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20.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXI

 



Anabela acordou sobressaltada. Sonhou que depois de muitos meses de luta constante com o doente, sem notar quaisquer melhoras, estava prestes a desistir.

Recusando-se a acreditar que o sonho podia ser um aviso do que ia acontecer, olhou o relógio e viu que eram apenas sete horas.  Saltou da cama, calçou os chinelos, vestiu o robe e foi abrir a persiana. O dia amanhecera de novo com bom tempo. Apesar do sol ainda demorar quase uma hora para aparecer no horizonte, a escuridão ia desaparecendo rapidamente e o céu até onde a serra deixava ver, mostrava um belo tom de azul. Abriu um pouco a janela e logo a fechou arrepiada com a lufada de ar gelado que entrou no quarto.

Decidida a começar a nova fase da sua vida, tomou banho, secou e prendeu os cabelos num rabo-de-cavalo, vestiu-se, arrumou o quarto, pôs em cima da cama a sua bata branca e desceu ao piso inferior, sentindo o delicioso cheiro a café que impregnava o ambiente. Na cozinha Isilda preparava o pequeno-almoço.

- Bom dia, Isilda.

- Bom dia, Menina.

- Anabela, por favor. Nada de Menina. O doutor já acordou?

-Não sei. O Joaquim foi agora para o quarto, - disse pondo na mesa um prato com torradas. Não sei se gosta das torradas com manteiga ou doce, no jarro tem sumo natural, feito com as nossas laranjas, e há café na cafeteira. Ontem esqueci-me de lhe perguntar o que queria para o pequeno-almoço, mas se me disser o que costuma comer, amanhã já o farei. Agora estou à espera de que o meu homem me dê sinal de que o doutor já foi para o banho, para lhe ir limpar o quarto.

-Está tudo bem, não se preocupe. Na verdade, nunca como muito de manhã. Penso que temos de ver a dieta do doente. Se ele não tem apetite, se não come o suficiente, terá de tomar alguns suplementos vitamínicos.

- Bom dia, Menina. Apressa-te mulher que o doutor já está no banho, -disse Joaquim ao entrar na cozinha.

-Bom dia, Joaquim.  Por favor, trate-me por Anabela. Como está o doente hoje, muito rabugento? – perguntou, enquanto Isilda se apressava em direção ao quarto do doente e o marido se sentava à mesa para iniciar o pequeno-almoço.

- Não sei que lhe diga. Pela primeira vez não disse nada quando abri a persiana e puxei os cortinados para entrar a luz. Aliás não disse nada de nada. Nem sequer respondeu quando lhe disse bom dia.

- Bom, vou apanhar um pouco de ar. Pode levar-me o doente para a sala de tratamentos às dez horas?

- Claro. Mas e se o doutor não quiser ir?

- Estarei lá a essa hora. Se ele se negar a ir, avise-me.


E CHEGOU A PRIMAVERA




3.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XIV



Foram uns dias muito difíceis para Anabela. Felizmente pode contar com o apoio dos compadres. Eles não só a acarinharam e defenderam, como a ajudaram a encaixotar roupas e loiças, que ela iria doar para um orfanato bem como os eletrodomésticos, as loiças e os poucos moveis que tinham ficado intactos. O que estava destruído, foi levado pela camioneta camarária de recolha de monos. Ela não queria nada que lhe lembrasse o que sofrera naquela casa.

Entretanto prosseguiam as investigações da polícia sobre o assassinato do marido e a jovem a quem não tinham sido dados mais esclarecimentos sobre o caso, depois de resolvido o esvaziamento do apartamento e tendo entregado as chaves ao senhorio, resolveu voltar a sair e procurar o inspetor.

Este, informou-a que as investigações continuavam em aberto, pois até ao momento não tinham conseguido nada de novo, a não ser testemunhos, de que ela realmente já não vivia com a vítima, não tinha conhecimento das suas ligações e tinha passado no Algarve os últimos meses. Aconselhou-a, no entanto, a entrar em contacto com ele se, entretanto, de algum modo tivesse conhecimento de algo que pudesse ajudar as investigações.

- Bem inspetor, como sabe, o último ano foi muito difícil para mim. Fui vítima de violência por parte do meu marido, fui ameaçada de morte, passei pelo medo de ter uma faca encostada ao pescoço, sofri um aborto, e fui insultada e quase agredida pelos meus ex-sogros. Sinto-me arrasada e gostaria de me ausentar da cidade.  Sou enfermeira, e por causa dos problemas que acabo de relatar e tenho a certeza de que o senhor conhece, pois deve ter cópia das várias participações que fiz nesta mesma esquadra,  para tentar equilibrar-me física e emocionalmente, tirei uma licença sem vencimento, do hospital onde trabalho.

Soube que estão recrutando enfermeiras para o Hospital St. Thomas em Londres, e gostaria de me candidatar, pois com os últimos acontecimentos, penso que quanto mais longe estiver de Lisboa, melhor. O que queria saber, é se posso fazê-lo, ou se não posso ausentar-me do país enquanto decorrem as investigações.

-Todas as nossas investigações, confirmaram as suas declarações anteriores, não há qualquer suspeita sobre a senhora, pelo que da nossa parte não vejo nenhum impedimento. O nosso receio inicial, era que pudesse vir a sofrer perseguição de algum contacto do seu marido, pensando que ele, sentindo-se ameaçado, poderia ter-lhe entregado dinheiro ou droga que lhes pertencesse.

Esse receio não se confirmou, por isso a senhora está livre, para seguir com a sua vida, aqui ou em qualquer outro lugar.

- Muito obrigada, inspetor. De qualquer modo, se eu conseguir o emprego em Londres, entrarei em contacto consigo antes de partir a fim de saber se descobriram o assassino. O meu marido era um traste, mas ninguém merece acabar assim.

 

Nota: A pedido da avó Elvira, que ontem teve de ir a uma consulta de urgência e está com antibiótico e anti inflamatório. Afinal o técnico diz que não é o que pensava e o pc tem arranjo deve ficar pronto hoje. O portátil como só tem 7 meses está na garantia foi para a loja que o enviou para a marca. Estará pronto ou substituído por outro se não tiver arranjo no prazo máximo de um mês. Mariana.

1.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XIII

 



Se Anabela, pensara que com a morte do marido podia descansar estava muito enganada. Os sogros, que sempre tinham sido carinhosos com ela, trataram-na agora como se ela fosse a verdadeira culpada do vício do marido e a causadora da sua morte.

Pedira-lhes para a acompanharem ao apartamento em que vivera, porque pensou que eles poderiam querer ficar com alguma coisa, como recordação do filho.

Assim, depois de ter avisado o inspetor, que mandou um agente acompanhá-la e com Diogo, que se comprometera a ajudá-la na tarefa de encaixotar o que fosse preciso, dirigiu-se ao edifício que em tempos fora a sua casa, junto do qual já se encontravam os familiares do marido à sua espera.

Anabela, não pode evitar os tremores de medo, quando entrou na sala e viu os sofás completamente destruídos os bibelôs da estante partidos e os livros espalhados pelo chão.  No quarto, as gavetas da cómoda e as portas do guarda fatos abertas e completamente vazios, com as roupas espalhadas pelo chão, a cama desfeita com o colchão esventrado. 

Quem quer que fizesse aquele estrago não deixou nada por verificar até o armário da casa de banho e o autoclismo estavam abertos, e na cozinha desmontaram as placas do forno, além de terem esvaziado armários e gavetas deixando loiças e roupas espalhadas pela bancada e pelo chão.

Anabela ainda não tinha saído do choque, quando os sogros começaram a gritar com ela, dizendo que tudo aquilo era culpa sua, que se ela não tivesse abandonado o marido ele não se teria metido com aquela gente perigosa, que Óscar sempre fora um bom homem e que só enveredara por aquele caminho destruído pelo seu abandono e porque ela abortara por não querer ter, o filho dele.

Anabela ficou sem reação. Via os sogros quase a agredi-la e nem era capaz de se defender, de tal modo estava chocada. Felizmente que o agente de autoridade interveio, levando o casal para o quarto e pedindo-lhes que escolhessem o que queriam levar e se retirassem enquanto Diogo levava Anabela para a cozinha, a fazia sentar numa cadeira e lhe dava um copo de água.

Ela não conseguia compreender a atitude dos sogros. Eles sabiam, que fora precisamente a vida de vícios do marido, que originara a separação. Não podia crer que eles acreditassem que ela abortara de propósito. Apesar de não querer nada com o marido, amava aquele bebé desde que soubera que estava grávida e ficara tão destroçada com o aborto que ainda não se conseguira recompor totalmente.

 

23.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE IX


A certa altura, Óscar aproximou-se e meteu conversa com um dos jovens do grupo de Anabela, que tendo já bebido mais do que devia, o convidou a juntar-se à festa.

Ele aproveitou para se aproximar da jovem, e não mais a deixou, enredando-a na sua teia de sedutor.

Quando Maria Rosa e o namorado lhe fizeram saber que eram horas de regressar a casa e Óscar perguntou se podia acompanhá-los, Anabela não viu inconveniente. Afinal ele tinha-se mostrado muito gentil, coisa a que a jovem não estava muito habituada.

Muito tempo depois, Anabela perguntava-se onde tinha a cabeça para ter confiado num desconhecido tão rapidamente, mas a verdade é que ela parecia ter ficado completamente cega e surda a todas as advertências que os amigos mais chegados lhe faziam, sobre um namoro tão rápido e um casamento relâmpago, mal tinha começado a trabalhar no Serviço de Medicina Física e de Recuperação no Hospital de Santa Maria.

Todavia o casamento foi a maior deceção da sua vida. Em vez do lar e da família com que sonhava, Anabela teve quase três anos de inferno. 

Quando pouco tempo depois do casamento, Anabela começou a notar as alterações bruscas de humor do marido, chegou a pensar se ele não seria bipolar. Chegou até a tentar convencê-lo a procurar ajuda médica.

Viria a descobrir que o problema era outro, acidentalmente através de um pequeno caderno de apontamentos que ele deixara cair sem se aperceber e ela encontrara entre a mesa de cabeceira e a cama, enquanto limpava o quarto. Ele era um viciado no jogo.

  Cedo ela aprendeu a saber quando ele perdia ou ganhava pela maneira como se comportava.

Inicialmente eram apenas as alterações de humor, com o tempo começaram as agressões psicológicas. Depois, o dinheiro que guardava na cómoda para o governo mensal que desaparecia. Verdade que quando ganhava, ele repunha a quantia, às vezes até mais do que levara, mas a incerteza em que vivia, e os maus humores do marido roubaram-lhe a alegria, e faziam com que vivesse com o coração e a alma repletos de tristeza. Os únicos momentos de alegria que tinha, eram os que passava em casa da amiga Paula, com a sua filhinha Patrícia, de quem ela era madrinha.

Estava casada há dois anos quando ficou grávida. Não fora uma gravidez desejada, ela tomava a pilula, mas uma inflamação gástrica e a medicação que fizera, tinham anulado o efeito da pílula.

 Profissionalmente era considerada pelos médicos e colegas como uma excelente profissional. Mas como pessoa continuava a ser uma jovem ingénua. Tanto assim que que se encheu de esperança, julgando que a gravidez ia mudar o marido e fazer dele um homem responsável.

Foi mais um choque a juntar ao que tivera quando descobrira a verdade sobre o marido porque quando lhe contou, ele gritou com ela, disse que não queria filhos, que não tinha paciência para aturar pirralhos, e mandou que ela se livrasse da criança.

 Discutiram e ele deu-lhe um encontrão que a derrubou no chão da cozinha. Quando depois dele sair de casa, telefonou a Paula, ela e o marido imediatamente a foram buscar para sua casa e a aconselharam a pedir o divórcio.

18.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE VII

 



Uma hora depois, Anabela saía de Lagos em direção à capital. Enquanto conduzia, as recordações dos últimos doze anos, passavam-lhe pela mente como uma fita cinematográfica. Lembrou de quando finalmente conseguiu o emprego na clínica. Acabara despedindo-se de dona Ema e do marido com tristeza, pois nos dez meses que levara na sua casa, o seu coração sedento de carinho, fora conquistado pelo trato familiar com que os idosos sempre lidaram com ela.

Infelizmente, o emprego não lhe permitia continuar a dar-lhes a assistência que eles precisavam, mas permitiram que ela ficasse lá em casa até que arranjasse um quarto, coisa que aliás conseguiu rapidamente, pois três dias depois, no seu novo emprego.

 Em conversa com Paula, a colega da receção, soube que esta vivia num apartamento que dividia com uma enfermeira, e uma estudante de enfermagem.

 Porém no mês anterior, Joana, a enfermeira, casara e fora-se embora. E a renda ficara  mais onerosa, para as duas. Por isso preparava-se para pôr um anúncio para alugar o quarto livre. Claro que Anabela imediatamente aproveitou a oportunidade, e no fim de semana seguinte despediu-se do casal e mudou-se para o apartamento.

Porém durante os anos seguintes, enquanto o casal foi vivo, Anabela não deixou de os visitar, pelo menos uma ou duas vezes por mês. Porque ela era agradecida a todo o carinho com que sempre a trataram.

 Na nova morada, rapidamente se ajustou com a rotina de uma casa habitada por três pessoas, sem outros vínculos, que o companheirismo. A empatia entre ela e a colega Paula foi quase instantânea. Com Matilde a jovem estudante de enfermagem, foi um pouco mais demorada, mas ao fim de seis meses, as três eram amigas e confidentes. Matilde terminou nesse ano os estudos e pouco depois estava a trabalhar num hospital particular.

Anabela gostava do seu trabalho, mas queria mais. Gostaria de passar da receção para o tratamento das pessoas. Depois de falar com alguns colegas, e saber tudo sobre o curso, decidiu matricular-se na Universidade, no Curso pós-laboral pensando dedicar-se de alma e coração aos estudos.

A meio do terceiro ano do Curso de Fisioterapia, a agência imobiliária conseguira finalmente vender a casa, precisamente a uma empresa que se dedicava ao turismo rural.

Quando assinou a escritura e se viu dona de tanto dinheiro, ela que nunca tivera nada, decidiu aplicar uma boa parte desse dinheiro em ações de empresas que lhe garantiam um bom ganho, bem como em títulos do tesouro. O restante deixou numa conta à ordem, decidida a iniciar o Curso de enfermagem no próximo ano letivo.

Afinal a saúde era a sua área de preocupação, e tratar dos outros a sua vocação. No ano seguinte acabaria o Curso de Fisioterapeuta, os dois cursos tinham algumas disciplinas iguais e se ela não trabalhasse e se dedicasse inteiramente aos estudos, poderia iniciar o Curso de enfermagem diurno ao mesmo tempo que terminava o outro de noite. Afinal nos testes ao QI que a “avó” Arminda insistira para ela fazer, no último ano do Secundário, não lhe disseram que o seu QI era de 140?

Contou os seus sonhos às duas amigas e companheiras e tanto Paula, quanto Matilde a encorajaram a realizá-los.

6.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XVII

 






No fim de semana Laura andou num redopia entre a ansiedade de Matilde, cujos pais regressavam da lua-de-mel, a persistência da mãe, que insistia em que era mais que tempo de terminar o luto e dar um novo rumo à sua vida, a chegada dos noivos, o jantar de comemoração num restaurante da moda, oferecido pelo padrinho e a preparação mental para a separação do filho, Miguel, que ia para a creche no início da semana, além do emprego que ia iniciar e que a ia por em contacto diário com Fernando com quem toda a família parecia querer vê-la casada.

No Domingo, teve oportunidade de uns momentos a sós com a cunhada, com quem desabafou um pouco das suas preocupações.  Na verdade, ela e Lena, sentiram uma empatia imediata, no dia em que se conheceram e depressa se tornaram amigas.

- Não vejo razão para estares preocupada, - disse-lhe a cunhada. Afinal o trabalho é decerto bem mais fácil do que preparar uma aula para mais de vinte alunos. E, segundo sei vocês conhecem-se de toda a vida, o Fernando pelo que tenho observado é educado e simpático. Do que tens medo? Dele ou de ti?

- Na verdade, não sei. Como dizes conheço-o de toda a vida, fomos amigos de brincadeiras, sempre o olhei como um irmão. Quando fiquei viúva, ele foi um apoio muito importante, principalmente para a Sara, que adorava o pai e a quem eu, devastada pela minha dor, reconheço não ter apoiado tanto quanto devia. Um dia, surpreendo o Fernando olhando-me de uma forma estranha. 

Olhava-me como um homem olha para uma mulher que deseja. Fiquei escandalizada e disse-lhe a Sara já estava melhor e que o Miguel precisava de toda a minha atenção e pedi-lhe que não voltasse.

 Ele afastou-se, mas de súbito os meus pais e o teu marido, começaram a dizer-me que tinha de tentar esquecer o Quim e recomeçar a minha vida, que os meus filhos precisavam de uma figura masculina, que o Fernando era uma ótima pessoa e seria um bom pai para os meus filhões etc. E quanto mais a família insistia nisso, mais eu me agarrava às memórias do Quim e mais raiva desenvolvia em relação ao Fernando. Consegues compreender-me?

- Caro que sim. Afinal eu vivi apenas um mês com o teu irmão, pensei que ele me tinha abandonado porque nunca me amara, e não consegui esquecê-lo nos catorze anos que não soube nada dele. Felizmente os meus pais sempre respeitaram a minha decisão de não querer saber de outro homem até à maioridade da Matilde. 

Talvez isso fosse uma desculpa porque lá bem escondido num cantinho do coração eu tivesse o sonho de voltar a encontrar o Gonçalo e recuperar o amor que nos tinha unido. O teu caso é diferente. Por muito que tenhas amado o Quim sabes que está morto, e não tens a ilusão da sua volta. Podes e deves seguir em frente, refazer a vida, com o Fernando ou com qualquer outro, se apenas consegues ver o Fernando como irmão. Afinal tens apenas trinta e três anos.   

- Que às vezes me parecem sessenta…

-Eu sei, o sofrimento faz-nos sentir assim.

20.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XI


Depois Fernando levantou-se e aproximou-se de Laura que se encontrava de costas, olhando através da janela da cozinha.

- É verdade o que a tua mãe disse. Ainda tens as mensagens do teu marido no telemóvel?

-Não. Mas tive-as durante muito tempo e ouvia-as, sim. Ajudaram-me a passar os tempos mais críticos quando me custava a crer que nunca mais o veria. Tu não sabes o que é amar uma pessoa de corpo e alma e de um momento para o outro perdê-la.

- Não, - disse ele com voz rouca, - mas sei o que é amar assim, alguém que nunca me amou. A gente não vive, sobrevive.

E dizendo isto virou-lhe as costas e foi-se embora, deixando-a  sem palavras.

 Laura fechou a porta e regressou à cozinha, pôs a loiça na máquina, e limpou a mesa. De seguida dirigiu-se ao quarto da filha para o limpar, tentando  esquecer-se do que Fernando lhe tinha dito, mas por mais que se ocupasse das tarefas domésticas, não  o conseguiu.

Claro que os pais, principalmente a mãe, também não ajudaram nada. Ela amava os pais, mas estava desejosa de que eles voltassem para casa e a deixassem em paz.

Nunca um dia lhe parecera tão longo. E quando finalmente chegou a hora de se deitar, e se recolheu ao quarto, continuava com mil ideias contraditórias na cabeça.

Tomou banho, vestiu o curto pijama de seda, lavou os dentes e dirigiu-se para o enorme leito onde todas as noites se perdia de saudade. Antes, porém, pegou na moldura com a foto de Nuno que tinha em cima da cómoda e acariciou o seu rosto, enquanto murmurava.

-Sinto-me tão perdida sem ti. Toda a minha família insiste em que te devo esquecer e seguir em frente, procurar um novo amor, dar uma figura masculina ao nosso filho, que não chegaste a conhecer. Sei que o Fernando Novais, aquele nosso amigo de infância, que andava sempre com o meu irmão, me ama, toda a gente o sabe na família, embora eu só o tenha sabido, muitos meses depois da tua partida. Não que mo tenha dito, mas li-o nos seus olhos e por isso o afastei, renunciando a todo o apoio que como psiquiatra me podia dar. Mas agora que o Gonçalo encontrou a mulher da sua vida, casou e foi de lua de mel, pediu-lhe para ele me ajudar com as crianças, vejo-o todos os dias.  

Fez uma pausa enquanto se sentava na cama, com a foto nas mãos e os olhos rasos de água

- A nossa menina, está uma mulherzinha, tão linda e estudiosa que terias orgulho dela. O Miguel é um menino lindo, mas um pouco rebelde. Os meus pais insistem em que ele precisa de uma figura masculina.  E sei que o Fernando seria bom com as crianças, e elas gostam dele. Não quero trair a tua memória, mas não sei que fazer, deixaste-me tão sozinha.

Pousou os lábios delicadamente sobre a foto como se beijasse o rosto do falecido, e de seguida pousou a moldura de novo sobre a cómoda.

Puxou a roupa da cama para trás, deitou-se e apagou a luz.  Já passava da meia-noite e no dia seguinte teria que se levantar cedo para tratar do pequeno almoço das crianças que iam para a escola. Mas não conseguia dormir. Pensava na proposta de emprego do amigo. Sabia que depois que os pais regressassem a Braga e o filho fosse para a creche se ia sentir ainda mais só do que se sentira nos últimos tempos.

19.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXIII




Nos primeiros dias de Janeiro, a tia Délia sofreu um  ataque cardíaco, que foi a machadada final na sua frágil saúde. Faleceu no mesmo dia.
Sofia, desdobrou-se no apoio ao marido e ao tio, que estava inconsolável. O restaurante foi fechado durante uns dias, e quando reabriu, Sofia que continuava desempregada começou por dar uma ajuda, na contabilidade, já que o tio não saía de casa e definhava dia a dia, mas acabou por assumir toda a parte de gerência do mesmo. Um mês depois, o tio não suportando mais a ausência da mulher que amara, partiu também. Foi mais um rude golpe para Quim. E mais uma vez a mulher esteve a seu lado, como um forte pilar de apoio.

Foi nessa altura, depois do funeral do tio, depois da demonstração de um momento de fraqueza e vulnerabilidade de Quim, que eles se tornaram verdadeiramente um casal. Foi amor? Ela não sabia. Da parte dela, sim, conhecia os seus sentimentos, há muito tempo estava apaixonada pelo marido. Da parte dele, não sabia. Talvez não passasse da necessidade de mitigar a dor da perda daqueles que amara como pais. Talvez fosse um desejo instintivo, próprio de homem, por uma mulher jovem e bonita, que afinal até era sua esposa.

Sofia não sabia. E para ser verdadeira consigo mesmo, nem lhe importava. Tinha vinte anos, viviam na mesma casa há quase cinco meses. Certo que ele lhe tinha confessado amar outra mulher. Que lhe tinha pedido paciência. Mas ela reconhecia que não era muito paciente. Talvez mais tarde se arrependesse, mas naquele momento entregava-se de corpo e alma compensando com amor, a inexperiência que recorria do facto de ser virgem.

Na manhã seguinte, quando acordou, Quim já se tinha levantado. Sentiu-se um pouco desiludida. Tinha sido a primeira noite que dormira com o marido, teria gostado de acordar com ele a seu lado. Encontrou-o na cozinha, e saudou-o envergonhada pela recordação da noite anterior.
-Bom dia.
- Bom dia, Sofia. Acabei de preparar o pequeno almoço, ia levar-to agora -  disse colocando-lhe a bandeja na mesa à sua frente. E acrescentou: - Precisamos conversar sobre o que aconteceu ontem à noite.
Estava muito sério. Ela sentiu-se gelar. Primeiro acordava sozinha. Depois aquele ar sério do marido. Pensou que ele estava arrependido. Sentiu que alguma coisa se rompia dentro dela. Ia rejeitá-la.

Afinal, casara com ela por causa dos tios, e agora que eles tinham morrido, não havia necessidade de continuar aquela farsa. Pedia o divórcio, e podia enfim, voltar para a sua "boneca". E ela feita estúpida, entregara-se de corpo e alma, sonhando com o seu amor. 
Incapaz de conter a dor que sentia, abriu as comportas do rio interior em que a sua alma naufragava e começou a chorar.





3.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE V

  


E dava gosto vê-los, tão sérios, tão compenetrados da solenidade em que se inseriam.
Sofia seguia a procissão, rezando com fervor a Nossa Senhora, pedindo proteção para a nova e desconhecida vida que a esperava, ao mesmo tempo que sentia já no peito um pouco de saudade.

No dia seguinte, entrou no avião com o coração apertado. 
Nunca sonhara andar de avião, e sinceramente sentia um certo receio. 

Considerava que o comboio era o transporte mais seguro e gostaria de ter feito assim a viagem. Era longa, teria mais tempo para se preparar para o encontro com o marido. Mas ele quisera que ela fosse de avião, fizera a reserva e mandara o bilhete e agora ali estava ela, o coração apertado, as pernas a tremer e chamando-se a si própria palerma, pelo medo que sentia.

A viagem foi rápida. Durante ela, olhou várias vezes a foto que o marido lhe tinha enviado antes do casamento, memorizando cada traço, a fim de saber reconhecê-lo no aeroporto. Ela não era boa fisionomista, mas tinham trocado fotografias antes do casamento, e esperava que o marido, fosse melhor que ela nesse aspeto, ou correriam o risco de passarem um pelo outro e não se reconhecerem.

Apesar dos seus medos, não foi difícil localizá-lo, mal desembarcou.
Quim era um homem bonito. Alto, magro, cabelo e olhos castanhos.
No rosto moreno, sobressaía o seu queixo quadrado, as sobrancelhas cerradas e a boca carnuda. Bem diferente do adolescente que ela conhecera em miúda.

Enquanto ele se aproximava, passou-lhe pela cabeça uma interrogação.
 “Como é que se saúda um desconhecido, que os papéis dizem ser o nosso marido?”
Não teve que esperar muito para saber.
-Olá, - ele saudou-a com um breve beijo no rosto. – Fizeste boa viagem?
- Sim. Com um pouco de receio, não via a hora de me sentir em terra firme, - disse ela com um tímido sorriso.
Ele agarrou na mala, deu-lhe o braço e disse:
- Vamos. Deves estar cansada.

26.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXIV



-Enquanto ela tentava convencer-me, de que teria que lhe dizer o assunto que ali me levava, avancei para a porta e abri-a sem lhe dar tempo para sair do seu lugar e me impedir.
-Oh! Foi muito arriscado!
- Eu sei. Ela pediu desculpas ao chefe e perguntou se chamava os seguranças para me porem na rua, mas felizmente ele resolveu que me dava uns minutos de atenção.
- Meu Deus, mulher!  E não tiveste medo? E como é ele? Pareceu-te uma pessoa compreensiva? O Gustavo diz que é um homem duro.
-Eu sei, também mo disse. Confesso que quando me sentei na sua frente, de súbito recordei a conversa com o teu marido e temi ter-me precipitado, não sabia bem como dizer-lhe ao que ia. Porém quando ele me disse que estava à espera, como quem diz que não tem tempo a perder, respondi-lhe que eu também estava à espera e ia esperar por nove meses, se tudo corresse bem.
Inês olho-a espantada. Abriu a boca e tornou a fechá-la, sem se atrever a interrompê-la.
 -Claro que ele ficou surpreso, quis saber quem eu era e aí contei tudo. E sabes que mais? Não me pareceu o bicho papão que me pintaram no Centro Clínico. É um homem duro, sim. Provavelmente por tudo o que lutou para chegar onde chegou. Mas também é um homem educado e compreensivo, que acedeu ao que lhe pedi.
- O quê vai desistir da criança?
-Por favor, Inês, não insultes a minha inteligência. Tu achas que eu lhe ia pedir semelhante coisa?
- Então?
- Pedi-lhe para acabar com as investigações, para deixar os tribunais fora do caso, falei-lhe da quantidade de abortos durante os três primeiros meses, e prometi-lhe que depois de passar essa fase, nos reuniríamos para discutir o futuro, tendo em conta o bem da criança.
-E ele?
- A princípio, pareceu renitente. Como se pensasse que eu aproveitaria estes três meses para fugir deixando-o de fora da vida do filho. Mas depois de mais de uma hora de conversa penso que ele confiou em mim. Sempre pensei ser mãe solteira, porque na verdade não acredito no amor, nem confio nos homens. Desde menina aprendi que o amor traz sofrimento, vi muitas vezes a minha avó chorar em silêncio a dor do abandono do meu avô. E que dizer da traição do homem que me gerou, com falsas promessas de amor, e sonhos de uma vida a dois, que nunca pensou concretizar? Talvez por isso nunca me tenha apaixonado, e no meu sonho de futuro, só entravam eu e o meu filho, ou filha, sem qualquer figura paterna à nossa volta. Acontece que a vida resolveu armar-me uma cilada, e meteu-nos aos dois na mesma armadilha. Para que consigamos sair dela sem muitas feridas, não pudemos lutar um contra o outro desperdiçando as nossas forças. Temos que nos unir e tentar sair dela com o mínimo de feridas possíveis. Foi isso que tentei fazer-lhe entender e creio que o consegui.
- Sempre te achei uma mulher de coragem, mas nunca como hoje tive tanta certeza disso – disse Inês.
- Bom, agora que já te contei o que se passou, deixo-te só para que tomes contacto com este gabinete, que vejas como estão organizadas as pastas, etc. A pastelaria tem uma página na Web, e uma conta de email, o endereço eletrónico está nesta agenda, e encomendas e faturas podem chegar pelo correio normal ou por email. Mas tudo o que chegue por email, independentemente da pasta eletrónica onde o arquives, tiras uma cópia em papel e arquivas na pasta correspondente. Pode parecer um pouco arcaico, mas é essencial, se houver uma falha de Internet, ou se por engano apagares o original. Com uma cópia em papel nunca ficas sem essa informação. Mas o teu pai virá para aqui logo que possa e ajuda-te. Bom trabalho.


29.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XII





- O empresário João Teixeira!
- O Ronaldo da informática? Meu Deus, Teresa! E agora? O que vais fazer?
- Não sei. Desde logo pedir conselho ao teu marido, saber que tipo de proteção posso esperar da justiça. Depois por certo entrar em contacto com o homem. Não vou ficar à espera de ver o que faz. Não consigo viver com esta espada pendendo sobre a minha cabeça.
- Mas não pode tirar-te a criança. Se ela tem o seu material genético, também tem o teu. Foi o teu óvulo que foi fecundado e é no teu útero que se está a desenvolver. É tão filho dele como teu. Mesmo um juiz terá isso em conta.
-Não sei, se é assim tão simples. Estou aterrorizada. Imagina que o homem ficou estéril após a tal doença? Não vai querer ficar sem a única hipótese de ser pai. Qualquer juiz vai ter isso em conta. E provavelmente atribuir-lhe a guarda do bebé! Afinal eles não decidem isso quando um casal com filhos se divorcia? Eles não entregam a criança à guarda daquele que tem mais hipótese de dar uma melhor vida à criança? Imagina no meu caso.
-Mas tu tens uma excelente situação financeira, podes dar uma boa vida a duas ou três crianças.
-Uma gota de água comparada com a dele, segundo me disseram. E depois um juiz pode sempre alegar que eu posso ter outros filhos enquanto a ele lhe roubaram a única hipótese de ser pai. Não sei que faça, este filho foi tão desejado que não quero sequer pensar na hipótese de perdê-lo, mas não podemos parti-lo ao meio como na sentença de Salomão.
- Mas um juiz também pode decidir que fiquem com a guarda partilhada da criança.
- Já pensei nisso. Iria ter que conviver com uma pessoa, que até agora nunca vi, que não sei como vai influenciar a educação do bebé, nem se a criança mais tarde, quando tiver discernimento, para compreender a história do seu nascimento, não vai optar por ficar com o pai. Não é de modo algum a vida que sonhei para nós dois, mas dadas as circunstâncias poderá ser a melhor decisão.  
- Não podes angustiar-te assim. Pensa no bebé! Uma grávida precisa estar calma. Se por causa da tua ansiedade abortares, não resolves o problema e vais ficar toda a viva a culpares-te por isso. Vou fazer-te um chá de valeriana, a ver se te acalmas.
Levantou-se e Teresa fez o mesmo seguindo-a para a cozinha.   
- Queres que telefone ao Gustavo e pergunte se te pode receber? – perguntou Inês enquanto punha a água ao lume para o chá. - Mas porque não ficas para almoçar connosco e falas com ele, depois do almoço? Estás demasiado nervosa agora, para conduzir. E depois o Martim está quase a acordar, vai ficar muito feliz se vir a madrinha.
- Eu fico. Preciso saber o que a lei diz nestes casos, para tomar uma decisão. Vou telefonar ao teu pai e pedir-lhe se ele pode continuar à frente da pastelaria. Com toda esta confusão não sei, quando poderei voltar a assumir a gerência. Achas que o teu pai estaria interessado em deixar o forno e assumir o lugar? É claro que teria de contratar outro pasteleiro, mas preferia isso do que contratar um gerente. Tenho total confiança no teu pai e era menos uma preocupação.


19.5.20

ISABEL - PARTE V


                                     Foto do google


Dirigiu-se ao aparelho e levantou o auscultador.
Do outro lado uma voz desconhecida perguntou se era a casa do senhor Fernando Cardoso, e depois de ouvir a confirmação, a voz identificou-se. Era da Polícia e perguntou se podia falar com a esposa do senhor Fernando Cardoso. Trémula, pressentindo algo grave, Isabel respondeu que era a própria.
Então, a voz informou-a que o senhor Cardoso tinha tido um acidente, e tinha sido transportado para o hospital da área da sua residência.  
Por pouco não saiu de casa a correr sem desligar o fogão, de tal modo ficou aflita.
Apesar de morar a menos de cem metros da casa dos pais, não lhe ocorreu passar por lá. Dirigiu-se imediatamente à praça de táxis e entrando no primeiro da fila pediu, para a levarem ao hospital.
Chegara ao hospital e dirigira-se correndo à recepção. Lá lhe disseram que sim, Fernando Cardoso dera entrada no hospital. A sua moto fora abalroada por um carro em despiste.  
- Aguarde um momento por favor. Vou avisar o médico que já chegou.
A recepcionista pegou no telefone interno e fez uma chamada. Depois voltou-se e disse:
Entre por essa porta à esquerda, siga o corredor e bata na quarta porta. O médico está à sua espera.
Seguiu as instruções. O coração batia desordenadamente, os olhos rasos de água, a voz presa ela sentia-se esmagada como se o mundo tivesse desabado sobre si. Bateu à porta.
- Entre – ouviu-se uma voz masculina
No gabinete encontrava-se um médico sentado atrás de uma secretária e a seu lado uma médica de pé.
- É a senhora Cardoso? - perguntou  o médico 
Incapaz de responder Isabel assentiu com a cabeça.  
- Eu sou o médico que atendeu o seu marido.  O estado dele é muito grave. Sofreu fracturas múltiplas, contusão cerebral, e hemorragia interna por rompimento do baço. Está neste momento no bloco operatório.
Vamos...
Não ouviu mais nada, sentiu que o chão lhe fugia debaixo dos pés, e de repente tudo à sua volta desapareceu e ter-se-ia estatelado não fora a pronta assistência de um dos médicos.
Acordou estendida na marquesa, com a médica debruçada sobre si.
-A cirurgia terminou? – perguntou entre soluços.
- Ainda não. Tenha calma, a equipa de cirurgiões que está com ele é excelente e vai fazer tudo para o salvar - respondeu a médica estendendo-lhe um comprimido e um copo de água. E acrescentou:
- Vai ter que ser corajosa. As primeiras setenta e duas horas serão determinantes. O seu marido é jovem, mas não lhe podemos esconder que o estado dele é realmente muito grave. Hoje não poderá vê-lo. Deve ir para casa descansar mas não deve ir sozinha. Está muito nervosa. Podemos avisar alguém? 
 Ela não se recordava de ter dado o número do telefone dos pais, mas decerto o tinha feito já que pouco depois o pai estava no hospital, junto dela.
Também não se recordava de ter ido para casa. Decerto o calmante era bastante forte.
Apesar de continuar nublado, o tempo estava a aquecer, a praia a encher-se de gente e Isabel continuava vestida. Começava a sentir muito calor e a desejar chegar rápido junto da toalha para se despir. Passou a mão pela testa, como se quisesse com esse gesto, afastar as lembranças que a estavam a atormentar naquele dia.




11.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE VI



Calou-se. Eva estava confusa. O coração dizia-lhe que o homem era sincero e podia confiar nele, a cabeça lembrava-lhe que o seu coração era muito ingénuo, e já a enganara uma vez, quando a levara a confiar no marido. E enquanto ela se debatia com estas contradições, ele poisou as chaves com que abrira a porta, em cima da mesa, virou-lhe as costas e começou a caminhar para a saída.
O facto de ele pousar as chaves que ela mesma lhe entregara, fez com que a levasse a confiar nele.
-Espera – disse pondo-se de pé. - Vem conhecer a casa. Se quiseres podes mudar-te hoje. 
A casa não é muito grande. Além desta sala, temos aqui uma sala de refeições, e aqui o quarto principal. É o único com casa de banho, - disse enquanto ia abrindo as portas, para lhe mostrar os respetivos aposentos. Esta parte da casa, bem como a cozinha e a casa de banho, foi remodelada e mobilada por nós, antes do casamento. Aqui é uma salinha de leitura,  que comunica com o quarto principal e o quarto de hóspedes. Estas duas divisões, como podes ver, estão mobiladas com um estilo diferente. Clássico, os móveis são antigos, já  estavam assim, quando o Alfredo herdou a casa, da madrinha, e não lhe mexemos, em parte porque o dinheiro para a reforma não abundava, e em parte porque enquanto não viessem os filhos, não precisaríamos delas. Aqui em frente temos uma casa de banho e  a cozinha. Podes ficar com o quarto principal, eu mudo as minhas coisas para o quarto de hóspedes.
-De modo nenhum. Eu fico no segundo quarto. De certeza que posso vir hoje? Não queres mais um dia ou dois para te habituares à ideia?
- Não! Hoje, amanhã, ou daqui a um mês, a dor e a vergonha, do que aconteceu, não diminuirão. Além do mais vai ser uma festa para a vizinhança, a tua presença aqui. Parece que já estou a ouvir os comentários. "Há uma semana enterrou o marido e já meteu outro lá em casa. Se calhar foi por causa dela que ele se matou."
- Se te preocupas com isso, podes dizer que sou da família.
- De modo algum. Não me preocupa o que pensem, estou de consciência tranquila.
- Bom, como já te disse, não quero prejudicar-te.  Peço-te que me desculpes se te pareci rude à bocado. Penso que estavas à beira de um ataque de nervos e foi a melhor maneira que encontrei para te tranquilizar.  Agrada-me a casa. Os hotéis são muito impessoais. Devo dizer-te que saio todas as noites e regresso tarde. Como te disse sou jogador profissional, uma profissão noturna. Procurarei não fazer barulho, quando entrar.
- Farei o mesmo de manhã, para que possas descansar. Agora vai.
Logo que André saiu, ela foi até ao quarto de hóspedes, e trocou a roupa da cama. Depois levou toalhas limpas para a casa de banho, verificou se estava tudo em ordem, e só depois voltou à sala e pegou na carta do marido. Deu-lhe várias voltas, antes de ter coragem de a abrir.
Por fim decidiu-se. E leu.

“Querida Eva:
Deves estar muito zangada comigo. Sei que fui um canalha, traí a tua confiança, destruí os teus sonhos, pus-te em perigo, e não consigo viver com o remorso daquilo que fiz. Não te peço perdão, porque eu próprio não me perdoo. Tenta esquecer que eu existi. Só assim poderás ainda ser feliz. Adeus.”

Escondeu o rosto entre as mãos e chorou amargamente.


10.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE V




O homem não respondeu. Pegou nas chaves, dirigiu-se para a porta, abriu-a e colocou-se de lado para ela entrar. Depois fez o mesmo e fechou a porta atrás de si. Então a sua mão agarrou-lhe o braço como se fosse uma tenaz, ao mesmo tempo que dizia com voz rude.
- Vamos lá, mocinha, vai levar-me para a sala, que precisamos ter uma conversa séria.
Qualquer coisa na voz dele, levou-a a obedecer, encaminhando-se para a sala. Aí chegados, ele empurrou-a sem muita delicadeza para o sofá, onde ela se deixou cair, pálida de medo e raiva. A tensão entre os dois era enorme.
Então ele rompeu o silêncio.
-Não sei como era o teu casamento, - disse tuteando-a – todavia a julgar pelo teu marido e pelo vício que o dominava, não devia ser muito feliz. Eu chamo-me André Ferreira Angeloni. Meio português, meio italiano, tenho trinta  e três anos, e sou jogador profissional. Acredites ou não, nunca nos dez anos que percorro os casinos, em todo o mundo, tinha encontrado um indivíduo tão agarrado ao vício quanto o teu marido. Naquele dia ele tinha gasto todo o seu dinheiro, mas queria a todo o custo continuar a jogar. A banca não lhe cedeu mais fichas, provavelmente conheciam-no e sabiam que ele não poderia pagar. Então ele começou a percorrer as mesas abordando os jogadores, oferecendo-lhes a casa em troca de quem lhe desse meios para continuar a jogar. Eu estou cá há pouco tempo. Não conhecia o teu marido, mas não sei que diabo me passou pela cabeça, que me prontifiquei a trocar o que me oferecia pelo que desejava. Uma avultada quantia que ele trocou por fichas,  para continuar a jogar. E claro, voltou a perder. E antes que fiques a pensar, em coisas escusas, eu nunca joguei com ele. No dia seguinte, ele não foi ao casino e dois dias depois, ouvi comentários sobre o seu suicídio. Nem sequer sabia que ele tinha feito um testamento a meu favor, nem que tinha incluído a cláusula de teres que viver comigo seis meses. Ainda não entendo porque o fez. Só o soube hoje no advogado.
A única coisa que tenho comigo, é o documento da dívida e a oferta da sua residência, e de todo o seu conteúdo, como penhora dela.
Meteu a mão no bolso e tirou o documento, que lhe jogou para o regaço.
-Aí está. Podes verificar a data e as assinaturas. Dirás que a casa vale muito mais. De acordo. Mas de qualquer modo, depois do testamento que o teu marido fez, isso já não conta. Ele o fez, de livre e espontânea vontade, e em pleno uso das suas faculdades. 
Além de jogador, eu sou um cidadão do mundo, cheguei há pouco tempo a Portugal, não sei quanto tempo vou ficar. Estou num hotel. Suponho que esta casa terá um quarto de hóspedes. Vou deixar-te só para que leias a carta do teu marido e prepares um quarto. Amanhã ao fim do dia, trago as minhas coisas. Não precisas ter medo de mim, não te digo que pudemos ser amigos, porque não creio que o desejes, mas posso garantir que não te farei qualquer mal. Juro.





9.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE IV


Ele não respondeu. Limitou-se a segurá-la pelo cotovelo, e empurrá-la suavemente para a porta do elevador que acabava de se abrir.
Com um safanão ela libertou-se.
-Não me toque. Pode ser que o safado do meu marido, se tenha julgado no direito, de me transformar num troféu de jogo. Ultimamente andava tão esquisito que nada me admira. Posso ter perdido a minha casa, e ser obrigada a viver seis meses consigo. Mas não lhe dou o direito de me tocar.
Brilharam de raiva os olhos cinzentos.
-Oiça, entendo que esteja em choque. Mas não lhe quero fazer qualquer mal. Acredite ou não, o melhor que lhe podia ter acontecido, foi ter sido eu a aceitar a proposta maluca do seu marido. Não lhe passa pela cabeça, o perigo em que o vício dele a colocou. Nas mesas de jogo, há gente de toda a espécie. Alguns são capazes de mandar matar com a mesma calma com que a senhora pede um bolo, ou um café. E agora vai dizer-me como veio até aqui?
Pela primeira vez, ela olhou o rosto do homem. Não se podia dizer que era um homem bonito. Interessante sim. E duro. Sem bem saber porquê, teve a sensação, de que aquele homem zangado, podia ser muito perigoso. Talvez fosse pelas maçãs do rosto demasiado salientes, ou pelo queixo quadrado, talvez pelos olhos cinzentos, tão claros que lhe lembraram dois pedaços de gelo, ou quem sabe, pela linha dura da boca bem desenhada. Apesar de falar corretamente a língua portuguesa, tinha uma pronuncia diferente. Era estrangeiro certamente.
-Vim de carro - murmurou
Começou a andar rumo ao parque e ele colocou-se a seu lado. Caminharam em silêncio até ao automóvel. Em silêncio ele estendeu a mão, e ela entregou-lhe as chaves. O homem não tentou ser gentil, nem lhe abriu a porta, dirigindo-se diretamente para o lado do condutor e sentando-se ao volante. Colocou o cinto e então olhou-a:
- E a morada é…
Ela disse o nome da rua, e remeteu-se ao silêncio. Estava desejosa de estar sozinha para ler a carta do marido. Maldito fosse ele. E pensar que lhe parecera tão amoroso, quando o conhecera. Razão tinha a Irmã Madalena, quando a aconselhara a prolongar o noivado. Por qualquer razão que ela desconhecia, a freira, não confiava nele. Olhou de relance para o homem a seu lado. Como era mesmo o seu nome? Ela lembrava-se que o advogado o mencionara, mas estava tão nervosa que não o memorizou.
O carro parou e só então ela se apercebeu de que tinha chegado a casa. Saíram do veículo e ele estendeu-lhe as chaves. Ela guardou-as na mala, e retirou as de casa, que lhe estendeu com  ar provocador.
-Ó desculpe, tenho as chaves da "sua" casa, - disse com ironia.

6.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE III




Acordou alguns minutos mais tarde, deitada no sofá da sala de recepção, com a secretária do causídico, aspergindo-lhe o rosto, e os dois homens de pé, junto do sofá.
- Sente-se melhor? – perguntou a secretária, para acrescentar de seguida, estendendo-lhe um copo. – Beba um pouco. É água com açúcar, vai fazer-lhe bem.
Aos poucos a cor voltou ao rosto da jovem.
-Sente-se capaz de continuar? – perguntou então o advogado.
- Sim. Peço desculpa, não costumo perder os sentidos, mas a surpresa, o calor, não sei.
Levantou-se. Ainda sentia um tremor nas pernas, mas tal como Cristo no Calvário, ela também não podia afastar de si aquele cálice. Logo, era urgente que o bebesse até ao fim. Voltaram a entrar no gabinete, onde o advogado retomou a leitura do documento. Quando terminou, Eva perguntou:
- Esse testamento é legal? Quero dizer, não me refiro ao património, que o meu marido, deixou ao cavalheiro aqui ao lado. Afinal a casa era herança dele, estava no seu direito. Refiro-me à exigência de que terei que viver seis meses na casa, com uma pessoa que não conheço de lado nenhum, que não sei se é boa pessoa, ou um bandido da pior espécie. Perdoe-me o senhor, - disse sem se voltar para o homem que estava sentado a seu lado, - a minha intenção não é ofendê-lo, estou apenas a constatar um facto. É legal uma pessoa dispor em testamento da vida de outra, como se fora um objeto?
- É legal, quando uma pessoa é menor, ou ainda que seja de maioridade, se  é incapaz de sobreviver sozinha, o que, como é óbvio não é o seu caso. Mas também o é em algumas ocasiões especiais. Por exemplo numa aposta de jogo, as dívidas de jogo só podem ser revogadas pelo tribunal, o que pelo que julgo saber, é o presente caso. E assim sendo, terá que contestar o testamento e preparar-se para uma longa batalha judicial.
- Divida de jogo? Quer dizer que o meu marido, jogou e perdeu a casa e a própria esposa ao jogo? – perguntou verdadeiramente horrorizada.
- Por favor, doutor, se a nossa presença já não é necessária, eu gostaria de esclarecer os factos com esta senhora em particular. – Pela primeira vez, a voz grave e bem modelada do homem a seu lado, fizera-se ouvir.
-Preciso que me assinem estes documentos para fazer os registos. O resto,  suponho que o senhor Alfredo Magalhães, deve ter deixado tudo explicado, na carta que entreguei à dona Eva, no início desta reunião.
Assinaram os documentos, e depois de cumprimentarem o advogado, saíram do escritório. Já no elevador, ele disse:
- Não sei se tem carro ou veio de transporte público. Gostaria que me permitisse acompanhá-la a casa. Não me parece que esteja em condições de andar sozinha na rua, muito menos de conduzir um veículo.
- Que eu lhe permitisse acompanhar-me? – perguntou com ironia. – Não estará a inverter os papéis? Afinal a casa é sua, não é verdade?