarefa complicada com os saltos altos e a mala de viagem. Sentia-se muito cansada, não sabia se pela longa escadaria, se pelo seu sistema nervoso. O coração batia-lhe tão forte que parecia querer saltar-lhe do peito. Por fim tocou a campainha. Pouco depois a porta abriu-se. Surpresa, alegria, emoção. O rosto dele, era um poema feito de emoções.
Descalço, envergando umas calças de ganga, o tronco nu, Simão passou a mão pelo cabelo murmurando:
- Vieste!
E ela tremente, sem deixar de o olhar:
-Vim.
Então ele baixou-se para apanhar a mala e disse:
- Entra. Desculpa receber-te assim. Não sabia que vinhas, estava a embalar as últimas telas para a exposição. Vêm buscá-las logo de manhã.
Pousou a mala junto à porta, pegou a camisa abandonada sobre o sofá e vestiu-a. Depois calçou os ténis.
Reparou que continuava de pé.
- Senta-te. Deves estar cansada.
Pegou-lhe na mão e esse contacto fez com que tremesse da cabeça aos pés. Sentaram-se no sofá. Perguntou suavemente:
- Porque vieste, Ana?
- Porque não conseguia esquecer o teu beijo.
Assim, simples e direta, fizera a confissão. Abraçou-a emocionado. Sem deixar de a fitar disse:
- Sabes que te amo. Amo-te tanto que me dói o peito. O maior sonho da minha vida, é viver a teu lado. Deitar-me contigo, e acordar a teu lado todos os dias da minha vida, é a minha noção de felicidade.
Falava devagar, calmamente como quem fala com uma criança. Não queria assustá-la com a força do seu amor.

reedição



Gente vocês acham que o Sexta está com um ar muito sujo?
Sabem quantos comentários anúncios de empresas de limpeza já mandei hoje para o Spam? 8 E já está ali outro na publicação em anterior. 
Isto é o coroar de um dia esquisito ou será que o blogue está mesmo a precisar de limpeza?



22.7.18

O DIREITO À VERDADE - XLIII








Quando a soltou, perguntou:
-De que tens medo, querida?
- De que te canses da minha inexperiência, de não estar à altura das tuas expetativas.  Foste o primeiro homem com quem saí, o primeiro que me beijou.
-Vou sentir-me muito feliz e muito honrado por te iniciar na arte de amar. E desde este momento, prometo amar-te até ao último dia da minha vida. Agora querida vai arrumar as tuas coisas, e vamos embora. Almoçamos pelo caminho. Os nossos pais estão ansiosos e os dias já são bem mais pequenos.
-Mas não posso ir contigo. Não hoje. Estava a meio da limpeza da casa, tenho a máquina da roupa a acabar o programa, preciso ir estendê-la.
- Olho à minha volta e não vejo que a casa esteja a necessitar de qualquer limpeza urgente. Vê se a máquina já acabou de lavar. Estendes a roupa, e vamos almoçar. Quando voltarmos fazes a mala, enquanto eu apanho a roupa e se ainda não estiver seca, estendemo-la nas cadeiras para acabar de secar.
-És sempre assim decidido?
-Contigo sim.
-Não tenho alternativa?
- Não. A menos que me convides a passar a noite contigo, disse exibindo um sorriso brincalhão
Sentindo que corava da cabeça aos pés escapou-se para a cozinha. Abriu a máquina e retirou a roupa para um alguidar. Depois levou-o para a varanda e iniciou a tarefa de estendê-la.
Pouco depois saíam para almoçar num café restaurante ali mesmo na rua.
- Não me posso ir embora sem falar com o tio Alberto. Vou telefonar-lhe enquanto esperamos o almoço.
-Diz-lhe, que o pai o convida, a ir passar uns dias lá na quinta. E que ficamos à sua espera.
Enquanto a jovem comunicava com o tio, Cláudio ligou para o pai, e deu-lhe conta de que já se tinha entendido com a jovem e partiriam a meio da tarde, pelo que iriam chegar mais tarde do que inicialmente tinha previsto.
Almoçaram Bacalhau à Brás, acompanhado por um tinto, Casa de Santar, Reserva 2012.
- Casa de Santar? Não são vossos vizinhos? -Perguntou a jovem.
- Sim, mas eles são os maiores produtores da zona. A quinta é enorme e muito antiga. Tens que ir vê-la. Tem um solar antigo e uns jardins fantásticos. Junto deles somos uns grãos de areia. Mas desde que o pai comprou a quinta evoluímos muito. E já compramos mais alguns terrenos onde pretendo produzir a Trincadeira, uma terceira casta de uvas. Até agora apenas temos duas. Alfrocheiro e Touriga Nacional. Um dia, a Quinta dos Milagres ainda vai ser tão grande como a Casa de Santar.
- Acredito, vê-se pelo teu entusiasmo que amas o teu trabalho.
- É verdade. Durante anos foi o meu único amor, a minha razão de viver. Agora, embora continue a gostar do que faço, já não é a coisa mais importante da minha vida, porque nela já há um amor maior, -disse estendendo a sua mão e acariciando a dela que repousava sobre a mesa.
Emocionada Helena não soube que responder.


9.7.18

O DIREITO À VERDADE.- XX




Cláudio chegou ao hotel às onze e cinquenta. A mãe ia ter alta às quinze, e ele tinha prometido ao pai que estaria no hospital a essa hora, para regressarem a casa. Também lhe tinha dito que iria almoçar com a jovem e a levaria ao hospital para a apresentar aos pais. Depois no caminho para casa deixá-la-iam no hotel. Ele ainda não tinha analisado os seus sentimentos, nunca acreditara em amor à primeira vista, nem sabia se o que sentia era amor. O que sabia é que nunca nenhuma outra mulher o interessara tanto. Não era pela beleza. Helena era uma mulher bonita, mas ele tinha visto centenas de mulheres tão bonitas ou mais que a jovem. Mas havia qualquer coisa nela que mexia com ele, despertando-lhe sentimentos nunca antes experimentados, ou talvez já esquecidos. E ele tinha trinta anos e nunca tivera hábitos de frade. Olhou o relógio. Já passavam três minutos do meio-dia. Não era atraso significativo, as mulheres costumavam atrasar-se, mas algo lhe dizia que não era o caso. Dirigiu-se à receção.
- Boa tarde. Tenho um encontro marcado com a menina Helena Trindade. Por favor podia avisá-la que já cheguei?
- Boa tarde. Lamento senhor, mas a menina Helena Trindade abandonou o hotel esta manhã às dez. Deixou esta carta para lhe entregarmos quando viesse procurar por ela, -disse estendendo-lhe um envelope.
-Muito obrigado.
Aceitou o envelope e virou costas dirigindo-se para o seu automóvel. Aí chegado, rasgou o subscrito e leu.

Bom dia, Cláudio.
Como te disse ontem, parti esta manhã.
Lamento sinceramente se esperavas encontrar-me e te dececionei. Não posso nem devo, ficar. Nunca estaria à tua altura, não podia criar ilusões, que me iam fazer sofrer depois. Posso parecer-te cobarde, mas não quero mais sofrimento na minha vida.
Agradeço-te as horas e o carinho que me dedicaste. Conhecer-te foi uma das  coisas mais bonitas que me aconteceu. Parto agora, para que possa recordar-te sempre com a mesma emoção que me fizeste sentir.
Do coração, desejo que sejas muito feliz.
Helena.

Amarfanhou o papel entre os dedos. Ela tinha-se ido embora sem deixar um endereço, número de telefone, ou qualquer outra pista que permitisse, encontrá-la. Sentia-se frustrado. Voltou a alisar a folha, dobrou-a e guardou-a na carteira. Apertou o cinto de segurança e ligou o motor. Arrancou sem destino. Tinha que parar num sítio qualquer para almoçar. Não lhe interessava onde, naquele momento a única coisa em que conseguia pensar, era em Helena, nas horas que tinham passado juntos no dia anterior, no beijo que trocaram na despedida. Ele tinha a certeza de que a emoção que sentira fora recíproca. Acabou por almoçar num restaurante perto do hospital, enquanto a TV mostrava imagens da tragédia Síria, e dos refugiados. Não percebia a ideia de alguns restaurantes terem televisões ligadas enquanto os clientes comiam. Os noticiários só transmitiam tragédias, o dia todo, as pessoas teriam tempo de as ver sem ser à hora da refeição.
Estava-se no último dia do mês de Agosto, num dos anos mais quentes e secos do último século. E as televisões levavam os dias a mostrar os incêndios, E quando chegava a hora das notícias, aos incêndios nacionais somava-se a tragédia do povo sírio, forçado a fugir muitas vezes para acabar por morrer no mar.


Gente, fiz hoje o meu EEG . Na verdade segundo a médica que mo fez, foram dois exames um enquanto desperta, o outro a dormir, Não sei só sei que demorou uma hora e quarenta minutos. E que vou levantar dia 23. Entretanto comecei esta tarde a fisioterapia. Depois de uma noite sem dormir, e do ginásio, estou mais morta que viva. É mais fácil subir às árvores quando a neta manda.
Rsrsrs




13.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XVI






Às onze e meia, da manhã de sábado, Odete entrou na casa onde vivera os anos mais felizes da sua vida, e onde iria voltar a viver, a troco da saúde da sua mãe. Não sabia o que lhe reservava o futuro, mas sabia que ia ser doloroso, viver debaixo do mesmo teto que o marido, pois apesar da dor da traição, e do tempo que vivera longe, o seu amor por ele continuava intacto. Por mais que a razão tentasse esquecê-lo o coração não obedecia.
- Bom dia, - saudou-a o marido. Vejo que não esqueceste a chave. Como está a tua mãe?
- Bom dia. Como queres que esteja? Cada vez mais debilitada. Obrigado pelo que estás a fazer por ela.
- Não me agradeças. Os teus pais sempre me trataram como se fosse um filho. A única queixa que tenho deles, é a de não me revelarem o teu paradeiro, mas acredito que por imposição tua. Vai guardar a mala no quarto e prepara o suficiente para uma noite, vamos viajar.
- Não vou a lado nenhum. A minha mãe pode precisar de mim a qualquer momento.
- A tua mãe pode precisar de cuidados médicos e se assim for, a enfermeira avisar-me-á imediatamente e eu tomarei providências. Tenho um colega pronto a atendê-la se for necessário. Vai, faz o que te disse e não demores. Almoçamos pelo caminho.
Mordeu os lábios e engolindo a resposta agreste que lhe apetecia dar, pegou na mala, e dirigiu-se ao quarto de hóspedes. Ele que não pensasse que iam partilhar o quarto.
Mudou de roupa pôs o essencial numa maleta, e regressou à sala.
-Estou pronta, - anunciou
-Vamos, - disse tirando-lhe a maleta das mãos e dirigindo-se para a porta.
Entraram no carro e durante um certo tempo, mantiveram-se em silêncio
- Pode saber-se para onde vamos? - Perguntou ao ver que João entrava na autoestrada do norte.
-A Aveiro ver a minha mãe.
- A tua mãe está em Aveiro? A fazer o quê?
-Logo depois que desapareceste, a tia Margarida ficou viúva, e a minha mãe foi passar um tempo com ela para a animar. Gostou de viver lá e como as duas são viúvas resolveu ficar . Uma faz companhia à outra. Gosta muito de ti e pergunta-me sempre porque não te levo quando vou vê-la.
- Eu também gosto muito dela, foi sempre muito carinhosa comigo.
- Folgo sabê-lo.
O silêncio caiu de novo sobre eles. Intenso, sufocante. João mantinha-se sério, atento à estrada, ela estava espantada. Por que razão a sogra, perguntava sempre por ela? Acaso não sabia que se tinham separado? Será que João tinha escondido isso da mãe?  E porque razão o faria? Teria esperança de que ela voltasse?
Nessa altura, João saiu da autoestrada, na direção de Torres Novas, onde tinha decidido que iam almoçar.


3.7.17

ROSA - PARTE IV



                                     Foto DAQUI

No dia seguinte, o patrão mandou um gaiato, filho de um seu empregado, perguntar porque Rosa não tinha ido buscar o rebanho. Na velha cama de ferro, sobre o colchão de palha de centeio, a jovem ardia em febre. Esteve assim três dias. Durante todo esse tempo a velha avó não saiu de casa sempre atenta à neta. Matou a única galinha que tinha, para lhe fazer um caldinho, e obrigou-a a beber litros de chá, misturando várias ervas que combatiam a febre e cuja composição aprendera com a sua avó que era pessoa muito entendida, em chás, espinhela caída, quebranto e outras coisas mais. No fim do terceiro dia, enfim a febre cedeu. Mas ainda esteve mais dois dias, prostrada na cama sem força nem vontade de se levantar. Parecia impossível que tivessem passado apenas cinco dias desde aquele dia. Bastante mais magra, as faces sem cor, os olhos sem brilho, ninguém reconheceria nela a rapariga alegre que fora até uma semana atrás. Nunca contou à avó o que lhe aconteceu. Não tinha sido necessário e ela morreria de vergonha, se tivesse de o dizer a alguém.  Só respondera com um seco não, quando a avó lhe perguntou se tinha sido alguém da aldeia. Depois a Avó disse:
- Deus queira que não tenhas ficado "prenha".
Sentiu-se apavorada. Não podia ser. Ela não queria ser mãe assim.
- Deus não o permitirá – murmurou. E logo mais resoluta: - Não saio mais com o rebanho. Nunca mais vou para o monte. Nunca mais. Será que a Ti‟Zefa, não precisa de ajuda lá para a casa grande? Ela já está tão velhinha…
- Descansa filha. Amanhã falo com ela. Tenho a certeza que se ela pedir ao patrão uma ajuda, ele te contrata. Se não logo se verá.
Mas não chegou a falar. O seu velho coração cansado de muitos anos de labuta parou nessa mesma noite.
No funeral, esteve a aldeia inteira e só nessa altura, Rosa teve a noção exacta do quanto a sua avó era estimada pelo resto da aldeia.
Depois do funeral, Rosa deu uma volta pela casa, juntou os poucos pertences e guardou os brincos antigos de ouro, único bem que a avó possuía. Guardou num cesto de vime as suas roupas, que a bem da verdade era bem pouca coisa, e tudo o resto deu a uma vizinha. Depois, entregou as chaves ao Sr. António, que era o dono da casa, e preparou-se para seguir até S. Pedro, onde pensava vender os brincos e comprar um bilhete de comboio para a capital.
Antes disso, porém, despediu-se da Ti’Zefa que fez questão de lhe arranjar uma merenda para o caminho, porque “precisas de comer, rapariga ou, não tarda, juntas-te à tua avó”




6.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XIX






Pagaram a conta, e saíram, mas em vez de se dirigirem ao carro, contornaram o restaurante e dirigiram-se à praia. Descalçaram-se. 
Ele passou-lhe um braço pelos ombros e caminharam em silêncio, afastando-se do recinto iluminado do restaurante. Estava a ser uma noite de sonho, para Daniela. De súbito recordou-se do seu casamento e da causa do seu divórcio. Estremeceu.
- Tens frio? -Perguntou ele solícito.
-Um pouco.
Tirou o casaco e colocou-lho sobre os ombros. Uma mão acariciou-lhe o rosto, outra apoiou-se nas suas costas atraindo-a com delicada firmeza para ele. Os olhos cinzentos, escurecidos pela paixão, buscaram os verdes que se mostravam inconscientes do abandono que refletiam.
Sem deixar de a fitar, a sua boca buscou a dela, com um gesto de autoridade, e ela soube que desejava acima de tudo submeter-se a esse doce domínio.
A língua dele, esfregou-se levemente contra a dela, numa dança erótica que acendeu todas as partes sensíveis do seu corpo, levando-a a acariciar-lhe os músculos das costas, enquanto se apertava contra o corpo masculino. Gemeu desiludida, quando ele a soltou, e lhe pegou na mão dizendo:
-Vamos embora. Se continuamos aqui, não conseguirei controlar-me.
Percorreram o caminho inverso em direção ao carro, sem pronunciarem uma palavra. Aí, David retirou a areia dos pés, limpando-os com as meias, calçou os sapatos nos pés nus, e depois de lançar um olhar à jovem que já tinha as sandálias calçadas, pôs o carro em marcha. Cada um absorto nos seus sentimentos, seguiram em silêncio até à casa da jovem.
- Queres entrar? – Perguntou ela saindo do carro
Mergulhou nela um olhar intenso.
- Queres que entre?
Voltou-lhe as costas, envergonhada
- Sim
Fê-la voltar-se, e beijou-a apaixonadamente.
-Importas-te de ir entrando? Volto já.
Dirigiu-se ao carro e arrancou velozmente. Sem saber o que pensar, a jovem entrou em casa. Acendeu a luz, largou a mala em cima de uma cadeira, e dirigiu-se à cozinha para fazer um chá.
A campainha tocou e ela foi abrir. Era David que voltava.



20.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XX


Durante um longo minuto, o silêncio caiu sobre eles. Por fim Ana falou.
- Eu queria sentir esse amor. Queria que me ensinasses a ser feliz, e a fazer-te feliz. Mas tenho medo Simão. Um medo irracional, que me sufoca.
- E de que tens medo, querida?
- De não ser capaz de corresponder às tuas expectativas. De não conseguir fazer amor contigo, porque de repente me lembro, que somos irmãos.
- Tu sabes que não é verdade, Ana.
 – Por favor, não me interrompas. Deixa que te exponha todos os meus receios. Supõe que não dá certo. Vou perder-te para sempre, magoar os nossos pais, e isso aterroriza-me.
Com imensa ternura, contornou os olhos brilhantes, numa carícia suave.
- Já chega. Não te atormentes. Eu não tenho medo. Acredito em nós, e na força do amor. Vieste ter comigo. Sabes o que sinto e o que desejo. Só tens que decidir se vieste para ficar, e viver este amor que tenho para te oferecer, ou se te vais embora agora, e dás outro rumo à tua vida. 
Era o momento derradeiro, a última hipótese de virar costas e procurar um caminho que lhe parecesse mais seguro, ou fechar os olhos e saltar o abismo em que o medo se transformara. Lembrou-se da mãe. “Às vezes é preciso correr riscos”
Prendeu-lhe o rosto entre as mãos, e  disse baixinho:
- Fico.
Ele engoliu em seco. A emoção era um garrote que lhe sufocava a garganta. Apertou o corpo tremente nos braços, e começou a beijá-la. Lentamente, como quem saboreia um doce, foi-lhe beijando os olhos, e o rosto, até aflorar os lábios femininos. As suas mãos pareciam ter vida própria. Percorriam-lhe os braços, as costas, infiltravam-se sob a blusa, em suaves caricias que a enlouqueciam.
O beijo, tornou-se mais intenso, atrevido e urgente. Simão concentrava toda a sua energia, todo o seu amor,  toda  a sua experiência e conhecimento do corpo feminino, na tarefa única, de a levar pelos secretos labirintos da paixão, até à mágica saída, na apoteose final.
As roupas desapareceram, como por magia, e os corpos livres, uniam-se, na mais famosa dança de todos os tempos, num reconhecimento que vinha desde os primórdios da humanidade.
Mais tarde, apaziguada a loucura que os envolvera, num gesto cheio de ternura, ela tocou com a ponta dos dedos, o rosto masculino. Ele segurou-lhe a mão e beijou-os.  Simão, era um homem experiente, sabia reconhecer quando a mulher que tinha nos braços, estava com ele na entrega sublime do amor. Ana tinha estado. Tinha-se entregado de corpo  e alma. Ele sentiu-o. Mas precisava ouvi-lo da sua boca. Saber até que ponto ela tomara consciência disso, saber se conseguira matar todos os seus fantasmas. 
- E, então, querida?- Perguntou num sussurro 
- Amo-te.
- Sem medos, nem fantasmas?
- Sim
-Tens a certeza?
- Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida. É… incrível. Sei que é um lugar-comum, mas não me ocorre outra maneira de to dizer. Sinto-me a mulher mais feliz do mundo.


10.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVI


– Não tia. Graças a Deus não. Foi do emprego. Dizem que se não estiver lá amanhã, escuso de ir mais. Já estou ausente há muito tempo, as férias acabaram, não tenho baixa nem atestado médico.
Era uma mentira piedosa. Mas não podia dizer a verdade à tia.
- Bom, se é isso tudo bem. Mas podias ter dito quando entraste. Fiquei assustada. E sair assim de corrida, vais chegar de noite...
 – Talvez não, tia. Os dias são grandes e escurece tarde, não se preocupe.
- Então vamos mulher, vamos preparar um farnel para a viagem.
E dizendo isto empurrava a empregada na sua frente.
- Não se preocupe tia, eu como alguma coisa pelo caminho.
- Era o que mais faltava! - Zangou-se ela – Da minha casa, nunca ninguém saiu sem farnel.
Quando Pedro saiu com as malas para o carro, já as duas mulheres tinham preparado uma cesta, onde não faltava a broa, o presunto, um belo salpicão, várias frutas, e uma garrafa de água.
Na verdade a tia tinha-se cansado durante todo o tempo que ele estivera em sua casa, para que bebesse vinho, mas Pedro sempre fora abstémio.
Abraçou as duas mulheres e saiu. Tinha pressa de viajar. Não queria correr o risco de encontrar Rita, não queria que ela o visse partir.

  Chegou a casa ao anoitecer. Abriu a porta e sentiu o peso da solidão. A primeira coisa a fazer, era telefonar à mãe e pedir para ela regressar no dia seguinte. Teria que dar uma desculpa convincente, para aquele regresso inesperado pois nessa mesma manhã, quando lhe telefonara, não dissera que tencionava regressar e ele conhecia bem a mãe. Se desconfiasse que alguma coisa não estava bem era capaz de abalar de noite a caminho de casa.
Mais tarde ligaria à tia, para que as duas mulheres dormissem descansadas. Depois das chamadas, estendeu-se em cima da cama e deixou-se dormir.


18.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXV




Iniciava-se a década de 60, a gloriosa década de 60, o mundo inteiro está em mudança, mas em Portugal, a politica de isolamento, castrava à nascença, qualquer indício de modernidade vindo do estrangeiro. Por outro lado a maioria do povo seguia uma vida de miséria, provações e medo.  E na seca, a vida continuava absolutamente igual ao que sempre fora.  A mulher do Manuel, era simultaneamente porteira,e trabalhadora da Seca,  já que era ela quem abria o portão, para o pessoal que vindo do Barreiro, encurtava caminho, passando pela caldeira do Alemão, e seguindo junto ao rio, até ao portão de entrada na Seca, que lhe ficava à porta. Quando passavam as últimas pessoas, fechava o portão à chave, e seguia com elas para o trabalho de lavar, salgar, banhar, estender ou enfardar o bacalhau. À tarde saía um pouco mais cedo para ir abrir o portão, por onde o pessoal passava de regresso a casa. Cabia-lhe ainda, a ingrata tarefa de revistar os cabazes que o pessoal trouxera com o almoço, não fora alguém esconder nele algum bacalhau. Na Seca havia outro portão, que servia para os trabalhadores que moravam na Telha, ou vinham de Palhais, ou Santo António. Era a entrada principal por onde passavam os carros.
Além dos três filhos com pequena diferença de idade, o casal cuidava ainda dum sobrinho, que tinha quase a idade do filho deles, e tinha escrito aos tios, logo que terminou a primária, a pedir para vir morar com eles, pois queria fugir da miséria na aldeia.
No casarão vivia ainda o cunhado mais novo  do Manuel, que entretanto saíra da tropa e fora trabalhar para a Siderurgia no Seixal. Namorava uma rapariga de Palhais, que trabalhava na Seca, queria juntar uns tostões para o casamento e vivendo com a irmã não pagava renda, era mais fácil.
A filha mais velha já trabalhava na Seca, sempre ajudava o orçamento.  Ficou assim a trabalhar na seca durante a safra. O pior eram os meses em que o trabalho na seca estava parado. A miúda já se inscrevera em lojas, mas sempre queriam alguém com experiência e ninguém tem experiência antes do primeiro trabalho.
O pequeno terreno que desbravara ao mato, ajudava com os legumes, e a mercearia ele mandava pôr no rol, que pagava religiosamente quando a próxima safra começava.
A filha do meio estudava na Escola Industrial e Comercial Alfredo  da Silva no Barreiro, porque depois de muito pensar, de pesar os prós e os contras, Manuel decidiu que ia dar à filha a oportunidade de estudar. Pelo menos naquele ano, depois se veria se ela sabia ou não aproveitar a oportunidade. O filho, que finalmente começara a falar como gente, recuperara o tempo perdido, e está agora na 4ª classe no Barreiro. 

16.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE IX



                      estação se Santa Apolónia. foto do google
Decidido, mas sem dinheiro para o comboio, resolveu seguir a pé para a terra. Não seria uma viagem rápida, mas também não tinha pressa. Lá, era certamente o primeiro sítio onde iriam procurá-lo. E foi andando, ficando um dia ou dois nas quintas que lhe apareciam no caminho. 
O trabalho do campo não tinha segredos para ele, e assim ganhava algum dinheiro, além de encher a barriga. E foi deste modo que nos primeiros dias de Agosto chegou à aldeia. Se a Piedade ficou surpresa, porque pensava que o filho estava no quartel, Manuel não ficou menos surpreso ao saber que ninguém o tinha ido procurar.
Ele não sabia que na confusão que se vivia na altura, (não esqueçamos que a guerra estava em pleno na Europa, e quase todos os meses partiam soldados portugueses, para as províncias ultramarinas,) ninguém tinha anulado a sua passagem à reserva, mas ainda assim resolveu seguir a sua vida e quando o Ti Alfredo apareceu na aldeia para o engajamento de pessoal para a Seca do Bacalhau, na nova safra que se avizinhava, ele engajou-se de novo.
Nesse ano os navios chegaram com pouco bacalhau. A pesca tinha-se tornado uma actividade duplamente perigosa Se até aí, já o era, dadas as frágeis condições em que os pescadores enfrentavam o mar, a partir daí tinham um novo e não menos perigoso inimigo. Os submarinos alemães.
Portugal era um país neutral, e a nossa frota bacalhoeira, fora totalmente pintada de branco, ostentando o pavilhão português bem à vista, mas ainda assim os pobres pescadores, levavam o dia com o credo na boca.
Por isso nesse ano, o engajamento de pessoal foi menor e se deu primazia aos mais jovens e fortes. Manuel estava entre eles.
No final desse ano, Laurinda, que continuava a viver no Fogueteiro, mandou dinheiro à mãe para ela vir passar o Natal a sua casa. Afinal Piedade, ainda nem conhecia os netos. E convidou também os irmãos, que trabalhavam na Seca da Azinheira. Queria juntar toda a família.
Pela primeira vez na vida, Piedade saiu da aldeia, e veio de comboio para Lisboa. Assim naquele dia 22 de Dezembro, ela saía do comboio em Santa Apolónia, onde já a esperava o genro e ficava abismada com o tamanho da cidade. Mas o que mais lhe custou e a deixou completamente apavorada, foi o cacilheiro. Era Inverno, o mar estava “picado” e Piedade rezou durante todo o tempo que durou a travessia.