Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta bebé. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta bebé. Mostrar todas as mensagens

20.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE VIII

 

Nos anos seguintes enquanto Anabela se dedicava de corpo e alma aos estudos, muitas coisas mudaram.

Matilde aceitou uma oferta para o Hospital de St. Mary em Londres e emigrou numa noite fria de dezembro, e Paula e Diogo resolveram pôr fim a um namoro de três anos, casando-se na Primavera seguinte.

Paula continuara no apartamento, após o casamento e inicialmente ela continuara com eles, mas apesar da grande relação de amizade que as duas mulheres tinham criado entre si, Anabela, sentia-se inibida a conviver com os jovens recém-casados. Decidiu deixar o apartamento ao casal e iniciou a procura de outro quarto.

Conseguiu-o em casa de Maria Rosa, uma colega da Universidade. A jovem vivia com os pais, numa casa antiga, na Avenida do Brasil, tinha um quarto livre, que tinha sido do irmão mais velho, que tinha emigrado para a Austrália. Segundo a jovem lhe confessou, os pais faziam um grande sacrifício para lhe pagar os estudos, e pensavam alugar o quarto, para ajudar a equilibrar as contas. Assim, Anabela resolvia o seu problema, e ajudava os pais de Maria Rosa a aliviar as despesas.

Um ano depois, Paula fora mãe de uma linda bebé, e Anabela que já fora a madrinha de casamento da amiga, foi convidada para madrinha da bebé, estreitando cada vez mais a relação de amizade entre as duas.

Aos vinte e sete anos, Anabela terminou o seu Curso de Enfermagem com excelentes notas, tal como já tinha terminado o Curso de Fisioterapeuta quatro anos antes.

E foi precisamente no bar onde fora com outros finalistas festejar o fim do Curso que ela conhecera Óscar.

Ele encontrava-se encostado ao balcão e era um homem bem parecido, alto de cabelos e olhos escuros, e sorriso fácil.

Por momentos os olhos dos dois encontraram-se e o sorriso dele abriu-se mais, enquanto inclinava levemente a cabeça como se estivesse cumprimentando-a.

Anabela, virou a cara envergonhada. Ela não tinha experiência de namoros. Aprendera da pior maneira aos dezassete anos, que uma jovem órfã e sem dinheiro, não servia para namorar a sério. Fora o que lhe dissera o namorado a quem pediu explicações quando ele a deixou depois de com promessas enganosas a ter levado para a cama. Desde aí, ela nunca mais tivera qualquer relação com o sexo oposto a não ser a de uma amizade pura com o marido da Paula, ou com algum colega na clínica enquanto lá trabalhou.

Apesar dos anos que já vivia na cidade, no fundo ela continuava a ser a jovem simples da aldeia. Um dia lera em qualquer lado, que se pode tirar uma pessoa da aldeia, mas não se pode tirar a aldeia da pessoa. E ela sentia que era verdade.


E ontem chegamos aos 60.000 comentários. Obrigado a todos que leem e deixam a vossa opinião.


28.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE XII

 


Cinco dias depois, na agência sem clientes à vista, Rita e Lena conversavam.

- O Inácio está doido de alegria, e os meus pais nem se fala. – dizia Rita passando a mão pela negra cabeleira.

--E tu não? – perguntou a amiga

-- Também estou feliz, claro que sim – disse sem muita convicção

- Mas não pareces muito entusiasmada. Que se passa? - perguntou Lena

- Depois de seis anos de tentativas infrutíferas, penso que já me tinha mentalizado que nunca engravidaria. E agora que o consegui, o medo não me deixa saborear a felicidade.

- Medo? De quê? – perguntou espantada, pois a amiga sempre fora a imagem personificada de uma mulher forte, com nervos de aço.

- Faltam-me poucos meses para fazer quarenta anos. E sabes o que se diz sobre ter o primeiro filho depois dos trinta e cinco.

- Por amor de Deus, Rita! Isso era antigamente. Hoje em dia, as mulheres trabalham fora de casa, têm as suas carreiras e são mães cada vez mais tarde. Por um lado, a ciência evoluiu muito, por outro o próprio corpo humano vai-se adaptando às novas condições.

Nesse momento o seu telemóvel deu sinal de mensagem, E Helena apressou-se a lê-la.

É da Matilde? - perguntou Rita.

-- É. Diz que chegaram bem, que já montaram as tendas, e que vai ter de desligar, pois só podem ter os telemóveis ligados de manhã e à noite.

-Pronto, já podes ficar calma. Há mais de seis anos que a Matilde está nos escuteiros e vai acampar três ou quatro vezes por ano, e tu ficas sempre nessa ansiedade. Nem sei porque a deixas ir.

- Penso que a vida nos escuteiros, é um aprendizado importante para ela. Mas isso não impede que nos dois, três dias em que está ausente, a preocupação e a saudade não tomem conta de mim. Quando fores mãe, saberás o que sinto.

- Talvez tenhas razão. Bom mudando de assunto, como vamos fechar a agência para a semana, vais passar a Páscoa à aldeia?

-Vou. Desde o Natal que não vejo os meus pais. Tenho muitas saudades deles. O meu irmão também vai. Conheces-nos, sabes como somos uma família unida. É verdade, sabes que a Sofia está outra vez grávida?

- O quê? – Mas o teu irmão não tinha dito que ficavam por ali quando o Mário nasceu?

-Segundo o meu irmão me disse, a Sofia queria tentar de novo a menina. E ele resolveu fazer—lhe a vontade. Espero que não venha outro rapaz.

- Mas porque esperaram tantos anos? O Maurício daqui a pouco já namora…

-Ainda só fez quinze anos! E o Mário fez há dias 12 doze. Estou desejando de os rever.

-A tua cunhada é uma mulher corajosa. Eu acho que no lugar dela não me atrevia a uma nova gravidez. Compreendo o desejo de uma menina, mas que hipóteses tem de que isso aconteça? E se vem outro menino?

- Seja menina ou menino toda a família, vai acolher o bebé com muito amor.

-Isso é certo. Mas ela vai passar um mau bocado. Não me consigo imaginar a conviver diariamente com um bebé, noites sem dormir ou mal dormidas e dias com um adolescente e um pré-adolescente. Dava em doida.

-A Sofia é uma mulher calma e paciente. Mas voltando à Páscoa. E vocês? Passam—na com os teus pais ou com os pais do Inácio?

-Estamos a pensar ir também para a aldeia.  Parece que o meu avô tem estado doente, e o pai quer passar com ele algum tempo. E nós também não o vemos desde que ele veio ao casamento há seis anos. Está velhinho e pode partir a qualquer altura. Por isso vamos todos, incluindo os meus sogros.

- E não se esqueçam de ir visitar os meus pais. Para além da amizade que liga os nossos pais, sabes que os meus te adoram, como se fosses parte da nossa família.

- Claro que iremos. Eu também os adoro.

 

9.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LVI

 


Depois que os dois se sentaram, João estendeu ao irmão a carta da mãe que ele leu em silêncio.

-Uma carta sincera e emotiva tal como ela era. E que diz muito do amor que te tinha e de quanto sofreu a vida toda, por ter de te deixar. Sabendo que vinhas hoje, trouxe-te um álbum de fotografias, - abriu a gaveta, retirou o álbum e estendeu-lho.

João abriu-o e viu na primeira página a foto de uma jovem morena de baixa estatura. Tinha vestido umas calças de ganga e uma t-shirt branca. Tinha um ar sério, ou triste.  Depois uma foto dela com um homem alto. O homem sorria abertamente, mas a jovem continuava com o seu ar sério.

-É a única foto que tenho dos meus pais, - disse David. E nem me lembro dele, morreu quando eu era ainda um bebé. Não havia outras fotos dele, e um dia perguntei à mãe porquê. Ela disse-me que logo depois o meu pai adoeceu e nunca mais quis ser fotografado. Queria que eu o recordasse sempre como o homem alegre e feliz desse dia. Até há pouco tempo pensava que essa, fosse a fotografia do casamento deles, mas hoje sei que ela nunca casou. O marido nunca lhe deu o divórcio e como o meu pai já tinha morrido, ela não se preocupou. Depois há essa foto dela grávida de mim. E por último são fotos minhas e dela comigo. Verás que em nenhuma delas, mostra um ar alegre e feliz como é habitual nos momentos de intimidade entre mãe e filho. Lembro-me de escrever um dia, numa composição sobre a mãe, na escola, que a minha mãe, era uma mulher muito triste, porque sentia muitas saudades do meu pai. Hoje ambos sabemos que não era por saudades dele que ela era assim, embora tenha gostado dele, porque ele a amou e lhe deu um lar, evitando-lhe o desespero que a podiam ter matado.

-Obrigado, por me teres deixado ver estas fotografias. Não sei que pensar do meu pai. Quero acreditar que ele era um homem mentalmente muito doente, porque se não foi por doença, então tenho de pensar que ele era um monstro, que me roubou não só o amor dela, mas toda uma infância normal, e me imbuiu o espírito de ideias que me fizeram crescer e tornar-me um homem cético, em relação ao amor e descrente da lealdade das mulheres. Acreditas que me fez acreditar que a mulher o deixou, porque era uma espécie de ninfomaníaca capaz de seguir qualquer um que lhe permitisse satisfazer os seus inconfessáveis desejos? Isso fez com que crescesse a odiá-la. E com que nunca até agora tivesse olhado para uma mulher sem pensar no que ele me dizia.

-Percebo que a tua vida não tenha sido fácil, mas agora que sabes a verdade, tenta esquecer, és jovem, bem parecido, tens uma excelente situação financeira, ainda estás a tempo de encontrar uma boa mulher e te apaixonares.

- Penso que já a encontrei, David. O problema vai ser convencê-la. Ambos temos uma bagagem emocional péssima, e por isso ambos nos tornámos incrédulos em relação ao amor, à lealdade do sexo oposto, e ambos tínhamos decidido que não daríamos a ninguém o poder de nos fazer sofrer.  É uma história complicada que te contarei se tiveres tempo e paciência para me ouvires.

-Sou um homem muito paciente e tenho todo o tempo que precisares  para te ouvir. Levei trinta anos sonhando como seria bom ter um irmão.

E então João contou-lhe tudo. Desde o cancro no testículo, a reserva de esperma para o futuro, na clínica de Procriação Medicamente Assistida, e  o que lhe tinha acontecido ultimamente, desde que recebera o telefonema da clínica, dando conta do erro cometido, até à emoção do dia anterior, quando a médica lhe mostrou os três minúsculos pontos no ecrã e ouviu o bater dos corações dos seus filhos.

 

24.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXIII



- Para ser sincera é bem mais do que tinha pensado. Não creio merecer tanto, nem quero que em nome da nossa amizade, fiques prejudicada.
- Não te preocupes. Pesquisei no mercado, e é o que teria que pagar a outro qualquer profissional que contratasse para o lugar. Vou passar um email para o advogado pedindo-lhe que elabore o teu contrato, por um prazo de um ano, renovável por igual período se quiseres continuar. Ontem dissestes que pensavas arranjar um trabalho apenas por dois anos, pois pensas num segundo filho depois disso. O teu pai vai ajudar-te nos primeiros dias, ele conhece o funcionamento da empresa tão bem ou melhor que eu. De resto estou certa de que em breve estarás dentro de todos os assuntos.
- E tu que farás agora? Sempre adoraste este trabalho.
-É verdade. Porém tenho muitas coisas para resolver. Até passar estes primeiros três meses, vou dedicar-me a descansar, e a ler todos os livros que comprei sobre gravidez e cuidados com os recém-nascidos. Depois tenho que contratar uma empresa, que me desocupe o quarto que era da minha tia, que como sabes tem ligação direta ao meu, mobilá-lo e passar para lá a fim de decorar e mobilar o quarto do bebé onde agora tenho o meu. Espero que me ajudes nisso. Ainda não decidi se vou ou não vender um terreno que tenho na aldeia. Há uma pessoa interessada nele, talvez consiga um bom preço. Tinha sonhado construir lá uma pousada, a aldeia é muito bonita, os ares são maravilhosos, e está situada a menos de um quilómetro de uma das melhores termas nacionais. Era a maneira do meu filho, ou filha crescer em contacto com a natureza. Porém as obras de ampliação da pastelaria, consumiram praticamente todo o meu dinheiro, e eu não quero recorrer a empréstimos. Depois com a situação atual, tudo mudou. Não sei mais o que posso ou devo fazer. A propósito, ainda não sabes, mas ontem à tarde fui à TecnInformática, conheci o João Teixeira e tivemos uma longa conversa!
- Depois que saíste lá de casa? E eu que pensava que estavas em casa a descansar do desgaste emocional. Conta-me tudo!
-Sabes que não consigo dormir sobre os problemas. E viver diariamente com o medo de ser descoberta e de a imprensa criar uma novela à minha volta, não faz de modo algum o meu género. Então meti-me no carro e dirigi-me à empresa.
-Assim, sem mais nem menos, sem sequer um telefonema a marcar uma entrevista?
- Se telefonasse para marcar uma entrevista, provavelmente ia perder a coragem antes da hora dela, isto claro, se ma marcassem, já que teria de ter um assunto muito importante para tratar com ele e não podia dizer pelo telefone a uma secretária desconhecida o que se passava. Claro que corri o risco, de chegar lá e ele não estar na empresa, mas joguei verde para colher maduro como dizem lá na aldeia.
- O que fizeste? – perguntou Inês visivelmente interessada.
-Disse ao porteiro que tinha uma entrevista com ele às dezasseis horas. Se ele não estivesse o empregado ter-me-ia dito e eu inventava uma desculpa qualquer, como ter trocado o dia da entrevista por exemplo e vinha-me embora. Mas ele só me pediu a identificação e mandou-me subir, ao quinto andar onde fica o escritório dele.
Fez uma pequena pausa que Inês não se atreveu a interromper e continuou:
- Até aí tinha corrido tudo bem, mas claro que antes de chegar até ele tinha a parte mais difícil. Convencer a sua secretária a deixar-me entrar sem marcação alguma.
-E o que fizeste?


31.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XIII




-E em mim, tens confiança? – perguntou Inês.
- Que pergunta é essa? Sabes que confio em ti como em mim mesma. Estás interessada no lugar? Não querias ter um segundo filho em breve?
- Decidimos que só tentaremos uma nova gravidez dentro de dois anos. E estou farta de estar em casa. Podia por o Martim na creche e ocupar o lugar. Daqui por dois anos, o teu bebé, estará com mais de um ano e poderás voltar a assumir a gerência.
- Por mim encantada, mas o Gustavo estará de acordo?
- Tenho a certeza que sim. Já tinha comentado com ele sobre a hipótese meter o Martim na creche e procurar uma agência de trabalho. Não se trata de necessidade, monetária.  Nem sequer estou a pensar numa carreira laboral pelo menos, até ter um segundo filho com uns dois anos. Mas estou há três anos em casa. Como uma máquina sempre a repetir as mesmas tarefas, sem ver nem falar com ninguém a não ser o marido e filho. Um leva grande parte do dia a dormir, o outro está todo o dia fora.
- Então se os dois estão de acordo, o lugar é teu podes começar quando quiseres. Penso que precisarás de algum tempo para procurar uma creche, mas eu preciso que ocupes o lugar o mais breve possível.
-Não te preocupes, já fiz essa pesquisa, e até já fiz a inscrição. Vai começar no princípio do mês, faltam dez dias, mas até lá posso deixá-lo com a minha mãe. Ela vai adorar. Posso começar amanhã mesmo, se tu puderes ir lá amanhã, para me pores a par de tudo.
- Sendo assim, tenho esse problema resolvido. Amanhã faremos o contrato.
Nesse momento, o choro de Martim invadiu a sala através do intercomunicador e Inês pôs-se em pé e dirigiu-se ao quarto do filho seguida pela amiga. No resto da manhã entretida com o bebé, quase que Teresa esqueceu, o grave problema que a afligia. Se Gustavo se admirou de a ver em sua casa quando chegou para almoçar, depois do desejo que a amiga manifestara no dia anterior para voltar à pastelaria, não o manifestou. Cumprimentou-a, beijou a esposa, que acabara de dar a papa ao filho e fez uma festa ao menino, que reagiu mostrando um sorriso de apenas quatro dentes.
- Deixa-o comigo. Eu adormeço-o, - disse Teresa tirando o bebé dos braços da mãe e dirigindo-se com ele para o quarto. Pretendia com isso dar tempo à amiga para contar ao marido, não só que se passava com ela, mas também a sua proposta de emprego.
Cansado das brincadeiras anteriores ao almoço, Martim não levou muito tempo a adormecer. A jovem saiu do quarto fechando a porta com cuidado, e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou os amigos à sua espera para darem início ao almoço.
-A Inês já me contou o que se passa contigo, vamos almoçar e no fim analisaremos o caso. Entretanto também me disse que a contrataste como gerente da pastelaria. Tens a certeza que é uma boa ideia?
- Bom, eu não sei como vai ser a minha gravidez. Pode ser calma e não me dar muitos problemas, mas se for semelhante à dela, vão haver muitos dias em que mal me vou aguentar de pé. Por outro lado, com todo este problema, não sei se teria cabeça para tratar de negócios. Sei que a Inês não tem experiência, mal deixou a Universidade, começou a tratar do casamento, e engravidou poucos meses depois, mas é inteligente, de confiança e está lá o pai. Quando fiquei com o negócio eu sabia tanto do assunto como uma criança. Foi o Mário quem me ensinou, e tem sido o meu braço direito ao longo destes anos. Ele ajudará a filha.  A não ser, que não estejas de acordo, não quero de modo algum, criar problemas na vossa relação.
- Bom, é verdade que já tínhamos inscrito o Martim numa creche e que ela pretendia trabalhar uns dois anos antes de termos outro filho. É a sua vontade e eu nunca me oporia aos seus desejos, se isso a faz feliz. A felicidade dela é a minha felicidade.



29.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XII





- O empresário João Teixeira!
- O Ronaldo da informática? Meu Deus, Teresa! E agora? O que vais fazer?
- Não sei. Desde logo pedir conselho ao teu marido, saber que tipo de proteção posso esperar da justiça. Depois por certo entrar em contacto com o homem. Não vou ficar à espera de ver o que faz. Não consigo viver com esta espada pendendo sobre a minha cabeça.
- Mas não pode tirar-te a criança. Se ela tem o seu material genético, também tem o teu. Foi o teu óvulo que foi fecundado e é no teu útero que se está a desenvolver. É tão filho dele como teu. Mesmo um juiz terá isso em conta.
-Não sei, se é assim tão simples. Estou aterrorizada. Imagina que o homem ficou estéril após a tal doença? Não vai querer ficar sem a única hipótese de ser pai. Qualquer juiz vai ter isso em conta. E provavelmente atribuir-lhe a guarda do bebé! Afinal eles não decidem isso quando um casal com filhos se divorcia? Eles não entregam a criança à guarda daquele que tem mais hipótese de dar uma melhor vida à criança? Imagina no meu caso.
-Mas tu tens uma excelente situação financeira, podes dar uma boa vida a duas ou três crianças.
-Uma gota de água comparada com a dele, segundo me disseram. E depois um juiz pode sempre alegar que eu posso ter outros filhos enquanto a ele lhe roubaram a única hipótese de ser pai. Não sei que faça, este filho foi tão desejado que não quero sequer pensar na hipótese de perdê-lo, mas não podemos parti-lo ao meio como na sentença de Salomão.
- Mas um juiz também pode decidir que fiquem com a guarda partilhada da criança.
- Já pensei nisso. Iria ter que conviver com uma pessoa, que até agora nunca vi, que não sei como vai influenciar a educação do bebé, nem se a criança mais tarde, quando tiver discernimento, para compreender a história do seu nascimento, não vai optar por ficar com o pai. Não é de modo algum a vida que sonhei para nós dois, mas dadas as circunstâncias poderá ser a melhor decisão.  
- Não podes angustiar-te assim. Pensa no bebé! Uma grávida precisa estar calma. Se por causa da tua ansiedade abortares, não resolves o problema e vais ficar toda a viva a culpares-te por isso. Vou fazer-te um chá de valeriana, a ver se te acalmas.
Levantou-se e Teresa fez o mesmo seguindo-a para a cozinha.   
- Queres que telefone ao Gustavo e pergunte se te pode receber? – perguntou Inês enquanto punha a água ao lume para o chá. - Mas porque não ficas para almoçar connosco e falas com ele, depois do almoço? Estás demasiado nervosa agora, para conduzir. E depois o Martim está quase a acordar, vai ficar muito feliz se vir a madrinha.
- Eu fico. Preciso saber o que a lei diz nestes casos, para tomar uma decisão. Vou telefonar ao teu pai e pedir-lhe se ele pode continuar à frente da pastelaria. Com toda esta confusão não sei, quando poderei voltar a assumir a gerência. Achas que o teu pai estaria interessado em deixar o forno e assumir o lugar? É claro que teria de contratar outro pasteleiro, mas preferia isso do que contratar um gerente. Tenho total confiança no teu pai e era menos uma preocupação.


27.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XI




Teresa saiu do médico com as pernas a tremer e sentindo-se agoniada.
Não que o resultado dos exames fosse diferente do que esperava. Estava realmente grávida e estava tudo bem com ela, e salvo qualquer imprevisto, que pode sempre surgir durante uma gravidez, tudo iria correr bem, não fora o facto de ter sido informada, que o pessoal do Centro Clínico de Procriação Medicamente Assistida, tinha cometido um erro grave, e ela estar a conceber um filho, cujo pai não era dador. Para piorar a situação, o homem tinha feito a recolha para seu uso exclusivo no futuro, e ao ter sido informado do engano, queria saber quem era a recetora, nem que fosse através dos tribunais, e uma vez aí, nunca se sabia o que podia acontecer.
E agora? O que ia fazer? Podia fingir que não sabia de nada, mas segundo o médico, o homem era poderoso, e estava disposto a tudo. A direção do Centro, receava que o escândalo de semelhante erro, os levasse à descredibilização total e por consequência à falência e ao encerramento. Apesar de lhe garantirem que não iam revelar a sua identidade, ela não acreditou. Quando vissem que o homem não cedia e iria mesmo para os tribunais, iriam entrar em acordo e denunciá-la-iam para se salvarem. E o que aconteceria depois, com ela e o bebé?
Quando se sentiu mais calma, pegou no telemóvel e marcou um número.
-Inês, estás em casa? – perguntou assim que a amiga atendeu.
- Estou. Estás bem? O que aconteceu? – perguntou Inês que estranhou a voz da sua interlocutora.
- Não dá para falar pelo telefone. Posso ir agora aí?
- Claro, mulher. Isso nem se pergunta.
- Até já.
Desligou, pôs o carro a trabalhar e um quarto de hora depois tocava a campainha da casa da amiga. Esta abriu a porta e assustou-se. A Teresa que tinha na sua frente, pálida e de olhos vermelhos pelo choro, em nada se parecia com a aquela, que nas vésperas estivera em sua casa, radiante de felicidade. Pensou imediatamente que o exame médico afinal provara que a amiga não estava grávida. Já tinha ouvido falar de mulheres que desejavam tanto um filho, que acabavam tendo sintomas de gravidez sem que estivessem grávidas.  Mas Teresa não manifestara qualquer sintoma que ela soubesse. E fizera dois testes que deram resultado positivo. Poderiam os testes dar um resultado errado? O melhor era não se por a adivinhar e saber o que se passava na realidade.
- O Martin está a dormir? – perguntou Teresa, depois de cumprimentar a amiga.
- Está. Mas entra, vamos para a sala e conta-me o que te aflige. Talvez te possa ajudar.
Teresa encaminhou-se para a sala, e a dona da casa seguiu-a depois de fechar a porta. Já sentadas, a jovem disse:
- Como sabes tinha consulta marcada para hoje no Centro de PMA, com  o médico, que efetuou o processo. Assim que cheguei e antes de entrar no consultório foi-me feito um exame ao sangue, que penso seja o normal nestes casos. Esperei um pouco pela entrada no consultório, o médico fez-me algumas perguntas entre as quais se eu já tinha feito o teste de gravidez e depois a assistente preparou-me e ele foi examinar-me. Confirmou a gravidez, e voltou para a secretária e enquanto eu me vestia, ouvi-o falar ao telefone. Mal eu voltei para a cadeira a porta abriu-se e entrou outro homem que me foi apresentado como sendo o diretor do Centro Clínico.
-Sim, mas até agora não vi razão para teres ficado assim. Não podes abreviar?
- O diretor disse-me que tinha havido um erro grave, falou uma série de coisas a que nem prestei atenção, tão nervosa fiquei, só entendi que eu ia gerar um filho de alguém, que não tinha feito doação, mas sim reserva para o futuro, por se encontrar doente, e ir ficar estéril. Entendes?
-Sim, mas o que tens a ver com isso, o erro não foi teu.
- E achas que isso interessa ao homem? Não. Ele quer saber tudo sobre mim. O seu advogado já ameaçou o Centro de que se não souber quem está a gerar o seu bebé, vai para os tribunais a imprensa etc. Em resumo pode criar um tal escândalo que poderá não só fechar o centro por falta de credibilidade, como tornar a minha vida num inferno. E o pior é que os médicos dizem que o homem é tão poderoso que não terá qualquer problema em fazê-lo.
-Mas quem é esse homem?

24.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE X



Teresa chegou a casa pouco passava das três, da tarde. Poisou a pequena mala em cima da cama e levantou a persiana, passando depois às outras divisões e fez o mesmo, exceto na sala onde naquele momento o sol incidia com toda a sua luz e calor. Voltou ao quarto, esvaziou a mala e guardou-a em cima do roupeiro. Depois pegou na roupa suja, levou-a para a cozinha, meteu-a na máquina, adicionou o detergente, escolheu o programa e ligou-a. Passou a mão pela testa transpirada e suspirou. Precisava com urgência de um duche, estava demasiado calor.
Pensou que o melhor era tomar banho e depois descansar um pouco sobre a cama. Quem sabe fazer uma pequena sesta. Com a ansiedade, quase não dormira na noite anterior e depois o calor e a viagem tinham acabado com a sua resistência. Mais tarde, iria ao supermercado e como era domingo, dia de encerramento da pastelaria, talvez desse um salto a casa de Inês, para matar saudades de Martim, o pequeno filho da amiga, seu afilhado.
Pousou o telemóvel na mesa de cabeceira e foi para a casa de banho onde tomou um duche refrescante. Enquanto se dedicava a secar os longos cabelos, pensou que talvez fosse uma boa ideia procurar um salão de cabeleireiro e dar-lhe um bom corte. Afinal de contas, para quê manter um cabelo que lhe chegava à cintura se na pastelaria andava sempre com ele preso dentro da touca, e em casa o prendia numa trança ou num coque no alto da cabeça? Com essa ideia na cabeça foi até ao quarto e entendeu-se sobre a colcha.
Pouco depois, o cansaço, o calor, ou as duas coisas, venceram-na e adormeceu.
Acordou duas horas mais tarde. Vestiu-se foi à dispensa buscar um saco para as compras, retirou da porta do frigorífico a lista de faltas, pegou na carteira e nas chaves e saiu.
No supermercado, perdeu quase uma hora na secção de bebé, vendo e tocando nas roupinhas, sem no entanto, se atrever a comprar nada, pois tinha bem presente aquilo que na aldeia se dizia. “Dá azar começar a fazer compras antes dos três meses de gravidez”. Mas não resistiu a comprar uma moto de plástico azul para o afilhado. O menino tinha treze meses começara a andar há um mês, talvez já se equilibrasse na moto. Se não os pais guardavam-na por mais uns meses.
Contente, com a imaginada alegria do menino, pôs a caixa com  o brinquedo, no carrinho das compras e suspirando foi enfim comprar as coisas que segundo a lista lhe faziam falta.
Mais tarde, em casa de Inês, e depois de ter colocado o afilhado em cima da moto, segurando-o, pois, os pezitos ainda não chegavam aos pedais, e na tentativa de lhe chegar, o bebé não se equilibrava, Gustavo pegou no filho ao colo e disse:
- Vou mudar a fralda do Martim. Enquanto isso porque não ofereces um café à Teresa?
Mal virou costas, Inês pegou no braço da amiga e “arrastou-a” para a cozinha.
- Então como te sentes?
- Bem. Se não fossem os resultados dos testes diria que estou na mesma.
-E quando vais ao médico?
-Tenho consulta marcada para amanhã. Provavelmente vai fazer-me outros exames.
- Tens noção que a tua vida vai mudar muito, não tens? Não vais poder levantar-te às quatro da manhã, para estares na pastelaria às cinco.
-Tenho intenção de continuar a fazê-lo pelo menos enquanto a barriga não se torne demasiado pesada. Gravidez não é doença.
- Diz isso ao teu organismo, quando os enjoos te deixarem de rastos, ou quando o sono não te deixe abrir os olhos.
- Não pode ser tão mau assim! Ou ninguém engravidaria.
- Pois, eu também pensava como tu.  Mais, julgava que as pessoas diziam isso para nos assustar. Mas passei por isso tudo. Os enjoos, o sono, os pés inchados, as dores nos rins, o cansaço. E mais dezasseis horas de contracções, até ao momento em que o Martim nasceu.
- Caramba Inês, não há dúvida que sabes como animar uma pessoa.


30.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XIX



As semanas foram passando, uma após outra, mais de quinze, sem nada de relevante na vida de Eva,  a não ser os enjoos matinais que foram decrescendo de dia para dia até que acabaram por desaparecer. Os seus seios estavam  maiores e mais arredondados, a cintura um pouco mais larga, os olhos tinham um brilho diferente. Transformações normais, quando uma mulher está grávida. Novembro chegara ao fim, faltava menos de um mês para o Natal, havia a alegria e azáfama própria da quadra, mas ela sentia-se cada dia mais triste. No dia seguinte faria quatro meses, que André partira, e continuava sem notícias dele.  A sua única alegria, era pelo filho que trazia no ventre, e que já amava de todo o coração. Naquela tarde, pela primeira vez sentira o bebé mexer-se, e isso encheu o seu coração de alegria.
Ficou tão contente, que antes de chegar a casa, passou por uma loja de artigos de bebé, e comprou as primeiras roupinhas. Abriu a porta, e quase desmaiou de susto ao ver André na porta da cozinha.
- Hoje demoraste “cara mia” – disse tentando abraçá-la.
 Afastou-se furiosa.
- O que estás a fazer aqui? Como é que entraste?
- Pela porta. Esqueceste que tenho uma chave? Voltei Eva. Sei que deves estar zangada, mas agora já tudo acabou. Vim para me explicar.  
- Gostava que o tivesses feito antes de partires. Agora já não estou interessada.
 Empalideceu o rosto masculino? Ela diria que sim.
- Não estás a ser justa “amore mio” Se há coisa de que te dei provas, foi do meu amor.
- Pára de me falares em italiano. Sabes quanto tempo esperei por notícias tuas? Quase quatro meses. Dias em que esperei hora a hora, minuto a minuto, um telefonema, um postal, um “e-mail”, qualquer coisa, que me desse a certeza de que não tinha sido um brinquedo para ti. Noites em que não dormi, porque queria acreditar em ti e o desespero do teu silêncio não me deixava   - terminou num soluço.
Em duas passadas, André estava junto dela e abraçava-a com carinho.
- Eu sei que tens razão, Eva. Mas deixa que me explique. Por favor.
Tirou-lhe o saco da mão, que colocou em cima da mesa, despiu-lhe o casaco,  e empurrou-a suavemente para o sofá.
- Lembras-te que te disse no início, que tinha chegado a Portugal havia pouco tempo, e poderia em breve estar noutro país? Deverias pensar que era um aventureiro e que o fazia de moto próprio. A verdade é que tinha de o fazer por causa da minha profissão.
- A tua profissão? Jogador profissional? Grande profissão, - disse irónica.
- Jogador profissional sim, mas como disfarce. A verdade é que fui até há dois dias polícia. Mas não um polícia qualquer. Era  Agente Especial Internacional.
- Agente Especial? Como o James Bond? – perguntou incrédula, embora desejasse parecer irónica
Ele sorriu encantado com a ingenuidade dela.  
-Não querida, não ando por aí a saltar de aviões de arma na mão, a caçar espiões.
O meu trabalho era descobrir as quadrilhas ligadas aos cartéis da droga, ou da venda de armas, que fazem lavagem de dinheiro nos grandes casinos de todo o mundo.


5.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE II


Naquele dia, Eva levantara-se cedo. Quase não conseguira dormir, de nervosa que estava. Tinha pedido dispensa, no emprego, a fim de tratar de alguns assuntos relacionados com a sua recente viuvez, e para ir ao escritório de advocacia. Depois do banho matinal, tomou o pequeno-almoço, meteu a mala e o saco com as roupas do falecido no carro e dirigiu-se à instituição onde ia deixá-las. Depois passou pelo orfanato onde sempre vivera, a fim de se aconselhar com a Irmã Madalena com quem sempre tivera uma relação especial, e que foi para ela aquilo que mais se assemelhava com uma mãe. 
Na verdade a jovem freira apaixonara-se por aquela bebé tão pequenina e frágil, e a tomara sob a sua proteção desde o primeiro dia. Às vezes Eva pensava, que o amor da Irmã Madalena, fora a causa de nunca ter sido adotada.
Mais calma, regressou a casa, e entreteve-se com uma breve limpeza, enquanto fazia o almoço. Mais tarde, depois da refeição, vestiu uma saia preta, que se lhe ajustava ao corpo, delineando-o na perfeição, e um camiseiro branco. Completou o conjunto com umas sandálias de salto alto e uma bolsa em tons de bege.
Não tinha por hábito, a maquilhagem que usava muito raramente em ocasiões especiais, e naquele momento não achou necessária. Demorou a encontrar lugar para estacionar, pelo que entrou na sala de recepção do escritório, apenas dois minutos antes da hora marcada. Na sala, além da recepcionista, encontrava-se um homem, de pé junto à janela, que se voltou  ao ouvi-la entrar.
Eva, identificou-se com a empregada, que pelo telefone interno falou com o advogado, e disse de seguida.
-Podem entrar. O doutor espera-os.
Surpreendida ela lançou um breve olhar para o homem que se dirigia para a porta.
Era alto, vestia umas calças de sarja bege, e uma camisa desportiva branca, cujas mangas tinha arregaçado até ao cotovelo. Não se atreveu a olhar-lhe para o rosto, mas se já estava nervosa, pior ficou naquele momento. Quem seria aquele homem e que tinha a ver com o falecido Alfredo?
Entraram no escritório, onde atrás da secretária se encontrava um homem de aproximadamente cinquenta anos, meio calvo, que depois de os cumprimentar, os mandou sentar. Abriu a pasta, e tirou de dentro dela uma carta, que entregou a Eva, dizendo-lhe que a deveria ler, após a leitura do testamento. Depois deu início à leitura do mesmo. Eva não queria acreditar naquilo que ouvia. Como fora possível que o marido tivesse deixado a sua casa, aquele desconhecido? E que raio de cláusula era aquela de que devia viver com ele, durante seis meses? Que loucura era aquela? Sentiu que uma onda de mal-estar lhe invadia o corpo, que um garrote lhe apertava a garganta impedindo-a de respirar, e teria caído no chão, não fora a pronta intervenção do homem a seu lado.


21.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XLI


- Hoje é doze de Dezembro, - respondeu ela.
-A minha filha faz um ano no dia catorze. Devias vê-la. É o bebé mais bonito do mundo. Meu Deus, preciso ligar para casa. Devem estar numa aflição.
Com o coração mais triste que dia de chuva, mas esforçando-se por não dar parte de fraca, Luísa estendeu-lhe o telemóvel dizendo:
- Liga-lhes. Conta-lhes o que te sucedeu, mas por favor não lhes digas onde estás, nem lhes fales de mim.
- Porquê? – perguntou ele franzindo o sobrolho.
- És um homem famoso. Se a imprensa sabe, que estiveste aqui durante todos estes dias, vão acampar aí à porta, tirar fotografias e encher-me de perguntas. Vão encher as páginas de jornais, inventar histórias, espionar a minha vida, até ao berço, e eu não quero perder o meu sossego.
- A minha família tem o direito de saber que só estou vivo, graças a ti.
-Poderás contar-lhes tudo o que quiseres, quando voltares a casa, mas pede-lhes que não o revelem a ninguém. Tenho direito ao anonimato e não quero ver a minha privacidade  invadida.
- Respeitarei a tua vontade, fica descansada.
- Podes telefonar do quarto estarás mais à vontade. Pede à tua mulher que avise a polícia, para que interrompam as buscas no rio. Não se justificam os gastos de dinheiro público, em buscas desnecessárias.
- Vou telefonar à minha irmã. Sou viúvo.
-Lamento, - respondeu, virando-lhe as costas, embora no íntimo tivesse gostado de saber que era um homem livre, que não tinha uma esposa à sua espera. Saiu da sala e foi para a cozinha. Meteu a loiça suja do almoço na máquina, e depois refugiou-se no seu atelier.
Estava desolada. Ela sabia que não podia ter-se apaixonado por ele. Era um desconhecido, podia até ser casado, a sua razão avisara-a todos os dias, mas o seu coração, não lhe dera ouvidos.
"Não se domina um coração sedento de amor." - murmurou para si mesma.
- Luísa!
- Estou aqui no atelier, - respondeu apresando-se a secar as lágrimas.
- Estás triste – disse estendendo-lhe o telemóvel. - Pensei que ficavas feliz por eu ter recuperado a memória.
- E é claro que fiquei. Mas habituei-me à tua companhia, vou sentir saudades.
Ele pegou-lhe nas mãos e puxou-as fazendo-a levantar-se. Abraçou-a.
-Antes mesmo de ter recuperado a memória, já tínhamos combinado esta manhã que eu partia hoje. As razões porque parto agora são totalmente diferentes das que te expus esta manhã, porque  agora sei, que não há nada nem ninguém que nos impeça de ter uma relação, se os teus sentimentos forem tão fortes quanto os meus. É verdade que nos conhecemos há poucos dias, mas sinto-me como se te conhecesse desde sempre. Também é verdade que não sou só. Tenho uma filha que amo de todo o coração e que terás de saber, se és capaz de  aceitar e amar, como a primeira dos nossos filhos, se me aceitares a mim. Conhecendo a generosidade dos teus sentimentos, acredito que a amarás como merece. Mas também sei, que os muitos anos que vives em solidão, podem confundir o teu coração, pelo que a minha ausência servirá para conheceres a força daquilo que sentes.

10.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXVII




Na manhã seguinte, pouco passava das nove horas, quando Alcides chegou a casa do Gil, onde Laura já o aguardava, pronta para irem à esquadra participar o desaparecimento do irmão.
Depois de o fazer, e tendo o advogado posto a hipótese de rapto,  foi-lhes notificado que se iria iniciar uma investigação, e o agente levou-os para outro gabinete, onde durante quase uma hora, um investigador fez com que respondessem  a inúmeras perguntas sobre os hábitos do desaparecido, seus negócios, familiares e amigos. Ao saber que o desaparecido tinha contratado segurança pessoal para acompanhar a filha e a ama, o investigador quis saber se essa decisão tinha sido tomada por terem havido ameaças de rapto, se o desaparecido tinha inimigos, e o advogado teve que informar que essa segurança se devia ao temor que Gil tinha, de que o violento ex-marido de Inês , tentasse alguma retaliação sobre a ama ou a bebé, e então foi-lhes pedido o nome completo do homem, bem como da ama.
Quando terminaram foi-lhes dito que deveriam manter-se contactáveis e disponíveis para quaisquer esclarecimentos adicionais que os investigadores achassem necessários. E que por sua vez, eles deveriam informar imediatamente, se houvesse algum contacto, ou se viessem a lembrar-se de algum facto que pudesse ter relevância para a investigação. O investigador informou-os também de que deveriam manter o desaparecimento em segredo, pois se realmente tivesse havido um rapto, e os raptores soubessem que a polícia já estava a investigar, podiam ficar nervosos e quem iria sofrer as consequências seria o próprio Gil.
- Resta-me ainda informá-los, - acrescentou por fim o agente - que todos os anos temos vários adultos, que por qualquer razão desaparecem, e quando os encontramos pedem-nos para informar que estão bem, mas não querem que se saibam onde estão.
-Tenho a certeza de que não é o caso do meu irmão – afirmou Laura convicta, - ele é muito apegado à filha bebé, que está prestes a fazer um ano, e mesmo quando em negócios viaja para o estrangeiro, está sempre a telefonar para casa e a fazer chamadas de vídeo para a ver.
Saíram do posto da polícia, não sem antes Laura ter assinado a participação, perto das onze horas.
Como tinham combinado na véspera, Alcides dirigiu-se em seguida ao banco, e Laura foi para a Fundação onde já a aguardavam alguns
doentes.
Durante duas horas dedicou-se inteiramente às consultas, quase tudo estados gripais, e felizmente nenhum muito grave. Como era quarta feira, era dia de dentista, de tarde o consultório estaria ocupado pelo seu colega Eduardo Mendes, pelo que depois do almoço, não voltaria à Fundação.
Pegou no telemóvel e telefonou ao irmão
- Estou, Marco?
- Sim. Há novidades?
- Não. Vocês almoçam no restaurante do costume?
- Sim, claro.
- Pede mesa para quatro. Precisamos falar. Estamos aí em dez minutos.



27.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XIX



Minutos mais tarde, Laura voltava acompanhada de Inês.
-Boa-noite - saudou olhando preocupada o homem que do outro lado da secretária se pôs em pé quando as duas entraram.
-Boa-noite, Inês. Sente-se e diga-me. Como encontrou hoje a minha filha? Recebeu alguma informação? Sabe quando ela terá alta?
- Falei com o médico. Ele disse-me que apenas quer repetir uns exames e depois lhe dará alta. Perguntei quando faria esses exames, e disse-me que no dia dezanove, e se tudo estiver bem como lhe parece, o mais tardar dia vinte e um terá alta, e já passará em casa o dia de Natal.
- Que bom - disse Laura indo abraçar o irmão.
Durante alguns segundos permaneceram enlaçados na mesma emoção, como se não lembrassem que não estavam sozinhos.
Por fim, Gil afastou a irmã, voltou costas e foi de novo sentar-se à secretária. Exercendo todo o seu controlo sobre os sentimentos, quando falou a sua voz soou serena.
- Obrigado. E diga-me, Inês. Está contente com o seu emprego?
- Estaria mais contente se a menina estivesse aqui, é uma bebé adorável, de quem vou cuidar com muito gosto. Mas sim estou muito feliz com o emprego.
-Contudo a sua expressão não demonstra essa felicidade.
- A minha expressão não vai influir em nada os meus cuidados com a sua filha senhor. Ela estará sempre acima de qualquer preocupação que me atormente. Juro-vos.
Os seus olhos rodavam preocupados, de um para outro dos irmãos, como se temesse que a fossem despedir. Gil notou o brilho húmido e receou que a jovem fosse começar a chorar.
- Tenho a certeza disso. Acalme-se, só queremos ajudá-la - disse Laura sentando-se a seu lado e segurando-lhe nas mãos. Estavam geladas.
Gil esperou uns segundos, para que a jovem se acalmasse e depois retomou a palavra.
- Não vou denunciar a fonte, mas ficámos a saber, o que se passou consigo, a razão do seu divórcio, bem como da existência do seu filho.  Eu e a minha irmã conversámos sobre isso e chegamos à conclusão, de que uma vez que vai ficar a viver aqui, deve trazer para cá o seu filho. Amanhã vou mandar pôr um divã no seu quarto, e depois com mais tempo poderá decorar o quarto a seguir ao seu para ele. A minha irmã vai ajudá-la.
Laura abraçava a jovem que chorava copiosamente, sem saber que dizer, nem como lhes agradecer.
Gil não gostava de ver uma mulher chorar. Levantou-se da cadeira e dirigiu-se à porta dizendo à irmã:
- Tenho que ir ao quarto buscar uns documentos. Combinem a hora a que podem ir buscar o menino de manhã, uma vez que de tarde a Inês terá que ir ao hospital.
Fechou a porta e subiu. Não porque precisasse de ir buscar algum documento, mas porque tinha de digerir a emoção, que o facto de saber que em breve tinha a filha em casa lhe proporcionara. Saber que dentro de dias ia poder abraçá-la, dava-lhe um aperto no peito, e punha-lhe os olhos brilhantes.  Podia compreender a angústia de Inês, tendo que viver longe do filho. E sentia-se satisfeito pela decisão que tomara de trazer o miúdo para junto da mãe. Aquela casa estava demasiado triste. Duas crianças iam decerto ser como um raio de sol que rompe a escuridão e ilumina tudo à sua passagem.

  

20.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XVI





Dias depois, também Laura se despediu desta vez por pouco tempo. Faltava-lhe apenas uma semana para o término do estágio e não podia deixar de o acabar para que pudesse constar do seu currículo.
Gil dirigia-se todos os dias ao hospital. Via a filha e ia-se embora deixando Inês no hospital, para que pudesse estar com a bebé todo o tempo que lhe era permitido. Quando este terminava, ela apanhava um táxi para se dirigir à residência do seu patrão, onde agora também morava.
Inês era uma mulher de estatura média, de grandes e expressivos olhos castanhos, cabelo curto e de um bonito tom de mel. Apesar de ser magra, tinha as formas bem definidas.  Era educada, com as outras empregadas da casa, mas falava com elas apenas o estritamente necessário, embora tivesse a noção de que elas a achavam arrogante e empertigada.
Inês não se importava com o que elas pudessem pensar. O seu trabalho seria cuidar da bebé e isso ela faria com todo o seu saber e amor. Sim porque ela adorava crianças.
A sua vida, tudo o que passara até chegar ali, era a sua vida e só a ela interessava.
O patrão não lhe fizera perguntas, mas a irmã, sim. E foram tantas as que não respondeu, que se admirou quando ela lhe telefonara a dizer que o lugar era seu. Afinal ela não tinha outras referências que as do hospital pediátrico onde trabalhara, e cujo emprego se vira obrigada a deixar, para se poder esconder de um marido extremamente violento. O que mais a entristecia, era estar separada do filho, Jorge, de cinco anos. Não podia tê-lo consigo, nem levá-lo para casa dos seus pais, pois seria o primeiro lugar onde o ex-marido o procuraria. No centro de apoio onde se acolheram, arranjaram-lhe um lar de acolhimento onde poderia estar um máximo de seis meses, até que ela conseguisse resolver a sua situação.
Apesar do divórcio e da proibição feita ao marido de não se poder aproximar dela, Inês tinha muito medo. Estava cansada de ouvir notícias de homens que matavam as mulheres, apesar de estarem proibidos de se aproximarem delas. Ela não temia por ela, mas pelo que ele podia fazer ao filho, sabendo que isso a faria sofrer muito mais do que qualquer coisa que lhe fizesse a ela.
Alheio a toda esta situação, Gil pensava, se a irmã tinha feito bem em contratar para cuidar da sua filha, uma mulher que parecia estar zangada com o mundo inteiro. Por isso quando a irmã regressou,
não pôde evitar a pergunta.
- Que te levou a contratar aquela mulher para cuidar da minha filha? Que referências te deu?
Os dois irmãos encontravam-se sentados na sala que era simultaneamente biblioteca e escritório, no piso inferior da moradia. Laura encarou o irmão e perguntou:
- O que é que ela fez? Não tem ido ver a menina? Fizeram alguma queixa dela, no hospital?
- Não. Mas está sempre com uma expressão, que parece que todos lhe devem e ninguém lhe quer pagar. E tenho notado que não fez amizade com nenhuma das empregadas da casa.
-Bom, as referências do hospital onde trabalhou, foram as melhores. Sabes que é divorciada? A vida dela não deve ter sido nada fácil. O Alcides foi à morada que ela me deu e sabes o que era? Uma casa de apoio às vítimas de violência doméstica. Como a psicóloga de lá é conhecida dele, conseguiu saber que quando chegou lá com o filho, apresentava várias marcas de espancamento.