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14.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO- PARTE XXIV

 



- Deixa-me pelo menos levar-te a casa. Precisas de um chá ou talvez uma bebida mais forte. Toma, enxuga o rosto, - disse estendendo-lhe um lenço. De seguida pôs o carro a trabalhar e conduziu direto à casa dela. Estacionou junto à porta, e apressou-se a dar a volta ao carro para a ajudar a sair.
- Dá-me a chave. Eu abro a porta.
Procurou a chave na mala e deu-lha. Ele abriu a porta e deu-lhe passagem. Ela acendeu a luz enquanto ele fechava a porta.
- Diz-me onde é a cozinha e vai para a sala. Tenta acalmar-te e lembra-te que não tens que dizer mais nada, a não ser que o queiras fazer.
- Eu sei. Mas preciso de o fazer. A cozinha é por trás dessa porta.
Entrou na sala e sentou-se no sofá. Recostou a cabeça e cerrou os olhos. Pouco depois Nuno entrou na sala com um tabuleiro com duas chávenas de chá, que colocou em cima da mesa. Estendeu-lhe uma chávena e pegando na outra sentou-se no cadeirão em frente.
- O homem com quem meu pai me casou, já era viúvo. A primeira mulher de Álvaro suicidou-se. Dizia-se que sofria de uma depressão grave. O que não era de admirar, se, como acredito, passou pelo mesmo que eu.

Luísa falava devagar em voz baixa, quase como se estivesse esquecida do homem que estava na sua frente, e falasse consigo mesma.

- Foram quatrocentas e vinte e sete noites de terror, contadas uma a uma, como o condenado, que espera o dia da execução. Estava desesperada, só pensava em morrer. Sabes que me tentei matar? Não aguentava mais e atirei-me do carro em movimento. Penso que foi a minha atitude,  que fez com que Álvaro se descontrolasse, e perdesse o controlo do carro. 
Ele saiu da faixa em que seguia e foi embater num camião que vinha em direção contrária. Todos os dias agradeço a Deus a sua morte. Tive acompanhamento psicológico durante anos, mas continuei com medo dos homens. Isolei-me e dediquei-me unicamente aos meus alunos. Hoje foi a primeira vez que saí, e não sei porquê, não senti medo de ti, nem sequer quando me abraçaste no carro.
- Meu Deus, Luísa! Quanto sofrimento. Comparado com isso, aquilo  por que  passei não foi nada. Penso que não tens medo de mim, porque o amor que nos uniu, ainda está latente dentro de nós. Meu Deus, como eu gostava de te tomar nos meus braços, e apagar todo esse sofrimento. Mas não posso. Porque ainda há algo que precisas saber. Há dois anos, no Zimbabwe, chamaram-me para ir ver uma criança num musseque nos arredores de Harare, que estava muito mal.

 Depois de a examinar, verifiquei que ela tinha que ser operada de urgência pois corria o risco de uma peritonite. Tinha que a levar para o hospital. No Zimbabwe como em Angola existem milhares de minas terrestres espalhadas pelos campos. Nunca cheguei ao hospital com aquela criança. Fui vítima de uma mina. Perdi a perna esquerda até à parte de cima do joelho. Estive mal. Não apenas no físico, mas também psicologicamente. Não conseguia aceitar. A minha perna esquerda não existe. É uma prótese. Só os meus pais o sabem, mas nem eles nunca me viram sem roupa. É por isso que não te posso oferecer um futuro. Não sei viver com a compaixão, não suportaria ver pena nos teus olhos, quando me visses nu.




7.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXVIII






- Bom dia, Olga.

-Bom dia, João. Como está a Teresa? Os bebés já nasceram?

- A Teresa está no recobro, os bebés já nasceram e estão bem, mas são tão pequeninos.

- São três num espaço que é suposto ser só para um. E ademais são prematuros, mas o essencial, é que estejam bem. Foram para a incubadora?

- Não, os médicos dizem que eles estão a respirar bem e que apesar de pequeninos, não apresentam qualquer problema que necessite ajuda médica. Foram para o berçário, até a Teresa sair do recobro, depois vão para o quarto para ao pé da mãe. Ela mal os viu, eles foram logo com o neonatologista para serem examinados. Mas depois falamos melhor. A Sandra está por aí?

-Está no posto médico. A enfermeira Gabriela fez o favor de esperar por ela para a avisar, senão nem sabíamos de nada.

- Deves compreender que foi tudo tão rápido que não deu tempo para nada. Agora toma atenção, vai ao meu gabinete e da primeira gaveta da esquerda, tiras a chave suplente do meu carro e diz à Sandra que mo venha trazer. E tu passa as chamadas para o escritório, e segue-a no teu carro. Preciso falar convosco, são quase horas do almoço, podemos almoçar por aqui perto, a Teresa só sai do recobro dentro de duas horas. Mais tarde levas a Sandra até ao carro dela.

Antes de vires telefona à Gabriela dá-lhe a notícia. Não demorem, espero-vos na entrada do hospital.

Desligou a chamada, e ligou para o irmão que tinha o telemóvel desligado, provavelmente por estar em audiência no tribunal e então ligou para Helena, a cunhada para lhe dar a notícia. 

Ela fez-lhe um monte de perguntas, se tinha corrido tudo bem, se tinha sido rápido, se ele assistira ao parto, se a Teresa estava bem se os meninos estavam na incubadora, se os podiam ir visitar, enfim uma infinidade de perguntas a que ele foi respondendo com podia e sabia, já que só quando a mulher fosse para o quarto poderia falar com a enfermeira do bloco, para saber essas coisas. 

Atravessou o átrio do hospital e chegou à porta da rua onde iria esperar pelas duas empregadas.

Olhou à volta, apesar do calendário marcar o dia catorze de Fevereiro, o dia estava lindo, a temperatura amena, o sol brilhava radioso, e as árvores cobriam-se de minúsculos brotos, que mais tarde as encheriam de belas e verdes folhas. Ainda faltava mais de um mês para o início da Primavera, mas o clima do dia, já parecia tê-la antecipado. 

Era um dia lindo para iniciar a vida. Oxalá a vida dos seus filhos fosse composta por milhares de dias lindos e felizes. Sabia que a vida não é um mar de rosas, ela também tem os seus espinhos, mas também sabia que se Deus lhe desse vida e saúde, ele tudo faria para amenizar esses espinhos, quer  eliminando-os, quer educando-os e dando-lhes ferramentas para que eles próprios se livrassem deles.  E tinha a certeza que teria sempre a ajuda de Teresa. Ela era uma grande mulher. E ele era um homem de sorte. Tinha a certeza de que nem procurando com uma lupa, encontraria outra como ela. 

18.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR PARTE III



Uma chuva miudinha, recebeu-o ao chegar à rua. O mês de Novembro estava a chegar ao fim. Apesar do dia desagradável, as ruas fervilhavam de gente que se afadigava, com a aproximação do Natal. Ele não estava preocupado com isso. O seu Natal, seria no dia em que a filha nascesse, se tudo corresse bem com ela e viesse perfeita e de boa saúde. Chegou junto do seu carro estacionado no parque do hospital, abriu a porta, sentou-se ao volante e dando a volta à chave fez com que o veículo arrancasse suavemente. Dirigiu-se para os arredores da cidade. Vinte minutos depois acionava o comando que lhe abria o portão de acesso à sua casa, uma bela moradia de dois pisos rodeada por um extenso e bem cuidado jardim. Estacionou junto à porta. Desde que Sara estava no hospital nunca mais guardara o carro na garagem. Ficava à porta para que não perdesse tempo se houvesse alguma chamada urgente do hospital.
Boa tarde Celeste – disse saudando a empregada. – Algum recado?
-Boa tarde, senhor. Telefonou o seu irmão.  Disse que não conseguia entrar em contacto com o senhor e pediu para lhe ligar logo que chegasse.
- Obrigado, - disse retirando o telemóvel do bolso e verificando que ainda estava desligado. Desligava-o quando entrava no hospital e voltava a liga-lo quando saía, mas naquele dia, acabara esquecendo-se. Subiu as escadas e entrou no quarto, fechando a porta atrás de si.  Despiu o casaco e colocou-o nas costas da cadeira, desapertou e tirou a gravata que atirou para cima do casaco. Sentou-se na beira da cama e ligou ao irmão. Marco atendeu ao quinto toque.
- Estou…
- Aconteceu alguma coisa? A Celeste disse que querias falar comigo.
-Nada a não ser que estou a precisar de ti aqui. Há negócios que estão pendentes do teu aval. Desde que aconteceu aquela tragédia, não vens à empresa.
- Vou aí amanhã. Convoca o advogado para as onze horas. Eu estou aí pelas dez. Precisamos falar, sobre uma decisão que tomei antes da reunião com o advogado. De tarde vou para o hospital.
- Passas demasiadas horas no hospital. Não podes fazer nada pela Sara, e estás a dar cabo de ti.
- Não te esforces, os médicos deixaram isso bem claro. Por muito que me digam que ela está morta, a minha filha está viva, e se de algum modo ela sentir alguma coisa, quero que sinta que estou lá, e que a espero com todo o amor.
Marco não teve coragem para rebater as palavras do irmão. Suspirou, e disse:
- Bom, então espero-te amanhã. Entretanto vou telefonar ao advogado e marcar a hora para a reunião. Ah! Já me esquecia, chegou a encomenda da Adidas.
-Ok.  Nestes dias, tomei uma série de decisões que vou começar a por em prática. Até amanhã.
- Até amanhã, Gil. Cuida-te, mano.

10.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLVII



De súbito, largou o copo em cima da mesa da sala, e dirigiu-se a passos largos ao quarto de hóspedes, abriu o armário, pegou no saco com a roupa que a jovem esquecera no quarto, meteu o telemóvel no bolso das calças, pegou na carteira e nas chaves e saiu. Foi  à garagem, meteu-se no carro, ligou o motor e arrancou em direção a Lisboa. Olhou as horas. Nove horas. Muito cedo para já estar na cama, e decerto não iria sair no dia do seu regresso. E se tivesse saído, esperá-la-ia à porta até que voltasse. Tinha que ter uma conversa séria e definitiva com ela. Não podia desistir sem ter a certeza dos sentimentos que ela nutria por ele. Era a sua felicidade que estava em jogo. Estacionou junto ao edifício onde a jovem morava, e aproveitou o momento em que um casal de meia-idade saía, para entrar no prédio sem tocar a campainha. Descartou o elevador e subiu os dois lances de escada até ao andar da jovem. Aguardou um momento junto à porta. Não se ouvia nenhum ruído. Será que ela tinha saído? Bom, o melhor era tocar a campainha. E foi o que fez. Depois de uma curta espera, que a ele lhe pareceu interminável, Paula abriu a porta.
- Boa-noite. Desculpa vir a esta hora. Posso entrar?
- Entra - disse franqueando-lhe a entrada. - Não te esperava.
Fechou a porta e dirigiu-se para a sala. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, o rosto sem pintura, e os pés descalços. Vestia uns calções brancos, e um top azul. Todo o conjunto contribuía para lhe dar um ar frágil, e um aspeto de miúda.
Estavam os dois de pé na sala, um em frente do outro. Ele observou-a apercebendo-se da sua tristeza. Sentiu um aperto no peito. Era como se tivesse de novo na sua frente aquela menina tímida e triste que o pai levava para o escritório.
- Vim trazer a roupa que deixaste em Sintra, - disse estendendo-lhe o saco.
 -Obrigada - ela pegou no saco e pousou-o sobre a pequena mesa  em frente - mas não fiques aí de pé. Senta-te.
António deixou-se cair no sofá reparando que os seus olhos estavam vermelhos, como se tivesse estado a chorar. Sentiu de novo aquele impulso antigo, de a sentar no seu colo e a confortar, tantas vezes experimentado outrora no escritório do pai dela. Também lembrou as palavras do Padre Celso. “Seja sincero consigo e com ela. E se os seus sentimentos são tão fortes como parecem, pode ser que ela venha a corresponder.” 
-Chega aqui, por favor, - pediu a voz enrouquecida pela emoção, o olhar fixo no dela.
Atraída pela força do seu olhar ela caminhou para ele, como o passarinho caminha para a serpente. Parou na sua frente. Então ele ergueu as suas mãos, colocou-as à roda da cintura dela, e com uma ligeira pressão sentou-a no seu colo.
-Vejo que estiveste a chorar. Estás tão triste e desamparada, como há vinte anos atrás, - disse com carinho - queres contar-me o que te aflige? Não tenhas medo. Estou aqui, e não vou deixar que ninguém te faça mal.


18.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XIX

Cerca das dez e meia, Adélia bateu à porta. Uma, duas vezes. Como ninguém abriu, pensou que a casa estava vazia. E como tinha a chave abriu a porta. A primeira coisa que viu, foi a porta do quarto, aberta, logo pensou que a tal jovem já estava acordada e decerto tinha saído com Miguel.
Dirigiu-se à cozinha, e nesse momento a porta da casa de banho abriu-se e Adélia viu a jovem. Deveria ter acabado de tomar banho, vestia um robe branco e tinha enrolada uma toalha em volta da cabeça, como se fora um turbante. Estacou surpreendida com a intrusão de uma estranha lá em casa.
A mulher apressou-se a dizer:
-Bom dia! Sou Adélia, e venho fazer a limpeza da casa. Estive cá de manhã, mas o Menino pediu para não fazer barulho, para não a acordar e por isso fui embora. Voltei agora. Como bati e não me abriram a porta, pensei que tinham saído.
- Bom dia, Adélia. Quando acordei, o Miguel já não estava em casa. Mas ele já me tinha falado de si. Fique à vontade. Decerto conhece melhor a casa do que eu. Vou trocar de roupa.
Dez minutos passados, Adélia dirigiu-se ao quarto, com roupa limpa para a cama. Viu que esta se encontrava arrumada e disse:
- Não precisava, ter feito a cama. Costumo mudar a roupa sempre que venho fazer a limpeza. E se a menina tiver roupa para lavar, ponha no cesto que está ao pé do tanque. Eu depois levo e meto tudo na máquina. Trago já passada a ferro.
 Calou-se. Se esperava que a jovem respondesse enganou-se. Ela continuava no sofá, com um livro nas mãos, mas Adélia teve a nítida sensação, que não lia. Parecia ausente.
Pouco depois insistiu:
-Sabe, a minha máquina, foi o Menino Miguel, quem ma ofereceu o ano passado. Antigamente eu lavava a roupa aqui mesmo, no tanque do quintal.
A jovem não respondeu e Adélia acabou por desistir da conversa.
Miguel dissera que a jovem estava doente. O que teria ela? Não parecia doente. Talvez estivesse um pouco magra de mais. Mas isso agora parecia moda. A gente nova estava cada dia mais esquelética. Enquanto prendia o lençol, deu uma breve mirada para a jovem. Parecia ausente. Talvez até nem a tivesse ouvido.  Terminou de arrumar o quarto, enrolou a roupa suja e com ela nos braços, parou na sala, bem em frente da jovem.
-A menina já comeu? Quer que lhe prepare alguma coisa?
A jovem olhou-a com estranheza. Como se regressasse de um lugar distante.
- Não tenho fome.
-Ó menina, mas precisa comer. Vou buscar um copo de leite.
-Não. Leite, não. 
-Então, trago-lhe um sumo?
-Pode ser. Obrigado



19.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXVII







As quarenta e oito horas seguintes correram sem problemas, a paciente foi transferida para o quarto onde  o marido ou a filha, estavam praticamente o dia todo com ela. Oito dias depois, D. Arminda teve alta e regressou a casa.
 João voltou a contratar os serviços de uma enfermeira, para que a sua sogra tivesse o melhor tratamento até à sua recuperação total que andaria pelos três meses. Assim deixava Odete mais livre e sobretudo, o sogro podia retomar o trabalho sabendo que a esposa estava a ser bem tratada.
Aos poucos a vida foi retomando a normalidade, mas João começava a desanimar, pois apesar de todos os seus esforços, Odete não dava mostras de querer retomar a vida matrimonial, e ele não compreendia o que se passava, pois tinha a certeza de que a mulher o amava, e o desejava com a mesma intensidade de outros tempos. Ele sentia-o. Porém ela resistia, e ele estava a ficar desesperado.
Acabara de chegar do hospital e como era hábito ultimamente a esposa ainda não tinha regressado da casa da mãe. A senhora continuava a ter a companhia constante da enfermeira e estava cada dia melhor mas a filha passava mais tempo com ela, do que na sua casa. Às vezes pensava que ela só estava ali, pela chantagem que fizera com ela.
Sentado no sofá da sala, ouviu a chave na porta, sinal do regresso de Odete, pois a empregada só trabalhava de manhã.
- Boa tarde. Pensei que ainda não tinhas chegado.
- E eu pensei que estavas em casa. Passas demasiado tempo com a tua mãe, que tem quem cuide dela e que está quase boa.
- Queres proibir-me de a ir ver?
- Não ponhas na minha boca, coisas que eu não disse. Alguma vez te proibi alguma coisa, desde que casámos?
- Não? – Perguntou irónica.
Ele recordou a viagem de regresso de Aveiro, quando disse que não admitia encontros ou telefonemas com outro homem enquanto estivesse com ele, mas optou por não responder. Não queria de modo algum começar uma discussão. Estendeu o braço e puxou-a, fazendo com que se desequilibrasse e caísse a seu lado no sofá. Segurou o seu rosto entre as mãos e beijou-a. Não era a primeira vez que a beijava desde a sua volta. Mas desta vez não foi um beijo suave, carinhoso. Aquele foi um beijo intenso, simultaneamente apaixonado e desesperado. Ela não o repeliu. Pelo contrário devolveu o beijo com a mesma intensidade, enquanto as suas mãos acariciavam a nuca do marido, e o seu corpo se apertava contra o dele.
De súbito, o amor e a tensão sexual acumulada entre eles explodia com tal intensidade que não havia força humana capaz de os deter.



DIA 19 DE MARÇO - DIA DO PAI
Porque hoje é um dia triste, o meu pai partiu há 9 anos, não interrompi a novela para um post alusivo ao dia. Apesar disso quero desejar a todos os amigos que por aqui passam, um feliz dia.



13.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XVI






Às onze e meia, da manhã de sábado, Odete entrou na casa onde vivera os anos mais felizes da sua vida, e onde iria voltar a viver, a troco da saúde da sua mãe. Não sabia o que lhe reservava o futuro, mas sabia que ia ser doloroso, viver debaixo do mesmo teto que o marido, pois apesar da dor da traição, e do tempo que vivera longe, o seu amor por ele continuava intacto. Por mais que a razão tentasse esquecê-lo o coração não obedecia.
- Bom dia, - saudou-a o marido. Vejo que não esqueceste a chave. Como está a tua mãe?
- Bom dia. Como queres que esteja? Cada vez mais debilitada. Obrigado pelo que estás a fazer por ela.
- Não me agradeças. Os teus pais sempre me trataram como se fosse um filho. A única queixa que tenho deles, é a de não me revelarem o teu paradeiro, mas acredito que por imposição tua. Vai guardar a mala no quarto e prepara o suficiente para uma noite, vamos viajar.
- Não vou a lado nenhum. A minha mãe pode precisar de mim a qualquer momento.
- A tua mãe pode precisar de cuidados médicos e se assim for, a enfermeira avisar-me-á imediatamente e eu tomarei providências. Tenho um colega pronto a atendê-la se for necessário. Vai, faz o que te disse e não demores. Almoçamos pelo caminho.
Mordeu os lábios e engolindo a resposta agreste que lhe apetecia dar, pegou na mala, e dirigiu-se ao quarto de hóspedes. Ele que não pensasse que iam partilhar o quarto.
Mudou de roupa pôs o essencial numa maleta, e regressou à sala.
-Estou pronta, - anunciou
-Vamos, - disse tirando-lhe a maleta das mãos e dirigindo-se para a porta.
Entraram no carro e durante um certo tempo, mantiveram-se em silêncio
- Pode saber-se para onde vamos? - Perguntou ao ver que João entrava na autoestrada do norte.
-A Aveiro ver a minha mãe.
- A tua mãe está em Aveiro? A fazer o quê?
-Logo depois que desapareceste, a tia Margarida ficou viúva, e a minha mãe foi passar um tempo com ela para a animar. Gostou de viver lá e como as duas são viúvas resolveu ficar . Uma faz companhia à outra. Gosta muito de ti e pergunta-me sempre porque não te levo quando vou vê-la.
- Eu também gosto muito dela, foi sempre muito carinhosa comigo.
- Folgo sabê-lo.
O silêncio caiu de novo sobre eles. Intenso, sufocante. João mantinha-se sério, atento à estrada, ela estava espantada. Por que razão a sogra, perguntava sempre por ela? Acaso não sabia que se tinham separado? Será que João tinha escondido isso da mãe?  E porque razão o faria? Teria esperança de que ela voltasse?
Nessa altura, João saiu da autoestrada, na direção de Torres Novas, onde tinha decidido que iam almoçar.


9.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE X

   


A ansiedade, com que João olhava a marcha lenta dos ponteiros do relógio, terminou no momento exato em que a campainha da porta soou. Lentamente, aparentando uma tranquilidade que estava longe de ser real, levantou-se e foi abrir a porta.
- Entra. Perdeste a chave?
Ela não respondeu. Passou na sua frente em direção à sala. Não se sentou. Ficou de pé olhando à volta. A sensação que tinha era de que nunca se tinha ausentado, pois tudo estava exatamente igual ao que era quando partiu.
- Senta-te, - disse ele acomodando-se num cadeirão em frente do sofá.
Esperou que ela se sentasse e então perguntou:
- Como está a tua mãe?
- Como queres que esteja? Não consegue dar meia dúzia de passos seguidos, não consegue fazer nada.
- Explicaste-lhe que a única solução é a cirurgia?
- Sim. E ela quer ser operada. Diz que, como se sente agora, não é viver.
-E então, qual é a tua decisão?
-Tenho hipótese de escolha?
-Não,- disse firme e até talvez um pouco rude.
- Aceito, com a condição de o fazer só depois da sua operação.
-Inegociável. Regressas esta noite mesmo. A tua mãe já jantou?
- Já. Já a deixei deitada. Mas João o meu pai está em viagem com o camião, a minha mãe não pode ficar sozinha na situação atual.
- Não tens ninguém que possa lá dormir hoje? Uma tia, prima, alguma vizinha?
- Não.
Bom, então esta noite ficas com ela, mas amanhã de manhã mando-te alguém para cuidar dela até ser internada segunda ou o mais tardar terça-feira. Quando regressa o teu pai?
- Não sei. Vou telefonar-lhe esta noite.
- Muito bem. Amanhã, quero-te em casa para o almoço.
- Quero, quero, quero… Que se passa João? Onde está o homem bom e compreensivo, com quem vivi?
- Quem sabe? Talvez tu, o tenhas assassinado!
- Trata-se então de uma vingança?
- Não. Trata-se apenas de querer em casa a minha mulher, já to disse ontem.
-Posso voltar para casa, mas não serei tua mulher. Não vou para a cama contigo.
- Isso, minha cara, era uma coisa para ver, se eu estivesse interessado. O que não é o caso.
Ela recebeu aquela resposta como se fosse uma bofetada. Ele continuou.
-Agora que já está tudo tratado, podes ir. Mas não te esqueças, volta amanhã antes do almoço. Não me faças ir buscar-te. Como vieste?
- De táxi.
-Tens o teu carro na garagem. Se tens a carta contigo, os restantes documentos estão no quarto. Vou buscá-los?
- Não. Eu apanho um táxi.
Levantou-se e dirigiu-se à porta. Ele seguiu-a, e quando ela já saía recomendou-lhe:
- Não te esqueças de trazer a chave. Não fica bem a dona da casa tocar a campainha.

8.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XXII








Às quinze horas, entraram juntos no refeitório, e depois de pedir que se sentassem, Daniela disse.
-Como sabem, há dois meses que esta empresa, passou a ter um novo sócio. O senhor David Ribeiro aqui presente, e que já vos apresentei informalmente. Acontece que o senhor Ribeiro, vai investir um bom capital na fábrica, acaba de comprar novas máquinas de tecelagem, a primeira das quais será montada já para a semana. Vai criar mais postos de trabalho, e como tal é justo que vá assumir a gerência da fábrica, motivo pelo qual, a partir deste momento, todo e qualquer assunto referente à laboração, deve ser comunicado ao senhor Ribeiro. 
Calou-se e recuou, esperando o que ele poderia dizer, mas David, limitou-se a fazer um gesto com a mão e acrescentou.
- Espero que a nossa relação laboral continue a ser boa para ambas as partes. Podem voltar aos vossos postos de trabalho.
Virou-lhes as costas e ela apressou-se a segui-lo.
Uma vez no gabinete, ela sentou-se e disse:
-Vamos lá então tratar disto. Aqui estão as pastas com as encomendas, e o prazo de entregas estipulado para cada uma. O livro de cheques, a chave do cofre, e o endereço eletrônico da firma. A pasta do pessoal, dos Fornecedores, da Segurança Social, e das Finanças. Qualquer informação adicional, a Madalena dar-ta-á. É uma excelente secretária está na firma há muitos anos, sabe de tudo o que a ela diz respeito. Há três anos que não tiro férias. Uma vez que tomaste conta de tudo posso ir descansada.
Encarou-a com raiva.
-Não podes, fazer isso.
-Porque não? É um direito que me assiste.
- Mas posso precisar de ti.
- Para quê? Para alguma assinatura legal? Posso passar-te uma procuração.
- Faz isso e diz adeus às tuas ações na fábrica.
- Confio em ti. Sei que não o farás, - sorriu com tristeza.
Engoliu em seco. Como podia confiar nele, depois de conhecer o seu desejo de vingança? Que se passava com ela? Era muito ingénua, ou demasiado estúpida?
-Para onde vais?
- Estou a pensar ir até Moçambique. Há muito tempo não vejo o meu irmão. É a minha única família, estou com saudades.
Ele quis ser mordaz, dizer alguma coisa que a ferisse tanto, quanto ele se sentia, mas por qualquer razão não foi capaz. Voltou-lhe as costas, e por isso não pode ver o olhar de tristeza com que ela o brindou, antes de se dirigir  para a saída.